Quem o afirma é Manuel Bermejo, professor na IE Business School e sócio fundador da consultora espanhola “The Family Advisory Board”. No âmbito do 1º Estudo Ibérico de Governance em Empresas Familiares lançado esta semana pela TFAB em colaboração com ACEGE e pela AEF e em entrevista ao VER, Manuel Bermejo fala do impacto que a crise pandémica está a ter nas empresas familiares, uma área da sua especialidade, não negando os seus efeitos negativos, mas acreditando que esta poderá ser também a altura certa para que estas se reinventem e se tornem mais competitivas
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A relação de Manuel Bermejo com a empresa familiar é tripla. Filho e neto de empresários de sucesso, sempre viveu a realidade própria dos negócios de família, levando a cabo os seus próprios projectos empresariais. “A minha vocação é ser um empreendedor”, afirma, acrescentando que este facto lhe conferiu o conhecimento necessário inerente às diferentes categorias da actividade empresarial: franchises, gestão de novas empresas e de PME, e negócios familiares. Enquanto professor titular na IE Business School, o seu trabalho tem incidido em particular nestes últimos, ao que junta uma vasta experiência como gestor sénior em empresas de diferentes sectores, como a educação superior, o capital de risco e a indústria agro-alimentar. Bermejo é também professor convidado em várias universidades da América Latina, conferencista internacional e autor de vários livros, tendo a sua tese de doutoramento incidido sobre a visão ética da empresa familiar. Recordando que quase dois terços das empresas mundiais são, na verdade, negócios familiares, sublinha a importância de ajudar estas organizações a serem mais competitivas para assegurar a sua continuidade. E é também essa a missão da consultora The Family Advisory Board, especializada em assessoria familiar e consultoria estratégica.

De que forma é que a pandemia provocada pelo novo coronavírus afectou as empresas familiares?

O terramoto provocado pela Covid-19 afectou os quatro grandes pilares que sustentam as famílias empresariais: negócios rentáveis que crescem, a coesão da família, o património e uma boa reputação. Assim, e desta forma, o seu impacto está a ser muito significativo e as famílias devem actuar de uma forma muito responsável para trabalharem na recuperação destes quatro pilares.

Adicionalmente e do ponto de vista empresarial, a crise provocada pela Covid-19 assenta em dois efeitos por excelência: o primeiro, de curto prazo, que deriva do facto de muitas empresas terem sido obrigadas a fechar a sua actividade ou terem assistido à redução dos seus rendimentos. Na verdade, e no seguimento de uma pesquisa efectuada pela nossa empresa, a The Family Advisory Bord, mais de 80% das empresas familiares inquiridas esperam ver reduzida a sua facturação em 2020. Mas, e por outro lado, um novo mercado está também a tomar forma, com novos hábitos e novas regras que obrigarão as empresas a trabalhar arduamente para se reinventarem e voltarem a ser competitivas neste novo ambiente.

Tendo em conta a vertente empresarial e a vertente familiar, que resposta considera ser a mais adequada para lidar com a crise instalada?

No que respeita ao lado empresarial, o meu conselho é que as empresas familiares revejam as suas estratégias de negócio para identificarem de que forma é que poderão continuar a ser competitivas. Vivemos tempos que exigem uma atitude claramente darwinista, no sentido de se desenvolver uma boa inteligência de mercado e ter-se a mente aberta relativamente a qualquer tipo de inovação: desde os produtos até à estrutura organizacional.

Por seu turno e no que respeita à família, os tempos que vivemos exigem, sobretudo, muita comunicação entre os seus membros, no sentido de se perceber de que forma é que esta nova realidade irá afectar as empresas familiares ou os rendimentos dos seus próprios membros.

Não existem dúvidas que esta crise trará elementos de tensão às famílias empresariais. O mais óbvio será a falta de recursos para pagar dividendos ou, pelo menos, não no mesmo montante que anteriormente. Isto obrigará as famílias a estabelecer canais de comunicação e a recorrer aos seus conselheiros de confiança para chegar a posições consensuais.

E qual são os procedimentos para ultrapassar o “drama” das sucessões, especialmente na terceira geração onde, tradicionalmente, tantas empresas falham?

Para uma boa sucessão, a primeira coisa é que as partes envolvidas, sucessores e sucedidos, aceitem que é necessário pôr em prática um processo bem pensado e melhor executado. Algo muito importante no contexto actual é assegurar que os sucessores mantenham a “fome” para continuar a fazer crescer o negócio e uma grande capacidade empreendedora. Se o espírito empresarial não passar de geração em geração, então temos um problema.

Sabendo que a ética e os valores são essenciais para a sobrevivência de qualquer empresa, que papel desempenham em particular nas empresas familiares?

Os valores são fundamentais na empresa familiar porque é nos comportamentos que derivam destes valores que reside a base para o seu sucesso. E é por isso que devem ser devidamente identificados, para que sejam praticados pela gestão É necessário inovar, transformar, mas respeitando a essência da empresa familiar.

A pandemia veio alterar, de alguma forma, a governança das empresas familiares?

Agora, mais do que nunca, as empresas familiares precisam de liderança e de uma boa governança. É muito importante que haja transparência neste momento e que seja recolhida informação de qualidade para abrir caminho a discussões estratégicas de alto nível, bem como a uma boa tomada de decisões, pois o objectivo agora é concentrarmo-nos no novo roteiro pós-Covid.
A governação familiar é também muito relevante, sendo tempo de activar os conselhos familiares e assegurar que a família reveja os seus planos estratégicos familiares para recuperar os quatro pilares de que falei no início: empresa, família, riqueza e reputação

Qual o papel da formação nas empresas familiares?

Creio que, para além da formação em gestão geral, as famílias empresariais devem participar em fóruns de formação para enriquecer os seus pontos de vista tendo em conta as experiências de outras famílias e as lições que os peritos em empresas familiares partilham. Além disso, os cursos para famílias empresariais constituem um grande catalisador para as famílias iniciarem processos de profissionalização das suas estruturas de governação e gestão. Existem agora vários programas online que permitem compatibilizar o trabalho como empresário e a sua formação. Adicionalmente, os proprietários das famílias empresariais têm de ser verdadeiramente responsáveis e não actuar somente como bombeiros que se dedicam a apagar os fogos que são as urgências do dia-a-dia.
A desejada continuidade da empresa familiar exige muito “músculo estratégico” e é por isso que a formação de qualidade na empresa familiar é tão importante.

Com a explosão do teletrabalho, como devemos olhar para a conciliação familiar?

A conciliação familiar é um objectivo muito relevante na nossa sociedade e o teletrabalho pode constituir uma boa ajuda. Mas o que temos visto nesta pandemia é um exercício de adaptação urgente, o qual obrigou muitos trabalhadores não só a teletrabalhar, mas também a serem tele-professores dos seus filhos, tele-cozinheiros e tele-ajudantes dos familiares mais idosos. Acredito que o teletrabalho seja uma boa fórmula, mas exige um cenário no qual se possam dedicar horas de qualidade ao trabalho, a par de uma fixação clara de objectivos e o seu respectivo controlo.

A seu ver, e apesar da incerteza, existe alguma receita que as empresas devam seguir para que possam superar esta crise sem precedentes?

Creio que a melhor receita para sair desta crise passa pela criação de condições para que a maioria das empresas consiga superar esta situação delicada sem ter de encerrar as suas portas. E na medida em que são os empresários que têm a responsabilidade de criar riqueza para sustentar o Estado-providência, os governos devem concentrar-se em salvar o tecido produtivo.

Paralelamente, e materializadas as ajudas da União Europeia, estas devem ser disponibilizadas aos empresários, especialmente em sectores que necessitam de uma grande revitalização, tais como o turismo, a indústria hoteleira ou a indústria automóvel, os quais têm também uma grande importância no produto interno bruto dos nossos países. O maior progresso residirá na possibilidade de os cidadãos conseguirem encontrar um bom emprego e, para isso, o papel das empresas é fundamental. Que ninguém se esqueça disto.