Seia quer ser uma cidade baixo carbono. A propósito do estudo dedicado ao consumo energético das IPSS do concelho, que será apresentado pela CAOS e pela Fundação Montepio esta semana, Gonçalo Cavalheiro lamenta, em entrevista ao VER, os elevados custos em energia, que implicam “o desvio de recursos financeiros da resposta social”. Mas destaca as boas práticas das IPSS ao nível de eficiência, e as iniciativas do concelho – como o lançamento da etiqueta Produto eco2SEIA – para valorizar o desenvolvimento baixo carbono, “nomeadamente a nível da criação de riqueza”
POR GABRIELA COSTA

Será apresentado a 27 de Janeiro, em Seia, um estudo dedicado à Pegada de Carbono e aos Consumos Energéticos de cinco IPSS do concelho. Na sessão agendada para as 15h00, na Casa Municipal da Cultura, participarão Paula Guimarães, da Fundação Montepio, Filipe Camelo, presidente da Câmara Municipal de Seia e Gonçalo Cavalheiro, da CAOS.

Entre as principais conclusões da análise realizada pela consultora especializada em sustentabilidade (com o apoio da Fundação Montepio), e que o VER antevê em entrevista ao partner da CAOS, destaque para os cálculos que ditam que a energia representará um custo anual de mais de cem milhões de Euros para estas instituições.

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Gás é o mais responsável por emissões e custos
O estudo “Pegada de Carbono e Consumo Energético em cinco IPSS do Concelho de Seia” demonstra que as Instituições Particulares de Solidariedade Social do concelho gastam cerca de mil Euros mensais por utente em energia.

Os custos mais elevados associados ao consumo de energia pelas IPSS são relativos, na maioria dos casos, ao gás (butano e propano), “reflexo fundamentalmente das necessidades de aquecimento do ar ambiente e de águas sanitárias e ao funcionamento das cozinhas”, conclui o documento. A factura mais elevada das IPSS em estudo ascendeu a cerca de 42 mil Euros, em 2010.

O gasóleo representa também um “custo significativo”, em particular para as IPSS que prestam apoio domiciliário. A factura de gasóleo mais elevada ascendeu a cerca de 21 mil Euros, em 2010. Já na electricidade, a factura mais elevada ascendeu a 17 mil Euros naquele mesmo ano, revela o estudo.

Quanto à pegada de carbono de cada IPSS, convertidos os consumos de energia em emissões de gases com efeito de estufa, o estudo permite concluir que “são emitidas entre 1,2 tCO2e/ano.utente a 1,9 tCO2e/ano.utente”. As cinco IPSS incluídas no estudo “implicaram a emissão de 428 t CO2e em 2010”. Os responsáveis pelo estudo concluem ainda que seriam precisas mais de 1100 árvores para compensar estas emissões, ao longo de trinta anos. Mais uma vez, a principal fatia das emissões diz respeito ao consumo de gás.

Com vista a avaliar o potencial de poupança com medidas de eficiência energética, o estudo inclui a análise de um conjunto de práticas encontradas nas IPSS em matéria de gestão de energia. Segundo Gonçalo Cavalheiro “foram encontrados casos positivos e negativos: muitas IPSS já aproveitam as energias renováveis, em particular através de painéis solares térmicos para aquecimento de águas, mas ainda se encontram muitas situações em que as tecnologias utilizadas não são as mais amigas do ambiente (como a utilização de gasóleo de aquecimento em caldeiras)”.

Especificamente, o estudo aprofundado das necessidades de iluminação de uma das IPSS participantes no estudo permitiu concluir que é possível poupar quase cinco mil Euros por ano através da mudança das tecnologias utilizadas somente na iluminação. O investimento em tecnologia LED, balastros electrónicos e outras tecnologias eficientes pagar-se-ia em cerca de cinco anos, adianta a análise.

Produtos ‘eco-tradicionais’
A Câmara Municipal de Seia e quatro produtores locais (queijo, fumeiro, pão e produtos gourmet) vão apresentar no próximo dia 28 de Janeiro, às 16h00, no Museu Natural da Electricidade (Senhora do Desterro, Seia), a etiqueta Produtos eco2SEIA. Criada para distinguir aqueles produtos locais, cujo processo de produção está alinhado com os objectivos de desenvolvimento baixo carbono do concelho, a etiqueta será lançada numa sessão com a intervenção do presidente da Câmara Municipal de Seia, de Ângelo Seiça Neves, da Direcção-Geral das Actividades Económicas, e de Gonçalo Cavalheiro, em representação da CAOS.

A etiqueta Produtos eco2SEIA visa distinguir produtos sustentáveis, explica a CAOS: um produto eco2SEIA “é aquele que é produzido num sistema que visa o aumento contínuo da eficiência energética e a redução da pegada de carbono, o que inclui a redução dos consumos de energia por unidade produzida, a redução do consumo de energia proveniente de combustíveis fósseis (como o gás e o gasóleo) e o aproveitamento de fontes renováveis de energia.

A etiqueta é “a face visível de um sistema de acreditação que inclui a assinatura pelos produtores de um compromisso para gerir criteriosamente o consumo de energia e para aproveitar todas as oportunidade de utilização de fontes de energia renováveis”. Os produtores comprometem-se ainda a submeter todos os anos à CM de Seia um formulário com informação sobre os níveis de produção, o consumo de energia, as emissões de gases com efeito de estufa e o aproveitamento das energias renováveis.

Na opinião de Gonçalo Cavalheiro, “haverá uma forte participação de todos os intervenientes, que terão um papel chave na definição do rumo” desta etiqueta. Quanto ao estudo focado no consumo energético das IPSS, o partner da CAOS lamenta o elevado valor que as IPSS despendem anualmente em energia, com cada utente, apesar de terem uma “gestão apertada do consumo de energia”.

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Quais são as principais conclusões do estudo “Pegada de Carbono e Consumo Energético em cinco IPSS do Concelho de Seia”?
A principal conclusão do estudo prende-se com o custo da energia: as IPSS gastam entre quinhentos e mil Euros por ano em energia por cada utente a que prestam cuidados, o que equivalerá, em termos médios, a mais do valor de uma mensalidade paga pelos utentes.

Por outro lado, e talvez surpreendentemente, encontrámos muito boas práticas e uma gestão apertada do consumo de energia na maior parte das IPSS, que vão desde o aproveitamento de energias renováveis à atribuição de funções de ligar e desligar equipamentos, de modo a poupar energia.

Qual é a importância deste estudo face às dificuldades que o Terceiro Sector enfrenta em resultado da crise?
As IPSS e todo o sector da economia social têm um grande peso a nível nacional, que se torna preponderante nos concelhos do interior do país. Tipicamente, é um sector que se manterá fora das atenções do regulador e de onde não se deverá esperar a emergência de iniciativas voluntárias ou auto-reguladoras, como podemos encontrar noutros sectores com fins lucrativos. Como o estudo revelou, o consumo de energia nas IPSS é elevado, implicando o desvio de recursos financeiros da resposta social para os suportar.

Qual foi o apoio dado pela Fundação Montepio ao estudo?
A Fundação Montepio tem um conhecimento profundo do Terceiro Sector e, como tal, reconheceu de imediato a importância da iniciativa, em particular numa altura em que os recursos são cada vez menores e as necessidades sociais cada vez maiores e mais agudas. Para além do patrocínio à iniciativa, a Fundação Montepio envolveu-se directamente no projecto, fazendo questão de acompanhar e conhecer as IPSS envolvidas no estudo.

O Terceiro Sector é, tipicamente, um sector de onde não se deverá esperar a emergência de iniciativas voluntárias ou auto-reguladoras, como podemos encontrar noutros com fins lucrativos .
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Que papel assumem as organizações sociais, enquanto potencial sector de actividade, face às matérias de responsabilidade ambiental, nomeadamente no que concerne poupança energética e consumo energético eficiente?
Encontrámos na maioria das IPSS uma preocupação séria na gestão da energia, fundamentalmente pela necessidade de reduzir custos. No entanto, estas organizações sentirão, até pelo respectivo modelo de gestão, uma maior dificuldade em fazer investimentos cujo retorno ronda os cinco anos. Por isso, nota-se que as intervenções feitas serão, na maioria das vezes, para “tapar buracos” perdendo-se alguma eficiência que intervenções de fundo com investimentos mais elevados poderiam permitir.

De qualquer das formas, estas organizações são, parte das vezes, dos maiores empregadores locais, gerindo orçamentos de vários milhões de Euros por ano, pelo que parece fundamental que se possa criar aqui uma cultura de excelência em responsabilidade ambiental, tal como se nota esse esforço em matérias sociais e culturais, por exemplo.

O que visa a etiqueta Produtos eco2SEIA, recentemente lançada para distinguir produtos locais alinhados com a política de baixo carbono do concelho?
A etiqueta Produtos eco2SEIA visa fomentar, por um lado, e reconhecer, por outro, o alinhamento dos produtores com os objectivos de desenvolvimento baixo carbono assumidos pela CM de Seia. Os produtores assumem um compromisso com a câmara que se consubstancia fundamentalmente em dois grandes pontos:
– Gerir criteriosamente o consumo de energia e explorar todas as oportunidades relativos ao aproveitamento das energias renováveis;
– Submeter anualmente um relatório detalhado sobre produção, consumo de energia e aproveitamento das fontes renováveis de energia.

Através deste relatório anual, os produtores terão a oportunidade de demonstrar o seu alinhamento com a filosofia baixo carbono vigente em Seia, não estando para já prevista a proposta de metas quantitativas a alcançar pelos produtores. No entanto, é provável que a etiqueta possa avançar por esse caminho daqui por uns anos, depois de se ter ganho experiência com estes primeiros passos. Mas nessa altura, haverá uma forte participação de todos os intervenientes que terão um papel chave na definição desse rumo. Para já, a etiqueta Produtos eco2SEIA visa fundamentalmente promover a adopção de comportamentos baixo carbono e, ao mesmo tempo, reconhecê-los, pois com efeito, o esforço dos produtores de Seia nesse sentido é já bem visível.

Em que fase está o Programa eco2SEIA, que visa tornar Seia no primeiro concelho do mundo sem lâmpadas incandescentes?
A Câmara Municipal de Seia assumiu o compromisso de eliminar todas as lâmpadas incandescentes no sector residencial. De acordo com um inquérito efectuado, existirão mais de trezentas mil lâmpadas incandescentes nas residências de famílias, embora nem todas tenham um funcionamento regular ou diário.

Recentemente, foram distribuídas seis mil lâmpadas numa iniciativa da EDP, para além de cerca de mil lâmpadas distribuídas numa acção junto das escolas do concelho. De acordo com a EDP, a iniciativa de Seia foi a que mais adesão granjeou junto da população, tendo-se mantido a fila ao longo de todo o dia, bastante invernoso, por sinal.

No âmbito da campanha A+++, que decorreu entre 20 de Novembro e 20 de Janeiro, em parceria com várias lojas de electrodomésticos, a CM de Seia prevê distribuir mais cerca de quinhentas lâmpadas, desta feita com o apoio da ADENE. Nesta campanha, cada cliente que adquirisse um electrodoméstico de classe de eficiência energética A+ ou superior recebia um kit de quatro lâmpadas, para além de se habilitar a um kit para a substituição completa das lâmpadas da respectiva residência).

Quais são os grandes desafios estratégicos do projecto Seia, Cidade de Baixo Carbono?
A principal estratégia utilizada pela Câmara Municipal de Seia para atingir o desenvolvimento baixo carbono é o envolvimento de todos os stakeholders nestas iniciativas: desde o cidadão individual, passando pelos empresários (indústria e serviços, em particular o turismo) e pelas IPSS. A CM de Seia pretende, através de uma série de acções no terreno, demonstrar a cada um dos stakeholders as vantagens do desenvolvimento baixo carbono, a todos os níveis, nomeadamente a nível da criação de riqueza.

O principal desafio prender-se-á com a ultrapassagem de algumas barreiras relativas à mudança de paradigma e à noção de que investir em eficiência energética implica investimentos demasiado elevados.

Gabriela Costa

Jornalista