De acordo com o mais recente relatório da Economist Intelligence Unit (EIU) sobre África, as economias, que se agigantam, de Angola e da Nigéria poderão, muito provavelmente, ultrapassar a África do Sul já em 2016. Aquele que há uma década era considerado como o continente sem esperança, afigura-se agora como a verdadeira “terra de todas as oportunidades”. O VER apresenta as principais conclusões deste relatório

POR HELENA OLIVEIRA

É já uma realidade: alguns países de África estão a crescer mais rapidamente do que qualquer outro no mundo e os investidores estão a acordar para o seu enorme potencial. Esta é a principal conclusão do relatório especial, preparado pela Economist IntelligenceUnit  e intitulado “Into Africa: Emerging Opportunities for Business”.

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Em termos gerais, o contributo de África para a economia global, e apesar do interesse dos investidores, é de penas três por cento. Todavia e no seguimento de um inquérito realizado pelo EIU a um número alargado de multinacionais que estão já a operar em África ou em vias de o fazer, o continente apresenta o maior potencial de investimento para todos os mercados, sendo igualmente uma área na qual os investidores planeiam aumentar a sua alocação de activos.

Como já é costume referir neste tipo de relatórios, chama-se a atenção para o facto de África ser composta por um grupo de países, muito diferentes entre si, e quanto melhor for a compreensão desta realidade, melhores oportunidades terão as empresas, bem como uma melhor percepção dos riscos e potencialidades para os seus negócios.

Os principais motores do crescimento africano
Num total de 52 países, estima-se que sejam 28 os que terão uma média anual de crescimento de, pelo menos 5%, ao longo dos próximos cinco anos. Outros países, de que é exemplo o Gana, e que se juntou aos demais produtores de petróleo como Angola, Nigéria e a Guiné Equatorial, com o seu primeiro ano de produção comercial, cresceu 9,8% em 2011. Com níveis ainda mais elevados previstos estão países como a Etiópia, a Libéria, Moçambique, a Nigéria e o Uganda, entre os 7,5% e os 10%. A Serra Leoa, por seu turno, em conjunto com outros países de pequena dimensão, acusarão, de acordo com as perspectivas do EIU, enormes crescimentos. No caso da Serra Leoa e terminada a sua guerra civil, estima-se que seja a recordista do crescimento em 2012, na medida em que o seu sector mineiro está de volta aos mercados. O sector dos recursos naturais é, aliás, o que atrai a fatia de leão por parte do interesse dos investidores, realidade que se espera vir a durar nos próximos anos. Todavia, uma outra grande tendência tem-se vindo a verificar nos últimos seis anos, ou seja, o crescimento nos mercados de consumo, o que prova que as reformas, estruturas e regulamentações estão finalmente a registar melhorias significativas.

Os produtores principais de minerais, como a Tanzânia e Moçambique, continuarão também com um crescimento sólido, em conjunto com um interesse crescente por parte dos investidores. Por outro lado, alguns países, de que é exemplo o Zimbabué, continuarão a lutar na medida em que as suas fracas e ineficazes políticas de governança se mantêm.

Como é sobejamente reconhecido, África e política andam de mãos dadas. O continente africano é ainda considerado como o recordista dos factores de riscos políticos do mundo, com o recente golpe no Mali a funcionar como um lembrete para a fragilidade de alguns dos países africanos, principalmente quando o Mali já foi considerado como um dos países mais democráticos, com liberdade de imprensa e um bom registo de direitos humanos. Não é possível esquecer igualmente que a democracia sul-africana só agora atingiu a maioridade (18 anos) e que existe um conjunto substancial de trabalho a ser feito.

Verdade é também o facto de existirem já muitos países que fizeram, com o sucesso possível, essa transição e que com o final da guerra civil em Angola no 2000, é neste país que se depositam as maiores esperanças e se esperam os maiores dividendos.

A fotografia demográfica do continente está também a modificar-se sobremaneira. A sua estrutura demográfica é muito jovem, o que representa um risco e uma oportunidade em simultâneo. Nos anos de 1990, cerca de 250 milhões e africanos viviam nas cidades, sem contar com os habitantes dos bairros de lata. Por volta do ano 2000, o número ascendia aos 270 milhões, o que representa um ritmo de urbanização de 4% ao ano. Quarenta e nove cidades africanas têm mais de um milhão de pessoas e cinco destas – Cairo, Khartoum, Lagos, Luanda e Joanesburgo albergam mais de sete milhões de habitantes. Com excepção de Luanda, todas as outras cidades são maiores do que Londres, o que cria uma riqueza de oportunidades, ao mesmo tempo que constitui uma enorme desvantagem para os governos locais.

Um outro motor a contribuir fortemente para o crescimento africano é o comércio, que tem vindo a crescer sem interrupções desde 2005. O petróleo e os minerais continuam a ser as principais exportações e um grande número de economias, incluindo a da África do Sul, são extremamente dependentes das importações.

Apesar de a Europa ser ainda o maior parceiro comercial de África, a quota de comércio da China tem vindo a explodir ao longo da última década, estando agora ao mesmo nível do dos Estados Unidos, sendo que nenhum país asiático, nem mesmo o Japão com 7%, atinge resultados tão elevados.

O crescimento no comércio – e de próprio investimento chinês em África – é veiculado pela necessidade da China no que respeita aos recursos mas, também, da sua política de longo prazo de “saída”, com base na necessidade de desenvolver mercados de consumo que irão adquirir os produtos e serviços chineses não hoje, nem talvez manhã, mas no “dia a seguir”.

Por último, é de sublinhar a mudança tecnológica que está a ser feita no continente. A penetração de telemóveis indicou que existia um imenso mercado de consumo inexplorado, que apanhou o mundo de surpresa quando começou a crescer e a aprofundar-se. A comprovar esta explosão, o EIU apresenta o número de assinantes de serviços móveis para 2010, que ultrapassou os 500 milhões, com muito espaço ainda para ser preenchido pois, com excepção para a África do Sul, todos os restantes estão ainda a levantar voo. Por outro lado, a aposta na fibra óptica está também em expansão, o que não só ajuda o desenvolvimento dos mercados de internet e telecomunicações no geral, como apresenta melhores condições de trabalho para as empresas e um conjunto de novas oportunidades para todo o sector empresarial.

Em conjunto, estes dividendos – a urbanização, a expansão do comércio e as alterações tecnológicas – indicam que o crescimento está em trajectória contínua e ascendente. Como refere o relatório, a estrada continua ainda acidentada mas, com taxas de crescimento na ordem dos cinco e seis por cento e, em alguns casos, a rondar os 10%, o caminho está desbravado.

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Principais áreas de desenvolvimento
África precisa de desenvolvimento em quase todos os sectores e a procura por bens de consumo está a aumentar. A forma de encarar estes mercados é o que os estrategas de negócios precisam de considerar. O potencial de produção do continente não chega para as suas necessidades. Apesar de, na generalidade, ser um produtor de petróleo e de recursos naturais por excelência, não tem capacidade de refinação, nem mesmo sectores produtivos ou fábricas, com excepção para a África do Sul. Para os investidores, a boa notícia é a de que os consumidores precisam de tudo, desde equipamento eléctrico e electrónico, a ferro e aço, e até mesmo a cereais.

Na verdade e por mais surpreendente que possa parecer, os bens alimentares constituem uma exigência de importação, naquela que é a região que deveria estar a “alimentar” o mundo. A terra arável de África constitui 40% da terra arável a nível global, mas apenas 10% é cultivada. As razões para esta realidade incluem o subinvestimento, a ausência de políticas claras, uma fraca regulamentação, cadeias de fornecimento ineficientes e técnicas de fertilização inadequadas. Mas e mesmo assim, a agricultura continua a ser o maior empregador e o principal sector em muitos países africanos, o que explica que o agro-processamento e o desenvolvimento da agricultura estejam no topo das agendas para os governos e para o sector privado.

Uma outra área de oportunidades é a das infra-estruturas. Linhas ferroviárias, estradas e energia são cruciais para o desenvolvimento de um continente que, durante décadas, não teve qualquer tipo de investimento e sofreu de uma péssima gestão. Cerca de 500 milhões de africanos não têm acesso à electricidade. O EIU recorre a uma comparação para ilustrar a dimensão do problema: a Nigéria, com 180 milhões de pessoas, possui a mesma capacidade eléctrica da Hungria, cuja população é de 10 milhões de pessoas. Estimativas indicam que só para o sector eléctrico serão necessários cerca de 100 mil milhões de dólares anuais.

Apesar de muito trabalho ter sido posto em marcha na última década, especialmente com a ajuda do investimento chinês e de serem inúmeras as empresas chinesas a construir estradas e a melhorar as linhas de caminho-de-ferro, portos e aeroportos, muito mais existe ainda para fazer.

Os serviços constituem outra área por excelência, tanto ao nível comercial como retalhista. Quase nove em cada 10 africanos não têm conta bancária e, à medida que a economia for crescendo e a população se “mudar” para a cadeia global, os consumidores necessitarão de acesso aos serviços bancários. A este propósito, o EIU dá o exemplo de algumas soluções inovadoras de pagamento, como o M-Pesa, no Quénia, que tem ajudado à explosão deste tipo de serviços na região. Os mercados de valores imobiliários, por seu turno, têm já uma maturidade considerável, constituindo uma área com muito espaço ainda para crescimento, na medida em que se assiste ao contínuo desenvolvimento da economia e do sector financeiro. Um número considerável de firmas de investimento privado têm vindo a olhar de forma apetecível para o continente, sobretudo nos últimos dois anos e em particular depois da crise global de 2008, percebendo o enorme potencial ali existente. Um dos outros benefícios é o facto de África estar aberta a bancos estrangeiros provenientes de um conjunto alargado de países. Os cuidados de saúde e a educação são outras duas áreas com um enorme potencial de investimento.

A taxa de consumo privado em África é similar á da Índia, mas está a crescer rapidamente e, de acordo com os analistas do EIU, poderia crescer ainda mais depressa. A ausência de facilidades no crédito é um constrangimento ao crescimento, em conjunto com a escassez de oportunidades para aquisição de bens de consumo. Os centros comerciais estão a implantar-se, mas não conseguem capturar a maior percentagem do mercado de consumo. A necessidade e a procura de bens manufacturados é forte e continuará a crescer. Todavia, muito pouco é produzido internamente, o que alerta para a dupla necessidade de criação de empregos e de fornecimento para os mercados locais.

Em conclusão, o relatório sublinha que a maioria das principais empresas pertencentes à Fortune 500 estão já a operar em África, já o faziam na última década e esperam continuar a fazê-lo na década que se segue. Mais ainda, empresas de todos os continentes e dos mais diversos sectores estão igualmente a investir no continente. O potencial para o crescimento é claro, com os sectores chave a incluir a agricultura e o agro-processamento, as infra-estruturas, os serviços e os bens de consumo. A corrupção, as ineficiências que ainda persistem, o risco político e a ausência de uma força laboral especializada são ainda os desafios mais significativos para os investidores.

Todavia, as reformas estão a ser feitas rapidamente, encabeçadas pela Etiópia, Moçambique, Namíbia, Zâmbia e pelo Uganda. Angola e Nigéria, por seu turno, deverão ultrapassar a África do Sul em 2016, o que faz destes países, nomeadamente Angola, o destino mais apetecível para os investidores. O que não dispensa um cuidadoso trabalho de casa antes de qualquer decisão.

Os melhores mercados para investir na próxima década
O Economist Intelligence Unit identificou os mercados com melhor performance para a próxima década com base em quatro critérios: países com menor risco político; os reformadores mais rápidos; países com a melhor pontuação em termos de investimento e aqueles que possuem uma maior extensão em termos de dimensão de terras.

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Como já foi anteriormente mencionado, o risco político é extremamente importante. Os países que se situam na rede de risco politico baixo são o Botswana e as Maurícias. Apesar de serem mercados muito reduzidos, são países seguros nos quais é possível estabelecer negócios com ramificações para outras regiões. O Botswana tem tentado competir com as Maurícias, mas apresenta ainda muitas fraquezas em termos de desenvolvimento tecnológico.

No que respeita aos mais rápidos reformadores, a Etiópia é a grande estrela e possui o segundo maior mercado. Apesar de não constar no radar de muitos investidores, tem o terceiro maior nível populacional da África subsaariana e a sua economia tem vindo a apresentar um crescimento na ordem dos dois dígitos ao longo da última década, com particular enfoque no sector agrícola e na energia, bem como na construção de estradas e portos, e ainda em outras áreas. Existem igualmente boas oportunidades nos sectores financeiro e das telecomunicações, que estão já assinalados para serem privatizados, o que suporta as previsões de crescimentos ainda mais avultados no futuro.

No que respeita aos países com maior crescimento, a África do Sul mantém-se na dianteira, mas seguida de muito perto por Angola, Nigéria, Guiné Equatorial e Gana, todos eles a apresentarem um rapidíssimo crescimento, com Angola e Nigéria a liderarem claramente a corrida.

 

Riscos e desafios
Os riscos e desafios para os investidores em África são muitos e diversificados. Mais uma vez, o EIU chama a atenção para os 55 países que compõem o continente, ou 56, se se incluir a África do Sul, realidade que se traduz em 56 regulamentações, governos e línguas diferentes. Assim, os investidores potenciais têm de se preparar para navegar num ambiente de negócios particularmente complexo.O relatório do EIU chama ainda a atenção e mais uma vez para os riscos políticos, para o facto de a corrupção ser ainda um problema a muitos níveis, para a fragilidade das instituições, sublinhando que, mesmo quando as regulações são adequadas, os oficiais locais podem não ter o conhecimento exacto das mesmas.As questões de comunicação são igualmente apontadas como um desafio a ultrapassar, especialmente entre diferentes culturas e num continente onde existem cerca de 2 mil dialectos diferentes. Por último, mas não menos importante, é o facto de ser extremamente fácil subestimar o custo verdadeiro do negócio, que é elevado devido à escassez de inputs chave, de que são exemplo as competências da força laboral, os custos energéticos ou o tempo e prazos para as importações e/ou exportações.Para os analistas do EIU, os níveis de corrupção estão a acompanhar o crescimento individual das economias, muito em parte devido à ausência de vontade política para a travar. E, no que respeita à fragilidade das instituições, a burocracia e as ineficiências continuam a encimar a lista de problemas. Por exemplo, se no Ruanda bastam dois dias e quatro procedimentos para se estabelecer um dado negócio, no Quénia são necessários 24 meses e 30 procedimentos.

Uma outra preocupação está relacionada com as fracas competências técnicas das populações. As empresas que já estão a operar em África continuam a apontar a escassez de competências como um enorme desafio, apesar de a maioria dos governos estar a alocar cerca de 10% dos seus orçamentos para a educação. As estimativas do EIU apontam para que seja necessária mais uma geração de investimento público e privado para que a diferença seja notada.

Todavia, é de realçar que uma em cada cinco empresas pertencentes ao ranking 500 da Fortune opera em terras africanas.

Helena Oliveira

Editora Executiva