O ser humano tem uma série de características absolutamente únicas, sendo uma delas a faculdade inata de se levar demasiado a sério. Esta tendência para a ‘umbilicalidade’ impede-nos muitas vezes de olhar à nossa volta e fazer aquelas perguntas que as crianças fazem: o que é isto? Como funciona? Para que serve? Por que é que é assim?
POR NUNO GASPAR OLIVEIRA

O ser humano tem uma série de características absolutamente únicas, sendo uma delas a faculdade inata de se levar demasiado a sério e a eterna sensação que anda sempre a descobrir a pólvora. Senão vejamos: vivemos num mundo onde tudo foi inventado, testado, ensaiado, tornado obsoleto e inovado pela Natureza e, em vez de dedicarmos mais atenção a um planeta que tem um sistema auto-regenerativo, a ecossistemas que não produzem lixo, a espécies de organismos que conseguem viver em absoluta privação de luz, oxigénio e até de condições de vida durante milhares de anos até que, por ‘magia’ ressuscitam, andamos diariamente em busca da reinvenção da roda ou a brincar à economia do crescimento infinito num cenário de inovação tecnológica miraculosa. A nossa tendência para a ‘umbilicalidade’ impede-nos muitas vezes de olhar à nossa volta e fazer aquelas perguntas que as crianças fazem (por vezes até nos moer o juízo): o que é isto? Como funciona? Para que serve? Porque é que é assim? Curiosos? Let me entertain you!

Exhibit 1 – Polinização wikipédica
Um estudo de 20071 estima que o valor económico das abelhas e outros polinizadores para a produção agrícola deverá rondar os €153 Bi. Noutro estudo mais recente2 é demonstrado que 84% das culturas europeias são parcialmente ou totalmente dependentes de polinização de insectos, o que por si representa qualquer coisa como 0,3% do PIB global. Curiosamente, estes números não entram na equação do PIB, nacional ou global. Por outro lado, vários economistas têm observado que a revolução das TI e a internet não estão a conduzir ao aumento de produtividade que seria expectável de acordo com os modelos de produção, um exemplo já referido por Robert Solow em 19873. No entanto, estes estudos macroeconómicos omitem o papel crucial da polinização de ideias e fertilização cruzada de conhecimento desempenhado por novos ‘ecossistemas’ de informação como a Wikipédia. Uma demonstração de uma falha de mercado é a não contabilização do esforço de milhares de voluntários para carregar conteúdos que, se fosse medido em $/h o seu esforço, certamente daria um toque ao PIB. Tal como o mel surge de borla nos favos das abelhas, em troca do serviço de polinização, também o conhecimento muitas vezes usado com fins empreendedores, de investigação e de aumento da cultura dos cidadãos aparece vindo do nada, apenas suportado por um ecossistema saudável que usa o seu capital humano para crescer.

Exhibit 2 – Ver a vida com outros olhos… mesmo
O camarão-louva-a-deus, tamarutaca para os amigos, Odontodactylus scyllarus para os conhecidos (recorrendo a linguagem facebookiana), para além de um bicho simpático, colorido e violento com as suas presas, tem a curiosidade de ter 12 tipos de receptores de cor nos seus olhos, enquanto nós, humanos, só temos uns míseros três e os nossos amigos cães apenas dois. Parecia promissor ver a vida com os olhos da tamarutaca, se nós vemos uma diversidade de cor brutal, imagine-se um super-organismo com quatro vezes o nosso número de tipos de receptores de cor! No entanto, um estudo publicado na revista Science4 mostra que o camarão-louva-a-deus não vê de facto a tal megapanóplia de cores. Nem sequer uma centenazita. Fica mesmo pelas 12 cores, enquanto todas as variações entre as mesmas são perdidas pelo seu sistema nervoso. Onde é que isto vai dar? Não sei bem, …

Ah, já me lembro! Muitos gestores de topo e administradores executivos são por vezes acusados, ou glorificados por ter uma visão bidimensional, de verem as coisas em termos de preto e branco, agarrados à urgência do “show me the numbers!” e de agirem rápido num –snap!- que tanto fervor wallstreetiano gera. No entanto, mesmo que vissem em ’12 cores’, continuariam a ter uma visão limitada da realidade. Então qual a vantagem de um sistema simplificado de análise discreta de cores?

Voltemos ao O. Scyllarus, que como foi dito, tem uma técnica de caça que podemos apelidar de violenta e extremamente eficaz, que consiste em fazer disparar as suas patas toráxicas modificadas (que lhe dão o tal aspecto de louva-a-deus) num soco tipo tiro de calibre .22, i.e., o equivalente a um embate a 720km/h, com uma força de impacto de 60 kg/cm², capaz de quebrar facilmente a carapaça de caranguejos, conchas de búzios ou mesmo o vidro reforçado de um aquário. A sua vantagem é a actuação-relâmpago e a detecção rapidíssima das presas (e predadores) através de uma análise simplificada de cores básicas, que vão do infra-vermelho ao ultra-violeta, que informam o cérebro em milésimos de segundo, sem que este tenha que processar informação relativa a mistura de cores, o que atrasaria a resposta em centésimos de segundo, talvez o suficiente para o fazer perder o jantar… ou tornar-se o de alguém.

A visão deste camarão comparada com a visão humana funciona na mesma lógica dicotómica assinalada por Daniel Kahneman, em ‘Pensar, Depressa e Devagar’5. Enquanto que a tamarutaca investe num sistema de resposta rápida e instintiva como trunfo de sobrevivência, os seres humanos tem a vantagem de ir para além da decisão ‘relâmpago’ simplificada e recorrer a simulações de respostas neurológicas e racionais que, embora mais lentas e deliberativas, lhe permitem ir para além do simples saciar da sua voracidade e actuar num mundo complexo de nuances e interdependências de forma a aumentar o seu sucesso colectivo.

Ou seja, se o seu objectivo não é só focar em maximizar lucros, nem que para isso tenha que partir conchas e carapaças para levar a sua avante, o melhor talvez seja mesmo passar algum tempo debruçado sobre decisões importantes que envolvem o bem-estar de muitas pessoas.

Referências:

  1. http://www.economist.com/news/special-report/21585093-reasons-preserving-biodiversity-are-becoming-more-widely-understood-whats-use
  2. http://www.sciencedaily.com/releases/2012/08/120817084031.htm
  3. http://www.economist.com/news/briefing/21569381-idea-innovation-and-new-technology-have-stopped-driving-growth-getting-increasing
  4. http://www.sciencemag.org/content/343/6169/411.abstract
  5. http://editora-temasedebates.blogspot.pt/2012/03/pensar-depressa-e-devagar.html

 

Nuno Gaspar Oliveira

Biólogo e CEO da NBI – Natural Business Intelligence