A história é longa e desdobra-se mil vezes: o grupo e a fundação resultam da obra iniciada por Alfredo da Silva com a CUF em 1898, seguidamente desenvolvida e ampliada pelo seu genro, Manoel de Melo, conhecendo continuidade por Jorge de Mello, neto do fundador, e pela geração actual. São assumidos os valores do compromisso, sempre focado no contexto do país. E o grupo CUF trabalha e dá trabalho, concentrando a maior parte dos operários do país. Passa de 100 empregados para 2 mil no espaço de dez anos e chega aos 16 mil em 1930, agigantando-se sempre. Em 1970 representa mais de 4% do PIB nacional e dá emprego directo a cerca de 50 mil pessoas, representado quase um pequeno país industrioso dentro do país ainda atrasado em relação aos vizinhos. No século XXI, e com Vasco de Mello ao leme, o legado mantém-se vivo e fervilhante nas suas diversas actividades
POR PEDRO COTRIM

“O que o país não tem, a CUF cria”, foi mote e sorte, assim como “quem faz parte da árvore da CUF tem sombra a vida inteira”. Não eram rifões vazios e quem trabalhava na grande empresa garantia saúde, educação e habitação. Num país pobre, a obra foi tremenda. Os engenheiros do Técnico eram angariados para a CUF e a formação na empresa era constante. Os colaboradores estavam habitualmente ao nível da excelência.

Rua do Ácido Sulfúrico. Se perguntarmos a um cidadão português com mais de 60 anos a fórmula química deste composto ouviremos certamente “esse ó quatro agá dois”, mesmo que não seja bioquímico nem engenheiro químico. Era a fórmula que os que não eram ases na química tinham na ponta da língua. Qualquer cidadão achará graça se vir a placa toponímica desta rua, que fica mesmo ao lado da Rua Gay-Lussac, senhor dos gases, e da Rua Lavoisier, senhor da matéria, esse mesmo de “na natureza nada perde e nada se cria; tudo se transforma”.

Transforma-se a matéria e transforma-se a realidade, como bem sentimos no quotidiano, e será precisamente “Uma Realidade que Transforma” o mote do congresso da ACEGE. Um tempo de espera, mas também um tempo de preparação. Nas palavras de João Pedro Tavares, presidente da ACEGE, aquilo que nos transforma na Relação Maior da Nossa Vida.

Os três subtemas do congresso: uma realidade que transforma o indivíduo e que traz um novo olhar sobre a realidade e a motivação para actuar de forma diferente e com (novo) propósito; uma realidade que transforma a empresa, fruto da introdução deste novo olhar na realidade empresarial assente no amor e na verdade como critérios de gestão; e uma realidade que transforma o país, com resultados na visão num prazo mais alargado pelo impacto das empresas na realidade do ecossistema económico na sociedade em que estamos inseridos.

Neste ecossistema avulta-se Alfredo da Silva, justamente enaltecido por Fernando Pessoa e “pai” das ruas acima mencionadas, que sem ele nunca teriam existido. O vate ecoou:

“[…] entendendo por escol o escol literário e artístico, o escol político e jornalístico, e o escol industrial e comercial, facilmente notaremos que o provincianismo é o seu característico comum e constante. Faço uma leve reserva quanto ao escol industrial: não há entre os nossos intelectuais, artistas, jornalistas ou políticos alguém cuja iniciativa e poder de coordenação se compare com os de, por exemplo, o senhor Alfredo da Silva no campo industrial. Por desastre, porém, e para mal nosso, o escol industrial não tem, por natureza, influência intelectual alguma, e assim não serve de vivificar o escol em geral.”

Um e outro em tudo o que se relacionava com o país, um e outro em tudo o que animou a sua vida, o poeta admirava a Outra Banda e o seu ímpeto industrial, como escreveu no seu projecto turístico dedicado a Portugal:

“Saiamos de novo e voltemos à direita: um pouco adiante encontramos S. Pedro de Alcântara, um miradouro que permite apreciar uma das mais belas panorâmicas da cidade. Podem ver-se várias das colinas do lado oriental de Lisboa – Castelo, Graça, Senhora do Monte, Penha de França –, uma boa parte da Baixa e, por trás, o rio extenso e sereno e vislumbrando-se o Barreiro, Alcochete, etc. na Outra Banda. À noite o panorama não é menos admirável, com os fogos das fábricas a marcarem o progresso do homem que não dorme”.

Ouse-se: Fernando Pessoa seria certamente membro da ACEGE. Grande empreendedor e homem espiritual, não seria certamente alheio à associação que nasceu dezassete anos após a sua morte. Sendo sempre um homem das pessoas para as pessoas, o poeta foi empresário em nome individual em milhentos projectos. Tinha uma tremenda sua capacidade de inovar e de congregar pessoas. E de submeter recursos à sua capacidade de assumir o risco. Cite-se o poeta uma terceira e última vez:

“Para vencer, material ou imaterialmente, três coisas definíveis são precisas: saber trabalhar, aproveitar oportunidades e criar relações. O resto pertence ao elemento indefinível, mas real, e que à falta de melhor nome, se chama sorte.”

Estas últimas linhas, sendo dedicadas ao leitor geral, assentam lindamente a Alfredo da Silva; o país seria mais pobre sem o herói poeta e sem o herói industrial, ainda com uma menção honrosa à Ode Triunfal e a tudo o que impulsiona o engenho humano. E à sorte, que como sabemos e que como tão bem quase disse Picasso, convém que quando nos bate à porta nos apanhe a trabalhar.

Vasco de Mello, administrador no grupo José de Mello, foi o orador desta conferência de preparação para o Congresso da ACEGE. O gestor sublinha as concretizações já referidas do grupo e da fundação Amélia de Mello em prol de um Portugal melhor. Não poderia deixar de relembrar o exemplo da dedicação de seu tio Jorge de Mello em relação à ACEGE, na altura União Católica de Industriais e Dirigentes de Trabalho.

O grupo José de Mello descende directamente da CUF, do Barreiro da CUF que alberga aquelas três ruas. A CUF do Barreiro foi o maior pólo industrial da Península Ibérica e o quinto maior conglomerado químico da Europa. Se chegamos agora aos números, fiquemos com elementos do recenseamento de 1911 para orientação em folha de cálculo:

– População: 5 950 056 habitantes no Continente e Ilhas

– Cerca de 80% da população trabalha na agricultura

– 75,1% da população é analfabeta: cerca 85% das mulheres e 65% dos homens, sendo muito mais dramática nas regiões do interior e nos idosos

A empreitada de Alfredo da Silva teve início num período tumultuado por imposições, restrições, reivindicações, detonações e sindicações. A título de exemplo, mencionem-se alguns exemplos do que sucedia em 1912:

– em Janeiro, greve geral de vários dias em Lisboa, solidária com a dos trabalhadores rurais do Alentejo. A greve, convocada pela Associação Anarco-Sindicalista, foi brutalmente reprimida pelas forças da ordem, que encerraram todas as sedes sindicais. Resultou que o governo decretou “estado de sítio” e que suspendeu qualquer garantia do que quer que fosse na Província da Estremadura, correspondendo aproximadamente aos actuais distritos de Lisboa e Setúbal.

– em Maio-Junho, greve da Carris que dura 26 dias. Faltam produtos essenciais e há pilhagens diárias em toda a cidade.

Aproximava-se a chegada ao poder de Afonso Costa, que ficou conhecido como “racha-sindicalistas” e que iria criar condições adversas à luta operária. Numa altura imbrincada como a Primeira República, Alfredo da Silva inova e enfrenta a situação, importando tecnologia e técnicos de Química Industrial. Dedica-se à produção de adubos e pesticidas de modo certeiro, pois deste modo relaciona a lavoura com a indústria, acomodando o crescente sector secundário ao enorme sector primário. A grande CUF estava na forja.

A história é longa e desdobra-se mil vezes: o grupo e a fundação resultam da obra iniciada por Alfredo da Silva com a CUF em 1898, seguidamente desenvolvida e ampliada pelo seu genro, Manoel de Melo, conhecendo continuidade por Jorge de Mello, neto do fundador, e pela geração actual. São assumidos os valores do compromisso, sempre focado no contexto do país. E o grupo CUF trabalha e dá trabalho, concentrando a maior parte dos operários do país. Passa de 100 empregados para 2 mil no espaço de dez anos e chega aos 16 mil em 1930, agigantando-se sempre. Em 1970 representa mais de 4% do PIB nacional e dá emprego directo a cerca de 50 mil pessoas, representado quase um pequeno país industrioso dentro do país ainda atrasado em relação aos vizinhos.

“O que o país não tem, a CUF cria”, foi mote e sorte, assim como “quem faz parte da árvore da CUF tem sombra a vida inteira”. Não eram rifões vazios e quem trabalhava na grande empresa garantia saúde, educação e habitação. Num país pobre, a obra foi tremenda. Os engenheiros do Técnico eram angariados para a CUF e a formação na empresa era constante. Os colaboradores estavam habitualmente ao nível da excelência. Por exemplo, desenvolveu-se um departamento de engenharia e investigação que acabou anos depois por dar origem à Profabril, uma empresa de engenharia consagrada internacionalmente.

No final da década de 1950 a automação era já uma realidade, nomeadamente no carregamento dos comboios. Numa perspectiva de criação de valor e desenvolvimento, o grupo CUF cresceu nas mais variadas áreas, como a da construção e reparação naval através da Setenave e da Lisnave, tendo esta última acabado por se tornar na líder mundial do seu ramo.

A actividade foi sempre tremendamente diversificada, tendo o grupo também tendo também investido na banca, nos tabacos e nos seguros, sendo esta última actividade ainda iniciada por Alfredo da Silva através da criação da Império, empresa caracterizada pelo estilo de liderança que lhe granjeou rapidamente galões de inovação e do conhecimento, tendo trazido as bases do melhor marketing para Portugal.

O grupo investiu igualmente nos transportes marítimos, cruciais para se poder aceder às matérias-primas em África e também um elemento essencial da transformação e do crescimento da actividade do grupo. Foi ainda promotor da Companhia de Transportes Aéreos (CTA), a primeiríssima empresa aérea de transporte e cuja fundação antecedeu espantosamente a da TAP. Contudo, o governo tratou de reorganizar o controlo desta actividade, atribuindo-o às autoridades estatais e optando por descontinuar a CTA, possivelmente por se encontrar inteiramente em mãos privadas, e criar os Transportes Aéreos Portugueses (TAP), na qual metade do capital accionista estava nas mãos do estado. A CTA conheceria o seu fim definitivo em 1949.

A inovação do grupo era realmente espantosa, contribuído para que Portugal estivesse, em muitos aspectos, na vanguarda do progresso internacional. Era tudo feito numa perspectiva de responsabilidade social que era referida de um modo muito diferente do que se faz actualmente; certamente muito menos divulgada.

Talvez se possa dizer que a obra social da CUF se tenha iniciado quando Alfredo da Silva decidiu criar no Barreiro uma escola operária que providenciava cuidados médicos e farmacêuticos aos trabalhadores e famílias. Através de uma associação, assegurava-se que os que mais careciam de meios podiam beneficiar dos mesmos cuidados que os mais bafejados, valendo a pena mencionar ainda a colónia de férias de Almoçageme, por onde passaram milhares de filhos dos colaboradores, e ainda o bairro social no Barreiro.

O próprio hospital CUF foi ainda uma iniciativa de Alfredo da Silva, tendo-se lançado a primeira pedra em 1942. O objetivo primeiro era fornecer serviços de saúde aos colaboradores, e quando foi inaugurado em 1945 já Alfredo da Silva havia infelizmente morrido. No governo decidiu-se que não se podiam reservar cuidados médicos tão inovadores apenas para os trabalhadores da CUF e foi decidido estendê-los à restante população, e hoje em dia marca CUF na medicina é de tal forma abrangente e disponível que se torna desnecessário elencar números ou factos.

A iniciativa empresarial inovadora conduziu a uma associação com o grupo Pão de Açúcar, pertencente à família Diniz, abrindo a sua primeira loja em Alcântara precisamente no local onde existia uma despensa do grupo. Em Março de 1973 abriu-se a segunda loja, o muito conhecido Pão de Açúcar em Cascais.

Os propósitos da fundação desenvolvem-se em vertentes como a cidadania activa, a inclusão social pelo apoio nas áreas da educação e da saúde, a retenção e reconhecimento internos, que se concretizam com a atribuição de bolsas de estudo aos filhos dos colaboradores que estão nas empresas grupo, e a inovação e o empreendedorismo, matrizes fundamentais para a criação de valor, preferencialmente apoiando as pessoas das empresas do grupo nas suas ideias criativas.

Saliente-se ainda a preservação da memória e da herança cultural a que acabam por se relacionar na área da educação e onde se avulta o arquivo do arquivo CUF Alfredo da Silva, em desenvolvimento desde há três anos com a criação de um acervo bem inventariado. Preservar a história é fundamental para a aprendizagem com o passado e para os bons exemplos a que felizmente se pode deitar mão para aprender no futuro. Não é feito com saudosismo do passado, mas sim como a perspectiva para um futuro melhor, e deste modo tem a fundação tem um papel mais interventivo no presente que no passado, actuando nas áreas da educação e da assistência, conforme a grande vontade do seu fundador.

Na educação há parcerias importantes com a Universidade Católica Portuguesa, com a Universidade Nova de Lisboa e com Universidade do Porto. Manifesta-se ainda a permanente possibilidade de desenvolver projectos com outras instituições que mereçam o apoio do grupo e cujo desempenho será sempre avaliado de forma isenta por entidades incontestáveis.

Da educação para o futuro, e por isso foi lançado o repto à Academia para que discutisse temas considerados como extremamente relevantes tendo em conta a realidade do país. Quando se aponta para o modelo de desenvolvimento a seguido por Alfredo da Silva saliente-se a distribuição da riqueza criada e os modos para que tal seja feito da forma mais justa e equilibrada, pois apenas se pode distribuir aquilo que foi criado.

Merece ainda destaque um concurso para escolas e alunos do terceiro ciclo do básico e do secundário profissional para estudar a economia e a sociedade portuguesa no século XX, com ênfase no valores da cidadania e da liberdade económica, mesmo em pandemia. Foi um tema de enorme preocupação e no qual houve uma participação muito relevante, com a presença de mais de 390 alunos de 140 a escolas, sublinhando-se que em Portugal existem 1200 escolas, salientando-se por isso estes quase doze por cento do total nacional. Foi com satisfação que se verificou a participação de escolas da Madeira e dos Açores, tendo sido, por todos os indicadores, um concurso com uma tremenda adesão.

Há ainda as bolsas de mérito. O grupo atribui anualmente 150 mil euros a investigadores em várias áreas: na saúde, na inovação e na indústria e tecnologia. Alfredo da Silva e o empreendedorismo, sempre e em toda a parte. Além disto, premeia-se anualmente uma dezena dos melhores alunos de diversas universidades.

Não se pode deixar de referir a importância de o grupo actuar dentro de princípios de ética e de responsabilidade social nas suas várias vertentes e assumindo um papel activo, como é exemplo a sua participação na ACEGE e o acompanhamento a nível institucional. O grupo participa activamente no BCSD – Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável –, que é o actor em Portugal do WBCSD e que reúne um conjunto de cerca de 200 empresas líderes nos seus sectores a nível Internacional, e dentro do tema da ética e da responsabilidade social não se pode deixar de referir a participação no Business Roundtable Portugal (BRP), onde se considera que a intervenção cívica é um aspecto fundamental em qualquer a comunidade e em qualquer país.

Na administração do BRP admite-se que o que se fazia não completava o que se pretendia, e portanto, através do conjunto de 42 das maiores empresas a portuguesas, pretende-se colaborar e ter como propósito acelerar o crescimento económico e social do país para garantir um Portugal mais justo, mais próspero e mais sustentável.

No BRP considera-se que este objectivo apenas é possível se o país conseguir crescer de uma forma muito mais rápida do sucedeu nas últimas duas décadas, pretendendo-se que Portugal regresse à tabela dos 15 países mais ricos da União Europeia na perspectiva de riqueza per capita. A Europa é já um desafio para a próxima a década, mas pretende-se que o desafio seja ainda mais ambicioso e que se consiga colocar o país na liderança dos países europeus.

O BRP foi criado e iniciou a sua actividade em Junho, com a criação em Setembro de um conjunto a alargado de grupos de trabalho nos principais pilares da sua actuação: as pessoas, o problema da sua formação e da sua requalificação num momento em que a tecnologia transforma a sociedade de forma contínua e põe em causa tantas funções; é portanto imperativo requalificar, sendo esta uma área curial para as empresas terem escala e desenvolvimento, permitindo o crescimento do estado na perspectiva de facilitador da actividade económica e que assegure o desenvolvimento a do país.

O BRP irá apresentar os primeiros resultados dos grupos de trabalho em Fevereiro, propositadamente após as eleições, pois não se pretende constituir um factor de discussão neste período, pelo que se irão debater e aprofundar estes assuntos até depois do sufrágio.

No final desta apresentação não se pode deixar de abordar o propósito do grupo José de Mello, e, no fundo, a sua razão de ser: cultivar o seu legado de excelência, empreendedorismo e talento, com a aposta na promoção da prosperidade e do desenvolvimento sustentável a partir de Portugal e de cada um como participante activo da realidade portuguesa, com a necessidade de reflectir sobre os motivos de intervenção na economia e na sociedade, e onde as ideias de pertença do grupo são um farol para todos os colaboradores.

O grupo José de Mello está na quinta geração. Envolvem-se os accionistas do grupo, os familiares que estão na administração, os seus filhos e sobrinhos e um conjunto alargado de colaboradores num processo que a todos interessa e em que se decide também rever o protocolo familiar preparando-o para o os vindouros, sejam familiares, accionistas ou colaboradores, num muito extenso processo de fundo.

Reafirma-se a vontade de todos os órgãos dirigentes: continuar a ser uma família empresária. Nesta casa considera-se que a família é a unidade essencial e que apenas faz sentido a união da família, contribuindo para o desenvolvimento e a prosperidade. Quer-se que no país as pessoas se revejam num sentimento de pertença, com valores e objectivos cristalinos. Não há outra forma de trabalhar; nem de viver.

Pedro Cotrim

Editor

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