Foram precisos 21 anos para que Suu Kyi, finalmente livre da prisão domiciliária a que esteve sujeita no seu país, proferisse finalmente o discurso de aceitação do Prémio Nobel da Paz, em Oslo, que lhe foi atribuído em 1991. O ícone da resistência birmanesa esteve primeiro na Tailândia, no Fórum Económico Mundial para a Ásia Oriental, tendo de seguida iniciado um périplo pela Europa, onde falou e encantou
POR HELENA OLIVEIRA

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Depois de 20 anos em prisão domiciliária, Aung San Suu Kyi, a líder da oposição birmanesa tem feito, nas últimas semanas, um excelente uso do seu passaporte, finalmente devolvido pelas mãos do actual presidente da Birmânia, o reformista Thein Sein.

Antes do périplo histórico pela Europa, com paragem em Genebra, Londres e Oslo, a heroína nacional da actual Myanmar foi uma das oradoras convidadas no Fórum Económico Mundial (FEM) para a Ásia Oriental, que teve lugar em Banguecoque, a capital da Tailândia. Sem recurso a notas, a mulher que esteve presa e longe da família durante quase um quarto de século, ofereceu um discurso memorável aos muitos líderes, políticos e representantes dos media que aguardavam as suas palavras com ansiedade e que lhe valeu uma ovação de pé. Foi no passado dia 1 de Junho e, de acordo com os inúmeros relatos veiculados pela imprensa mundial, mais parecia que Suu Kyi estava mais do que habituada a falar para enormes audiências e não para as paredes que a protegeram durante a sua prisão forçada.

Para além do seu discurso no qual pediu à audiência “ideias e sugestões práticas” para ajudar ao desenvolvimento da sua Birmânia, Suu Kyi assistiu ainda a um painel sobre o estado das mulheres no mundo, a um outro sobre a evolução política na Ásia e, num dos jantares do Fórum, conversou animadamente com o ministro do Comércio da Indonésia, Gita Wirjawan, proveniente de um país que fez uma transição bem-sucedida e rápida de uma quase ditadura militar para uma democracia multipartidária.

No segundo dia do FEM, assistiu a outras sessões mas, como conta o The Economist, tentou passar o mais despercebida possível, apesar de ter sempre um lugar reservado na fila da frente. Inquirida, num painel sobre segurança, se gostaria de intervir, Suu Kyi respondeu: “Honestamente, tenho falado muito nos últimos dias. Prefiro, na verdade, ouvir e aprender”, sentimento que havia de repetir numa conferência de imprensa no local.

Todavia, foi em Oslo, no passado Domingo, que a activista de 66 anos (viria a completar 67 anos dias depois) fez um discurso memorável, se bem com um atraso de 21 anos. Na capital da Noruega e depois de uma paragem forçada em Berna, na Suíça, devido a motivos de saúde, Suu Kyi recebeu, finalmente, em mãos, o Prémio Nobel da Paz que lhe havia sido atribuído em 1991 e do qual teve conhecimento através da rádio. Na altura, o seu marido, entretanto falecido, haveria de o receber por ela, em conjunto com os dois filhos. Mas e como fez saber à audiência que a aplaudiu de pé por longos minutos, este reconhecimento ajudou-a a enfrentar da melhor forma o seu isolamento. “O Prémio fez-me sentir viva novamente”, afirmou. “Levou-me de volta à comunidade humana da qual me sentia afastada e, mais importante que tudo, o Prémio Nobel significou uma concentração das atenções do mundo para a luta pela democracia e pelos direitos humanos na Birmânia”.

“Não pretendo acreditar numa fé cega”
A recente liberalização política do governo da Birmânia, louvada por toda a comunidade internacional, permitiu a Suu Kyi deixar a prisão domiciliária a que esteve confinada nas duas últimas décadas. A dois de Maio último, a Nobel da Paz viria a assumir um assento parlamentar no seu país, mas é com “optimismo acautelado” que fala do caminho democrático a ser traçado pela Birmânia. “Foram realizadas mudanças para uma direcção positiva”, disse. “Passos no sentido da democratização foram dados. Mas se eu defendo um optimismo cauteloso, não o faço por não ter fé no futuro, mas porque não quero encorajar uma fé cega”, acrescentou, alertando ainda para o facto de todos os sectores da sociedade birmanesa terem de participar activamente e apoiar o processo de reformas em curso. Na única parte do discurso que foi interrompido por uma enorme ovação, Suu Kyi ergueu a voz para clamar pela libertação de outros presos políticos do seu país.

“Estou aqui porque fui, em tempos, uma prisioneira de consciência. E enquanto olham para mim e me escutam, por favor lembrem-se da verdade, tantas vezes repetida, de que um prisioneiro de consciência é sempre um a mais”, disse. “Aqueles que ainda não foram libertados, os que ainda não têm acesso aos benefícios da justiça no meu país, perfazem um número muito superior a um. Por favor, recordem-se deles e façam o que for possível para efectivar a sua liberdade incondicional”.

A prisão domiciliária de Suu Kyi remonta a 1988, ano em que regressou à Birmânia para cuidar da sua mãe, na altura às portas da morte. A activista foi recentemente eleita para o parlamento por via da Liga Nacional da Democracia (LND), partido que ajudou a fundar exactamente em 1988 e que em 1990 haveria de conquistar 392 dos 492 assentos no parlamento birmanês, mas impedido de formar governo pela junta militar. Só em 2011 é que a LND anunciou as suas intenções de se voltar a registar como partido político, depois de em 2010 ter sido dissolvido pela junta militar.
Em 1990, quando lhe é atribuído o Prémio Sakharov para a Liberdade de Pensamento, pelo Parlamento Europeu, ao qual se seguiria o Nobel da Paz, devido “à sua luta não violenta pela democracia e pelos direitos humanos”, Suu Kyi estaria longe de pensar  que iria permanecer detida por mais duas décadas.

No discurso de aceitação do prémio, Suu Kyi fez questão de sublinhar que o mesmo significa a sua preocupação alargada pela democracia e direitos humanos além-fronteiras, pois grande parte do mundo continua a procurar a paz enquanto forças negativas a corroem nas suas fundações. “Fogos de sofrimento e de conflitos continuam a enraivecer o mundo. No meu próprio país, as hostilidades ainda não cessaram (…) e poucos dias antes de eu ter iniciado esta viagem, as notícias eram de violência e assassínio”, alertou. E foi em torno dos ideais de paz, das sementes da guerra, dos laços que unem a comunidade humana e do raro poder da bondade que a Mãe Suu, como é chamada na Birmânia, teceu o seu discurso.

“Ignorar o sofrimento dos outros é alimentar a guerra”
Recordando a primeira guerra mundial, que representou uma perda terrível de juventude e potencial, a par de um esbanjamento cruel das forças positivas do planeta, Suu Kyi questiona-se porquê: “Quase um século mais tarde e ainda não encontrámos uma resposta satisfatória. Não somos ainda culpados, nem que seja devido a um grau violento de imprudência e de improvidência relativamente ao nosso futuro e à nossa humanidade? A guerra não é a única arena na qual a paz se transforma em morte. Sempre que o sofrimento é ignorado, existirão sempre sementes de conflito (…)”, acrescentou.

Todavia, Suu Kyi acredita que vivemos numa era iluminada. “Somos afortunados por viver numa era em que o bem-estar social e a assistência humanitária são reconhecidos não só como desejáveis mas como necessários. Sinto-me afortunada por viver numa era em que os destinos dos prisioneiros de consciência, em todo o mundo, constituem preocupação para muita gente, numa era em que a democracia e os direitos humanos são largamente, senão universalmente, aceites como um direito para todos”, disse ainda.

Considerando que apesar da paz absoluta no mundo em que vivemos ser um objectivo inatingível, pois a “paz absoluta não é deste mundo”, a activista birmanesa relembrou que esta tem de continuar a ser o caminho, com “os olhos fixos nela como um viajante no deserto fixa os seus na estrela orientadora que o levará à salvação”. E mesmo que a paz perfeita nunca seja atingida, acrescenta, “diligência comuns para ganhar a paz irão unir os indivíduos e as nações para que a comunidade humana se sinta mais segura e generosa”.

Palavras que deveriam ter sido expressas há 21 anos, mas que continuam a fazer mais sentido do que nunca.

Helena Oliveira

Editora Executiva