A experiência de viver em comunhão com a natureza foi profunda. Estendi muitas vezes o saco-cama fora da tenda para adormecer a olhar o céu estrelado e as fases da lua. Às vezes via a Lua a sair do infinito e a reflectir a sua luz no mar que não se mexia. Como é possível que eu tinha vivido tantos anos sem ver isto?
POR CLÁUDIA VIDEIRA

Fui desafiada para escrever para o Portal VER. Leio um artigo ou dois e fico deliciada. ACEITO! Há muito tempo que não escrevo. O início deste sonho que agora tem um corpo agarrado iniciou-se em 2017 com o meu blog «Descobrir com Alma». Reestruturar a minha página não lhe tirando a essência é algo por fazer e que com este convite se torna ainda mais importante.

Regresso então a esse 2017, o ano da viragem. Fui bancária durante 14 anos e era agora gerente de agência há três. E a voz interior que não se calava; ou então dava-lhe eu finalmente ouvidos e encarava os medos de uma vida? Já nada havia a fazer naquele balcão. Sentia que já tinha cumprido a minha missão e que aquele já não era o meu lugar. Mas o que ia eu fazer? Não fazia ideia. Sabia apenas que estava de partida e depois se veria. Saí do banco em Setembro de 2017. Comprei um bilhete só de ida para o Nepal e ainda pensei em viajar pela Índia e continuar pelo mundo. Sempre gostei de viajar, mas não tinha muito tempo para VIVER os lugares. Desta vez tinha e só me imaginava a dar a volta ao mundo e a desfrutar de todos os lugares com o tempo que merecem e que eu bem entendesse.

Nasci e fui criada numa aldeia na Serra da Estrela, naturalmente educada de forma conservadora, onde os padrões incutidos, como em muitas outras famílias, são estudar, trabalhar, ter uma casa, um carro, casar e ter filhos. Com grande alívio, a minha mudança não foi vista de forma muito dramática pelos meus pais, uma situação que eu muito temia. Já haviam percebido que eu andava cansada e que as coisas não me faziam sentido! Dois anos depois, e ainda sem ter um rumo concreto, a minha mãe pergunta: «não estás arrependida?». «Mãe, só daquilo que ainda não fiz».

Mas esta volta ao mundo ficou comprometida, pois ainda aceitei um desafio que achava ser a minha cara. Sei agora que foi novamente o medo a tomar conta de mim. O medo de não encontrar outro sustento, pois vivi 18 anos com um salário certo ao dia 25 de cada mês. Estava numa idade que todos afirmam como complicada para encontrar um emprego com esta estabilidade. Neste momento da minha vida, apenas vos digo sem ligeireza: sigam o coração e não peçam opinião.

Estava então noutro trabalho, mas pelo menos sabia que ia sair da banca. «Quer vir conversar comigo? Tenho uns projectos.» Mudava da Serra para uma cidade do Norte. Agradava-me a mudança de sítio e tinha um novo objectivo, nada a ver com o que fazia anteriormente. Fui inicialmente gerente de duas lojas turísticas, com a missão de as pôr a vender mais. Senti-me insegura, mas não o demonstrei. Usei todas as ferramentas que tinha adquirido até então e o meu trabalho foi um sucesso. Percebi mais uma vez que os medos são tramados para a nossa evolução.

Claro que quando não se sabe interpretar os sinais da vida, a vida encarrega-se de os mostrar. Não era aquele o caminho. «Estamos desiludidos contigo, achámos que hoje ias estar presente». Não podia ter uma folga que já não gozava há um mês. Tinha abdicado de ir visitar a minha família que não via há trinta dias. Passei assim de promessa a desilusão, e é deste modo que algumas empresas, porventura interessantes, não sabendo exercer a liderança nem gerir de forma emocional, pelo menos no meu entendimento, perdem os melhores.

Afirmo sem modéstia que há muitas Cláudias nas empresas portuguesas: são dedicadas, responsáveis, vestem a camisola de uma casa que não é delas, são polivalentes, põem o trabalho e o sucesso da empresa acima do bem-estar delas e que são tomadas como um número, um custo e um investimento. Um bom ordenado não é tudo nesta vida.

«Cláudia, está na hora de fazeres o que nunca fizeste – cuidar de ti. Colocares-te em primeiro lugar e aprenderes a dizer não para encontrares partes de ti que andam perdidas. É Maio de 2019, o que vais tu fazer?»

Abro aquela pasta no PC, que guarda fotos de lugares que me impressionam e que não tenho tempo sequer de descobrir onde são. Procuro uma imagem que guardei recentemente. Era o lugar que eu tinha escolhido. Pesquiso sobre ele e encontro Diogo Tavares, responsável pela Vadiagem Outdoors. Faço-lhe umas perguntas através das redes sociais e precisei de muito pouco para saber que o que eu estava a sentir era para acontecer ali e agora. No dia 4 Junho de 2019 embarco para a Ilha das Flores sem data de regresso. A tal imagem que eu guardara é uma fotografia do Poço da Ribeira do Ferreiro. Não sabia o tempo que ia querer ficar. Estava decidida a ouvir-me e a viver um dia de cada vez como nunca tinha feito. Sem planos, sem ideias formatadas sobre o futuro.

Na mala levava uma mochila com todo o equipamento para acampar e alguma roupa. Desembarco sozinha na ilha mais bela do Mundo, a ilha que me escolheu. Conheço a mulher que viria a ser o meu anjo da guarda, a Gabriela Silva. Quer levar-me para sua casa! Eu tinha decidido que iria começar por dar a volta à ilha a pé e a acampar e declino a bondosa oferta. Sei hoje que ela percebeu bem do que eu precisava. Sabe muito de emoções e sobre o SENTIR.

A primeira impressão que tive num breve passeio por Santa Cruz e pelas piscinas naturais foi a de um lugar que ainda estava na sua essência, com um mar azul que me esperava com o contraste das rochas vulcânicas. A vida conspirava e a colocava-me no caminho as pessoas que seriam o meu apoio ou os meus novos mestres.

No dia 5 Junho embarco no Boqueirão no bote semi-rígido de Carlos Mendes – Extremocidente, chama ele ao seu projecto! Ali estava eu a sentir aquela brisa e a deliciar-me com aquelas baías, falésias, ilhéus, cascatas e grutas da Ilha das Flores! É preciso sairmos da ilha para percebermos que aquele pedaço tão pequeno de terra contém estes sublimes tesouros. Os golfinhos não apareceram. Visito a Ilha Do Corvo, a mais pequena do arquipélago dos Açores. O Caldeirão, o geossítio mais mágico dos Açores, não se deixou ver. Era um sinal de que eu tinha que voltar.

De regresso à Ilha das Flores ponho a mochila às costas com a tenda, o saco-cama e alguma roupa. Nunca tinha acampado. As minhas amigas no continente haviam-me sugerido que montasse a tenda antes de viajar, pois não iria saber como se faz quando fosse necessário. Sorri e pensei que não devia ser difícil. Não fiz o teste e começava nova aventura. O destino era o lugar da Alagoa. Tinha ouvido que o momento do nascer do sol era algo único. Parou um carro. Era um senhor estrangeiro. Mal falava português e já estava na Ilha há 8 anos. Ofereceu-me boleia. «Esta subida é difícil e a tua mochila parece estar um pouco pesada». Aceitei! Fez um desvio no seu caminho e levou-me até ao meu destino. Percebi que pedir boleia era fácil ali na ilha e andei o sempre à boleia ou a pé.

Mal eu sabia que ia encontrar tantas almas gentis e interessantes nesta ilha! Há aqui pessoas de cerca de 13 nacionalidades que escolheram viver a sua vida de natureza mesmo na natureza, muitos deles com projectos relacionados com o bem-estar da nossa alma e rodeados pelo Atlântico.

Alagoa! O que quer que eu diga deste lugar não vai descrever o que vi ou senti naquele final do dia e no amanhecer do dia seguinte. Foi aqui, mesmo junto ao mar, a ver o sol a nascer que senti que não me iria embora da ilha tão rapidamente. Foi neste lugar e neste instante que prometi a mim mesma que ia aprender e a dizer não, e a pôr o meu bem-estar em primeiro lugar. Prometi a mim mesma que ia preocupar-me ainda menos ou nada com o que os outros pensavam.

Até chegar à Fajã Grande acampei sempre em lugares onde ficava sozinha! Bom, tinha a companhia dos cagarros. Não se calavam! Demorei algum tempo a habituar-me. Cheguei à Fajã Grande. Ai que lugar! Cascatas por todo o lado! Cascata Poço do Bacalhau, Ribeira do Cão e tantas outras! Mas aquele parque para acampar não era o que esperava. Sozinha no meio da natureza era o que eu idealizava. O meu anjo da guarda na ilha ia-me ligando e percebeu tudo. Veio ter comigo: «Mete a mochila no carro e entra!» Cinco minutos depois parou o carro. Ao meu lado direito estava uma cascata linda, vertical, alta e surreal; à minha esquerda, o mar. Disse-me que aquele terreno era dele e que eu podia ficar ali. Ai o que estava ali! Era o lugar lindo lindo onde eu iria ficar acampada durante 3 meses e meio.

Sim, resolvi que ia ficar no mínimo até Setembro e depois logo veria. E a experiência de viver em comunhão com a natureza foi profunda. Estendi muitas vezes o saco-cama fora da tenda, para adormecer a olhar o céu estrelado e as fases da lua. Às vezes via a Lua a sair do infinito e a reflectir a sua luz no mar que não se mexia. Como é que eu tinha vivido tantos anos sem ver isto?

Foi aqui que vivi mais momentos de felicidade consecutivos, onde encontrei partes de mim que desconhecia. Acordava e não me penteava, vestia uns calções curtos e uma t-shirt com buracos e ninguém queria saber disso para nada. Pensar que se a minha mãe me encontrasse diria: «Olha lá, isso não é muito curto? Essa t-shirt já não está boa! E não te penteaste!»

Foram tempos da despreocupação mais feliz que se pode imaginar. Ninguém queria saber quem eu era, de onde vinha nem o que fazia ali. Tomava banho nos balneários do parque de campismo da Fajã Grande e muitas vezes nos chuveiros das piscinas naturais onde a água era morna. Ao final de algum tempo, as pessoas sentem que os outros têm bom fundo e oferecem a máquina de lavar para o que for preciso. Sabem que os outros gostam de explorar a natureza e que são fascinados pelas cascatas. Quando chove ligam pela manhã: «Vista-se que choveu muito durante a noite e a Cascata da Ribeira Grande está a bombar! Eu vou já aí buscá-la para ir ver e fotografar!»

Ao escrever isto recordo momentos de pasmo. Caem-me lágrimas de gratidão e penso que CONSEGUI! Consegui libertar-me de tantos MEDOS! Quebrar vários padrões! Viver e não sobreviver, conforme havia tinha feito até ali. Muitas vezes trabalhava das 8h às 20 h para engordar uma conta bancária, mas agora o Mundo era meu.

Arranjei um part-time! Decidi que iria ficar o Verão todo, mas ainda sentia um ritmo que me impedia ficar sem fazer qualquer coisa. Ora, vão ser apenas 4 horas, logo pela manhã ou ao final do dia, para desfrutar horas seguidas dos recantos das ilhas e descobrir o que as pessoas têm para partilhar comigo. E cerca de 2 semanas depois estava na cozinha do Restaurante Maresia. Não vou contar-vos nem sobre este Restaurante nem sobre a história do Jorge Brilhante, proprietário e o Chef de cozinha. Vão lá descobrir e se eu estiver na Ilha convidem-me. É só o melhor spot para apreciarem o pôr-do-sol.

Ali aprendi novamente a dizer «não» e a não ter medo do que os outros iam pensar quando eu não ficava para além do tempo que tínhamos contratado, mesmo estando a sala com muitos clientes. O meu contrato comigo mesma era mais sério e estava disposta a perceber o que sentia nas mudanças que estava convencida que tinha de fazer. Também foi ali que poucos dias depois de eu ter aceitado aquele trabalho entrou o meu último «chefe» e estava eu de avental e a lavar os pratos.

O mundo é uma ervilha. Na altura não quis que ele me visse ali, mas se fosse hoje teria feito questão para que percebesse que a felicidade está muito muito além de um bom ordenado, casa, carro e telemóvel.

Estava feliz e não me queria ir embora dali, mas as saudades da família falaram mais alto e comprei o bilhete de regresso. Ainda passei uma semana na Ilha de São Jorge e outra na Ilha do Pico.

Estava de regresso e não tinha planeado nada. E agora o que vou fazer? Não sei, mas alguém na ilha me lançara um desafio: «Gostas da natureza, de aventuras, de partilhar, de conversar com as pessoas, porque não tentas fazer um grupo e mostras o que viveste na ilha?». Grande sugestão que aceitei.

Tudo está certo afinal. Sinto-me bem neste papel de partilhar a minha paixão pelas ilhas e a sua beleza natural com quem gosta de caminhar com Calma e com Alma!

E sonho de ir viajar pelo mundo? Para já adiado. Foi diagnosticado um cancro à minha mãe e tenho de ficar por perto.

Mas o que tenho para dizer é apenas isto: não deixem para ontem os vossos sonhos. A vida é um sopro e em menos de nada já não estamos aqui.

Registo a minha marca que existia já como blog Descobrir com Alma e vou fazer acontecer. Com a parceria e ajuda de operadores da Ilha das Flores, o projecto começa a tomar corpo. Divido-me em programas essencialmente orientados para caminhadas e experiências (yoga, canyoning, concertos de taças tibetanas, workshops culinários, etc,) entre as Ilhas e a Serra da Estrela. E continuo ao encontro de partes de mim que sinto ainda não ter encontrado.

Nesta nova experiência tenho encontrado pessoas muito bonitas que tem contribuído em eu ir mais Dentro e sentir cada vez mais que EU POSSO TUDO O QUE EU QUISER quando a energia é boa.

No meu blogue já tinha escrito sobre as outras Ilhas e havia sempre adiado a Ilha das Flores. Pensava que era uma história tão intensa e nem sabia por onde começar! Muita coisa ficou por contar e quem sabe um dia não escrevo um livro.

Cláudia Videira

Líder de viagens nas ilhas das Flores e do Corvo e também na Serra da Estrela. Apaixonada pela natureza, adora descobrir novas experiências para proporcionar às pessoas que com ela viajam

1 COMENTÁRIO

  1. Depois desta partilha tão especial e única, fico sem palavras!!
    Ainda assim estando eu super emocionado, com o coração cheio de muito amor por já ter sentido toda esta paixão pelos Açores resta me confirmar todo este carinho e amor que a Claúdia tem por proporcionar momentos inesquecíveis e verdadeiramente mágicos!!!
    Imensa Gratidão querida Cláudia por me fazeres tão Feliz e realizado com o teu projeto descobrir com alma!!!
    Imensas Felicidades!!!

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