Em 1992, a Wharton School of Business iniciou um estudo, junto dos seus alunos, sobre as suas expectativas futuras relativamente à intersecção entre a carreira e os filhos. Vinte anos mais tarde, e integrado no Work/Life Integration Project da mesma escola de negócios, o questionário foi repetido junto dos alunos pertencentes à classe de 2012. O número de homens e mulheres [em 2012] que responderam “sim” à questão “espera vir a ter filhos?” desceu em quase 50 por cento, comparativamente aos da classe de 1992. O que obriga a reflectir
POR HELENA OLIVEIRA

Sheryl Sandberg, outrora executiva de topo na Google e actualmente Chief Operational Officer (COO) do Facebook foi notícia a semana passada. ‘E porquê?’, perguntará o leitor. Porque fechou algum negócio formidável? Porque ganhou algum prémio devido à sua performance? Porque foi responsável por alguma nova e sofisticada alteração na rede social mais popular do planeta? Nada disso. Sandberg tornou-se notícia, replicada em inúmeros meios de comunicação social, porque confessou sair do trabalho todos os dias às 5 e meia da tarde para poder jantar com os filhos.

E por que motivo isso é notícia? Bem, na verdade, e como é do conhecimento geral, trabalhar durante longas horas seguidas equivale a ostentar uma medalha de honra nos locais de trabalho da actualidade. Quantas pessoas conhece que, repetidamente, se gabam (mesmo que tal não seja verdade e que o façam com um ar de falso queixume) das horas intermináveis que passam a trabalhar e cuja declaração de este “sacrifício” se transforma numa espécie de declaração pública da sua importância, dedicação e ética no trabalho? Adicionalmente, e em particular no caso das mulheres, muitas horas de trabalho só podem significar, aos olhos julgadores externos, uma de duas coisas: ou não têm filhos ou colocam-nos pelo menos em segundo lugar na sua lista de prioridades.

O caso de Sandberg acabou por ficar famoso quando esta aceitou participar num projecto de vídeo da Makers.com, que reúne pequenos filmes de mulheres que se sentem “realizadas”, sendo que a COO do Facebook tem sido considerada “extremamente corajosa” por confessar publicamente tal feito.

Concorde-se ou não com a manifesta coragem de Sandy Sandberg, a verdade é que o facto de se ser notícia por causa desta declaração pública obriga-nos a pensar. Depois de décadas em que as mulheres se têm esforçado para alcançar o tão falado equilíbrio entre vida pessoal e profissional, de inúmeros programas, livros, artigos, seminários, debates sobre conciliação, parece que afinal as mulheres não podem mesmo “ter tudo”. Mas será que querem?

De acordo com um estudo realizado pelo Work/Life Integration Project, da Wharton School of Business, dirigido pelo professor Stewart Friedman, que conduz pesquisas sobre a evolução dos interesses dos seus alunos e alumni – neste caso sobre as expectativas de vida – trabalho, educação, família, sociedade – da classe de 1992 e, 20 anos depois, da classe de 2012 – os resultados preliminares são tão interessantes quando deprimentes. Vejamos porquê.

Como resolver as tensões entre vida profissional e pessoal? Não se tendo filhos!
Em 1992, uma equipa de investigadores entrevistou 460 alunos, questionando-os sobre de que forma imaginavam que o trabalho e a vida família se iriam intersectar no seu futuro próximo. Vinte anos mais tarde, as mesmas perguntas foram efectuadas a 314 alunos, que frequentavam o mesmo ano que os seus antecessores, ou seja, na mesma faixa etária. Os resultados preliminares demonstram, como afirma o responsável do projecto, que “os homens se tornaram mais igualitários e as mulheres mais realistas”, o que não torna menos preocupante o facto de homens e mulheres de 22 anos, no século XXI, começarem a considerar que trabalho e família se excluem mutuamente: em 2012, os alunos questionados consideraram que “era significativamente menos provável esperarem ter filhos” comparativamente aos seus pares, no geral, da classe de 1992. O número de homens e mulheres [em 2012] que responderam “sim” à questão “espera vir a ter filhos?” desceu em quase 50 por cento, comparativamente aos da classe de 1992.

Mais especificamente, em 1992, 79% dos homens e 78% das mulheres responderam afirmativamente à questão em causa, sendo que a percentagem baixa para 42% dos homens e mulheres em 2012. Ou seja, poderemos alvitrar que os restantes inquiridos se encontram na categoria do “talvez”? Nem por isso. Sete por cento das mulheres entrevistadas em 2012 responderam com um “definitivamente não”, em conjunto com 12% dos seus pares masculinos versus apenas 2% das mulheres e 4% dos homens em 1992. Outro facto interessante prende-se com 20% das mulheres e 18% dos homens a responderem “provavelmente não”, em 2012, comparativamente a 1% das mulheres e 2% dos homens em 1992.

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Uma das conclusões preliminares que pode ser retirada destes números indica que, nos últimos 20 anos “as mulheres sentem, com maior probabilidade, que as exigências de uma vida familiar interferem com o alcançar de sucesso na carreira, sentimento que se tem vindo a aprofundar, negativamente, nas últimas duas décadas”. Ainda mais preocupante é o facto de 64% das mulheres inquiridas no estudo de 2012 terem concordado afirmativamente com a declaração de que “as exigências da vida familiar irão interferir com o sucesso a alcançar na minha vida profissional”, versus apenas 26% dos homens.

O estudo de Wharton contém outros dados adicionais relativamente ao que homens e mulheres pensam sobre relacionamentos onde ambos perseguem uma carreira de sucesso e sobre a expectativa de “terem tudo”, que a pesquisa define como “uma carreira recompensadora, relacionamentos familiares satisfatórios e realização na vida pessoal”. De qualquer das formas, o que aparenta constituir um elemento de grande preocupação prende-se com o facto de uma percentagem significativamente elevada de homens e mulheres, com 22 anos, considerarem que a melhor forma de resolver as tensões existentes entre carreira profissional e vida pessoal é, simplesmente, desistindo de ter filhos. Mais a mais numa altura em que os Estados Unidos, seguindo uma tendência similar à da Europa, começar a ter taxas de natalidade baixas, só equilibradas devido à presença de uma significativa comunidade hispânica no país.

Homens mais igualitários, mulheres mais pragmáticas
Apesar do estudo em causa não apurar directamente os motivos devido aos quais homens e mulheres estão, de forma crescente, a colocar a carreira à frente da constituição familiar, Friedman, o responsável pelo mesmo, afirma que uma das outras conclusões a que se chegou estar relacionada com o número de horas previstas para dedicar ao trabalho semanalmente: em 1992, os alunos esperavam vir a trabalhar uma média de 53 horas por semana; por seu turno, os alunos de 2012, antecipam vir a dedicar cerca de 70 horas semanais ao trabalho, quase dois dias a mais comparativamente aos antigos alunos. Ou seja, tal revela não só a exigência por parte das empresas no que respeita a uma devoção quase exclusiva ao trabalho, como também uma alteração nas atitudes dos jovens que parecem concordar com esta “exclusividade” laboral. As alterações provocadas pela tecnologia – que possibilita ou obriga, dependendo do ponto de vista – aos colaboradores estarem sempre ligados às exigências por parte dos seus clientes ou chefias, constitui também um outro factor a ter em conta para que estes jovens de vinte e pouco anos considerem normal conceberem uma grande parte da sua vida a “viver”na empresa.

O estudo explorou igualmente as atitudes relativas a um relacionamento em que ambos os parceiros têm uma carreira a defender, com base em duas declarações: “os relacionamentos em que os dois parceiros possuem uma carreira funcionam melhor se um dos parceiros estiver mais avançado relativamente ao outro” ou “os relacionamentos em que os dois parceiros possuem uma carreira funcionam melhor se um dos parceiros estiver menos envolvido com a sua própria carreira”.

Em 1992, os homens sentiam-se mais inclinados a concordar com ambas as declarações comparativamente aos seus pares no feminino. As análises preliminares demonstram, contudo, que, em 2012, os homens concordam menos com estas afirmações face aos pares de 1992, ao passo que as mulheres aumentam em termos de percentagem no que respeita a concordarem com estas duas premissas. Ou seja, ambos os comportamentos sofreram alterações significativas, significando que os homens da actualidade são mais igualitários nos seus pontos de vista e que as mulheres aprenderam a ser mais realistas. Friedman afirma mesmo que existe uma maior solidariedade entre homens e mulheres e, consequentemente, mais flexibilidade relativamente aos papéis que, no masculino e no feminino, a sociedade actual permite. Existe também um sentimento mais marcado no que respeita à partilha de responsabilidades no que respeita às tarefas domésticas.

Apesar de não ser possível adivinhar, relativamente aos jovens entrevistados em 2012, que alterações sofrerão as suas atitudes daqui a 20 anos, Friedman sublinha que a definição de “sucesso na carreira” evoluiu consideravelmente nos últimos 20 nos, facto demonstrado quando os alunos de 1992 foram novamente entrevistados o ano passado. “A flexibilidade surge num lugar de muito maior destaque para os que têm agora cerca de 40/42 anos comparativamente às respostas dadas há 20 anos”, afirma Friedman. Ou seja, à medida que uma pessoa vai vivendo, as noções de prestígio, poder ou influência, e até a própria realização no trabalho, acabam por sofrer um declínio comparativamente à importância que lhes é atribuída quando se tem 20 anos.

À medida que as atitudes relativamente ao trabalho continuam a evoluir, afirma Friedman, em tom optimista, existem numerosas possibilidades para o progresso da conciliação entre vida profissional e pessoal. “A combinação de alterações radicais na tecnologia e a mudança dos valores de homens e mulheres no que respeita ao lugar do trabalho nas suas vidas indicam que iremos assistir a muito mais experimentação e a alternativas criativas na forma como se encara o trabalho e a família na vida, e estas duas variáveis em conjunto”, sublinha. “Estou esperançado que o resultado seja a existência de novos modelos e soluções para que seja possível às pessoas, de ambos os sexos, terem mais do consideram ser ‘tudo’”.

O que continua sem responder à questão: mas será que as mulheres querem?

Pensar num filho com uma folha de Excel
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Nadia Taha é uma jornalista do The New York Times e responsável por um blog intitulado “Making the Most of Your Money”. Em Novembro de 2012, Taha decidiu publicar um artigo no blog em causa sobre os custos inerentes [nos Estados Unidos] a criar um filho. A jornalista contava ainda aos leitores que, em conjunto com o seu marido, e quase a chegarem à casa dos 30 anos, e com empregos moderadamente bem pagos, se inclinavam a não ter filhos devido a razões financeiras. O trabalho de pesquisa foi profundo, sendo que a jornalista se socorreu de um conjunto alargado de fontes e cálculos vários, em conjunto com a noção de “poder dar tudo ao filho em causa”,tendo chegado a cerca de 1,8 milhões de dólares como o montante necessário para criar um hipotético filho. Nadia Taha não só estimou os custos que teria até a criança acabar a faculdade, como ainda aqueles que resultariam do facto de este filho poder ter a sua própria descendência o que, enquanto avós, traria ainda custos adicionais.

Mais ainda, e apesar de reconhecer que existem inúmeras razões para se querer ter um filho, concentrou-se na perda significativa de rendimentos que está associada às mulheres que se tornam mães, mesmo que continuassem a trabalhar a tempo inteiro, e ainda outro tipo de “sacrifícios” para a saúde mental e física que podem advir da maternidade, como taxas mais elevadas de depressão, menor satisfação marital, entre outras.

O que a jornalista não fez, porque é impossível estimar, foi colocar numa outra folha de Excel o quanto se ganha quando se tem um filho. Porque é algo que não tem preço mesmo.