Actualmente, a realidade é tão mais estranha que a ficção – com ministros da nação que são reconhecidos por aprenderem a fazer contas bem feitas e que, afinal, não as sabem ou não as querem fazer, e com líderes de importantes partidos a hostilizarem os condutores de veículos económicos afirmando que tal prática é degradante para um elevado deputado da nação – que o melhor é mantermo-nos pelo mundo do faz-de-conta-que-estamos-a-fazer-de-conta
POR NUNO OLIVEIRA

Actualmente, a realidade é tão mais estranha que a ficção, com ministros da nação que são reconhecidos por aprenderem a fazer contas bem feitas e que, afinal, não as sabem ou não as querem fazer. Em que líderes de importantes partidos hostilizam os condutores de veículos económicos com afirmações de que tal prática é degradante para um elevado deputado da nação, e onde os capitães da indústria para lá da idade de reforma se queixam de quistos avermelhados à beira mar plantados. A realidade é tão estranha que o melhor é mantermo-nos pelo mundo do faz-de-conta-que-estamos-a-fazer-de-conta. Pelos vistos, é também essa a tática do FMI para justificar a sangria injustificável que está a promover, mas ao que parece não está.

No momento em que se fala da destruição imparável de centenas de milhares de empregos e se manda gente altamente qualificada para fora de borda em número equivalente à média de dois anos e meio de candidatos aceites no ensino superior público, nos idos de princípios dos anos 90, começo a pensar, afinal, que raio de economia é que andámos a criar e no que é que andámos metidos nestes anos todos. E isso fez-me lembrar uma história…

Há muitos quadros comunitários de apoio atrás, havia uma linda princesa chamada Branca de Névoa que queria crescer livre e desimpedida sem que a harpia da sua horrível madrasta a importunasse com trabalhos braçais e que sujassem as leggings. Essa coisa de trabalhar os campos e de produzir era tão blasé, o que estava a dar agora era ser consultora. Branca era uma jovem de visão, e tinha já percebido que a imbecil da madrasta andava demasiado dopada com fundos imobiliários, amigos notáveis (com acesso a muitas notas) e golden shares, e que passava mais tempo atracada ao espelho a perguntar se haveria no reino alguma empreendedora mais subsidiada do que ela, do que a analisar as contrapartidas dos acordos que ia assinando para a compra de uma nova frota de vassouras subaquáticas. Mais tarde muitos haveriam de andar aos papéis por causa dessa brincadeira, que meteu água por todos os lados.

De forma a aproveitar uma certa desregulação da sua madrasta, uma pessoa assertiva e que raramente tinha dúvidas de si mesma, Névoa cresceu e encobriu uns quantos amigos num esquema que não poderia falhar. Tinha ido às aulas de ecologia e aprendido o que era um ecossistema produtivo. E como adorava animais, mas só nos livros, achou que aquilo podia ter piada se em vez de campos e flores usasse a selva dos favorecimentos ilícitos e os relvados dos contactos privilegiados e estabelecesse o seu próprio ecossistema de consultores e consultoras.

A madrasta continuava entretida com as vernissages das negociações de subsídios e mais contratos de contrapartidas e Névoa espalhava o seu domínio sobre o sistema de atribuição dos mesmos. A coisa era simples, desde os centros comerciais e ecoresorts à beira mar plantados até aos terrenos que poderiam ser para hospitais de tratamento oncológico mas que afinal foram para lindos apartamentos já mobilados e com acabamentos de luxo, ou passando pelo aconselhamento dos alcaides do interior que pagavam várias vezes pelo mesmo estudo em que mudava pouco mais do que o nome da paróquia (às vezes nem isso) era uma questão de manipul… gerir o ecossistema.

Para o sistema ser perfeito, Névoa precisava de conselheiros à altura, ou de preferência, mais baixos, meeesmo baixinhos, tipo anões, para não lhe fazerem sombra. E decidiu então montar a sua própria SGPS (Sociedade Geradora de Proveitos Silenciosos) e convidou 5 anões para o conselho de administração.

O seu ecossistema de consultores e assessores de consultores acompanhados pelos consultores subcontratados e respectivos técnicos era um fenómeno .
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Eram todos reconhecidos pelas suas vogais, A., E. I., O. e U., respectivamente, e os nomes encaixavam que nem uma beleza nas suas funções. A. era o director financeiro, excelente a lidar com ajustes directos e formulários para a atribuição de subsídios e alguém que soltava sempre um sonoro “a-ha!” quando descobria mais uma rubrica ou alínea no regulamento que lhe permitia exacerbar custos ou manipular benefícios fiscais; E. era o director de marketing, um tipo afirmativo e decidido – simplesmente dizia “é como eu quero” e mais nada; I. era o director de recursos humanos, algo tímido e fugidio, emitia frequentemente um estranho som “iiiiiiiii” quando alguém lhe ia pedir satisfações sobre um contrato de trabalho ou perguntar porque é que o valor acordado de vencimento não estava de acordo com o previsto, ou sobre quem é que tinha decidido os cortes de pessoal; O. era o director de operações, um gajo prático e próximo da sua malta, sempre disponível para uma indicação do género “oh homem, anda lá com esse relatório que a malta da engenharia quer pôr o projecto a andar”; por último tínhamos U., o director científico, a quem caberia validar a qualidade dos projectos e relatórios produzidos pela mole de consultores e que frequentemente subcontratava mais consultores para emitirem pareceres sobre os pareceres dos seus consultores, era um homem deveras inseguro, sempre “ui ui, é melhor fazer mais um parecer antes de avançar”, e não se pode dizer que a tomada de decisão fosse o seu forte.

Com cinco vogais podem-se escrever muitas histórias e Branca de Névoa conhecia bem as restantes letras, pois consoante o que estas precisavam ela juntava os vogais e escrevia o que fosse necessário, desde um novo estudo para um novo aeroporto a um novo programa de financiamento à florestação de terras agrícolas. O seu ecossistema de consultores e assessores de consultores acompanhados pelos seus consultores subcontratados e respectivos técnicos especialistas era um fenómeno. Nem os tipos daqueles aspiradores maravilha que custam um balúrdio mas até lavam cortinados tinham desenvolvido uma rede de vendas mais eficiente, e nem os egípcios percebiam mais de arquitectura do que a Névoa que a todos encobria.

Um dia, dada a escassez crescente de fundos e mundos disponíveis para a máquina infernal de produção de relatórios, estudos, observatórios e pareceres, Névoa levantou e os vogais arranjaram posição nos vários canais televisivos onde se transfiguraram em ‘tudologistas’, ‘autoeconomistas’ e ‘multipolitólogos’, pois sabiam muito de muita coisa e tinham o perfil perfeito para explicar agora aos cidadãos da Cosmópolis porque é que a economia afinal não tinha crescido de forma robusta e resiliente. Ao que parece andaram por aí uns tipos a minarem tudo com estudos e pareceres e relatórios que, afinal, não serviram para nada e foram um gasto de dinheiro que tanta falta fazia agora, para se garantir a salvaguarda de direitos sociais e fomentar o empreendedorismo. O ecossistema estava desfeito mas os predadores de topo depressa se posicionaram nos novos nichos ecológicos.

Entretanto, de volta ao palácio, a imbecil da madrasta faz mais um peeling, sintoniza o seu espelho no chalé dos segredos e ri-se desbragadamente, enquanto na cozinha lhe preparam uns carapaus alimados.

Nuno Gaspar Oliveira

Biólogo e CEO da NBI – Natural Business Intelligence