O sector do vestuário e acessórios é um dos que mais contribui para impactos ambientais e sociais de natureza variada no planeta. Em 2014 e em particular graças ao crescimento explosivo da “fast fashion”, o número de peças de vestuário produzido anualmente ultrapassou, pela primeira vez, os 100 mil milhões. E, com o aumento do poder de compra das novas “classes médias”, as estimativas indicam que “comprar e descartar” será uma tendência cada vez mais significativa. Para enfrentar os complexos desafios da indústria, a aposta nas novas tecnologias e a criação de “coligações” no sector têm-se vindo a multiplicar. A ideia é que a sustentabilidade não só se transforme em moda, mas transforme, para melhor, a moda
POR
HELENA OLIVEIRA

A Plug and Play é uma plataforma de incubação e inovação global de Silicon Valley, que liga start-ups a empresas, investe em uma centena por ano e tem no currículo sucessos como a Dropbox ou a PayPal. A Kering é um peso pesado no mundo da moda de luxo, representando marcas famosas como a Gucci, a Ballenciaga, a Saint Laurent, entre muitas outras, estando também a apostar na transformação “responsável” de marcas de desporto como a Puma ou a Cobra. E o programa Fashion for Good é uma iniciativa financiada pela C&A Foundation, lançada no início do mês de Abril, em Amesterdão, que visa ajudar empresas que pretendam transformar a moda num negócio sustentável.

Num esforço conjunto têm um objectivo ousado: “encontrar a próxima Airbnb para a moda sustentável” e revolucionar o sector do retalho através de 12 tecnologias. Para tal, e entre cerca de 250 candidaturas, foram escolhidas 12, com backgrounds académicos e experiências diversas, provenientes de vários países e que farão parte de um programa de aceleração de start-ups, com vista ao seu desenvolvimento, comercialização e entrada no mercado. Num dos sectores que maiores impactos ambientais gera, a ideia é que a sustentabilidade se transforme em moda e transforme a moda, com a aposta em inovações tecnológicas tão distintas como a purificação da água e redução dos níveis de químicos necessários para a produção têxtil ou a utilização da pele de cogumelos para substituir o couro.

Como explica Leslie Johnston, representante da C&A Foundation, “estas 12 start-ups inovadoras irão ajudar-nos a reimaginar como a moda é desenhada, produzida, usada e reutilizada”. E todas elas contribuem para cumprir os “Cinco Bens”que definem a transformação desta mesma moda e que constituem, em simultâneo, os cinco pilares que sustentam também a própria Fashion for Good: Bons Materiais, Boa Economia, Boa Energia, Boa Água e Boa Vida (na tradução literal do inglês que não soa assim tão bem em português).

Há muito tempo que a moda tem estado na mira dos ambientalistas e de outros activistas e por vários motivos. E, apesar dos seus inúmeros desafios, também é verdade que o sector tem contado com várias iniciativas que visam alterar os seus impactos ambientais e sociais, pese embora restem ainda muitas linhas a serem cosidas de forma alternativa.

Como se escreve num artigo publicado pela Mckinsey, desde o início do século XXI que o sector do vestuário tem vindo a multiplicar as suas prateleiras de negócio. Graças à queda dos preços, às operações simplificadas e ao aumento do poder de compra dos consumidores, a produção de roupa duplicou entre 2000 e 2014, sendo que o número de peças comparadas anualmente pelo consumidor médio aumentou em 60% neste período de tempo. A denominada “fast fashion” tem vindo a ser um segmento particularmente forte e uma fonte de crescimento invejável para algumas empresas que, ao terem ciclos de produção “comprimidos” e design feito “ao minuto”, não só contribuiu para os consumidores aumentarem os seus guarda-roupas, como também a torná-los cada vez mais “descartáveis”. O artigo da McKinsey refere que em quase todas as categorias do sector do vestuário, os consumidores da actualidade guardam no armário as peças em causa metade do tempo face há 15 anos e, em alguns casos, principalmente nos artigos de menor preço, os mesmos são deitados fora depois de serem usados umas sete ou oito vezes.

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O gigantesco mercado do pronto-a-descartar

O problema, e mais um entre tantos que a indústria da moda sempre enfrentou, reside no facto de a inovação na forma como as roupas são feitas na actualidade não estar a acompanhar o ritmo acelerado inerente ao seu design e comercialização A “fast-fashion” ou o pronto-a-vestir que se transformou em pronto-a-descartar é agora um gigantesco e sofisticado mercado alimentado por um sistema de produção low-tech e muito fragmentado. E não só exige quantidades gigantescas de água e de químicos na sua produção, como emite níveis elevados de gases com efeito de estufa. Por outro lado, continuam a multiplicar-se os relatórios – e as “provas” – de que os trabalhadores das fábricas de têxteis continuam a ser dos que mais explorados são, para além de serem expostos a condições laborais inseguras, perigosas e muitas vezes mortais. E quanto mais rápido e “fácil” se torna este tipo de produção, maiores se tornam os desafios do sector tanto em termos ambientais, como no que receita aos direitos humanos.

A par de várias outras iniciativas que se têm vindo a multiplicar, não só na “fast fashion” mas também na indústria da moda de luxo – com uma aposta contrária na “slow-fashion” – o desafio da Fashion for Good reflecte, também, a cultura, os comportamentos e as atitudes do actual momento que se vive na História: afinal, os consumidores estão também muito mais atentos às questões da responsabilidade social e da sustentabilidade, as más práticas (e bem mais rapidamente que as boas) são de imediato julgadas – e ainda bem – nos media sociais e esta cruzada em prol de soluções mais sustentáveis faz parte dos novos objectivos de uma indústria que sempre se quis transformadora.

Como explica o GreenBiz, a Fashion For Good abordou a Kering quando esta estava a finalizar a sua estratégia 2025 para a sustentabilidade assente em três pilares: cuidar, reduzindo o impacto ambiental; colaborar, apostando na diversidade e na equidade e estimular a disrupção criativa. De acordo com Marie-Claire Daveu, Chief Sustainability Officer e responsável pelos assuntos internacionais da Kering, a abordagem da Fashion For Good apareceu no “momento certo”, respondendo à identificação de start-ups no mercado com as quais pudessem colaborar na sua estratégia de inovação sustentável e sublinhando que a indústria da moda, em conjunto com a sua cadeia de fornecimento, precisa de uma “macro-mudança”, na medida em que a sua pegada de carbono representa 93%, com a produção e processamento de matérias-primas a serem responsáveis por quase 75% deste impacto ambiental.

Na verdade, ao sector não faltam dados que documentem este impacto. De acordo com o World Resources Institute, 57% do algodão utilizado na confecção é produzido em áreas com recursos hídricos muito limitados – são necessários em média 20 mil litros de água para produzir um quilo de algodão -, não existem tecnologias de reciclagem que sejam comercialmente viáveis para os materiais mais usados como o algodão e as misturas de poliéster e, como já foi acima enunciado, são “deitado para o lixo” milhares de milhões de toneladas de roupa e outros têxteis anualmente dado que a “moda”se tornou mais efémera e descartável do que nunca.

O problema é que esta tendência só se deverá agravar. Como alerta o artigo citado da McKinsey, estima-se que a procura global de vestuário irá aumentar consideravelmente ao longo da próxima década, à medida que milhões de pessoas nos países em desenvolvimento começam também – e finalmente – a engrossar as “classes médias” e a poderem despender mais dinheiro na compra deste tipo de artigos. E se, em termos de negócio, a oportunidade é gigantesca e bem-vinda, a verdade é que a mesma poderá constituir um risco para as empresas que não optarem por combater os desafios sociais e ambientais destes processos de produção “devoradores” de recursos. Pelo menos é o que se espera da denominada geração millennial a qual, para além de um crescente poder de compra, tem também expectativas elevadas no sentido de as empresas operarem de acordo com regras responsáveis e sustentáveis, o que poderá ter uma enorme influência nos seus hábitos de compra e, por consequência, nos lucros e reputação destas mesmas empresas. Inversamente, os métodos de produção que são mais sustentáveis – e que em muito dependem da inovação tecnológica – podem ser mais dispendiosos, mas têm também o poder de estimular essa mesma inovação e proteger as empresas de choques e riscos na sua reputação, aumentando a sua resiliência e, é claro, também os seus lucros.

© Fashion for Good

Starting fashion up

Mas e afinal o que têm as 12 start-ups seleccionadas de tão especial para terem sido escolhidas entre os mais de 200 participantes que concorreram à iniciativa Plug and Play – Fashion for Good?

De acordo com Marie-Claire Daveu, da Kering, “a chave para o progresso sustentável reside na inovação, sendo que a ‘ingenuidade’ e as inúmeras possibilidades que estas 12 start-ups nos trouxeram é verdadeiramente impressionante”. Vejamos algumas destas possibilidades e, em particular, as diferentes áreas de conhecimento que as caracterizam.

Sedeada na Holanda, a Agraloop recolhe os resíduos de colheitas de produtos fibrosos, como o cânhamo, o linho, a banana ou o ananás, transformando-os em fibras que podem ser usadas nos têxteis. Processadas através da maquinaria convencional utilizada para produzir o algodão, este novo material oferece uma alternativa biodegradável e mais amiga do ambiente do que as fibras convencionais. A Amadou, por seu turno, pretende ser uma alternativa renovável, biodegradável, e vegetariana e com impacto diminuto no ambiente que, utilizando a “pele” dos cogumelos “amadou” (usado, desde a Antiguidade, como um manipulado medicamentoso) pretende substituir o couro, tendo sido já testado no mercado a partir de uma colecção piloto de sapatos e acessórios, a qual foi muito bem recebida na sua estreia, tendo passado todos os exigentes testes de design, durabilidade e conforto. Numa “categoria” similar está a Dropel, a qual já desenvolve fibras naturais para o sector têxtil e que “inventou” agora um polímero biodegradável que é implementado nessas mesmas fibras naturais. A inovação reside no facto de o mesmo conseguir repelir substâncias aquosas, aumentando assim o ciclo de vida e a durabilidade de qualquer tipo de fibra. Ou, e com uma tarefa similar, e se deixar cair vinho na toalha de mesa do jantar, a Tersus utiliza um fluido de C02 reciclado que serve como solvente nos processos de limpeza a seco e industriais, o qual minimiza consideravelmente os níveis de água utilizados.

Num outro “campeonato” corre a Dragon. Fundada por uma equipa de engenheiros mecânicos, consiste numa nova tecnologia de purificação de água, a qual inclui um sistema de filtragem da mesma, de eficiência elevada e que, quando aplicado aos processos de produção têxtil consegue aumentar a qualidade da água e reduzir os níveis de químicos e energia habitualmente utilizados. Já a MySource é uma rede inteligente de negócio online que faz corresponder profissionais da moda aos contactos e informações necessários para que possam construir negócios sustentáveis e de sucesso, contando já com 10 anos de trabalho apoiados pelo Ethical Fashion Forum e com uma rede global em 141 países. Um trabalho similar faz a Sundar, mas ligando produtores e fornecedores de têxteis, de ornamentos e acessórios a marcas e retalhistas “fazendo” em alguns minutos o mesmo trabalho que anteriormente poderia levar semanas ou meses a ser cumprido. No que respeita às embalagens, responsáveis também por uma boa parte da pegada de carbono deste sector, estão presentes a RePack, que inova não só no tipo de embalagem em causa, mas também no próprio modelo de negócio, o qual tem o potencial de reduzir também a pegada de carbono do embalamento associado ao comércio electrónico em 80%. Assim que o cliente recebe um produto, existe a possibilidade de devolver de imediato a embalagem à loja em causa, para reutilização, fechando assim o ciclo [de vida dos produtos] muito mais rapidamente.

Não sendo fácil para um leigo compreender integralmente o “bem” que pode representar este tipo de soluções para a indústria da moda, a verdade é que, se devidamente apoiadas e depois de ganharem uma praticabilidade operacional – disseminando-se por todo o sector –estas inovações distintas poderão contribuir, e muito, para colocar no mercado matérias-primas “novas” que reduzam o impacto ambiental da indústria da moda, que ofereçam métodos de produção alternativos com vista a aumentar a longevidade dos têxteis e que permitam desenvolver processos mais eficientes para que o ciclo de vida dos produtos seja mais controlado e “fechado”.

Dado que, e de acordo com os dados apresentados pela consultora McKinsey, o número de peças de vestuário produzido anualmente ultrapassou, pela primeira vez, os 100 mil milhões em 2014, tudo indica que o sector irá crescer substancialmente, para o bem e para o mal. Em lucros, sim, mas também na pegada ambiental que cada vez mais deixa marcas profundas no planeta. Só em cinco grandes economias emergentes – Brasil, China, índia, México e Rússia, a venda de peças de vestuário cresceu oito vezes mais rapidamente do que no Canadá, na Alemanha, no Reino Unido e nos Estados Unidos.

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“Juntar os trapinhos” pode ser a solução

Na medida em que o impacto sustentável do negócio da “fast fashion” só poderá ser minimizado se o mesmo for abraçado por um número significativo de “agentes” do sector, a resposta a este desafio hercúleo poderá ser encontrada numa lógica de “coligação”. E é isso que tem vindo a acontecer, à medida que os vários intervenientes da industria se têm vindo a associar em iniciativas conjuntas, depois de perceberem que é mais fácil atacar um problema em conjunto, do que em modo “solo”.

Foi o que fez, em 2009, a denominada Ethical Fashion Initiative, que tem como objectivo ligar artesãos do mundo em desenvolvimento com a cadeia de valor internacional do sector, com o objectivo, entre outros, de utilizar a moda como veiculo para o desenvolvimento. Trabalhando, em particular com o continente africano, esta iniciativa melhora a vida dos produtores e designers africanos, permitindo-lhes contribuir com o seu trabalho e criatividade para o mercado da moda luxo, ligando-os, por exemplo, a designers reconhecidos mundialmente. Este programa é apoiado pelo International Trade Center, uma agência não-governamental que faz parte das Nações Unidades e da Organização Mundial do Comércio.

E os exemplos multiplicam-se em várias áreas distintas. A Zero Discharge of Hazardous Chemicals junta 23 marcas de vestuário que se comprometeram a melhorar e a expandir a utilização de químicos sustentáveis e não tóxicos na cadeia de fornecimento dos têxteis e do calçado. A Adidas, a Benetton, a Gap, a H&M ou a Burberrys são alguns exemplos das marcas associadas nesta coligação que trabalham em conjunto – e são supervisionadas – para apoiar a implementação de práticas de gestão de químicos mais seguros e menos prejudiciais ao ambiente.

O mesmo acontece com a denominada The Better Cotton Initiative. Nascida na edição de 2005 do Fórum Económico Mundial, e com vista à procura de soluções mais sustentáveis para agricultores, para o ambiente e para o futuro do sector, este programa começou por ser apoiado e financiado pela Ikea, pela Oxfam, pela H&M, pela Adidas e pela Gap, entre outros, estando presente em vários cantos do mundo: desde a Austrália, ao Brasil, passando por Moçambique, Paquistão, Israel, Índia ou o Mali, entre vários outros países (24 no total), são já cerca de 1,5 milhões de agricultores que estão a aplicar os Princípios de Produção para um Algodão Melhor, a melhorar a sustentabilidade das suas colheitas e a receberem um “selo de garantia”que lhes abre portas no mercado global. O objectivo é chegar aos 5 milhões de agricultores em 2020 apoiados pelo programa, que conta com 50 parceiros e mais de 700 fornecedores que se comprometeram com o estabelecimento de normas para uma produção de algodão que seja ambiental, social e economicamente benéfica.

Mas e ainda bem, existem muito mais iniciativas e programas similares. Que não seja apenas uma moda.