Utilizar um automóvel partilhado ainda não é um hábito enraizado nos portugueses, para quem ter carro próprio “continua a ser sinónimo de status e sucesso na vida”. Mas com o cinto a apertar cada vez mais, esta pode ser uma boa solução não só ambiental como económica, quer para as famílias quer para as empresas. A Carris estabeleceu uma parceria entre duas participadas que liga os serviços de Carsharing, em Lisboa e no Porto
POR GABRIELA COSTA

Os serviços Mob Carsharing, disponível em Lisboa, e Citizenn Carsharing, a funcionar no Porto, podem agora ser utilizados em simultâneo pelos clientes da CarrisTur e da Transdev Mobilidade (do grupo Veolia Transdev). As duas empresas do grupo, CarrisTur e Transdev Mobilidade, assinaram recentemente um protocolo de colaboração que vai ligar as duas grandes metrópoles nacionais. Esta parceria permite aos clientes utilizar ambos os serviços, sem que para isso seja necessário procederem a uma nova adesão. Com o mesmo cartão de acesso, os aderentes podem agora utilizar os dois serviços, pagando apenas o que consumirem, em cada cidade.

Os serviços Carsharing estão disponíveis 365 dias por ano, sete dias por semana e 24h por dia, através do telefone e da internet (indicando o período da reserva, o veículo e parque pretendido) e permitem a reserva de veículos “no minuto seguinte”, anuncia a empresa.

“É necessário um forcing agregador destas iniciativas”
O Mob Carsharing foi lançado em Portugal em 2008, pela Carris e pela sua participada CarrisTur. Este serviço de aluguer de automóveis à hora facilita a vida dos seus utilizadores e apresenta-se como uma alternativa ao transporte privado, melhorando a mobilidade sustentável, a qualidade de vida e o descongestionamento das cidades – visto que permite reduzir a ocupação de espaço urbano e a poluição atmosférica e sonora e racionalizar recursos energéticos.

Complementando-se com os serviços de transportes públicos, contribui também para a redução de despesas nas famílias e nas empresas (segmento onde se posiciona como uma variante ao “renting”, para pequenas e médias empresas que não disponham de frota de serviço ou para grandes empresas que queiram reduzir a sua frota automóvel e que precisem de alternativas para as deslocações dos seus colaboradores).

Trata-se de “uma forma responsável de encarar a mobilidade numa sociedade em que a eficiência energética e a sustentabilidade ganham peso dia após dia”, defende a empresa.
Mas como explica ao VER a directora de Turismo e Novos Negócios da Carristur, a mentalidade das sociedades é um “factor determinante para a ‘descolagem’ de negócios com o espírito do Carsharing” e, no nosso país, a substituição da viatura própria “ainda é encarada como um downgrade na vida”.

Para Inês Matos, a mobilidade sustentável “tem tido pequenos avanços, muito pouco expressivos”, com a disponibilização no mercado de “soluções mais económicas e sustentáveis tem ajudado as pessoas a repensarem um pouco a forma como se movem”. Motivo pelo qual “é fundamental haver um forcing mais agregador destas iniciativas”, defende em entrevista.

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Inês Matos, directora de Turismo e Novos Negócios da Carristur
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As empresas Transdev Mobilidade e Carristur, fizeram uma parceria para juntarem os serviços Citizenn Carsharing e Mob Sharing, em Lisboa e no Porto. Com que objectivos?
O sistema de aluguer de veículos em regime de Carsharing é ainda um conceito recente em Portugal. Esta nova “ferramenta” de mobilidade ainda não foi totalmente compreendida pela maioria dos portugueses. O objectivo desta parceria é reunir os esforços de duas empresas que pretendem divulgar o conceito a nível nacional. Por outro lado, e porque temos actividade em cidades diferentes (Lisboa e Porto), pretende-se oferecer aos clientes de ambas as empresas mais comodidade, conforto e simplicidade na utilização do serviço.

Como funciona cada um dos destes serviços? Quais são as facilidades proporcionadas aos clientes e de que modo beneficiam estes desta recente parceria?
Os serviços, reservas, tarifários e forma de funcionamento, cujas condições podem ser consultadas nos respectivos sites, mantém-se iguais dentro de cada empresa.

A grande facilidade é que com o mesmo cartão o cliente poderá utilizar os dois serviços, sem ter que se inscrever na empresa parceira ou pagar mais anuidades/mensalidades. Por exemplo: se um cliente Mob Carsharing quiser utilizar os serviços da Citizenn, vai ao site desta empresa ou telefona para a linha de call center, faz a sua reserva com o seu cartão Mob Carsharing, e quando chegar ao Porto utiliza o veículo normalmente. No fim mês é facturado ao cliente a utilização de acordo com o tarifário da Citizenn. Na factura virão descriminadas as utilizações Mob Carsharing (com tarifário Mob) e as utilizações Citizenn (com tarifário Citizenn).

Qual é a adesão dos utentes a estes serviços, tanto no segmento Particulares como no segmento Empresas?
Como referi, este é um conceito difícil de transmitir e sobre o qual ainda se fala pouco em Portugal. Os clientes que estão neste sistema são pessoas abertas a novos conceitos e muitas delas já conheciam o serviço de Carsharing, pois vêm de países onde já existia este sistema. Um segmento interessante e que quer a Mob Carsharing quer a Citizenn têm explorado é o das empresas, que têm vindo a substituir o renting por esta solução.

A adesão tem sido lenta, pois os portugueses encaram o veículo como um bem muito próprio. Mas esperamos que parcerias como a que foi realizada agora ajudem a impulsionar estes conceitos e respectivos serviços.

De quantos Parques dispõem actualmente em cada cidade?
Ambas as cidades têm disponíveis oito Parques, localizados em pontos estratégicos, de fácil acesso por transportes públicos. Em Lisboa, os Parques Mob Carsharing situam-se na Rua Alexandre Herculano, em Campolide, no Campo Pequeno, no Cais do Sodré, em Entrecampos, no Parque das Nações, em Sete Rios e no Saldanha; no Porto, os Parques Citizenn estão instalados na Avenida dos Aliados (Câmara) nas Antas (Velásquez), na Avenida de França, em Bessa (Rua Mota Pinto), no Bom Sucesso (Tuela), na Campanhã (Estação), nos Campos de  S. João e em Matosinhos (Edifício Olympus).

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E quais são as perspectivas de expansão do número de parques associados aos dois serviços?
Neste momento não está previsto o aumento do número de parques. Eventualmente alguns deles poderão ser substituídos por outras localizações, mas essas alterações são o mercado e a procura que ditam. Onde há clientes, o sistema de Carsharing procura estar.

Com que objectivos disponibilizam o Carsharing, desde 2008, e que balanço faz do mesmo, comparativamente a outros países europeus que adoptaram este conceito há já várias décadas?
Estudos sobre o lançamento destes sistemas em outros países evidenciam que este negócio demora cerca de 4 a 5 anos a implementar-se.

Tendo em conta os resultados obtidos até agora, penso que o caso de Portugal demorará mais tempo… As mentalidades das pessoas e das sociedades são factores determinantes para a “descolagem” de negócios com o espírito do Carsharing. O carro próprio ainda continua a ser sinónimo de status e sucesso na vida e a sua substituição ainda é encarada como um downgrade na vida.

Como avalia o actual estado-da-arte da mobilidade sustentável em Portugal? Em que medida iniciativas como o Carsharing são ainda exemplos isolados de uma sociedade conceptualizada a partir de critérios de sustentabilidade e de qualidade de vida?
Penso que a mobilidade sustentável tem tido pequenos avanços, mas ainda muito poucos expressivos. A disponibilização no mercado de soluções mais económicas e sustentáveis tem ajudado as pessoas a repensarem um pouco a forma como se movem, mas ainda há muitas coisas a mudar. O crescimento das ciclovias e o aumento de bicicletas em circulação na cidade de Lisboa vem mostrar que “pedalar” na cidade não é assim tão impossível, mas por enquanto esta ainda é mais uma forma de exercício do que propriamente uma forma de mobilidade (e está na moda). Por outro lado, os veículos eléctricos ainda revelam algumas fragilidades, nomeadamente o preço…

Acredito que para se “ajudar” as pessoas a percepcionar estas novas iniciativas, é fundamental haver um forcing mais agregador destas iniciativas, pois por enquanto o que temos são algumas empresas a tentar fazer por esta matéria, mas que trabalham de forma isolada. Este é um assunto que deverá ser tratado de forma mais global e agregadora.

A comodidade do veículo próprio ainda fala muito alto na vida quotidiana dos portugueses, independentemente do custo que isso acarreta para as famílias.

Vantagens Económicas e Ambientais do Carsharing
© DR

Todos os dias chegam a Lisboa e ao Porto centenas de carros com apenas uma pessoa. Uma grande parte desses veículos vão estar um dia inteiro parados. Como defendem as empresas da Carris que disponibilizam serviços de Carsharing nas duas grandes capitais, esta realidade “implica um enorme investimento em aquisição de veículo, seguro, combustível e revisões”, entre outros factores.

Neste contexto, o Mob Carsharing e o Citizenn garantem as seguintes vantagens económicas e ambientais:

. Utilização de um veículo tendo incluído no serviço:
– Combustível
– Parquímetro EMEL
– Estacionamento da viatura
– Seguro
– Inspecções
– Selos de circulação
– Revisões
– Limpeza

. Estudos revelam que cada veículo a circular em sistema de Carsharing permite substituir entre quatro a dez viaturas particulares e, consequentemente, reduzir a ocupação do espaço urbano, de congestionamentos, da poluição sonora e de acidentes rodoviários, entre outros benefícios.

Estudos Suíços evidenciam ainda que os aderentes ao Carsharing reduzem a utilização de veículo próprio em cerca de 6700 km/ano (aproximadamente 72%). Destes, cerca de dois mil quilómetros (aproximadamente 30%), passam a ser efectuados em Transporte Público o que, mais uma vez, conduz à redução de emissão de gases poluentes e de consumo energético.

 

Evolução do Carsharing no mundo
. A primeira referência ao Carsharing surgiu em 1948 na Suíça, onde cooperativas partilhavam veículos, embora não houvesse uma organização formal.. Entre 1970 e 1990, seguiram-se exemplos semelhantes em França, Holanda, Alemanha, Suécia, Canadá e E.U.A.

. Na década de 90, surgem projectos de maior dimensão e mais estruturados na Alemanha, com a StattAuto, a Stadtmobil e a Cambio Carsharing, seguidos da Mobility na Suíça.

. Actualmente, os serviços de Carsharing estão presentes em dezenas de países, sendo a Zipcar a maior operadora do mundo, com 731 mil clientes, 110 mil veículos e presença nos EUA, Canadá e Reino Unido.

Fonte: Carristur

Gabriela Costa

Jornalista