Desde que Donald Trump decidiu comunicar que os EUA iriam deixar o Acordo de Paris que as alterações climáticas não tinham tanto espaço nos media e não mereciam tanta atenção. Obrigado, Mr. Trump!
POR LUÍS DOMINGUEZ COSTA

Acredito que Donald Trump é um verdadeiro ambientalista, um protector das alterações climáticas e um inovador. Em muito pouco tempo conseguiu aquilo que muitos dos que trabalham e negoceiam estes temas há anos não conseguiram. Senão vejamos:

O Acordo de Paris foi assinado por 197 Países, dos quais 148 já o ratificaram (quatro deles depois de as primeiras notícias que indicavam a decisão de Trump de sair do Acordo terem vindo a público). Imediatamente a seguir ao anúncio da saída, França, Alemanha e Itália, através de um comunicado conjunto, afirmaram que estão “convencidas de que a implementação do Acordo oferece oportunidades económicas substanciais para a prosperidade e crescimento nos nossos países e a uma escala global” e elucidaram ainda o presidente americano em relação às suas intenções de renegociação do Acordo indicando que “o Acordo de Paris não pode ser renegociado uma vez que é um instrumento vital para o nosso planeta, sociedade e economias”.

Emmanuel Macron, presidente francês, fez, aliás, um discurso sem precedentes reutilizando o slogan de Donald Trump e, de uma forma crítica, apelou para que tornemos o nosso planeta grande outra vez (“Make our planet great again”).  Canadá, Reino Unido, Austrália e China, entre muitos outros, também reagiram negativamente ao anúncio. Ou seja, Trump conseguiu, em menos de uma semana, que os maiores poluidores do planeta não só reafirmassem o seu compromisso com os objectivos do Acordo, como, mais importante ainda, indicassem que o mesmo é absolutamente inegociável.

[pull_quote_left]Trump conseguiu, em menos de uma semana, que os maiores poluidores do planeta não só reafirmassem o seu compromisso com os objectivos do Acordo, como, mais importante ainda, indicassem que o mesmo é absolutamente inegociável[/pull_quote_left]

Por outro lado, é sabido que até hoje os grandes impulsionadores do Acordo de Paris são os Governos. São estes que negoceiam em nome das vontades dos seus povos os caminhos a seguir em relação às formas de combater as alterações climáticas. O que alguns não sabem é que, além do objectivo principal de reduzir as emissões a nível global, um dos pilares do Acordo é encontrar formas de financiar projectos estruturantes e sustentáveis em países em vias de desenvolvimento: o denominado “financiamento climático”. E, no que diz respeito a financiamento climático, nada é mais apetecível do que conseguir o envolvimento do sector privado usando o que se conhece por Blended Finance (entidades públicas assumem uma parte do financiamento dos projectos – normalmente a parte que tem mais risco – incentivando os capitais privados a investir, aumentado assim o “bolo” total disponível para a promoção de projectos sustentáveis).

Claramente, Donald Trump tem conseguido mobilizar as grandes empresas americanas, e não só, no seu compromisso com os objectivos de Paris. E algumas destas empresas vêm dos sectores de onde menos se esperava, Exxon, ConocoPhillips, Chevron, Dow Chemical e algumas das suas congéneres europeias, como a Shell e a BP, já indicaram que o Acordo de Paris oferece a todos os países uma plataforma para combater as alterações climáticas.

[pull_quote_left]O presidente dos Estados Unidos foi capaz de reunir à volta da vontade do Acordo de Paris as maiores empresas a nível mundial, confirmando a sua intenção de acompanhar e fortalecer os desígnios de Paris, liderando a mudança através das suas corporações[/pull_quote_left]

Estas e outras empresas, a maioria através das suas fundações, têm sido líderes em relação à atribuição de subsídios para o desenvolvimento de projectos em países em vias de desenvolvimento, outras investem directamente em empresas de tecnologias de energia renovável ou de alguma forma ligadas à Clean Tech. Ou seja, uma vez mais, Trump conseguiu reunir à volta da vontade do Acordo de Paris as maiores empresas a nível mundial, confirmando a sua intenção de acompanhar e fortalecer os desígnios de Paris, liderando a mudança através das suas corporações.

Mas falemos de um dos grandes argumentos de Donald Trump na saída do Acordo: o emprego. Há que admitir o altruísmo do presidente dos EUA. Todos sabemos que a Europa tem vindo a atravessar uma crise com taxas de desemprego altas, principalmente desde 2008. Faz sentido, enquanto aliado da Europa, que os EUA ajudem ao desenvolvimento do emprego na coligação europeia. E não pode ter sido por outro motivo que Trump abandonou uma estratégia de crescimento aliada às tecnologias sustentáveis e serviços climáticos. Como o presidente francês teve a amabilidade de referir, todos aqueles com know-how nestas áreas serão bem recebidos em França, e tomou a liberdade de estender o convite a Portugal.

Mas o que realmente fica por perceber é se Donald Trump é tão genial ao ponto de, ao mesmo tempo que cumpria com a sua promessa eleitoral de sair do Acordo, ter enviado Michael Bloomberg, ex-Mayor de Nova Iorque, falar com o presidente francês para dizer que “os EUA irão cumprir com os compromissos do Acordo de Paris, através de uma parceria de cidades, estados e empresas”, e que “pretendem permanecer como parte do processo do Acordo de Paris

Temos de agradecer a Donald Trump pois, provavelmente, sem ele estaríamos unicamente a debater se o Artigo 6 do Acordo deve ou não incluir ITMOs que sejam transferíveis livremente entre as partes (sim, o Acordo tem este e outros palavrões…).

America first? Parece-me mais America alone.