Fruto de uma “parceria” entre líderes empresariais e o Vaticano, foi oficialmente lançado, em Dezembro último, o Conselho para o Capitalismo Inclusivo. Esta nova aliança global visa responder a um apelo do Papa para que sejam aplicados princípios de moralidade nos negócios e nas práticas de investimento por parte de empresas e organizações que se comprometam a agir, de forma concreta e mensurável, para viabilizar um sistema económico mais equitativo, justo e sustentável

POR HELENA OLIVEIRA

Em 2016 o Fórum Global Anual promovido pela Fortune e pela Time para discutir as mais prementes questões que afectavam na altura os executivos de topo de todo o mundo teve lugar em Roma. O evento desse ano, que reunia, como habitualmente, um vasto conjunto de líderes das maiores empresas do mundo e de organizações do sector social contou, contudo, com um orador muito especial: o Papa Francisco. E, a convite do próprio, os organizadores deste fórum anual foram recebidos no Vaticano, onde Francisco os desafiou a “convocarem” um grupo de líderes empresariais que o pudessem ajudar a levar a bom porto uma das suas principais missões: a de aliviar a pobreza global.

“O nosso grande desafio é responder aos níveis globais de injustiça, promovendo um sentido de responsabilidade local, e mesmo pessoal, para que ninguém seja excluído de participar na sociedade”, disse o Papa aos participantes nessa reunião. “Encorajo-vos a (…) a procurar formas cada vez mais criativas de transformar as nossas instituições e estruturas económicas para que possam responder às necessidades dos nossos dias e estar ao serviço da pessoa humana, especialmente dos mais marginalizados e descartados”.

Quatro anos depois, e oficialmente apresentado a 8 de Dezembro último, nasce o  Council for Inclusive Capitalism with the Vatican, uma nova aliança global de líderes empresariais que responde ao apelo do Papa para se aplicarem princípios de moralidade às práticas de negócios e investimentos e cujos membros se comprometem a agir, de forma concreta, para criar um sistema mais equitativo, sustentável e confiável. Este Conselho tem como objectivo responder à urgência de se juntar os imperativos morais e de mercado para transformar – ou reformar – o capitalismo numa força para o bem da humanidade. Sob a orientação moral do Papa Francisco e do cardeal Peter Turkson, responsável pelo  Dicastério para a Promoção do Desenvolvimento Humano Integral no Vaticano, e inspirado pelo imperativo moral de todas as fés, o Conselho convida empresas de todas as dimensões a aproveitar da melhor forma o potencial do sector privado para construir uma base económica mais justa, inclusiva e sustentável.

Como refere o CEO da MasterCard no vídeo de introdução a esta nova organização. “o facto de diferentes religiões precisarem de se unir em torno de todas estas questões traduz o grito de alerta que o mundo está a dar nos tempos em que vivemos. E a fé não pode ser usada para nos separar, mas deve ser, ao invés, destinada a nos unir”. Ajy Banga afirma igualmente que “todos fazemos parte de um sistema interligado” e que é necessário “ajudar os mais necessitados e assegurar que o mundo emerja como um lugar mais forte e resiliente”, acrescentando ainda que “(…) sob a orientação de Sua Santidade o Papa Francisco e contando com este Conselho, em conjunto ajudaremos a fornecer ao capitalismo os ‘carris-guia’ de que este necessita para tornar o nosso mundo mais igual e sustentável”.  

O Conselho é, neste momento, liderado por um conjunto de líderes globais, apelidados de “Guardiões para o Capitalismo Inclusivo”, os quais se reunirão anualmente com o Papa Francisco e com o cardeal Turkson. Entre estes 28 “guardiões” contam-se figuras como o já citado Ajay Banga, CEO da MasterCard, Marc Benioff, fundador e CEO da Salesforce, Alex Gorsky, CEO da Johnson & Johnson, Bernard Looney, CEO da BP, Lynn Forester de Rothschild, fundadora da Inclusive Capital Partners e uma das grandes impulsionadoras deste movimento, Angel Gurria, secretário-geral da OCDE ou Alfred Kelly da Visa Inc, entre outros líderes representantes de empresas pertencentes ao ranking 500 da Fortune. A Ford Foundation e a The Rockfeller Foundation fazem igualmente parte desta nova aliança global.

Dirigindo-se aos guardiões, o Papa enfatizou que ” é urgentemente necessário um sistema económico que seja justo, digno de confiança e capaz de enfrentar os desafios mais profundos que a humanidade e o nosso planeta enfrentam”. 

Como é sabido, há muito que o Papa clama por um novo sistema económico que sirva para todos e não só para alguns. Em Novembro de 2013 e na sua primeira exortação apostólica – a Evangelii Gaudium – Francisco deixaria claros os fundamentos da sua acção neste sentido, os quais tem mantido ao longo de todo o seu pontificado. Muitas das frases que utilizou na Evangelii Gaudium – como por exemplo “não mais podemos confiar nas forças cegas e não mão invisível do mercado” ou “devemos dizer não a uma economia de exclusão e de desigualdade social, esta economia que mata”- têm sido repetidamente citadas, em particular a expressão “esta economia que mata”, a qual se transformou num soundbite extraordinário. 

Dois anos depois, em Junho de 2015 e naquela que foi considerada a primeira encíclica ambiental da história – a “Laudato Si’, sobre o cuidado da casa comum”-, o Papa elege como tema essencial a ecologia, sem contudo deixar de fazer uma análise do sistema económico vigente, com críticas ao seu lado mais negro e nunca deixando de focar as principais questões a que se tem dedicado com fervor: as desigualdades sociais e a pobreza. “A economia assume todo o desenvolvimento tecnológico em função do lucro, sem prestar atenção a eventuais consequências negativas para o ser humano”, escrevia, no seguimento de outras intervenções incendiárias de que são exemplo “se tu escolhes o caminho do dinheiro, no final serás um corrupto” ou, mais famosa ainda, a sua própria interpretação livre de uma frase de São Basílio Magno, “o dinheiro é o esterco do diabo”.

Adicionalmente e na sua mais recente Fratelli Tutti, o Papa recordou igualmente quea crise financeira dos anos 2007 e 2008 era a ocasião para o desenvolvimento de uma nova economia mais atenta aos princípios éticos e para uma nova regulamentação da actividade financeira especulativa e da riqueza virtual, mas que não houve uma reacção que fizesse repensar os critérios obsoletos que continuam a governar o mundo”. Antes pelo contrário, acusa, “parece que as reais estratégias, posteriormente desenvolvidas no mundo, se têm orientado para um maior individualismo, uma menor integração e uma maior liberdade para os que são verdadeiramente poderosos e sempre encontram maneira de escapar ilesos”.

Assim, não é de estranhar que o Papa tenha concedido uma “bênção” especial a este Conselho e à aposta num capitalismo inclusivo, depositando confiança nos princípios subscritos pelas empresas e organizações que dele fazem parte e dirigindo-se directamente aos guardiões do mesmo, sublinhando que, ao aceitarem este desafio, os líderes deverão comprometer-se com “formas de fazer do capitalismo um instrumento mais inclusivo para o bem-estar humano integral”.

No total, estes líderes representam mais de 10,5 biliões de dólares em activos sob gestão, empresas com mais de 2,1 biliões de dólares em capitalização bolsista e 200 milhões de trabalhadores em mais de 163 países. A organização desafia os líderes empresariais e investidores de todas as dimensões a abraçar os princípios orientadores do Conselho e a assumir publicamente o compromisso de agir em conformidade com os mesmos. Estas acções colectivas destinam-se a conduzir a uma mudança sistémica, fazendo do capitalismo uma força maior para a inclusão e a sustentabilidade.

“O capitalismo criou uma enorme prosperidade global, mas também deixou muita gente para trás, levou à degradação do planeta e não é motivo de confiança alargada”, referiu Lynn Forester de Rothschild, fundadora do Conselho e Managing Partner da Inclusive Capital Partners. E acrescenta: “este Conselho irá seguir o alerta do Papa Francisco para que escutemos ‘o grito da terra e o grito dos pobres’ e para respondermos às necessidades da sociedade no que respeita a um modelo de crescimento sustentável e equitativo”.

Os demais líderes que pretendam fazer parte desta nova aliança global devem comprometer-se com acções que possam ser monitorizadas e mensuráveis, para a criação efectiva de um sistema económico mais equitativo e justo, devendo igualmente aderir aos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. Como parte do compromisso, as empresas devem, por exemplo, tomar medidas concretas para mitigar a pobreza, proporcionar acesso a água potável e reduzir a desigualdade de rendimentos.

Os princípios orientadores que aspiram a uma mudança real e duradoura para o bem

Para os membros do Conselho e na medida em que “o capitalismo retirou milhares de milhões de pessoas da pobreza, mas muitas foram deixadas para trás, com o planeta a pagar o preço”, o capitalismo inclusivo tem como objectivo fundamental a criação de valor a longo prazo para todos os stakeholders (algo que não é novo e que foi muito falado nos dois últimos anos, com destaque para o anúncio do Business Roundtable em fazer o mesmo, mas sem resultados visíveis), sejam empresas, investidores, clientes, governos e comunidades, mas orientado por uma abordagem assente em quatro grandes pilares por excelência: a igualdade de oportunidades para que todas as pessoas possam conseguir atingir alguma prosperidade e qualidade de vida, independentemente de critérios como o background socioeconómico, género, etnia, religião ou idade; a distribuição equitativa desses mesmos resultados; a justiça intergeracional, para que nenhuma geração sobrecarregue o planeta ou realize benefícios de curto prazo que incorram em custos de longo prazo e que coloquem em perigo as gerações futuras e, por fim, a justiça para aqueles cujas circunstâncias os impeçam de participar plenamente na economia. 

Quanto aos princípios eleitos, estes devem reflectir os valores e as abordagens das empresas e dos investidores que fazem parte do Conselho, no sentido de alargar as oportunidades e benefícios do sistema económico a todas as pessoas e dar origem a um futuro mais sustentável. 

Os subscritores destes princípios reconhecem que o capitalismo tem de evoluir para promover um sistema mais sustentável, confiável, equitativo e inclusivo que funcione para todos, em particular nos tempos sem precedentes que vivemos no que respeita aos avanços tecnológicos, à disrupção climática, às crises de saúde pública e à agitação social. O Conselho reconhece ainda a necessidade de acções determinantes por parte dos seus membros – em conjunto com outros que com eles trabalham – para ser possível alcançar estas aspirações para um capitalismo diferente. 

No website do Conselho pode ainda ler-se o seguinte:

“O Conselho está empenhado em agir. Procura uma mudança real e duradoura para o bem. Cada organização-membro adoptará uma abordagem diferente na implementação dos Princípios para o Capitalismo Inclusivo, mas cada uma compromete-se a promover economias sustentáveis, inclusivas, fortes e de confiança em todo o mundo. Cada um de nós, trabalhando em conjunto com outros, encontrará as melhores abordagens para que as nossas instituições, indústrias e governos possam fomentar a inclusão; definiremos e implementaremos acções e abordagens individuais, seguindo os Princípios para o Capitalismo Inclusivo. Isto inclui o reforço de medidas ambientais, sociais e de governação [ESG] nas nossas operações diárias, à medida que ajudamos a alcançar os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas”.

Os compromissos já anunciados pelos guardiões

Os 28 guardiões representantes de grandes empresas, já se comprometeram com mais de duas centenas de acções mensuráveis, com os demais membros do Conselho a contribuir igualmente com a sua quota-parte para fazer avançar o capitalismo inclusivo. 

O Bank of America, por exemplo, comprometeu-se a manter a neutralidade carbónica e a trabalhar para reduzir a sua pegada de carbono através da redução de emissões e da compra de 100% da sua electricidade a partir de fontes renováveis. Adicionalmente, comprometeu-se igualmente a divulgar as emissões de gases com efeito de estufa que financia até 2023 e, dentro do mesmo prazo, a contratar e fornecer formação de competências a 10 mil pessoas de bairros de rendimentos baixos e moderados, com o seu CEO Brian Moynihan a afirmar “ser crítico alinhar o capital, a criatividade e a inovação existentes no sector privado para resolver os mais prementes desafios globais”.

Já a BP estabeleceu como objectivo reduzir as suas emissões operacionais a zero até 2050, ou mais cedo se possível, com uma meta de redução de 20% até 2025, e de 30-35% até 2030. Para o seu CEO, Bernard Looney, “a pandemia de Covid sublinhou que o papel do sector privado não pode ser apenas a procura do lucro. Fazemos parte da sociedade e, especialmente em tempos de crise, temos de nos mobilizar para ajudar a resolver os desafios que se colocam às nossas comunidades”. 

Aliviar o peso das doenças nas populações carenciadas, trabalhando com parceiros para identificar soluções sustentáveis para combater os vermes intestinais, incluindo a melhoria dos diagnósticos e o financiamento do desenvolvimento da monitorização nacional e de quadros de avaliação é um dos compromissos da Johnson & Johnson, ao qual acrescenta igualmente o investimento e a promoção de soluções de saúde equitativas para a população negra e outras comunidades vulneráveis nos Estados Unidos com um compromisso de 100 milhões de dólares até 2025. De acordo com o seu CEO, Alex Gorsky, “neste momento em que a importância da saúde humana está no centro das atenções colectivas, a comunidade empresarial tem não só a oportunidade, como a obrigação de ajudar a moldar um futuro mais equitativo para todos”. Juntamente com o Conselho para o Capitalismo Inclusivo, a Johnson & Johnson orgulha-se de apoiar este apelo à acção para que as organizações de grande ou pequena dimensão reimaginem o impacto positivo que podem ter na construção de uma sociedade mais inclusiva e sustentável”. Adicionalmente e para além do desenvolvimento de uma vacina para a Covid-19 com o objectivo de fornecer mais de mil milhões de doses até ao final de 2021, a gigante farmacêutica comprometeu-se igualmente a acelerar os esforços globais para eliminar a tuberculose até 2030 através de um compromisso de 500 milhões de dólares em programas de I&D.

Por seu turno e como afirma Edward D.Breen, presidente do conselho de administração da DuPont, “para mim, um mundo próspero é aquele que estimula o potencial humano de uma forma sustentável e que enriquece a vida das pessoas onde quer que estas estejam e tendo em conta as gerações vindouras. Uma empresa não pode fazer isto sozinha. Como Guardião do Conselho para o Capitalismo Inclusivo, estou entusiasmado com a visão e impacto que podemos criar em conjunto”. A DuPont está empenhada em permitir o acesso a água potável através da liderança em tecnologia avançada e da criação de parcerias estratégicas, com o objectivo de melhorar as vidas de mais de 100 milhões de pessoas em comunidades em todo o mundo até 2030, expandindo o seu impacto social através do estabelecimento de conselhos consultivos regionais, cruciais para o sucesso destas iniciativas.

Estes são apenas alguns dos 234 compromissos já anunciados não só pelos 28 Guardiões, mas também por outras organizações que aderiram já ao Conselho para o Capitalismo Inclusivo. Resta saber se serão cumpridos ou se não passarão, como tantos outros, de meras promessas vazias.

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