Existe um imperativo moral e ético, especialmente crítico nesta altura, em bem cuidar dos cidadãos idosos. Para tal, é fundamental que os lares reúnam as capacidades para terem um plano para lidar com a crise e uma organização que garanta a sua boa implementação
POR FRANCISCO MIRANDA DUARTE

Os lares e outras instituições que prestam cuidados a idosos estão a ser severamente atingidos pela COVID-19 na medida em que a letalidade da doença é especialmente elevada em escalões etários mais avançados. Cerca de 40% dos óbitos em Portugal, relativos a esta doença, ocorreram em lares de idosos.

Existe, pois, um imperativo moral e ético, especialmente crítico nesta altura, em bem cuidar dos cidadãos idosos. Para tal, é fundamental que os lares reúnam as capacidades para terem um plano para lidar com a crise e uma organização que garanta a sua boa implementação.

É claro que os bons resultados acontecem em instituições que têm esses meios. Mas também têm de agir com rigor e responsabilidade. De facto, só os meios não chegam: uma organização inglesa com cerca de 350 lares comunicou casos de coronavírus em 232 unidades, tendo registado mais de 300 óbitos nos residentes.

A responsabilidade de cuidar dos outros é por isso avassaladora. Trata-se de salvar vidas de pessoas frágeis que confiam em nós. Nessa medida, cuidar dos idosos é e deve ser um Propósito muito para além de ser uma mera atividade económica.

Para cumprirmos o Propósito de cuidar bem dos idosos e de salvar vidas dessas pessoas, é preciso cuidar dos doentes e residentes e também cuidar dos que cuidam: os profissionais de saúde. O ponto de partida das boas práticas nos cuidados a idosos nesta pandemia é saber cuidar bem de e envolver os profissionais de saúde.

Esse envolvimento passa por comunicar de uma forma clara o que é o plano, os riscos envolvidos e porque é que as medidas são necessárias, dar condições de trabalho para que fiquem protegidos e possam proteger as suas próprias famílias (equipamentos de proteção individual, horários em espelho, etc.), dar uma compensação pelo esforço e risco acrescidos, saber ouvir para ir ajustando as medidas.

É também importante saber dizer obrigado, gesto que reflete o respeito que se tem pelo trabalho dos cuidadores, trabalho esse que transcende em muito a realização técnica de tarefas, mas entra frequentes vezes numa dimensão caritativa de entrega genuína ao outro. Citando o Papa Bento XVI, “O amor — «caritas» — é uma força extraordinária, que impele as pessoas a comprometerem-se, com coragem e generosidade, no campo da justiça e da paz.”

Conseguir reunir as condições e os valores partilhados para que a equipa como um todo trabalhe assim é um imperativo ético e uma ambição. Porque conduz a melhores cuidados, leva a melhores resultados e contribui para construir uma sociedade melhor.

Este modo de trabalhar imposto pela COVID-19 vai perdurar por muito tempo e alterar de um modo fundamental formas de trabalhar e de nos relacionarmos uns com os outros. Desde logo porque é previsível a recorrência de situações de maior prevalência da doença até 2021.

Nos lares de idosos, concretamente, medidas como as alterações de horários, o uso de equipamento de proteção individual, o reforço do controlo dos acessos às unidades e das medidas de higienização dos espaços, as soluções de contingência para situações de isolamento, serão para ficar. Tudo isto implicará ajustamentos nos modelos assistenciais e nos modelos económicos desta atividade.

De tudo isto, retiro duas conclusões otimistas:

  • por um lado, nós todos vamos ser mais exigentes com as empresas e instituições e as que vão progredir serão aquelas que falem a verdade, tenham um propósito relevante para a sociedade e que defendam causas com as quais as comunidades que servem se identificam e que o façam de uma forma genuína, verdadeira, consequente, baseada em ações concretas;

  • por outro lado, há uma consciência mais generalizada de que precisamos de valores positivos que nos unam e que conseguiremos melhores resultados para todos se trabalharmos de uma forma transparente, solidária e fraterna.

Por isso acredito que vamos saber aprender com esta crise e que agregadamente vamos ter melhores organizações a funcionar de uma forma mais ética e solidária. E uma comunidade mais forte e verdadeira como resultado disso.

Citando a propósito mais uma vez o Papa Bento XVI, “sem verdade, a caridade cai no sentimentalismo. O amor torna-se um invólucro vazio, que se pode encher arbitrariamente. É o risco fatal do amor numa cultura sem verdade; acaba prisioneiro das emoções e opiniões contingentes dos indivíduos, uma palavra abusada e adulterada chegando a significar o oposto do que é realmente. A verdade liberta a caridade dos estrangulamentos do emotivismo, que a despoja de conteúdos relacionais e sociais, e do fideísmo, que a priva de amplitude humana e universal.”