Líderes empresariais em todo o globo olham para o ano de 2019 com muita cautela. Esta é uma das principais conclusões do inquérito anualmente apresentado pela PricewaterhouseCoopers em Davos, o qual avalia as expectativas de mais de 1000 CEOs espalhados pelo mundo face aos ventos que irão soprar nas suas organizações. Um enfoque no “interior”, uma menor ambição em termos de investimento e as habituais preocupações sobre uma análise de dados adequada e a busca pelo talento que responda às necessidades das empresas marcam o relatório deste ano
POR HELENA OLIVEIRA

A reunião mundial de líderes em Davos, este ano sob a temática “Globalização 4.0: Configurar uma Arquitectura Global na Era da Quarta Revolução Industrial”, serve não só para debater os vários desafios sociais, económicos e tecnológicos da nossa sociedade, mas também para a divulgação de vários relatórios anuais que nos dão conta do “estado do mundo” em várias áreas. Nesta edição, o VER apresenta não só os Riscos Globais para 2019, como também o habitual estudo da Oxfam que avalia a desigualdade entre ricos e pobres, desigualdade esta cada vez mais concentrada nos bolsos de cada vez menos pessoas. O mesmo acontece com o inquérito anual a CEOs de todo o mundo que, a cargo da PricewaterhouseCoopers, revela as expectativas de 1378 executivos de topo de 90 territórios em todo mundo relativamente ao ano presente.

E a principal conclusão do 22nd Annual Global CEO Survey está em linha também com o aumento das vulnerabilidades económicas apresentadas como um dos principais riscos globais para 2019: de um enorme optimismo face às perspectivas de crescimento para 2018, os CEOs respondentes passaram para um pessimismo cauteloso em 2019, apesar de o sentimento não ser geral. Na verdade, 30% dos líderes empresariais entrevistados perspectivam um declínio no crescimento económico global para este ano, comparativamente a uns magros 5% que o fizeram o ano passado.

Por outro lado, reportaram igualmente uma queda nos níveis de confiança relativamente às receitas das suas próprias empresas, tanto no curto (12 meses) como no médio prazo (três anos). E, como sublinha o relatório, se a confiança dos CEOs continuar a ser um indicador por excelência (tem sido até agora e desde o primeiro relatório desta natureza publicado em 1997), o crescimento económico global irá mesmo abrandar em 2019.

[quote_center]30% dos líderes empresariais entrevistados perspectivam um declínio no crescimento económico global para este ano[/quote_center]

Se no ano passado, a onda de optimismo chegava a todas as regiões do planeta, o mesmo acontece com o pessimismo este ano. Os níveis de optimismo patentes na América do Norte foram os que apresentaram um declínio mais abrupto – de 63% para 37% – ao mesmo tempo que a percentagem que assinala um possível decrescimento passou de uns meros 3% para 28%. Mas e no geral, o sentimento entre os CEOs inquiridos não é propriamente homogéneo, posicionando-se entre “melhoria”, “declínio” e “ficar na mesma” no que respeita ao crescimento económico global. Este “equilíbrio nas respostas” assume-se como tendência para toda as regiões com excepção para a Ásia-Pacífico onde a perspectiva de uma economia vigorosa e dinâmica continua a reinar.

Para os responsáveis do estudo, este pessimismo relativo patente no inquérito aos CEOs não é propriamente surpreendente, sendo que a maioria dos grandes modelos económicos ajustaram as suas previsões para 2019 “para baixo”, com vários economistas a considerar que este abrandamento já poderia ter acontecido. As tensões internacionais face ao comércio, as perturbações políticas e a incerteza generalizada, em conjunto com políticas fiscais e monetárias mais rigorosas, constituem factores que, apesar de diferentes, contribuem para uma maior cautela face ao que 2019 reserva em termos de crescimento económico global.

Um pouco por todo o mundo estamos a assistir a políticos populistas a exercerem uma influência crescente na política económica. E é visível o afastamento da confiança no que respeita às estruturas globais de governance concebidas para facilitar a cooperação em questões prementes como o comércio, as alterações climáticas e a proliferação nuclear. Este resultado está igualmente contido nos riscos identificados para 2019 pelo próprio Fórum Económico Mundial: uma tendência para o unilateralismo estado-nação e uma consequente fragmentação e incerteza globais.

[quote_center]Em termos gerais, assistimos a um decréscimo de 16% na quota de CEOs que se mostra(va)muito confiante face à sua prosperidade interna[/quote_center]

No que respeita à confiança demonstrada face às próprias organizações que lideram, também esta apresentou uma queda, em particular para as perspectivas a 12 meses. Apesar de os CEOs da América do Norte se manterem como os mais optimistas no que respeita ao crescimento das suas próprias receitas, é também neste segmento que a confiança registou uma maior queda. O mesmo aplica-se à previsão de médio prazo – 3 anos -, a qual apresenta um declínio de 9% no número de CEOs que se mostram “muito confiantes” face às suas receitas internas. Os resultados não variam significativamente para as outras regiões, pelo que é possível inferir que a confiança dos líderes nas suas próprias organizações não vai além de “moderada”. Em termos gerais, assistimos a um decréscimo de 16% na quota de CEOs que se mostra(va)muito confiante face à sua prosperidade interna.


Ameaças e oportunidades orientadas para “o interior”

No meio da vaga populista e do sentimento proteccionista que está presente em todos os continentes, a maioria dos líderes empresariais inquiridos está a optar por se concentrar no “interior” das suas organizações e à medida que se adaptam a novas barreiras erguidas entre os mercados, tanto a nível do comércio como em questões laborais. Ao contrário de anos anteriores, refere o relatório, as ameaças existenciais, como o terrorismo ou as alterações climáticas, não são agora motivo de grande inquietação, sendo que os respondentes se mostram “extremamente preocupados” com a “facilidade de fazer negócios” nos mercados onde operam. Complementarmente, e em termos de receitas e de expansão de oportunidades, o enfoque é interno e “perto de casa”. Ou seja, quando lhes é pedido para identificar os mercados estrangeiros mais apetecíveis para investimentos, as suas opções são muito mais estreitas do que há um ano, expressando um clima de maior incerteza.

[quote_center]Excesso de regulação, incerteza política, falta de competências chave, conflitos comerciais e ameaças cibernéticas compõem o top 5 das preocupações dos CEOs[/quote_center]

No top 10 das principais ameaças e no geral, o primeiro lugar continua a ser ocupado pelo excesso de regulação. A incerteza política, a falta de competências chave, os conflitos comerciais e as ameaças cibernéticas compõem o top 5 das preocupações, todas elas relacionadas com a facilidade de fazer negócios no interior da infra-estrutura económica dos respectivos mercados. Face ao ano passado, existem diferenças consideráveis, nomeadamente o facto de o terrorismo ter passado de “ameaça número 2” para um longínquo último lugar, bem como a queda das alterações climáticas de um 9º lugar em 2018 para um 13º em 2019.

No “centro” da tabela das ameaças mantêm-se o populismo, a incerteza geopolítica e o proteccionismo. Os responsáveis do relatório alertam também para o facto de os chefes de Estado estarem mais “activistas” no que respeita à economia e aos negócios, o que contribui também para um sentimento generalizado de maior cautela entre os CEOs entrevistados.

Apesar de cada uma das regiões identificar uma “ameaça número um” diferente, existe uma coerência alargada nas preocupações comuns a todos os CEOs. A incerteza política aparece como uma das 10 preocupações “mais extremas” em todas as regiões, fazendo parte do top 3, com excepção para a América do Norte (onde se posiciona no 7º lugar) e na região da Ásia-Pacífico (em 6º). Também a (in)disponibilidade de competências chave faz parte do top 10 em todas as regiões, mas sobe ao top 3 na Ásia-Pacífico, na Europa Central e de Leste e em África. O excesso de regulação também é comum em todas as regiões, posicionando-se em 1º lugar na Europa Ocidental.

Como já anteriormente enunciado, o apetite por investir em outros mercados que não o seu próprio é também comedido entre os CEOs. Aliás, é visível o não-compromisso assumido pelos líderes empresariais respondentes, com a resposta “não sei” a aparecer como a terceira mais formulada e 8% dos mesmos não terem sido capazes de nomear três territórios (para além do seu) onde estivessem dispostos a investir. Esta ausência de ambição e a aposta em “jogar em casa” reflecte também os níveis de incerteza em termos de comércio e políticas seguidas, com os Estados Unidos a manter a liderança enquanto mercado de maior crescimento.

[quote_center]Menos de um terço dos CEOs considera que os dados que recebem sobre questões “críticas” ou importantes” são por eles suficientemente compreendidos[/quote_center]

Todavia, é a Índia que se destaca como um dos mercados mais atractivos para investir. O ano passado já tinha ultrapassado o Japão e este ano ficou à frente do Reino Unido, que continua a sofrer da incerteza contínua e desgastante provocada pelo Brexit.

De sublinhar também um decréscimo (de 41%) no número de CEOs a seleccionar os Estados Unidos como mercado principal para crescer, algo que pode ser explicado pelas alterações do investimento chinês. O que está a acontecer é que os líderes de negócios estão a diversificar a sua carteira de investimentos, afastando-se dos Estados Unidos, e optando por um conjunto mais amplo de outros mercados, com a Austrália a ser a principal beneficiária.

O relatório sublinha ainda a aposta “no interior” por parte dos CEOs quando questionados sobre “quais destas actividades, se alguma, está a planear nos próximos 12 meses como forma de aumentar as suas receitas”. Uma esmagadora maioria elencou iniciativas internas, como a aposta em “eficiências operacionais” (77%) e “crescimento orgânico”. Lançar um novo serviço ou produto está também nos planos de 62% dos respondentes.


Informação a mais e competências a menos

Os CEOs estão cada vez mais comprometidos em lidar com aquilo que conseguem efectivamente controlar no interior das suas organizações. Mas tanto o fluxo de dados como as próprias competências da sua força laboral constituem motivo de preocupação.

Uma das mais gritantes conclusões do relatório deste ano prende-se com o “gap de informação”, ou seja, o fosso existente entre os dados que os CEOs precisam e aqueles que efectivamente têm ao seu dispor, uma situação que não apresentou melhorias significativas ao longo da última década. Os dados sobre as preferências e necessidades dos consumidores mantêm-se como os mais valiosos, seguidos pelas previsões financeiras, pelas informações relativamente à marca e à reputação, pelos riscos do negócio e pelas visões dos empregados, posicionando-se todos eles no top 5 e com percentagens muito similares às de há 10 anos, apesar de algumas diferenças na ordem do ranking.

[quote_center]Uma cultura de adaptabilidade e de aprendizagem ao longo da vida será crucial para a disseminação dos benefícios da Inteligência Artificial[/quote_center]

Com excepção das estimativas financeiras, sobre as quais os entrevistados revelam ter uma compreensão alargada (41%), menos de um terço dos CEOs considera que os dados que recebem sobre questões “críticas” ou importantes” são por eles suficientemente compreendidos. E o fosso maior reportado é exactamente nos dados que estão relacionados com o aspecto mais crítico para a maioria das empresas: as necessidades dos clientes. Os líderes empresariais reconhecem que, simplesmente, não têm a capacidade necessária para usar esses mesmos dados para tomar decisões optimizadas. O problema não reside na insuficiência de dados – pelo contrário, o volume destes tem vindo a crescer exponencialmente – nem na incapacidade de os proteger, mas sim na “inexistência de talento analítico” para os “dissecar” (54%) e na pouca confiabilidade dos dados recebidos (50%).

Por outro lado, os CEOs apontam a ausência de competências chave como um dos factores que mais afecta as suas perspectivas de crescimento, o mesmo acontecendo com a “capacidade de inovar eficazmente”, sem esquecer também que “os custos com os empregados são mais elevados do que o esperado”.

A questão do fosso entre as competências disponíveis e as necessidades das empresas há muito que se assume como um problema, mesmo que, e a nível global, os CEOs assumam que “uma’ re-formação’ e requalificação” constituem a resposta certa para tal dificuldade, apesar do tempo e dinheiro que tal acarreta.

Os CEOs da América do Norte acrescentam a esta necessidade a “existência de um forte canal directamente proveniente das universidades” (com 31% a seleccionar ambas as possibilidades), mais de 25% dos líderes empresários do Médio Oriente encaram o “contratar fora da indústria” como uma potencial solução, o mesmo acontecendo com um em cada cinco respondentes da Europa Ocidental.

Mas, e sublinham os responsáveis pelo inquérito, a verdade é que governos e empresas têm de trabalhar em conjunto para ajudarem as suas pessoas a ajustarem-se ao impacto disruptivo proveniente das novas tecnologias através de ambos os canais. Uma cultura de adaptabilidade e de aprendizagem ao longo da vida será crucial para a disseminação dos benefícios da Inteligência Artificial e das tecnologias relacionadas, o que é também já uma premissa global, mas particularmente verdadeira nos mercados onde a população está a envelhecer mais rapidamente e as pessoas têm de trabalhar durante mais tempo para se poderem sustentar quando chegarem à idade da reforma.

Também é sabido que a aposta nas competências STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática) é de extrema importância para permitir que os trabalhadores sejam capazes de dominar as novas funções que advirão da Inteligência Artificial e da robótica, mas o mesmo acontece com as denominadas “soft skills” como a empatia e a criatividade que serão imprescindíveis para que as pessoas sejam adaptáveis e empregáveis ao longo da sua vida activa.

Quanto à Inteligência Artificial (IA), são 85% os CEOs que concordam que esta irá alterar substancialmente a forma como se farão negócios nos próximos cinco anos. O número é “grandioso”, ainda para mais quando quase dois terços dos CEOs globais encara esta revolução como ainda mais importante do que a levada a cabo pela Internet. Contudo e mais uma vez, a não resolução dos gaps da informação e do talento que as empresas enfrentam assumem-se como barreiras à exploração bem-sucedida de todas estas promessas endereçadas pela Inteligência Artificial. Por outro lado, existem excepções a esta exuberância, pode-se ler no relatório, com a América do Norte, no geral, a adoptar uma posição mais céptica no que respeita ao facto de a IA vir a ser mais importante do que a revolução provocada pela Internet. Mas o sentimento dominante é o de que a IA será mesmo um catalisador para a transformação em todas as regiões do planeta.

Todavia e mesmo tendo em conta esta certeza, quase 25% dos CEOs entrevistados não tem qualquer plano para investir em IA “no momento”, com 35% a planear fazê-lo nos próximos três anos. No geral, “menos do que um CEO” implementou sistemas de IA em larga escala e, sem surpresas, as taxas mais elevadas de adopção da mesma situam-se na região Ásia-Pacífico, na América do Norte e na Europa Ocidental. Todavia e como alerta o relatório, se por um lado o gapde competências pode constituir um factor de abrandamento do progresso da IA, a questão não se resume apenas a contratar ou a desenvolver especialistas ou cientistas de dados nesta tecnologia revolucionária. Para a PwC, é importante cultivar uma força de trabalho que esteja pronta e habilitada para utilizar sistemas de IA e a encorajar clientes e cidadãos que consigam, eles próprios, reconhecer e praticar uma adequada gestão de dados bem como protegerem-se de possíveis disrupções causadas por estes

Por último e como não poderia deixar de ser, os CEOs foram igualmente questionados se a IA irá destruir mais empregos do que aqueles que conseguirá criar. E a resposta cai para o lado da “destruição” com 37% dos inquiridos a nível global a “concordarem fortemente” e 13% a “concordarem” que serão mais os postos de trabalho eliminados do que aqueles que irão surgir.

NOTA: Os dados para Portugal podem ser acedidos aqui

Helena Oliveira

Editora Executiva