O amor e a verdade são, em conjunto, para Bento XVI, a principal força propulsora, o princípio iluminador e o eixo em torno do qual se move toda a Doutrina Social da Igreja
POR Pe. MÁRIO RUI PEDRAS*

Os oito anos do pontificado de Bento XVI foram um sopro do Espírito na vida da Igreja e na sua forma de estar no mundo. Sem ser exaustivo e correndo o risco de alguma redução, identifico apenas algumas das linhas que orientaram o seu múnus petrino e perpassaram as formas do seu ensinamento. Integro essas linhas nos temas maiores das suas três encíclicas.

1. Na sua primeira encíclica, Deus Caritas est, Bento XVI apresentou a orientação programática do seu pontificado. O programa proposto não se centrou em aspectos morais ou doutrinais mas no essencial: na vitória definitiva do Amor. Deus é Amor e a pessoa humana criada para o amor só no amor encontra a sua plenitude. Durante o seu pontificado, o Papa sublinhou, no seu ensinamento em todos os tons, que os cristãos acreditam no Amor e que fazem do amor a orientação decisiva e fundamental das suas vidas. Disse-nos Bento XVI: “(…) Fomos feitos à imagem e semelhança de Deus, fomos feitos para conhecer o Deus do amor (…) e para conhecer a nossa realização suprema nesse amor que não tem princípio nem fim. Fomos feitos para receber o amor, e recebemo-lo. (…) Mas também fomos feitos para dar amor, para fazer do amor a inspiração de tudo o que fazemos e a coisa mais duradoira da nossa vida”.

Deus é amor. E o Amor que Deus é, foi revelado definitivamente em Jesus Cristo, o Filho de Deus Vivo. O Amor, o ser de Deus, constitui assim a mensagem central cristã que deve ser proposta, em todo o tempo e com toda a sua força e urgência no mundo actual. Disse-nos Bento XVI: “Muitas vezes preocupamo-nos afanosamente com as consequências sociais, culturais e políticas da fé, dando por suposto que a fé existe, o que é cada vez menos realista. (…) é preciso voltar a anunciar com vigor e alegria o acontecimento da morte e ressurreição de Cristo, coração do cristianismo, fulcro e sustentáculo da nossa fé, alavanca poderosa das nossas certezas, vento impetuoso que varre qualquer medo e indecisão, qualquer dúvida e cálculo humano.”

Frente a um lema tão difundido nos nossos tempos, “Cristo sim, a Igreja não!”,  o Papa recordou e insistiu que devemos amar a Igreja. Porquê? Porque a Igreja não é outra coisa senão o “corpo” e a “esposa” de Cristo, porque a Igreja é absolutamente inseparável de Cristo. Disse-nos Bento XVI: “Jesus Cristo assim como se uniu aos discípulos a caminho de Emaús, assim também caminha connosco segundo a sua promessa, estou sempre convosco até ao final dos tempos (…) Nunca duvideis da sua presença. Procurai sempre o Senhor Jesus, crescei na amizade com Ele, comungai-O. Aprendei a ouvir e a conhecer a sua Palavra.”

2. Na sua segunda encíclica, Spe Salvi, desenvolvendo uma passagem luminosa de São Paulo, Bento XVI afirmou que  “a redenção, a salvação, segundo a fé cristã, não é um simples dado de facto. A redenção é-nos oferecida no sentido que nos foi dada a esperança, uma esperança fidedigna, graças à qual podemos enfrentar o nosso tempo presente: o presente, ainda que custoso, pode ser vivido e aceite, se levar a uma meta e se pudermos estar seguros desta meta, se esta meta for tão grande que justifique a canseira do caminho”.

O Cristianismo é assim, para o Papa, um grande sim a Deus. Em todo o seu magistério, Bento XVI não se cansou de o repetir. Todos os pequenos sins e nãos ditos na vida, devem sublinhar este grande Sim, com maiúsculas, da fé. O Cristianismo dirige-se ao futuro, melhor, é o futuro, e não apenas presente e passado. Disse-nos Bento XVI: “Nada impomos, mas sempre propomos, como Pedro nos recomenda numa das suas cartas: venerai Cristo Senhor nos vossos corações, prontos sempre a responder a quem quer que seja sobre a razão da esperança que há em vós.”

Só “ a verdade vos fará livres” e que, por isso, a verdade e a liberdade estão intimamente unidas. A persistência no erro e na mentira são cadeias que roubam a liberdade e nos conduzem, como tantas vezes salientou o Papa, à ditadura do relativismo. Disse-nos Bento XVI:“A Igreja tem uma missão ao serviço da verdade para cumprir, em todo o tempo e contingência, a favor de uma sociedade à medida do ser humano, da sua dignidade, da sua vocação (…) A fidelidade à pessoa humana exige a fidelidade à verdade, a única que é garantia da liberdade e da possibilidade dum desenvolvimento humano integral. (…) Para a Igreja, esta missão ao serviço da verdade é irrenunciável.”

A necessidade e a urgência do diálogo entre a fé e a razão é prioritária porque a fé e razão são as duas asas que permitem voar para a verdade. A razão não só nos livra dos fanatismos e fundamentalismos, sejam de que sinal forem, como defende o ser humano; enquanto que por outro lado a fé pode e ajuda a libertar a razão dos seus próprios erros. Ambas, fé e razão, precisam de se purificarem mutuamente. Disse-nos Bento XVI: “ Há una necessária correlação entre razão e fé, entre razão e religião, pois a razão e a fé, estão chamadas a limparem-se e a purificarem-se e são mutuamente necessárias e ambas devem reconhecer mutuamente tal necessidade”.

3. Na sua terceira encíclica, Caritas in Veritate, Bento XVI, afirmou que só na verdade a caridade resplandece e pode ser autenticamente vivida, quea caridade é a via mestra da doutrina social da Igreja sublinhando a sua íntima conexão e como se exigem reciprocamente, dado que sem verdade a caridade cai no sentimentalismo, ou pode ser facilmente confundida com uma reserva de bons sentimentos, eventualmente úteis para a convivência social, mas marginais.

O amor e a verdade são, em conjunto, para Bento XVI a principal força propulsora, o princípio iluminador e o eixo em torno do qual se move toda a Doutrina Social da Igreja. Por isso no actual contexto social e cultural, “em que aparece generalizada a tendência de relativizar a verdade, viver a caridade na verdade leva a compreender que a adesão aos valores do cristianismo é um elemento útil e mesmo indispensável para a construção duma boa sociedade e dum verdadeiro desenvolvimento humano integral”.

Neste contexto percebemos que a política e a religião sendo distintas não podem nem devem ser distantes. A Igreja e Estado devem, obviamente, caminhar separadas, mas olhando-se e escutando-se mutuamente. Razão pela qual a laicidade positiva é chamada a superar o laicismo negativo presente em muitos aspectos na sociedade e na cultura contemporânea. A não confessionalidade implica, com certeza, neutralidade e diálogo, mas não oposição ou polémica. O seu pensamento apresenta-se assim como um desafio para ambas as instâncias. Disse-nos Bento XVI: “O papel da religião no debate político não consiste tanto em oferecer tais normas, como se elas não pudessem ser conhecidas pelos nãos crentes – muito menos consiste em propor soluções políticas concretas, o que está totalmente fora da competência da religião – mas, sobretudo em ajudar a purificar e lançar luz sobre a aplicação da razão à descoberta dos princípios morais e objectivos.”

No diálogo com o mundo, salientou o Santo Padre a necessidade de uma clara identidade católica, porque o que atrai à fé e “enche” as igrejas é uma firme personalidade católica. As instituições católicas não devem por isso envergonhar-se de o serem. O que convence é o ser cristão, por isso o Papa pede-nos, a nós cristãos, que sejamos na nossa vida o que somos: cristãos. Disse-nos Bento XVI: “A Igreja abre-se ao mundo, não para obter a adesão dos homens a uma instituição com as suas próprias pretensões de poder , mas para os fazer reentrar em si mesmos e, deste modo, os conduzir a Deus. (…) Não se trata aqui de encontrar uma nova táctica para relançar a Igreja. (…) Podemos dizer que a fé cristã constitui sempre, e não apenas no nosso tempo, um escândalo para o homem. (…) Este escândalo só pode ser abolido se se quiser abolir o cristianismo.”

Sublinho finalmente que o Papa Bento XVI viveu todo o seu pontificado, sem pressa. Soube rezar, falar, estudar, ensinar, esperar. De facto o Papa no seu magistério viveu a paciência, esta pequena-grande virtude que “é a irmã mais nova da esperança”. Ao renunciar ao múnus petrino, o Papa não concluiu assim a encíclica sobre a fé com que fechava o tríptico das virtudes teologais. Deixa-nos porém um outro valioso documento, escondido no seu coração, escrito não em papel mas na sua vida, no seu pontificado, na sua renúncia. Este é talvez o seu maior documento sobre a fé, não escrito mas vivido na sua própria realidade: a humildade de quem se reconhece “servo dos servos” e acolhe totalmente na sua vida e magistério a plena soberania de Deus.

Santo Padre, muito obrigado.