Apesar de continuar a ser considerada como a nação mais empreendedora do mundo, a América tem vindo a perder força no número de novos negócios criados ao longo dos últimos anos. De acordo com a Kauffman Foundation, há que abrir portas a empreendedores estrangeiros e alterar leis que obstam a novas fontes de financiamento. E perceber também a que se deve este declínio
POR HELENA OLIVEIRA

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A promoção do empreendedorismo é um dos poucos tópicos que, nos Estados Unidos, gera consenso entre os políticos. Novas e jovens organizações e, especialmente, empresas em crescimento são essenciais para o aumento do emprego, dos salários e do estilo de vida. Infelizmente, e apesar da sua inegável popularidade, de acordo com a Kauffman Foundation – cujo principal objectivo é exactamente o de promover o espírito empreendedor na América – as tendências do empreendedorismo parecem estar a caminhar em sentido contrário. Há já vários anos que a taxa de criação de negócios nos Estados Unidos se tem mantido inalterada e, em alguns casos, apresenta até uma queda acentuada. Em simultâneo, o dinamismo económico total – o turnover produtivo de empresas e postos de trabalho – tem vindo a acusar um declínio tanto na economia em geral, como no sector da alta tecnologia, o qual tem constituído, tradicionalmente, a parte mais dinâmica da economia.

Estas tendências negativas no empreendedorismo (v.Caixa) podem estar relacionadas com outras tendências económicas desencorajadoras, incluindo a estagnação dos salários e a baixa mobilidade económica. Por forma a abordar estes desafios, a Kauffman Foundation anunciou, no passado mês de Fevereiro, o desenvolvimento de uma Nova Agenda para o Crescimento do Empreendedorismo, por ocasião da sua reunião anual. No mesmo evento, foi igualmente apresentada a 5ª edição do Estado do Empreendedorismo, a qual serviu de mote a um debate entre pensadores de várias áreas que, em conjunto, discutiram novas ideias e modelos para estimular a capacidade empreendedora em terras norte-americanas, com um convite expresso à participação de empreendedores de todo o mundo.

O discurso de abertura, a cargo do CEO e presidente da Ewing Marion Kauffman Foundation, Tom McDonnel, contextualizou os desafios que agora se apresentam àquela que continua a ser considerada como a mais empreendedora das nações, bem como os objectivos expressos na sua nova agenda de crescimento até 2016. O VER resume, de seguida, estes desafios e objectivos, com o intuito de os divulgar a nível nacional, numa altura em que Portugal parece também ter despertado para o empreendedorismo, mas onde o conceito do mesmo parece estar a ser utilizado de forma abusiva e, muitas vezes, perfeitamente descontextualizado. Dado que as tendências da nação mais poderosa do mundo acabam por se reflectir, mais cedo ou mais tarde, em outras geografias, segue-se aqui a sua antecipação.

“Mais de 50% das empresas da Fortune 500 foram fundadas durante períodos recessivos”
Recordando que o objectivo primordial da Kauffman Foundation é o de cultivar e fortalecer o espírito empreendedor da América – na medida em que o seu fundador Ewing Marion Kauffman era também um empreendedor, inovador e visionário – Tom McDonnel alertou para o facto de “na economia da actualidade, as tendências de curto prazo estão-se a mover na direcção certa, o mesmo não acontecendo com as de longo prazo, as quais têm potencial para ‘corroer’ o dinamismo que personifica o centro do crescimento económico”. Antes de debater os resultados do relatório de empreendedorismo entretanto lançado, bem como as sugestões que a Kauffman Foundation elegeu para servirem de orientação aos decisores políticos, às fundações, instituições de pesquisa e a quaisquer organizações que tenham a possibilidade de estimular a actividade empreendedora, McDonnel contou a história de uma start-up norte-americana (incubada na fundação a que preside) que ganhou, em Novembro último, durante a Global Entrepreneurship Week, uma competição internacional que teve lugar na Holanda.

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A jovem empresa, que concorria com outras 282 start-ups, denominada “EyeVerify”, criou um sistema patenteado que permite aos utilizadores de smartphones e de tablets manterem a segurança dos seus dispositivos com um simples e seguro scan do seu próprio olho, transformando as passwords numéricas ou alfanuméricas em “coisas do passado”. O fundador da EyeVerify, Toby Rush, é um empreendedor em série, que comercializou uma tecnologia desenvolvida por Reza Derakhshani, um imigrante iraniano e professor na Universidade do Missoury. Toby participou igualmente no Pipeline, um reconhecido programa de mentores dedicado a empreendedores com elevado potencial.

Mas o que McDonnel pretendia ilustrar, no que respeita tanto à EyeVerify como ao seu fundador, Toby Rush, são três pontos que devem ser considerados como essenciais, de forma universal, ao empreendedorismo:

  • A importância da investigação universitária para o empreendedorismo;
  • O papel dos imigrantes – sejam eles investigadores ou empreendedores; e
  • A importância dos programas de mentores e de empreendedorismo.

Para o CEO da Kauffman Foundation, são necessários mais EyeVerifys e mais Toby Rushs. As melhorias nos padrões de vida dependem de novas ideias, novas formas de organização e de novas competências. E os empreendedores são “as forças motoras neste processo (…), reconhecidos como contribuidores económicos importantes e considerados ainda como ‘cool’”, afirma McDonnel.

Para o CEO, este estatuto conferido aos empreendedores não é difícil de compreender. Depois de uma crise financeira e de uma recessão severa, os postos de trabalho escassearam. Os americanos e os políticos que elegeram começaram à procura de soluções e “descobriram” o empreendedorismo. E por uma boa razão: de acordo com McDonnel, ao longo dos últimos 150 anos, a dor infligida pelas recessões económicas transformou-se numa saída para os futuros empreendedores. Mais de metade das empresas que fazem parte do ranking da Fortune 500 foi fundada durante períodos recessivos ou em mercados bear [quando as cotações nos mercados financeiros estão em queda e o pessimismo é o sentimento dominante].

Este padrão está a ser repetido nos dias que correm, assegura o CEO da Kauffman Foundation. Muitas das empresas de elevado crescimento – a julgar pelas suas avaliações em milhares de milhões de dólares – foram fundadas durante a recessão. Por outro lado, as start-ups mais inovadoras já não são do domínio exclusivo de Silicon Valey, emergindo em outros locais não conhecidos como “propensos ao empreendedorismo”. Ou seja, os empreendedores estão em toda a parte.

Ao mesmo tempo, o número de programas de educação e formação em empreendedorismo “explodiu” também durante a recessão e no período que se lhe seguiu: actualmente, qualquer escola de negócios ou universidade oferece “algo” em empreendedorismo. “Actualmente, e quatro anos e meio depois de uma retoma ‘pára-arranca’,a fotografia macroeconómica está com cores menos esbatidas”, afirma McDonell. “O crescimento económico [nos Estados Unidos] em 2013 foi forte, foram criados dois milhões de novos postos de trabalho e a taxa de desemprego desceu abaixo dos sete por cento”.

Todavia, alerta McDonell, existem algumas forças persistentemente negativas que devem ser reconhecidas e abordadas. A taxa de desemprego diminuiu porque milhares de pessoas abandonaram a força de trabalho. Os rendimentos médios não sofrem alterações (para melhor) há mais de uma década. E o crescimento no emprego tem sido baixo e elevado nos extremos do espectro de competências, com muito pouco crescimento no “meio”.

Assim, e com os indicadores económicos a apontarem para diversas direcções, é necessário reforçar o motor do empreendedorismo, para fazer face a certas tendências perturbadoras. O presidente e CEO da Kauffman Foundation alerta para o facto de que a “formação em negócios” – a qual sofreu fortes reveses durante a recessão – não recuperou ainda, sendo que já se encontrava num estado sofrível alguns anos antes do deflagrar da Grande Recessão. Adicionalmente, sublinha McDonell, os tipos de novos negócios criados ao longo dos últimos anos não correspondem a empresas dinâmicas e de elevado valor, não gerando, por isso, um número significativo de novos postos laborais, nem inovações dignas de nota.

E é para inverter estas tendências de longo prazo, que poderão corroer a economia, que a Kauffman Foundation criou a denominada Nova Agenda para o Crescimento do Empreendedorismo, a qual incluirá conferências, seminários e financiamento de pesquisas. Vejamos então os seus objectivos, os quais poderão servir de guia de orientação para os decisores políticos nacionais, bem como para as diversas organizações que apostam no empreendedorismo como uma força dinâmica crescente na economia.

A renovação necessária da economia empreendedora
Para a Kauffman Foundation, é necessário responder, em primeiro lugar, a um conjunto de questões para que a sua iniciativa tenha os feitos desejados:

  • O que está a contribuir para o abrandamento do empreendedorismo norte-americano?
  • Que implicações de longo prazo terá esta desaceleração do empreendedorismo no desemprego e nas dinâmicas do mercado laboral?
  • De que forma é que os Estados Unidos poderão continuar a atrair e a reter imigrantes empreendedores, em particular à luz de uma crescente concorrência global para a captação destes talentos?
  • De que forma é que os enquadramentos regulamentares poderão proteger e estimular os empreendedores a procurar caminhos alternativos de financiamento?
  • Como é que as instituições educativas se devem adaptar para fazer face ao talento em mudança e às exigências de novas competências?
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De acordo com o relatório já mencionado sobre o estado de arte do empreendedorismo, existem já algumas ideias que poderão contribuir para dar resposta às mesmas. E a primeira está relacionada com a questão dos empreendedores imigrantes. A Kauffman Foundation tem desenvolvido e apoiado um conjunto significativo de pesquisas que demonstra a forte propensão dos imigrantes para criarem novas empresas. Na verdade, são muitos aqueles que fundaram ou co-fundaram uma quota alargada de empresas de elevado crescimento, em particular no sector da alta tecnologia, criando centenas de milhar de empregos para os norte-americanos. Mas e apesar desta evidência, o debate continua. Milhares de pessoas, provenientes dos quatro cantos do mundo, desejam ir para os Estados Unidos, fundar empresas e criar empregos, mas são muitas as barreiras que persistem e obstam à sua entrada. Para a fundação em causa, são necessários novos caminhos para acolher os empreendedores imigrantes. Apesar de serem várias as propostas que estão a ser debatidas no Congresso para remediar este problema – como a criação, por exemplo, de um novo “Visto para Start-ups” – a fundação defende que este tipo de cláusulas poderia ser melhorado através do aumento do número de vistos disponível e da redução das qualificações de activos as quais, muitas vezes, servem para manter de fora muitos empreendedores.

Uma outra questão prende-se com a JOBS Act (acrónimo de Jumpstart Our Business Startups – uma lei aprovada pelo presidente Obama na Primavera de 2012 e que altera por completo o cenário das plataformas de crowdfunding, permitindo que, para além dos donativos, as start-ups possam angariar financiamento através de capitais próprios do público em geral), cujas regulamentações finais estão a ser ultimadas pela SEC (a Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos). Para a Kauffman Foundation, a implementação desta lei será uma nova e potencial fonte de financiamento para novas e jovens empresas, caso a SEC não a dificulte através de regras demasiado restritivas para o crowdfunding antes de este ter a possibilidade de se desenvolver.

Em terceiro lugar, é essencial que os Estados Unidos examinem as necessidades de capital humano inerentes à economia do empreendedorismo. De acordo com a fundação, existem hoje preocupações crescentes sobre o número de empregos perdidos “à custa” da inovação e nunca mais recuperados. Todavia e para que este processo tenha resultados positivos, novas exigências são colocadas às instituições educativas, no que respeita, em particular, a novos talentos e competências, bem como a novas formas de capital humano necessárias para dar resposta a estes novos desafios.

Uma última sugestão está relacionada com a crucial compilação de dados para que seja possível analisar, correctamente, a economia com base no empreendedorismo. Recordando que o estado de recolha e análise de dados, tanto em termos económicos, como educativos, está francamente melhor face ao que acontecia há uns anos, a Kauffman Foundation aconselha que as agências governamentais e as organizações privadas trabalhem em conjunto para modernizar continuamente esta estrutura de recolha e análise de dados, na medida em que tal servirá para fornecer bases mais fortes para o lançamento de novas políticas que estimulem a criação de mais empresas e, consequentemente, de mais postos de trabalho.

O declínio do empreendedorismo norte-americano
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Apesar de a América ser considerada como o país mais empreendedor do mundo, são várias as estatísticas que demonstram uma queda acentuada dos seus níveis de empreendedorismo. De acordo com o The Hudson Institute e o The U.S. Census Bureau, entre outras fontes, seguem-se alguns dados que confirmam esta tendência:

  • Em 2010 e comparativamente ao longínquo ano de 1977, a América perdeu 660 mil empregos
  • Desde 2009 e em média, existiam 7.8 empregos porcada mil americanos criados por start-ups, comparativamente a 11.2 ao longo da Administração Clinton (1993- 2001)
  • Os capitalistas de risco estão a investir em mais do dobro das empresas comparativamente a dados da década de 1980
  • No ano 2000, o sector da construção gerou mais de 61 mil novas empresas. Em 2010, não foi além das 17 mil
  • O número de novos empreendedores, per capita, tem vindo a diminuir há uma geração, o que corresponde a menos 53% entre 1977 e 2010
  • Por cada dois empreendedores que a América tinha em 1977, existe um empreendedor em 2010. Ou seja, o empreendedorismo foi “cortado” para metade
  • A quota de americanos que trabalha por conta própria tem vindo a sofrer um declínio desde 1991: tomando 2010 como ano de referência, o declínio cifrou-se em mais de 20%