Num mundo em que o quantitativo se impõe ao qualitativo, o benefício imediato sobrepõe-se ao conceito de pessoa. Consequentemente, a pessoa renuncia ao seu próprio ser para converter-se num instrumento ao serviço da produção. Em última instância, o homem é um escravo do sistema e da economia em que a descaracterização humana subjaz do modelo actual de desenvolvimento
POR ANTÓNIO RODRIGUES*

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António Rodrigues
* Professor Universitário
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O desenvolvimento integral pressupõe o fomento das capacidades das pessoas de acordo com as suas próprias necessidades, interesses e motivações, eliminando os factores que provocam situações de falta de liberdade. O desenvolvimento económico, independentemente da ótica em que o analisemos, assenta em quatro processos básicos: desenvolvimento humano, desenvolvimento social, aperfeiçoamento da economia e desenvolvimento institucional, sustentados na justa distribuição da riqueza, protecção do ambiente e recursos naturais.

Num mundo em que o quantitativo se impõe ao qualitativo, em que o curto prazo é a única dimensão aceitável, o benefício imediato sobrepõe-se ao conceito de pessoa. Consequentemente, a pessoa renuncia ao seu próprio ser para converter-se num instrumento ao serviço da produção. Em última instância, o homem é um escravo do sistema e da economia em que a descaracterização humana subjaz do modelo actual de desenvolvimento.

Hibert (Anthropological Insights for Missionaries. Baker Academic – 1986) afirma que “a eficácia do desenvolvimento transformador não tem a ver com teorias e ideologias, mas com pessoas. O desenvolvimento transformador impõe-se em sintonia com a transformação das relações e, por sua vez, as relações são transformadas por pessoas”.

A perspectiva das capacidades permite julgar a bondade das instituições em relação ao tipo de oportunidades de realização que promovem ou possibilitam aos grupos mais vulneráveis o fortalecimento da sua condição humana e da sua dignidade. Por sua vez, os governos, num cenário de crise económica em que sobressaem políticas restritivas e avassaladoras, não visam o desenvolvimento e o respeito pelas pessoas, com os seus talentos e capacidades, em ordem ao bem comum.

Se “toda a decisão económica tem uma consequência moral”, estão à vista os resultados das apostas erradas que temos vindo a privilegiar .
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Na perspectiva de Sem (Development as Freedom, Oxford, Oxford University Press – 1999), o verdadeiro progresso é concebido com a existência de um contexto institucional favorável que permita às pessoas o desenvolvimento do seu potencial, das suas capacidades e motivações, ficando de fora os factores limitativos à falta de liberdade, na perspectiva de ausência de tomada de decisão relativamente às opções de vida.

Se, como afirma Bento XVI (Carta Encíclica Caritas in veritate. Roma 29.06.2009, num. 37) “toda a decisão económica tem uma consequência moral”, estão à vista os resultados das apostas erradas que todos temos vindo a privilegiar. Mudar de paradigma de desenvolvimento está nas nossas mãos, para vivermos uma vida mais justa, equilibrada e feliz.

Os primeiros relatórios do programa das Nações Unidas para o desenvolvimento apontam claramente para a ideia de que “o desenvolvimento humano é o fim, o crescimento económico é o meio”. Oxalá que o tempo presente seja um tempo de reflexão e de aprendizagem para que todos em conjunto compreendamos o valor de cada pessoa e possamos quebrar a rotina instalada marcadamente ideológica em alternativa a um modelo de sociedade mais humano e mais respeitador por todos os excluídos e desfavorecidos com toda a dignidade que merecem.

António Rodrigues

Professor Universitário