São vários os programas existentes que têm como objectivo principal o apadrinhamento de crianças nos países em desenvolvimento. Todavia, a avaliação do impacto deste tipo de projectos não tem sido devidamente estudada. Uma pesquisa recente realizada pelo departamento de Economia e Estudos Internacionais na Universidade de São Francisco comprova que é possível pôr um ponto final na perpetuação da pobreza
POR HELENA OLIVEIRA

De acordo com um artigo publicado na Stanford Social Innovation Review, são vários os programas internacionais que têm como objectivo principal “apadrinhar” crianças que vivem no mundo em desenvolvimento, proporcionando-lhes o apoio financeiro necessário para que prossigam e terminem, pelo menos, os seus estudos secundários. O artigo, escrito por Bruce Wydick, Paul Glewwe e Laine Routledgde, vem no seguimento de um estudo internacional realizado por estes três professores, o qual avalia o impacto deste tipo de programas nos resultados alcançados na vida adulta por parte dos apadrinhados.

O VER republica o artigo em causa, complementando-o com a análise daquela que foi considerada a melhor – em termos de impacto positivo na vida dos beneficiários – organização sem fins lucrativos que actua nesta área em particular: a Compassion International.

Perguntaram a um casal do Uganda, aquando do nascimento do seu primeiro filho, se estariam dispostos a inscrever o bebé num programa de apadrinhamento de crianças [o termo em inglês é mesmo “patrocinar”] – similar ao que os tinha ajudado a ambos a terminar os seus estudos e a entrar no mercado laboral. O casal respondeu negativamente e explicou porquê: “a pobreza acabou connosco”.

De acordo com um estudo recente, os programas internacionais de apadrinhamento de crianças angariam, colectivamente, mais de 3 mil milhões de dólares anualmente. As fotografias de crianças de países em desenvolvimento coladas nos frigoríficos das casas das suas congéneres nos países ricos ajudam, claramente, as organizações em causa na angariação de fundos. Mas será que os donativos auferidos por estas crianças têm realmente impacto e são passíveis de ser “medidos” quando chegam à vida adulta? Pelo menos para uma das várias organizações em causa, a resposta é sim: “O impacto que encontramos não só em termos de finalização do ensino secundário mas também na empregabilidade é notável”, afirma Bruce Wydick, professor de Economia e Estudos Internacionais na Universidade de São Francisco. “Fizemos estudos em seis países e em todos eles encontramos sinais positivos deste apadrinhamento”.

Wydick e os colegas seguiram mais de 10 mil adultos da Bolívia, Guatemala, Índia, Quénia, Filipinas e Uganda. Os adultos que receberam apoio caritativo enquanto crianças têm um terço a mais de probabilidades de terem terminado os estudos secundários e, em média, completaram ainda mais de um ano de educação adicional. Adicionalmente, têm 35% a mais de possibilidades de encontrar um emprego de “colarinho branco” comparativamente aos seus pares que não receberam este tipo de apoio.

“Foi provavelmente esta avaliação do impacto que me obrigou a mudar de ideias no que respeita aos verdadeiros benefícios deste tipo de programas”, afirma David McKenzie, um economista chefe do departamento de investigação do Banco Mundial. E o impacto neste caso é especialmente notável, afirma, “dado a ausência de dados em muitas outras intervenções que têm sido as ‘queridas’ da ajuda mundial”.

Os resultados deste estudo não se aplicam necessariamente a todos os programas de apadrinhamento de crianças existentes. Wydick e os seus colegas contactaram muitas organizações de apadrinhamento, mas apenas uma – a Compassion International – se mostrou completamente disponível para participar neste estudo. A Compassion International é uma organização assistencial, de inspiração cristã, com enfoque exclusivo nas crianças e que segue um modelo de apadrinhamento puro: em vez de utilizar os donativos que recebe para financiar bens públicos como a construção de uma estrada ou uma escola, direcciona todos os subsídios angariados para a ajuda individual a crianças. A Compassion International não se limita a ir ao encontro das necessidades de alimentação, vacinas e apoio escolar das crianças, como também presta auxílio no que respeita ao seu desenvolvimento emocional, espiritual e social. Ou, num sentido mais alargado, o seu programa incute um sentimento de esperança.

E a esperança, como descobriu Wydick em estudos subsequentes, pode ser crucial para resultados positivos. “Se apenas se der às crianças uma esperança sem lhes oferecer também alguma base para essa esperança, então é muito provável que não funcione”, afirma. “Ou seja, se a ajuda se materializar apenas em apoio para a instrução escolar e uniformes para as crianças sem, em simultâneo, se aumentar o seu nível de aspirações, estas poderão não vir a acreditar que são verdadeiramente capazes de obter níveis de educação mais elevados e de terem melhores perspectivas de empregabilidade comparativamente aos seus pais”.

O programa da Compassion International é relativamente dispendioso [de acordo com o site da organização, o programa de apadrinhamento “standard” custa cerca de 38 dólares por mês], mas tem um impacto substancial – em especial, em certos grupos de pessoas. “Se realmente pretende fazer algo de bom no mundo, apadrinhe uma criança na África subsaariana através de uma organização que utilize um modelo puro de apadrinhamento”, aconselha Wydick. “E se pretende fazer algo ainda com mais impacto, apadrinhe 10 [crianças]”.

© Stanford Social Innovation Review. Republicado com permissão.

“Libertar as crianças da pobreza espiritual, económica, social e física”
O terceiro maior programa de apadrinhamento do mundo é o da Compassion International, uma organização sem fins lucrativos, com uma base religiosa e cujo objectivo é o de “libertar as crianças da pobreza espiritual, económica, social e física”. A Compassion aposta, na sua maioria, em projectos locais, sendo que os trabalhadores estrangeiros são raros. Os projectos contam com o apoio de voluntários pertencentes a igrejas locais e de outras organizações similares que se predispõem a levar a cabo os seus objectivos. Os benefícios das crianças apadrinhadas variam, em algum grau, de país para país e, por vezes, no interior do mesmo país.

© Compassion International

No Uganda e no Quénia e em três dos projectos realizados na Bolívia, a Compassion é responsável por centros de estudos nos quais as crianças apadrinhadas se juntam aos sábados ou depois da escola, durante os dias de semana. Os estudantes participam assim em programas estruturados nestes centros, nos quais recebem orientação académica, instrução espiritual, cuidados de saúde, refeições nutritivas e material para a escola. As crianças participam também num conjunto variado de jogos e actividades. Na maioria dos projectos financiados pela Compassion, os estudantes recebem também subsídios e uniformes escolares. Na maioria das vezes, as crianças e jovens são ajudados financeiramente ao longo de todo o ensino secundário, e um número deles, ainda que reduzido, continua a receber apoio na universidade através do programa de desenvolvimento de liderança da organização.

No Guatemala e nas Filipinas, os programas da Compassion são realizados em escolas cristãs, nas quais os estudantes recebem benefícios similares, apesar de a orientação académica não constituir, na generalidade dos casos, um componente específico do apadrinhamento. Na Índia e em um dos projectos na Bolívia, a Compassion colabora com programas governamentais que dão aos pais pagamentos directos em dinheiro mediante a condição de estes serem utilizados na continuação dos estudos por parte dos seus filhos.

Os estudantes participam em programas estruturados, nos quais recebem orientação académica, instrução espiritual, cuidados de saúde, refeições nutritivas e material para a escola

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Adicionalmente, todos os projectos oferecem, igualmente, cuidados de saúde básicos, os quais incluem exames físicos administrados por enfermeiras e médicos locais nas escolas da Compassion e nos seus centros de estudos. Incluído também está um seguro de saúde em caso de situação “catastrófica”, mas financiado através de um fundo separado da responsabilidade da sede da Compassion, no Colorado, nos Estados Unidos da América. Se uma criança que esteja a ser apoiada pela Compassion tiver uma doença grave ou a necessidade de uma cirurgia, por exemplo, este fundo cobre os custos totais do procedimento e da hospitalização. Nos casos raros em que as crianças tiveram de beneficiar deste tipo de cuidados, o benefício em causa foi esmagadoramente considerado como o mais útil apoio concedido pelo programa. Independentemente deste seguro em particular, todos os financiamentos direccionados para as crianças derivam de contributos mensais regulares por parte dos padrinhos.

Todas as crianças apadrinhadas através da Compassion escrevem cartas, várias vezes por ano, aos seus padrinhos e a grande maioria – de acordo com os dados do estudo, 71,8% – recebem também cartas dos próprios padrinhos. Adicionalmente, e uma vez por ano, os padrinhos recebem uma fotografia da “sua” criança” acompanhada de um relatório que lista os seus progressos escolares realizado pelos trabalhadores locais da Compassion. A maioria das crianças (83,7%) recebe também presentes de aniversário por parte dos seus padrinhos. Estes podem também viajar para visitar a criança apadrinhada e a sua família. Apesar de não ser incomum, este procedimento também não é uma norma.

O questionário em causa incluiu uma pergunta aberta, na qual se questionou, aos antigos beneficiários do programa, qual o componente que mais destacavam em termos de benefícios. A resposta mais comum foi o apoio educativo (38,5%), sendo que no interior desta categoria, o pagamento das propinas escolares foi o mais citado. A segunda resposta mais comum foi o desenvolvimento espiritual e de carácter (29,4%), seguido da ajuda económica (9,5 % – um valor que não foi mais elevado do que o dos dois países nos quais os pais recebem directamente os pagamentos em dinheiro), os benefícios com os cuidados de saúde (2,8%) e os presentes recebidos por parte dos padrinhos (0,8%).

A selecção das crianças a serem apadrinhadas é feita localmente e obedece aos seguintes critérios:

  1. As crianças apadrinhadas devem ser provenientes de famílias de baixos rendimentos e que vivam perto dos locais onde existam centros da Compassion International. Se apenas for possível apadrinhar uma determinada percentagem de crianças, a escola ou um comité de pais deverá escolher as crianças que vivam em famílias mais desfavorecidas;
  2. Aos órfãos, às crianças que vivam apenas com um dos pais e aos refugiados será dada prioridade especial;
  3. A criança não pode ser apadrinhada por uma outra instituição;
  4. As crianças, sejam ou não cristãs, deverão ter direito ao apadrinhamento, mas todas as famílias deverão permitir que os seus filhos recebam a instrução religiosa inerente ao projecto
  5. A Compassion apadrinha um máximo de três crianças por família, sendo que em alguns países, o limite é de um ou, no máximo, duas crianças, por família.
  6. As crianças com mais de 12 anos não podem ser apadrinhadas, dando-se prioridade máxima aos que frequentam o jardim infantil, o primeiro, segundo e terceiro anos de escolaridade.