Se todos já percebemos que este Verão não é nem será parecido com os passados, é bom saber que há coisas que nunca mudam. O prazer de ler um bom livro mantém-se e para quem passou os últimos meses a trabalhar online e a assistir a reuniões ininterruptas no Zoom, focar a atenção num bom conjunto de páginas grafadas ajudará a uma boa desintoxicação. As temáticas são variadas e convidam à reflexão. Boas leituras
POR HELENA OLIVEIRA

Esperança e reinvenção: ideias para o Portugal do Futuro

Vários autores, coordenado por LUÍS FERREIRA LOPES

“Esperança e reinvenção: ideias para o Portugal do Futuro” resulta do desafio cívico lançado por Luís Ferreira Lopes, Assessor para Empresas e Inovação do Presidente da República, a 19 empresários, gestores e universitários a fim de partilharem ideias e estratégias para um País mais bem-sucedido a nível económico, social, científico, tecnológico e de gestão no pós-Covid.

Antecipando tendências e tendo como objectivo apresentar soluções e propostas “contra a pandemia e a crise” num exercício de “esperança e reinvenção”, as 19 personalidades independentes que responderam a este apelo “sem qualquer agenda política ou ideológica”, projectam as suas ideias no que respeita a novos modelos de negócio, a novas formas de organização do trabalho, a novos tipos de liderança e gestão, tendo em conta o desenvolvimento científico e tecnológico, bem como a criatividade e a reinvenção.

Como escreve Marcelo Rebelo de Sousa, que assina o prefácio da obra, “Portugal merece que se não perca esta oportunidade para pensar estrutural, a prazo e com ambição”.

Maria de Fátima Carioca, Dean da AESE, António Rios Amorim – Corticeira Amorim, Isabel Furtado – TMG Group e COTEC Portugal, Jorge Magalhães Correia – Grupo Fidelidade, Alexandre Fonseca – Altice, Paulo Pereira da Silva – Renova, Rui Paiva – WeDo Consulting, são alguns dos convidados que contribuíram com a redacção de capítulos do livro.

A edição é da Guerra & Paz que se associou a este projecto, com a receita de direitos de autor a ser cedida ao Banco Alimentar contra a Fome.

Grow the Pie: How Great Companies Deliver Both Purpose and Profit

ALEX EDMANS

O que é uma empresa responsável? Para muitos continua a ser um negócio que sacrifica o lucro em prol de resultados sociais. Mas se é crucial que as empresas sirvam a sociedade – sendo por isso responsáveis -, têm também o dever de gerar lucro para os ses investidores. Com base em inúmeras evidências e em numerosos casos da vida real, o autor demonstra que não estamos perante uma escolha “de uma coisa ou outra”, pois as empresas são capazes de gerar lucro e valor social em simultâneo.

De acordo com Alex Edmans, professor de Economia e Finanças, as empresas mais bem-sucedidas são as que não procuram o lucro directamente, mas sim as que são orientadas pelo propósito – o desejo de servir uma necessidade societal e contribuir para o aprimoramento humano. O livro demonstra como integrar o propósito na prática – para que este seja mais do que uma mera menção na missão da empresa – e discute o papel crucial da colaboração da empresa com os seus investidores, empregados e clientes.

A partir de uma pesquisa rigorosa, o livro de Edmans revela igualmente resultados surpreendentes de como a remuneração dos executivos, o activismo dos accionistas e a recompra de acções podem ser utilizados para o bem comum. Apesar de a temática do propósito estar “na moda”, este não é apenas mais um livro a apelar para um repensar radical da forma como as empresas operam, mas sim uma tese que defende – com base em informação comprovada – que não é suficiente criar condições para que as organizações ajam “da melhor maneira”. Estas devem, sim, ter as condições necessárias para “fazer crescer o bolo” através de uma liderança mais eficaz.

A mentalidade do “bolo” sublinha que o mesmo não é fixo e que ao investir nos stakeholders, a “fatia” para os investidores, como muitos CEOs assumem, não é reduzida, mas antes aumentada, o que os beneficia. A empresa pode melhorar as condições de trabalho dos seus empregados, os quais se tornam mais motivados e produtivos. Ou pode desenvolver um fármaco para solucionar uma crise de saúde pública, considerando cuidadosamente se o mesmo será acessível para os que dele precisam e tendo em atenção os custos aquando da sua comercialização. Ou pode ainda reduzir as suas emissões para além do que é legalmente estipulado, devido à responsabilidade que sente relativamente ao ambiente. E todas estas acções são benéficas porque cativam os clientes, os empregados e os próprios investidores.

Unleashed: The Unapologetic Leader’s Guide to Empowering Everyone Around You

FRANCES FREI & ANNE MORRISS

“Liderar é saber conferir poder aos outros”. Não, liderar não é fácil e para o fazer adequadamente é necessário determinação, coragem, visão, entre outros atributos, algo que pode ser difícil cumprir em tempos de grande complexidade. Quando os líderes, ou os aspirantes a sê-lo, procuram aconselhamento, geralmente é-lhes dito para se esforçarem o mais possível, para “escavarem” mais fundo, para se olharem ao espelho e concentrarem-se nos seus pontos fortes e consertarem alguma deficiência que impeça a sua ascensão na carreira. Mas as autoras deste livro, Frances Frei e Anne Morriss, oferecem uma visão alternativa, defendendo que este tipo de sugestões populares escamoteia o aspecto mais importante da liderança: o de fazer crescer os outros.

A liderança não é “sobre você próprio”, garantem, estando ao invés relacionada com a eficácia necessária para conferir poder aos outros e assegurar que este impacto perdura até na sua ausência. Através de histórias inspiradoras que remontam à Roma antiga ou que expressam o quotidiano de várias empresas de Silicon Valley, o livro discorre sobre as origens da liderança mas, e paradoxalmente, conclui que esta não tem a ver com o status ou progressão do líder, mas sim com o enfoque no potencial dos liderados.

Demonstrando de que forma os líderes mais ousados e eficazes utilizam uma combinação especial de confiança, amor e sentimento de pertença para criar um ambiente no qual os outros se possam superar a si mesmos, os autores oferecem ferramentas práticas e já amplamente testadas – com base no trabalho que fizeram e empresas como a Uber [Frei foi a responsável por “erguer” a liderança depois do enorme escândalo que assolou a Uber], a WeWork, a Riot Games e outras – em conjunto com entrevistas e histórias que espelham a sua própria experiência em tornar reais os ideais da “sua” liderança.

Reimagining Capitalism: How Business Can Save the World

REBECCA HENDERSON

As empresas movidas a propósito devem centrar a sua acção no repensar sistemático do capitalismo, de acordo com a receita para a mudança que consta neste livro. E a acção radical das autoridades centrais para apoiar os negócios ao longo da pandemia que estamos a viver confere um peso ainda maior à mensagem da autora, especialmente quando esta enfatiza a importância da cooperação e colaboração entre governos, empresas e comunidades de indivíduos.

O aumento contínuo dos eventos climáticos extremos nos tempos mais recentes despertou as pessoas para a urgência e importância de se abordar as alterações climáticas. A desigualdade crescente entre os ricos e os pobres está a causar uma indignação crescente entre os cidadãos. O apoio desadequado que as empresas dão aos seus empregados, particularmente acentuado na América, mas não só, no que respeita a baixos rendimentos e a reduzidos cuidados de saúde, vieram a lume devido à pandemia da Covid-19. Ou seja, existe uma incoerência entre os negócios e a sociedade.

Todavia, e no meio da escuridão, surge um rasto de luz. A forma como a LVMH, especializada em artigos de luxo, transformou o fabrico de perfumes em desinfectante para as mãos, a rapidez com que a Index substituiu a produção de roupa pela de material protector para os trabalhadores da saúde ou ainda a aceleração da produção de ventiladores para os hospitais levada a cabo pela GM ou pela Tesla comprovam que a esperança de atenuar essa mesma incoerência é real. Tal como o CEO da Microsoft, Satya Nadella, costuma afirmar, se as empresas servem para criar novos futuros, então está na altura de criarem um bem melhor.

Como sabemos, stakeholders, propósito, sustentabilidade e inclusão fazem parte do léxico da gestão da actualidade. E a pesquisa rigorosa realizada por Rebecca Henderson, nas áreas da economia, da psicologia e do comportamento organizacional, constituem um útil guia orientador para as colocar em prática. Tal como muitos dos seus pares, a autora desmistifica a visão que ainda subsiste de que o único propósito dos negócios é gerar lucro e maximizar o valor para os seus accionistas. E demonstra que fracassámos em reimaginar o capitalismo atribuindo-lhe apenas o papel de estímulo para a prosperidade, sem o considerarmos, igualmente, como um sistema que pode, e deve, estar em harmonia com as realidades ambientais, lutando pela justiça social e respondendo às exigências das instituições democráticas.

A compreensão profunda da autora sobre a forma como se desenrolam este tipo de mudanças, combinada com histórias reais de empresas que já deram os primeiros passos para reinventar o capitalismo, ajuda o leitor a mergulhar na possibilidade de um capitalismo inspirador. Através de explanações abrangentes de como devem evoluir os mundos das finanças, da governança e da liderança, Henderson oferece um conjunto de fundamentos pragmáticos que ajudam a navegar num mundo com desafios sem precedentes, mas também repleto de oportunidades para aqueles que as souberem aproveitar.

Good Economics for Hard Times

ABHIJIT V BANERJEE & ESTHER DUFLO

Banerjee e Duflo, vencedores do Prémio Nobel para as Ciências Económicas em 2019, são extremamente bem-sucedidos em transformarem a economia numa disciplina acessível ao comum dos mortais. O seu mais recente livro privilegia a análise da desigualdade e das divisões políticas com base nos debates que se posicionam na linha da frente dos países ricos. Imigração e iniquidade, globalização e disrupção tecnológica, crescimento lento e aceleração das alterações climáticas – e agora a pandemia – constituem as fontes de maior ansiedade em todo o mundo, de Nova Deli a Dakar, passando por Paris ou Washington.

No passado, era comum pensar-se nos economistas para a resolução destes problemas de larga escala, mas ao longo das décadas mais recentes – e certamente desde a crise financeira de 2008 – os cidadãos, a nível global, começaram a perder a fé que tinham nestes mesmos economistas. Os recursos para abordar estes desafios existem mas, e como sublinham os autores, a ausência de ideias que ajudem a transpor o muro da discórdia e da desconfiança que divide os próprios economistas é por demais evidente.

Neste que tem sido considerado um livro revolucionário, os também professores de Economia no MIT e autores do livro premiado Poor Economics (2011), deitam mãos à obra e, com base em pesquisas de situações da vida real, examinam as questões mais complexas enfrentadas pela humanidade (migrações, guerras comerciais, o flagelo da desigualdade, a catástrofe climática), mas com a humildade suficiente para reconhecer o que a economia não é capaz de responder. Em cada página, tentam trazer à luz as distorções trazidas pela “má economia” aos debates públicos, ao mesmo tempo que desconstroem metodicamente, as suas falsas assunções. Nas suas próprias palavras, o objectivo do livro “é enfatizar que não existem leis de ferro na economia que evitem a construção de um mundo mais humano e compassivo”.

The Connector Manager: Why Some Leaders Build Exceptional Talent — and Others Don’t

JAIME ROCA & SARI WILDE

Os especialistas da Gartner, Jaime Roca e Sari Wilde, e depois da análise de uma amostra de cinco mil gestores, concluem que existem quatro tipos de gestores por excelência. Os “gestores professores”, que desenvolvem as competências dos empregados com base na sua própria experiência, direccionando o seu desenvolvimento de uma forma análoga à sua; os “gestores motivadores”, que oferecem feedback positivo ao mesmo tempo que optam por uma abordagem mais pragmática e pouco interventiva no desenvolvimento dos seus subordinados; os gestores “sempre-em-cima”, que oferecem um feedback constante e contínuo relativamente a todos os aspectos da performance e, por fim, os “gestores conectores” que concedem o feedback necessário na sua área de especialidade ao mesmo tempo que ligam os trabalhadores a outros da equipa ou da organização que estejam melhor preparados para abordar necessidades específicas.

E, ao contrário do que se poderia esperar, o gestor “sempre-em-cima” é menos eficaz a desenvolver as suas pessoas, mesmo que as empresas encorajem este tipo de supervisão e de feedback constante. Ao invés, é o gestor “conector” o que ganha o prémio da eficácia em termos de desenvolvimento de competências dos seus subordinados, na medida em que facilita interacções produtivas em toda a organização. Os autores definem as características dos quatro tipos elencados e explicam por que motivo a pesquisa de vários anos da Gartner, e que envolveu milhares de gestores e líderes seniores de todo o mundo, concluiu que eram os gestores “conectores” – com um aumento na performance de 26% – as estrelas “da companhia”. O livro versa ainda sobre o que melhor fazem os gestores “conectores”, como é possível transformar-se num deles ou o que deve fazer se trabalhar para um que reúna estas mesmas características.

Don’t Fall for It: A Short History of Financial Scams

BEN CARLSON

Por que é que a fraude financeira persiste? Por que é que os ricos se aproveitam das fraudes financeiras? Quem são alguns dos charlatães e vigaristas mais bem-sucedidos de todos os tempos e por que foram tão afortunados? Quais são as lições financeiras e empresariais que podemos retirar de algumas das maiores fraudes da história? Quais são as condições sob as quais a fraude tende a funcionar melhor? Que medidas podem as pessoas tomar para evitar que outros se aproveitem do seu dinheiro? Por que é muitas vezes mais difícil manter-se rico do que ficar rico?

Ben Carlson é o autor do novo livro “Don’t Fall For It”: A Short History of Financial Scams”, que detalha uma série de fraudes financeiras famosas ao longo da história. Estas incluem, entre muitas, a famosa história do esquema de email do “Príncipe Nigeriano” ou a do homem que tentou vender a Torre Eiffel – duas vezes!

Carlson mergulha na psicologia dos motivos que levam algumas pessoas a cometerem fraudes – e do porquê de outras se tornarem vítimas das mesmas, contando histórias, cheias de humor e de impressionante amoralidade, ao que junta algumas perspectivas fascinantes – e ocasionalmente contra-intuitivas – sobre os problemas de se tornar rico e permanecer rico.

Para o autor, que é também analista financeiro e director de gestão de activos institucionais na Ritholtz Wealth Management, a maioria dos esquemas financeiros que visam enganar indivíduos tendem a ter uma coisa em comum: a pessoa no centro do esquema tem “uma capacidade inata de vender uma boa história”. O que é uma verdade que se aplica também a este livro.

The Passion Economy: The New Rules for Thriving in the Twenty-First Century

ADAM DAVIDSON

Contrariamente ao que nos habituámos a ouvir, a classe média não está a morrer e os robôs não estão a roubar os nossos empregos. De facto, escreve Adam Davidson, o paradigma económico do século XXI oferece novas formas de se fazer dinheiro, novos caminhos para a realização profissional, e oportunidades sem precedentes para indivíduos curiosos e ambiciosos combinarem as coisas pelas quais são apaixonados com as suas carreiras.

Tendo como base histórias de pessoas comuns que fazem exactamente isto – um pai zeloso que cria uma barra de chocolate melhor para os seus filhos ou uma família de artesãos que satisfaz as necessidades tecnológicas dos agricultores Amish – em conjunto com várias pesquisas académicas recentes, Davidson demonstra como a economia de escala do século XX deu lugar, neste século, a uma economia de paixão.

O livro apresenta ainda as regras básicas para se operar nesta nova economia onde a proximidade, a criatividade, a automatização e a paixão são indispensáveis e de que são exemplo, entre várias, as seguintes: criar apenas valor que não possa ser copiado facilmente, compreender que menos clientes apaixonados são melhores do que muitos clientes indiferentes e ter em mente que a tecnologia deve apenas apoiar o seu negócio e não o conduzir.

E sobre a paixão, afirma o autor numa entrevista: “A ideia central é um contraste com aquilo a que eu chamo a ‘economia alargada do século XX’. No século XX, existiam métricas externas de sucesso. Se pensarmos no desenvolvimento da empresa moderna, no emprego moderno, e na carreira moderna, são muitos os sinais que dizem às pessoas para se livrarem de coisas que são diferentes dos requisitos de se ser um trabalhador na sua área específica. Existe um conjunto alargado de literatura académica que versa sobre a supressão da nossa própria natureza para o bem do nosso trabalho. A ideia é a de que esta [nova] economia recompensa ou pode recompensar o oposto – que é possível olhar-se ‘para dentro’ e encontrar ou desenvolver as coisas que nos estimulam e, especificamente, as coisas que nos tornam diferentes das outras pessoas”.

Adam Davidson é um dos jornalistas de negócios mais bem-sucedidos da América – e este livro lembra-nos porquê. Com o olhar de um repórter e a graça de um contador de histórias, viajou pelos Estados Unidos para encontrar pessoas regulares que decifraram o código da economia moderna. E a leitura das suas histórias ajuda o leitor a repensar a sua carreira e, quem sabe, a conduzi-la por novos e apaixonantes caminhos.

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