Por ocasião da sua 7ª Convenção Anual, a Rede RSO PT elegeu como temática de debate este ano o “crescimento inteligente com as pessoas e as organizações”, enquanto um dos pilares da responsabilidade social, bem como um eixo decisivo no posicionamento de Portugal no mundo globalizado. A promoção de redes regionais fortes, com o objectivo de fortalecer a interacção entre empresas, universidades, instituições e cidadãos, consistiu na principal mensagem veiculada neste evento
POR
MÁRIA POMBO

Realizou-se, no passado dia 16 do presente mês, a Sétima Convenção Anual da Rede RSO PT, este ano dedicada ao tema “Responsabilidade Social: crescimento inteligente com as pessoas e as organizações”. Considerando que são as pessoas que constituem as empresas e as organizações, e que o desempenho das primeiras se reflecte nos lucros e no impacto das segundas, a Responsabilidade Social continua a assumir-se como parte fundamental da estratégia que os gestores e empresários devem adoptar. Segundo os promotores do evento, não nos podemos esquecer de que são as pessoas que formam o capital das empresas, através das suas competências e qualidades, independentemente de estarmos perante processos produtivos, sociais ou culturais.

Segundo a Estratégia Europa 2020 – a qual visa, em particular, a saída da crise e a transformação do continente europeu (especificamente dos seus Estados-membros) num território mais competitivo e próspero – este denominado crescimento inteligente pressupõe a aliança entre conhecimento e inovação. Para que chegue a bom porto, este terá ainda que ser sustentável e inclusivo, no sentido em que, por um lado valoriza a utilização dos recursos disponíveis e o crescimento verde e, por outro, combate a pobreza ao impulsionar o emprego.

Desta forma, “aprender, trabalhar e competir” voltam a assumir o estatuto de “palavras de ordem” numa Europa que pretende incrementar a qualidade dos seus sistemas de ensino, valorizar a investigação, e também estimular a inovação e a troca de conhecimento, de forma a criar novos produtos e serviços que sejam capazes de gerar postos de trabalho.

Para além da componente educativa, o crescimento inteligente reforça a importância da componente tecnológica, potenciando a proliferação de conhecimento. Os sistemas inteligentes apelam, assim, à combinação entre as novas tecnologias (como a nanotecnologia ou a biotecnologia industrial) e as tecnologias maduras (tão díspares quanto as que suportam a agricultura ou as telecomunicações), originando um vasto conjunto de produtos de que usufruímos diariamente. O exemplo da articulação entre as energias alternativas e o ambiente é um dos mais expressivos e tem permitido criar diversos produtos e serviços na área do desenvolvimento sustentável. Através deste “trabalho conjunto”, é finalmente possível pensar em cadeias de valor globais, estratégias colaborativas – de que são exemplo as redes e a as alianças estratégicas -, diferenciação e inovação, entre outros factores que são cruciais ao crescimento inteligente e ao aumento da competitividade.

No entanto, não é possível traçar um plano estratégico de inovação em Portugal sem ter em conta as dificuldades sociais e económicas que o País enfrenta actualmente. Foi por este motivo que, na presente Convenção, foi abordada a intervenção das políticas nacionais e locais especialmente no que respeita à inclusão social e ao emprego, a qual tem de ser reforçada. À urgência de se modernizar o mercado de trabalho, tendo em particular linha de conta a melhoria da adequação às suas principais necessidades, junta-se também a questão do aumento da mobilidade transnacional e medidas que a estimulem.

O papel de Portugal no mundo globalizado

23042015_AprenderTrabalharEcompetirA Estratégia 2020, que visa também a “especialização inteligente”, manifestada a nível regional, tem de combinar o conhecimento e a acumulação de capital humano de acordo com as estruturas económicas em causa, alinhando as suas vantagens competitivas com a evolução da procura internacional. Ou, em suma, o objectivo consiste na obtenção, desejável, de um verdadeiro e forte crescimento económico, no qual são aproveitados os recursos de cada região para um propósito conjunto. A aposta num “plano regional de inovação”, especializado e inteligente, revela-se assim fundamental à cooperação estratégica, considerando que permite a valorização em cadeia ao favorecer a interacção entre empresas, universidades, instituições e pessoas singulares. É nesta medida que o mesmo visa sustentar o combate à pobreza e o reforço da cidadania, através da valorização de competências e qualificações.

Por este motivo, lançou-se o apelo à reflexão acerca de duas grandes vertentes de intervenção, designadamente a inserção adequada das pessoas na sociedade, por via de oportunidades de trabalho, mas também a igualdade de oportunidades entre homens e mulheres. A primeira dimensão pretende reforçar a capacitação de pessoas e o apoio directo às mesmas através de melhores serviços de apoio aos cidadãos. Já a segunda elege essencialmente as questões profissionais, como a igualdade salarial, a conciliação entre a família e o trabalho, a progressão na carreira, etc. Para além de estimularem a inovação e a competitividade, estes factores permitem uma gestão mais ética e responsável por parte das organizações, estimulando a coesão social e o bem-estar da população.

Explorar o crescimento inteligente significa questionar as funções que Portugal pode e deve desempenhar na globalização. Entre as questões que devem ser levantadas e exploradas, há que dar, novamente, prioridade à qualificação, à atracção e retenção de talentos, à aposta na inovação, ao reforço do diálogo entre as diversas regiões (quer seja por meio físico ou digital), em conjunto com a melhoria da qualidade de vida em meio urbano. São estes alguns dos requisitos fundamentais para a afirmação de Portugal no mundo globalizado.

De acordo com os oradores, a articulação entre o conhecimento e o capital humano irá reforçar a incorporação da Responsabilidade Social no ADN das organizações, tornando-as mais competitivas a nível nacional e internacional. Esta visão transforma as empresas em entidades sociais, impondo mudanças que levam à construção de uma nova cultura empresarial que implique a valorização dos recursos de que as mesmas dispõem e do meio em que se inserem.

Promover a qualidade de vida dos colaboradores das empresas e dos cidadãos em geral é um requisito essencial desta “nova cultura”. Apesar de o rendimento não ser o único factor que potencia o bem-estar, é através deste que se alcança a satisfação de algumas necessidades relacionadas com bens económicos, sociais e culturais, cuja fruição origina, consequentemente, progresso e coesão económica e social. Viver num ambiente saudável e seguro, com acesso a água potável, a espaços verdes e a diversos serviços, e também com boas relações de “vizinhança” contribui fortemente para o reforço da qualidade de vida dos cidadãos.

As práticas de Responsabilidade Social são, assim, fundamentais para responder aos desafios impostos pela crise financeira, na medida em que apoiam a recuperação económica de Portugal e da Europa, tentando corrigir os erros anteriormente cometidos, focados na obsessiva valorização do “poder dos mercados” e dos lucros de curto prazo, implicaram que algumas regras da boa gestão, boa governação e da ética empresarial fossem esquecidas e/ou deturpadas.

Na medida em que o rendimento não consiste no único elemento determinante para a melhoria da qualidade de vida, há que adicionar aos bens económicos as componentes sociais e culturais. O cenário ideal passa pela criação de mais centros de estudo ou espaços de cultura, ou ainda de cooperação empresarial, na medida em que são estes que, de forma crescente, sustentam a inovação, a interacção, a liderança colaborativa e a partilha de conhecimentos entre os trabalhadores das diversas organizações. A proliferação de informação e conhecimento revela-se, assim, um pressuposto crucial para o crescimento inteligente, tendo em conta que “o conhecimento e a informação só criam valor a partir do momento em que circulam e são partilhados”.

O desafio que a Rede RSO PT continua a perseguir é o de reforçar as ligações entre as organizações no âmbito económico, social, cultural e institucional, favorecendo a recuperação económica sustentável através da constituição de sinergias. Promover o diálogo e a cooperação entre empresas, instituições sociais, pessoas e a sociedade em geral significa tornar Portugal mais competitivo e reforçar o seu papel na globalização.


Semana da Responsabilidade Social
Promover e estimular o debate

Sob o tema “Sustentabilidade, Negócios e Confiança”, a Associação Portuguesa de Ética Empresarial (APEE), membro da Rede RSO PT, promove a sua décima edição da Semana da Responsabilidade Social. A realizar entre os dias 25 e 29 de Maio, o evento pretende estimular o debate, por parte de representantes governamentais, organismos públicos, empresas, universidades, parceiros sociais, economia social e cidadãos, sobre esta temática.

A discussão deste ano irá centrar-se essencialmente na urgência de serem adoptados modelos de gestão empenhados na transparência organizacional, mas também no respeito pelas partes interessadas e na promoção de um mercado mais justo, equilibrado e gerador de confiança.

Promover o debate acerca da Responsabilidade Social, integrando diversos stakeholders, divulgar iniciativas e sensibilizar as organizações para a importância da implementação de valores éticos são os principais objectivos deste evento, que irá decorrer em Lisboa, mas que percorrerá, de seguida, o País com diversas acções. O grande propósito deste evento é o de demonstrar, na prática, que a gestão responsável e a implementação de boas práticas no seio das organizações conduzem a uma maior rentabilidade, competitividade e reputação.


Mária Pombo

Jornalista