Acontece-nos tantas vezes estarmos a «viver» no futuro: o que tenho de fazer amanhã e na próxima semana, a preencher programas para daqui a 3 meses, a trabalhar para o projecto y em 2023, a planear a viagem x de 2024, a pensar onde estou em 2025, e assim sucessivamente. E porque não viver o aqui e agora?
POR MARGARIDA TEIXEIRA DE SOUSA

Chega o Verão, porventura a altura do ano mais esperada. Muito pelo calor e pela praia, mas essencialmente pelo que de melhor nos dá: férias. O tempo de parar, de descansar, de viajar, de estar. Creio que são estes os verbos que levamos na nossa mala de viagem. 

E quando regressamos? 

No outro dia, estava pelo centro de Lisboa a beber um copo com umas amigas, e diz uma delas «finalmente estou quase a entrar de férias, preciso de descansar»; e a outra responde «eu já não tenho mais férias este ano, acabou-se o descanso». Foi o mote para o tema seguinte: o excesso de trabalho e os sintomas de burnout

No mundo e nos tempos que vivemos, mais do que nunca, a vida de quem trabalha grita a palavra «descanso». À questão da saúde mental no trabalho, renovada pela pandemia, aliada às inúmeras iniciativas de conciliação trabalho-família nas empresas, suscita-se uma resposta ao excesso de horas que despendemos no escritório e que não nos permite ter tempo de viver os verbos que levámos na mala de Verão. 

Recentemente, no Reino Unido lançou-se a «maior» experiência do mundo, num projecto-piloto de 6 meses que envolveu 3300 trabalhadores em 70 empresas – foi posta em prática a semana de 4 dias de trabalho. Um projecto que reflecte o grau de saturação das pessoas em relação à falta dos verbos de Verão. Talvez importe não olhar para este projecto apenas como «boa, poderemos vir a ter mais um dia de descanso!», mas sim com a pergunta «O que é que na minha vida, de facto, me descansa?», e investir na gestão desse tempo. As pessoas precisam de descansar: de ocupar o seu tempo com o que de facto gostam e de fazer necessariamente o que precisam. De estar em paz. 

Deixo três sugestões que me têm servido para aliviar estas inquietações; creio que, de alguma forma, todos encontramos no caminho. 

Há um livro que aprecio deveras: Só Avança Quem Descansa, do Pe. Vasco Pinto Magalhães sj, que fala precisamente da sabedoria do tempo e de como podemos usá-la para descansar, em prol também dos outros e da sociedade. 

«Há que assumir, purificar e desenvolver as prioridades do coração. As prioridades do coração são as que comandam a vida, não são as da cabeça. Na cabeça está tudo claro! Resta saber se quero realmente: que tempo dou eu àquilo que importa que tenha tempo?»

Esta é a primeira ideia de reflexão: que prioridades ando eu a viver? As da cabeça ou as do coração? 

Em segundo, outra expressão, que todos já ouvimos, mas que tem uma carga de sabedoria enorme, e me ajuda bastante é «viver o aqui e o agora». 

Não só no Verão, quando viajamos, quando estamos com quem mais gostamos, mas de conseguirmos viver o «aqui e agora» no nosso dia-a-dia. Acontece-nos tantas vezes estarmos a «viver» no futuro: o que tenho de fazer amanhã e na próxima semana, a preencher programas para daqui a 3 meses, a trabalhar para o projecto y em 2023, a planear a viagem x de 2024, a pensar onde estou em 2025, e assim sucessivamente… um perigo! Esta constante projecção no futuro, que é evidentemente necessária para preparar actividades futuras, é o que verdadeiramente nos tira o descanso e nos faz viver «fora da realidade». 

No livro A Mística do Instante, o Pe. José Tolentino de Mendonça fala-nos do sacramento do instante: «Ora, o ponto místico de intersecção da história divina com a história humana é o instante», e continua «este preciso minuto onde nos situamos, esta hora concreta das nossas vidas (….) Mas que, ao mesmo tempo, é capaz de informar-nos do iminente, do que se avizinha no previsível ou imprevisível». 

É importante termos consciência destes movimentos interiores, entre passado e futuro, e percebermos a importância de estarmos presentes, de aceitarmos a realidade e de vivermos cada encontro. 

Por último, gostaria de acrescentar outro verbo à mala de viagem e que me ajuda muito a descansar também durante o ano: contemplar. De me deixar interpelar pela realidade através do olhar. E fazer este exercício diário, não só quando ocasionalmente vejo o mar ou as estrelas, mas também à refeição, quando vejo os alimentos; quando vejo a rua a caminho do trabalho; quando passo pelo jardim perto de casa; quando olho para aqueles de quem mais gosto; quando me dou tempo para olhar. Faz-nos estar inteiros e não divididos. Dá-nos o equilíbrio na rotina ao invés de imitarmos robôs a fazer somente coisas. 

A poeta Sophia de Mello Breyner usava uma expressão que gosto muito: «viajar é olhar». 

Porque, e necessariamente, olhar abre-nos ao exterior, a novos horizontes, leva-nos para fora de nós e do nosso umbigo, para fora deste movimento auto-centrado que tanto nos tira a liberdade e nos cansa. 

Parece que já sabemos tudo isto, e que é lógico e faz sentido, mas precisamos de trazer à memória e à vida esta mala de Verão que leva lá dentro o descanso e de como o podemos viver, mas que no regresso ao trabalho deixamos no armário. 

Acredito que o descanso bem vivido no dia-a-dia, e que obviamente não é fácil para as agendas mais preenchidas, pode  começar nas pequenas coisas. Por consequência, sermos mais nós próprios, vivermos com mais verdade o encontro com os outros e vivermos com mais leveza e disponibilidade as nossas responsabilidades e relações laborais. 

«Benditos sejam os instantes, e os milímetros, e as sombras das pequenas coisas» – Fernando Pessoa, Livro do Desassossego.

MARGARIDA TEIXEIRA DE SOUSA

Licenciada em Gestão e Mestrado em Empreendedorismo e Inovação Social. Trabalha na ACEGE