O debate sobre um capitalismo com consciência em Portugal já teve início há alguns anos, muito provavelmente através do trabalho da ACEGE. Na realidade, o 6º Congresso da ACEGE que ocorreu em 2015 intitulado “Uma cultura de gestão e liderança à luz do amor ao próximo”, já abordava o tema do capitalismo com consciência de forma indirecta. O livro publicado por António Pinto Leite “O Amor como Critério de Gestão”, também constitui um bom exemplo das reflexões que os gestores devem fazer desde o início das suas carreiras. No entanto e recentemente o tema voltou ao debate
POR SOFIA SANTOS

No final de Maio, a empresa Biorumo dinamizou, em conjunto com o GRACE, uma sessão nos escritórios da Vieira de Almeida Associados, em Lisboa, e outra na Porto Business School, sobre o movimento “Capitalismo com Consciência” que teve início nos Estados Unidos, contando com o testemunho via vídeo de um dos fundadores do mesmo nos EUA, Raj Sisodia, entre outros oradores.

E, no início de Junho, o BCSD Portugal realizou um seminário no Inspira Santa Marta Hotel, sobre o “Capitalismo com consciência. O movimento B Corp. Repensar o sucesso das empresas”. Este seminário não foi dedicado ao movimento que se iniciou nos EUA, mas sim sobre a consciência humana e a coerência que deve existir em qualquer gestor, entre os seus valores morais e familiares e as suas práticas como gestor de equipa e como decisor. Como exemplo de que é possível fazer negócios com consciência, este seminário divulgou o movimento B Corp, o qual tem crescido em todo o mundo. As empresas certificadas como sendo B Corp são empresas que acreditam que podem contribuir para um mundo melhor e que a sua principal missão acaba por ser servir a sociedade e contribuir para a melhoria do bem-estar da sociedade envolvente. Existem apenas cinco empresas portuguesas certificadas pela B Corp: a ColorADD, a Biorumo, a Sector 3, a Logframe e a Abreu Advogados, que deu o seu testemunho neste seminário. O fundador da B Corp Europe, Marcello Palazzi, inspirou a audiência neste seminário enfatizando o carácter único e catalisador que as B Corp têm, como exemplos de que o capitalismo pode ter consciência. Actualmente existem 1,767 empresas B Corp, de 50 países e representando 130 indústrias diferentes, e de que são exemplo a Ben&Jerry’s, Patagonia, New Resource Bank, Warby Parker, entre muitas outras.

Em jeito de provocação coloco a seguinte questão: será que o capitalismo, como ele foi pensado, não era um capitalismo com consciência?

[pull_quote_left]A mão invisível do mercado defendida por Adam Smith, tinha, portanto, por base a existência de homens com comportamentos éticos. A liberdade de actuação de cada um terminava quando entrava na esfera do outro. Assim sendo, será possível afirmar que o filósofo e economista defendia um capitalismo com consciência, no qual a ética é considerada como o principal factor inerente ao comportamento do agente económico?[/pull_quote_left]

Vale a pena recordar que antes de Adam Smith escrever o livro “A Riqueza das Nações”, no qual cria o conceito da mão invisível, tinha escrito um outro, chamado “Teoria dos Sentimentos Morais”, onde ensaiou sobre a ética humana e a consciência do homem. Neste livro, Adam Smith afirma que “independentemente do egoísmo que possamos pensar que cada Homem tem, existem evidentemente alguns princípios na sua natureza que fazem com que o Homem se interesse pela fortuna dos outros ficando feliz pela felicidade de outrem, não ganhando nada com isso, a não ser o prazer de ver essa mesma felicidade”.

Como se pode ver, Adam Smith defendia que o Homem tinha um carácter de “simpatia natural” pelo mundo e, pelo outro, o que o levava a ter comportamentos sentimentais, sentindo-se feliz por ver a felicidade do outro. Adam Smith afirmou também que o Homem tem a consciência que lhe permite realizar processos de autocrítica. Ao seguirmos a nossa consciência, acabamos por promover a felicidade humana. Segundo o economista, as leis, as punições e as recompensas criadas em sociedade pelo Homem pretendem alcançar essa felicidade humana, mas elas nunca podem ser tão consistentes, imediatas e efectivas como a consciência humana.

A mão invisível do mercado defendida por Adam Smith, tinha, portanto, por base a existência de homens com comportamentos éticos. A liberdade de actuação de cada um terminava quando entrava na esfera do outro. Assim sendo, será possível afirmar que Adam Smith defendia um capitalismo com consciência, no qual a ética é considerada como o principal factor inerente ao comportamento do agente económico?

Termos consciência de nós próprios – e da capacidade que cada um de nós tem em mudar o mundo em que vivemos – é um processo difícil. Há quem lhe chame inteligência emocional. É muito mais simples se não pensarmos no nosso dever como cidadãos e como seres humanos. Ouvir a voz da nossa consciência não é inato, não é imediato, e pode ser muito desconfortável. Mas pode ser treinado. No fundo, termos consciência significa ter a capacidade de nos observarmos, de compreender o que realmente queremos e conseguir ter coragem para agir de acordo com o que acreditamos e sentimos ser o correcto. Alguma literatura afirma que o conceito de “consciência” foi analisado pela primeira vez por Darwin no seu livro “A Descendência do Homem e a Selecção em Relação ao Sexo” de 1871. A consciência era vista como sendo uma bússola moral e uma voz interna que julgava a moralidade das nossas acções. Esta consciência é incómoda pois coloca-nos em confronto com a nossa própria voz interior capaz de analisar e responder à pergunta “o que eu fiz foi o correcto?”

Independentemente das bases filosóficas, é bom saber que em Portugal este tema está a ser discutido. Espero que traga frutos e que a consciência deixe de ser um preconceito de insucesso e passe a ser um factor crítico para o sucesso das empresas e dos seus líderes.

Sofia Santos

Sustainability Champion in Chief @ Systemic