O evento Portugal Economia Social debateu recentemente, na FIL, os grandes desafios deste sector com tendencial potencial para o crescimento económico do País, através de um programa repleto de conferências e debates que reuniu centenas de organizações e empresas, durante três dias. O VER destaca neste artigo as principais conclusões do Encontro dedicado a desmistificar os novos modelos e instrumentos de financiamento na inovação social, os quais, tendo em conta os milhares de entidades que actuam hoje nesta área, devem ter na mira, antes de mais, o impacto social dos projectos. Razão pela qual é preciso “aprender a construir estratégias de comunicação empática”, como diz, em entrevista ao VER, a moderadora do painel, Cláudia Pedra
POR GABRIELA COSTA

A economia social em Portugal agrega mais de 55 mil entidades e 260 mil trabalhadores. E representa um contributo de 3,8% para o Produto Interno Bruto (PIB), que resulta do trabalho voluntário. Os dados mais recentes disponíveis – elaborados pelo Instituto Nacional de Estatística em conjunto com a Cooperativa António Sérgio para a Economia Social (CASES) – demonstram que em 2010 o sector representava 5,5% do emprego total remunerado e respondia por 4,6% do total das remunerações pagas a nível nacional.

Para debater a relevância do sector para a economia nacional, a Fundação AIP organizou na FIL, entre 19 e 21 Maio, o Encontro Portugal Economia Social, que, durante três dias preenchidos por uma programa repleto de conferências, fóruns e partilha de ideias, colocaram o sector da economia social no centro do debate para um crescimento sustentável. O evento reuniu cerca de 150 empresas e entidades e cinco mil participantes, integrando ainda uma área de exposições de soluções e serviços inovadores nas áreas do empreendedorismo e da inovação social.

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Procurando avaliar os grandes desafios da economia social no contexto português e europeu, a iniciativa reflectiu sobre temas tão díspares como “Empreendedorismo e Inovação Social”; “Gestão das Organizações da Economia Social – Desafios, Oportunidades e Riscos”; “Mulheres, Inovação e Competitividade”; “Causas Sociais – Necessidades e Respostas”; e “Sustentabilidade e Financiamento – Novas Formas e Instrumentos”.

O VER acompanhou o congresso e destaca, neste artigo, as principais conclusões desta última conferência, a qual é o resultado do trabalho preparatório do Conselho Estratégico da AIP tendo em vista debater a sustentabilidade, a nível financeiro, na economia social. Integrando dois painéis – uma mesa redonda com espaço de debate intitulada “Novos Modelos de Financiamento na Inovação Social” e um espaço de apresentação de boas práticas e casos de estudo em formato de pitch, dedicado à “Importância do Impacto Social na Sustentabilidade e Financiamento”, o evento visou demonstrar a grande diversidade de financiamentos sustentáveis que existem no mercado, e as várias metodologias de impacto social que as organizações podem (e devem) adoptar.

Sobre a primeira temática, ficou demonstrado que, independentemente do tamanho da organização ou do seu modelo de negócio, “existem inúmeras possibilidades de financiamento e de investimento”. Contudo, são inúmeras também as dificuldades e entropias no acesso aos modelos de financiamento na inovação social e, para as compreender, a moderadora do extenso painel de oradores que participaram na sessão – Américo Mendes, da Universidade Católica Portuguesa; Carla Pinto, da CASES; Fernando Amaro, do Montepio Geral; Filipe Santos, do Portugal Inovação Social; Hugo Menino Aguiar, do SPEAK; Isabel Martins, da Oeiras Solidária; Jorge Miranda, da Fundação Benfica; Margarida Couto, da VDA; Mariana Rebelo de Andrade, da Call to Action, Pedro Carvalho, da Finance for Social Impact; e Sofia Santos, do BCSD Portugal –, Cláudia Pedra, colocou um conjunto de questões por área de trabalho dos oradores, mas que visaram esclarecer conceitos como o de investimento social ou o de economia de partilha; e tópicos como o papel das empresas sociais e das parcerias empresariais de responsabilidade social; a importância de estratégias de angariação de fundos inovadoras, de candidaturas a prémios e programas de Fundações e empresas, de parcerias de financiamento ou da formação e capacitação para o investimento; e o funcionamento do projecto Portugal Inovação Social, no âmbito dos Fundos do Portugal 2020.

Na plateia, dezenas de empreendedores que querem iniciar ou implementar um negócio no mercado da Economia Social e organizações sociais que procuram oportunidades de financiamento procuravam encontrar as respostas concretas às opções de financiamento que se adequam ao seu caso, através de muitas perguntas.

Em declarações ao VER, a managing partner da Stone Soup Consulting destacou algumas das principais conclusões do debate entre os especialistas e o público: “os investidores em negócios sociais estão à procura de negócios com prova de conceito, com uma certa escala [do negócio], do plano de negócios sustentáveis e do impacto social avaliado”. Se algum destes factores falhar, há menos potencialidade de investimento.

Já no que respeita as empresas, mantem-se “um problema de linguagem com as organizações sociais”, as quais abordam as primeiras “numa perspectiva de patrocínio e não de parceria”, sem entenderem, ainda, “que têm de dar alguma coisa em troca”. Por sua vez, o meio empresarial “escuda-se na questão da crise e nas dificuldades económicas, para darem apoios em bens e serviços, ao invés de fazerem doações em dinheiro”, explica. Neste processo, torna-se evidente o “desconhecimento mútuo” entre as duas partes, que “têm dificuldade em dialogar de uma forma estratégica. Cabe às empresas e organizações perceberem como podem construir uma relação de mútuo benefício”.

Quanto aos doadores particulares, é premente que as organizações sociais e os empreendedores “criem uma relação de proximidade” com os mesmos (e independentemente de os captarem num contacto directo ou nas redes sociais, por exemplo), construindo “uma comunicação empática”.

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Organizações sociais e empreendedores anseiam por arranque efectivo do Portugal 2020

Ainda no âmbito do primeiro painel da conferência “Sustentabilidade e Financiamento: Novas formas e instrumentos”, que debateu de forma dinâmica os modelos de financiamento na inovação social, foram identificadas várias barreiras legais à actividade da economia social. Por exemplo, o facto de os negócios sociais não serem regulamentados; ou de as associações não poderem ter funções lucrativas.

Estes constrangimentos “têm de ser quebrados caso a caso, à medida que [os actores sociais] esbarram em cada um deles”, defende Cláudia Pedra. A este nível, é de sublinhar os “conceitos inovadores” que várias firmas de advogados e outros actores “têm criado para lidar com as barreiras legais”. Em Portugal já foi possível implementar os Títulos de Impacto Social, que pressupõem a remuneração por resultados.

No que concerne o financiamento em termos bancários, como o microcrédito e os empréstimos, foi salientado como estes podem ser usados pelas organizações e empreendedores para iniciarem negócios sociais ou lidarem com questões de obras à infraestrutura. Foram também dados exemplos de parcerias que já existem envolvendo empresas e organizações, enquanto casos de sucesso.

Relativamente ao Portugal 2020, os “muitos atrasos” no arranque dos Fundos e a expectativa face à abertura do processo de candidatura ao Portugal Inovação Social foram tema dominante na conferência, com muitos participantes interessados em perceber o que podem esperar, preferencialmente num futuro próximo. Filipe Santos explicou que esses atrasos se devem a diversos factores, como aos processos de encerramento pendentes do Quadro de Referência Estratégico Nacional – QREN (anterior Fundo para a aplicação da política comunitária de coesão económica e social em Portugal), ou ao facto de as equipas que gerem estes fundos serem pequenas, e as mesmas. Apesar dos constrangimentos, o Portugal Inovação Social constitui uma inovação em termos legislativos, esclareceu.

Para Cláudia Pedra, esta iniciativa que visa canalizar uma parcela importante (cerca de 150 milhões de euros) de fundos estruturais europeus do ciclo Portugal 2020 para a promoção da inovação social representa um programa com “muitas componentes interessantes a nível de eixos de capacitação”, o qual “é realmente necessário”.

No que se refere ao Programa Portugal 2020 em termos gerais, “tem havido atrasos na abertura de candidaturas do Balcão 2020”, a ponto de os próprios avisos emitidos não serem cumpridos, o que tem levado a alguma “frustração” (por exemplo em relação aos Contratos Locais de Desenvolvimento Social ou à formação de públicos específicos). A sócia gerente da Stone Soup Consulting admite que o arranque do Portugal 2020 tem sido, de facto, “difícil”, recordando que estamos em 2016, quando o Fundo decorre desde 2014.

Mesmo tratando-se de “processos complexos e que precisam de tempo”, certo é que também o Portugal Inovação Social não passou ainda da fase de manifestações de interesse, não se tendo concretizado até ao momento qualquer candidatura.

Outra matéria em análise foram as estratégias de angariação de fundos, face às quais a maior problemática se prende com o desconhecimento: “existem centenas, mas a maior parte das organizações usa apenas duas ou três”, explica Cláudia Pedra.

Paralelamente, Portugal é “um país conservador”, razão pela qual as organizações não arriscam em aplicar estratégias como o famoso balde de gelo utilizado pela Associação Pró-cura da Ela (Esclerose Lateral Amiotrófica), estratégia “muito bem pensada” na sua pertinência (apelou à perda de sensibilidade destes doentes) e inovação (pelo modo como, sendo tão arrojada, alcançou tantos apoiantes, incluindo personalidades públicas de relevo), e que não só ficou mundialmente famosa como permitiu angariar mais de 40 milhões de dólares. As causas de as organizações nacionais temerem enveredar por campanhas como esta são de índole cultural “mas também de falta de propensão para o risco”, conclui: trata-se sobretudo de “uma questão de reputação e credibilidade”, face à qual prevalece o receio entre as organizações “de caírem no ridículo ou serem encaradas com pouca seriedade”.

Na opinião de Cláudia Pedra, vale a pena “promover a inovação e tentar ser diferente”, tendo em mente que “um dos segredos do fundraising é ser memorável”. Neste contexto, e tendo presente que existem milhares de entidades no sector da economia social em Portugal, construir “estratégias de comunicação empática é algo que as organizações têm de aprender a fazer”.

No segundo painel, foram evidenciados os benefícios que a avaliação inerente ao impacto social traz às organizações, ao nível da sua sustentabilidade. Como sublinha Cláudia Pedra, “há um aumento da sustentabilidade à medida que se avalia o impacto” dos projectos.

Hoje essa avaliação pode ser feita com múltiplas metodologias, as quais devem, acima de tudo, “ser adequadas às organizações e projectos”, explica a managing partner da Stone Soup Consulting. De destacar também a relevância do seu “enquadramento nos sistemas de gestão” de cada organização, de modo a que “possam servir para a melhorar”, adianta.

Outra vantagem inegável da avaliação de impacto social é o “acréscimo de parcerias estratégicas e de financiadores” que, a partir “dos outputs, outcomes e impactos” reportados pela organização, conseguem comprovar os seus resultados. E, se a realidade vigente é que muitas vezes as entidades procedem a esta avaliação “instigadas pelos financiadores ou parceiros”, certo é que “independentemente do motivo porque fazem a avaliação de impacto, o maior benefício dá-se ao nível da qualidade dos serviços”, graças aos “ganhos de aprendizagem” que decorrem de um processo contínuo. Aprendizagens essas que, quando integradas no processo de gestão da organização, permitem progredir constantemente.


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Mulheres de visão que olham para o mundo como o seu quintal

Sete meses após a 29ª Conferência Internacional de Mulheres Líderes em Haifa e Jerusalém, e cumprindo o compromisso de levar por diante a Declaração de Haifa e os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável, debateu-se em Portugal o tema “Mulheres, Inovação e Competitividade”. Numa sessão conduzida por Fernanda Freitas e que integrou painéis moderados por Gonçalo Cavalheiro, da CAOS, e Isabel Canha, do projecto Executiva, somaram-se os “testemunhos inspiradores de líderes em diversos sectores de actividade”, como comentou, à margem do evento, a presidente do GRACE, Conceição Zagalo: “homens e mulheres de diferentes idades e experiência dão cartas em matéria da atitude que nos abre portas para um mundo que queremos mais equitativo”, sublinhou.

Em declarações ao VER, Gonçalo Cavalheiro sugeriu que “quer queiramos quer não, quer gostemos ou não, ainda faz sentido, e continuará a fazer durante largos anos, destacar o papel das mulheres no mundo dos negócios, da ciência, da política, da solidariedade”. Admitindo que a realidade obriga ainda a que “cada mulher que atinge um lugar de liderança, que se destaca pelo seu trabalho, o faz apesar do ambiente não ser o mais propício ao sucesso no feminino”, o especialista em sustentabilidade lamenta que o conjunto de oradoras reunido nesta conferência – quase todas testemunhas de um ambiente não lhes foi especialmente hostil – ainda “sejam a excepção”.

Optimista, Cavalheiro sublinhou a importância de nunca nos referirmos àquelas que “conseguem apesar de…” sem cair na pergunta típica “em que é que ser mulher ajudou ou prejudicou”. Na sua opinião, grande parte do género feminino “já conquistou o seu lugar, e já não precisa de se justificar”. Sem procurar “analisar, enviesar, paternalizar”, a conferência “Mulheres, Inovação e Competitividade procurou avaliar o que cada uma destas líderes “faz, como faz e porque faz”, concluiu ainda.

As respostas, essas, “claramente só podiam ter sido dadas por mulheres de grande inteligência, de grande garra, de grande força de vontade”, que respondem prontamente: “faço porque gosto e só faço se for para fazer bem”. Na sua perspectiva, trata-se de “pessoas de visão, que olham para o mundo como o seu quintal, que não esquecem que são mães, mulheres ou amigas só porque são líderes bem sucedidas. Mulheres que não se escondem, mas que se assumem. Orgulhosas de ser e de conseguir”.


Gabriela Costa

Jornalista