A conferência “África e Desenvolvimento Sustentável” reuniu em Cabo Verde personalidades políticas, religiosas e empresariais com mais de 50 representantes de associações da UNIAPAC em 12 países africanos, europeus e da América Latina. Os modelos económicos e de liderança éticos e centrados no valor das pessoas estiveram em destaque no debate, dedicado a encontrar soluções sustentáveis para o desenvolvimento das nações africanas
POR GABRIELA COSTA

José Maria Neves, Primeiro-ministro de Cabo Verde
José Maria Neves, Primeiro-ministro de Cabo Verde

“África necessita de novos dirigentes e novas lideranças, visionárias, estrategas, mas sobretudo, de lideranças comprometidas com o bem comum, que possam colocar tudo o que esta possui ao serviço da dignidade das suas gentes”. Foi defendendo uma orientação mais ética por parte dos governantes, dos empresários e da sociedade civil de um “continente com grandes potencialidades” que o Primeiro-Ministro de Cabo Verde presidiu à cerimónia de abertura da conferência “África e Desenvolvimento Sustentável”, realizada entre 24 e 26 de Abril na Cidade Velha, ilha de Santiago.

José Maria Neves acredita que os Estados africanos têm de construir uma visão sobre a sustentabilidade e implementar estratégias susceptíveis de criar, simultaneamente, dinâmicas de crescimento económico e igualdade de oportunidades. Esta é a única via para “estancar o êxodo dos africanos em direcção à Europa, combater a pobreza, as desigualdades sociais e todas as formas de descriminação”, admite, sublinhando que “é este o grande trabalho que temos pela frente”.

[pull_quote_left]“Os Estados africanos têm de implementar estratégias susceptíveis de criar dinâmicas de crescimento económico e igualdade de oportunidades” – Primeiro-ministro de Cabo Verde[/pull_quote_left]

O Encontro promovido pela UNIAPAC África em parceria com o seu mais recente membro, a Associação dos Gestores, Empresários e Profissionais Católicos de Cabo Verde (AGEPC-CV), debateu temáticas relacionadas com os problemas que mais afectam o continente, como a liderança política, a gestão económica e questões culturais, religiosas e éticas, reunindo personalidades como a ex-primeira-ministra de São Tomé e Príncipe, Maria das Neves, o antigo ministro e investigador cabo-verdiano, Corsino Tolentino, e o presidente da International Christian Union of Business Executives – UNIAPAC Internacional, José Maria Simone, com bispos, arcebispos e mais de cinquenta representantes associativos de 12 países de África, Europa e América Latina.

A conferência foi antecedida por uma reunião do Conselho Central da UNIAPAC África e pela deslocação de uma comitiva à Presidência da República de Cabo Verde, a qual foi recebida pelo Chefe de Estado do País, Jorge Carlos Fonseca. Portugal fez-se representar no evento da União Empresarial Cristã africana através da ACEGE – Associação Cristã de Empresários e Gestores e do presidente da CIP – Confederação Empresarial Portuguesa, António Saraiva.

Economia de mercado é a melhor via para o desenvolvimento

As estatísticas dizem-nos que em África, “os países com níveis de desenvolvimento humano elevados e crescentes estão bem integrados nos mercados globais, com exportações diversificadas que criam emprego”. A partir do que dita o African Economic Outlook 2014, António Saraiva analisa o desenvolvimento sustentado em África no contexto “da ordem económica mundial”, no âmbito do qual a globalização deve ser vista “como uma enorme fonte de oportunidades de progresso material e humano e como uma das maiores garantias para a paz no mundo”.

Para o presidente da CIP, os casos de sucesso de países que conseguiram ultrapassar situações de subdesenvolvimento e proporcionam hoje níveis razoáveis de bem-estar “mostram-nos claramente que o fizeram através de uma plena integração na economia mundial e de políticas que privilegiaram a educação e a formação das suas populações”.

Sistematizando questões globais e complexas como a extrapolação da crise financeira mundial para uma crise de valores que abalou a confiança nas instituições – a qual “tem de ser restaurada, sob o risco de cairmos em situações de ruptura que destruam os fundamentos dos sistemas políticos e económicos em que continuamos a acreditar”, como a liberdade e a democracia -; ou a “cultura individualista e hedonista que prevalece em tantas nações, capitalistas ou não”, António Saraiva explicou na conferência, em Cabo Verde, porque é o sistema económico baseado no mercado “a melhor forma de promover o progresso e o desenvolvimento”.

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Desde que assente numa “base ética fundamental”, a economia de mercado apresenta “potencialidades” em que o conceito de “livre empresa” permite reconhecê-la como “um bem social inestimável que tem origem na iniciativa, no risco e na livre criatividade humana, como factores de desenvolvimento económico, social e ambiental”.

O bom funcionamento da economia de mercado é, pois, “um bem comum que necessita tanto de um sistema político adequado – um Estado de Direito – como de um sólido sistema ético-cultural”. E os empresários cristãos têm “a responsabilidade de, pelo exemplo, testemunhar que este sistema é compatível com os princípios da Doutrina Social da Igreja e que é possível construir uma sociedade e uma economia em que o Homem e o bem – e não o dinheiro – sejam o centro”, como defende o Papa Francisco, recorda.

[pull_quote_left]“É na falta de qualificações que encontramos a principal causa da pobreza e o maior handicap ao desenvolvimento” – Presidente da CIP[/pull_quote_left]

Mas uma economia “livre e plenamente humana” requer que a sociedade se organize, nas suas várias dimensões, “em instituições fortes que evitem perversões no funcionamento dos mercados”, e criem condições para esse desenvolvimento centrado no Homem. “Neste contexto, o papel do Estado é insubstituível” defende o presidente da CIP: “necessitamos de um Estado regulador, garante da coesão social e regional e potenciador de estratégias de desenvolvimento”.

No entanto, um Estado capaz de garantir o bom funcionamento dos mercados é um Estado que não cai em “relações de promiscuidade e de dependência” com o sector empresarial devido a “excessiva intervenção”, esclarece o representante português. E é um Estado que reconhece que “há áreas onde não deve intervir, porque podem ser mais eficientemente prosseguidas pelo sector privado, com vantagens para a sociedade”.

Competitividade das nações baseia-se cada vez mais no conhecimento

Também nos países em desenvolvimento, “o funcionamento dos mercados requer uma regulação que os proteja de abusos e perversões, promova a valorização pessoal de todos os cidadãos e combata a exclusão social”. Para António Saraiva, a globalização, nas suas diversas vertentes, necessita de ser orientada por regras que combatam a exclusão de milhões de pessoas aos seus benefícios, promovendo uma ordem económica internacional mais equilibrada e justa.

E “não pode ser corrompida pelo desrespeito por valores universais, pelo desprezo relativamente à protecção ambiental ou por práticas fraudulentas ou desleais”. Porque, “acima de tudo, a globalização tece sempre uma crescente interdependência entre os povos, a qual constitui a melhor garantia para a paz e para o desenvolvimento”.

Recordando que 2015 foi proclamado o “Ano Europeu para o Desenvolvimento”, sensibilizando os cidadãos para as políticas da União Europeia nesta área e promovendo um sentimento comum de responsabilidade, solidariedade e oportunidade” entre os países da UE e os em desenvolvimento, o presidente da CIP sublinha os “benefícios mútuos da política de cooperação para as nossas empresas e para os nossos povos”.

A CIP tem procurado, a nível nacional e europeu, dar uma maior relevância ao relacionamento da Europa com África e, no quadro da confederação europeia BusinessEurope, está a liderar um grupo de trabalho sobre cooperação e desenvolvimento.

Como demonstra o “African Economic Outlook 2014”, os países africanos precisam de explorar os mercados globais de forma mais eficaz, para fortalecerem as suas economias, e de investir na capacitação da sua população.

O estudo fixa uma taxa média de crescimento do mercado africano de cerca de 4% em 2013, superior em 1 ponto percentual à média da economia global. Para António Saraiva, “estes dados mostram-nos que é possível reduzir o fosso entre os níveis de desenvolvimento dos países africanos e dos países mais ricos. Mas é preciso fazer mais e melhor para acelerar este movimento”.

Afinal, “é na falta de qualificações que encontramos a principal causa da pobreza e o maior handicap ao desenvolvimento”. Porque a realidade é que, “num mundo em que mercadorias, capital financeiro, equipamentos, tecnologia e informação têm uma mobilidade cada vez maior, tornando-se universalmente acessíveis e tendendo os seus preços a convergirem, as vantagens competitivas das nações baseiam-se cada vez mais nos conhecimentos das pessoas”.

É, pois, reforçando a mensagem de integração plena das nações africanas, e das suas pessoas, na economia mundial, que o presidente da CIP conclui a sua intervenção no Think Tank da UNIAPAC África: “se queremos, de facto, recolocar o Homem no centro da economia, a primeira das prioridades dos governos há-de ser a que se dirige à valorização dos recursos humanos, em todas as suas dimensões. Há-de ser este o primeiro dos investimentos públicos e o foco das políticas de cooperação e desenvolvimento”.

José Maria Simone, presidente da UNIAPAC Internacional
José Maria Simone, presidente da UNIAPAC Internacional

O homem é o objectivo de toda a vida socioeconómica

Na perspectiva do presidente da UNIAPAC Internacional, o foco das empresas também devem ser os activos humanos: essenciais para a ordem global, estas oferecem “um contributo maior” quando a sua acção está orientada para o respeito pela dignidade das pessoas, “olhando-as como um fim da sua actividade, e respeitando a sua inteligência e liberdade”.

Dissertando sobre o papel do empresário na economia, José Maria Simone sublinhou que “as acções do líder empresarial devem estar alinhadas com os parâmetros de mercados abertos e livres, mas devem, também, estar alinhadas com o desenvolvimento da sociedade e dos indivíduos que a compõem”. Neste contexto, é necessário “restaurar as condições para que, através de negócios sustentáveis, ​​se fomente o desenvolvimento económico e social”, afirmou.

Para o argentino líder da organização ecuménica que reúne hoje associações de 36 países e mais de 16 mil membros, a economia, para além de centrar-se na produção e riqueza, está directamente associada à tomada de decisões. As quais terão de assentar num comportamento ético que “só pode existir dentro de uma empresa na qual haja uma liderança persistente e eficaz”.

Defendendo que “o homem é a fonte e o objectivo de toda a vida socioeconómica”, o presidente da UNIAPAC nota que os líderes empresariais cristãos “são chamados a encontrar formas inovadoras” para alcançar o objectivo de produzir bens e serviços que sirvam, “sem que tal implique promover o consumismo, que constitui a redução materialista da pessoa”.

Os empresários e gestores “têm que estar à altura dos tempos que vivemos”, apela José Maria Simone, assumindo-se como um “elo importante na cadeia do desenvolvimento e participando activamente no desafio de procurar “a sustentabilidade do desenvolvimento humano”, conclui.

[pull_quote_left]“As acções do líder empresarial devem estar alinhadas com o desenvolvimento da sociedade e dos indivíduos” – Presidente da UNIAPAC África[/pull_quote_left]

A UNIAPAC África, que integra associações empresariais de 13 países (Angola – ACGD, Benim – ACEB, Burkina Faso – ACATHA B, Cabo Verde – AGEPCCV, Camarões – PADIC, Chade – UCCT, Congo – CADICEC, Costa do Marfim – MIDEC, Gabão – MCC Gabon, São Tomé – ACGDST, Senegal – ADECC, Togo – EDCT e Zimbábue – ACD), propõe-se, precisamente, actuar na “promoção integral da pessoa”, colocando em evidência as questões que afectam o desenvolvimento das populações africanas, e apelando “à boa gestão  da economia, à boa governação, à responsabilidade social das empresas e ao desafio do pluralismo cultural e religioso”.

Constituída em Fevereiro de 2010, de acordo com a missão da UNIAPAC Internacional – ser um ponto de encontro e reflexão de todos os líderes e gestores cristãos –, a organização tem trabalhado “para criar uma África mais humana e solidária”, como disse em conferência de imprensa o presidente da União, o angolano Zeferino Estêvão Juliana.

Esse trabalho passa por alargar os seus membros a mais países e associações, como sucedeu em Março, em Cabo Verde, com a constituição da Associação de Gestores, Empresários e Profissionais Católicos de Cabo Verde (AGEPC-CV). Esta organização não-governamental tem por objectivo difundir e praticar o pensamento social da Igreja católica na gestão de empresas, instituições públicas e organizações da sociedade civil e, nas palavras da sua presidente, Milucí Barbosa dos Santos, encoraja os seus associados “a aplicarem o princípio da responsabilidade social corporativa, da fraternidade e da solidariedade, em prol da dignificação humana”.

Formar e transformar consciências, para construir uma sociedade mais justa, é a grande missão que a UNIAPAC África vem desenvolvendo através da dinamização de um conjunto de actividades, como obras económicas e sociais, estudos e publicações, ou seminários e congressos. Segundo o seu presidente, a organização está a trabalhar para que os grandes problemas de África (relacionados com a “gestão política e económica” e com o “pluralismo social”), sejam “paulatinamente ultrapassados”. Zeferino Juliana considera que aproveitar os recursos que o continente dispõe, para que possam ser utilizados para o bem de todos, “é um desafio, um sonho e uma luta”.

Um desafio que, à escala mundial, se repercute na acção em prol do bem-estar da humanidade desenvolvida pela UNIAPAC Internacional. A qual terá o seu momento mais importante, em 2015, no XXV Congresso Mundial da UNIAPAC, agendado para os dias 30 de Setembro e 1 e 2 de Outubro, em Belo Horizonte, Brasil, sob a temática “Business, politics and civil society working together for the common good”.

Gabriela Costa

Jornalista