Tendo em conta as alterações que a economia enfrenta fruto das crises ambientais, da revolução tecnológica e das mudanças sociais, as empresas são chamadas a responder a estas profundas transformações que afectam não só os seus produtos e serviços, mas também o seu propósito. “Business in Transition” é um dos 12 temas em discussão para o encontro (virtual) de Assis, inserido no evento “The Economy of Francesco” a ter lugar em Novembro e é sobre o mesmo que recai a nossa reflexão
POR MANUEL THEOTÓNIO

Na sequência de mais uma sessão, promovida pela ACEGE Next, sobre a Economia de Francisco, e estando o evento dividido em 12 villages, cada uma delas correspondendo a um dos temas que serão discutidos em Novembro próximo, a minha escolha recaiu sobre o denominado “Business in Transition”. Assim, e como já anteriormente referido, dada a impossibilidade de nos juntarmos fisicamente em Assis (e, na verdade, em todo o lado), a preparação para esta reunião virtual que juntará jovens de todo o mundo tem sido feita quinzenalmente e de forma não presencial, através de diferentes projectos de investigação, implementação de projetos sociais e de grupos de discussão relacionados com os 12 temas em causa.

No grupo onde me insiro, e tendo em conta a temática acima mencionada, são especificamente duas as questões em torno das quais temos vindo a trabalhar: “How to combine profitable solutions with impact overtime” e “How to implement the business model transition over time?”. Todavia, existe uma pergunta prévia que, porventura, será mais difícil de responder: qual a melhor forma possível de se organizar um grupo de trabalho “espalhado” pelo mundo, composto por jovens provenientes não só de Portugal, mas também da Itália, Colômbia e Brasil, para produzir algo de valor? Apesar de não ser fácil, o desafio foi aceite por todos e, a 16 de Setembro último, foi a vez de a nossa village estar em destaque e com a reflexão que se segue.

A transição para modelos de negócio focados em dar resposta a problemas sociais e ambientais está progressivamente a aumentar. Nos dias de hoje, independente do seu tamanho ou do sector em que se inserem, todas as empresas têm uma grande parte do seu relatório anual de actividades dedicado à sustentabilidade social e ambiental. Os consumidores começam a preocupar-se e a valorizar empresas que sejam socialmente responsáveis e começamos a notar essa mudança na economia em geral. As empresas mais tradicionais sentem os seus modelos de negócio a murchar e, a par das startups que emergem, passam a desenhar novos modelos de negócio com maior enfoque e preocupação pelo ambiente e pela sociedade. Algumas vão mais longe, orientando a totalidade da sua actividade para a resolução de problemas ambientais e sociais das comunidades em que se inserem.

Gostaria de partilhar o exemplo da CPH Village. Comecei o meu mestrado em Copenhaga e o primeiro problema que enfrentei, tal como todos os estudantes universitários desta cidade, foi encontrar casa. Simplesmente, não existem residências de estudantes suficientes para alojar todos os que aqui estudam e, apesar do esforço do Município de Copenhaga, o problema permanecerá nos próximos 10 anos. De referir igualmente o facto de existirem antigas zonas industriais no centro da cidade que estão inutilizadas e para as quais não existe uma solução a longo prazo. O plano da CPH Village foi aproveitar estes espaços e neles construir rapidamente residências, que pudessem ser alugadas a um preço acessível, localizadas no centro da cidade e que fossem ambientalmente sustentáveis. Sendo este um problema de curto prazo, foram construídos contentores que poderão posteriormente ser transferidos para outra cidade.

Ao entrar no meu “contentor”, a minha casa para este ano, um dos 12 trabalhadores do CPH Village dizia-me: “Também estudei na Copenhagen Business School (CBS), no mestrado de Gestão Internacional, depois trabalhei três anos numa startup e acabei por me juntar a este projecto. Tem sido muito bom, porque não temos inimigos. O município quer muito o nosso sucesso, não temos propriamente concorrentes e os estudantes adoram cá estar!”. Fiquei com esta frase na cabeça: “Não temos inimigos.” E acredito que isso é a força e o sinal de uma transição de modelo de negócio bem-sucedida, apesar de o salto necessário para o seu êxito ter ainda de ser dado. Ou seja, termos a convicção de que um modelo de negócio que acrescente valor significativo, isto é, focado em resolver problemas prioritários, e que melhore realmente a vida dos que os rodeiam, é o caminho correcto a seguir pela empresa e pelos seus stakeholders.

Adicionalmente, acredito igualmente que é urgente retirar o foco do lucro. Este não é o objectivo último, mas sim a consequência de oferecer um serviço/produto com valor aos clientes. É também um meio para continuar a actividade e para melhorar o negócio. De acordo com um relatório publicado pelo Pitchbook, das 100 startups que completaram uma IPO nos últimos 10 anos e que valem mais de mil milhões de dólares, 64 não eram lucrativas. O que interessa nestas startups é o lucro futuro, pois o essencial é criar valor, vindo o lucro como consequência.

Por outro lado, defendo também que é urgente retirar o foco da inovação e da tecnologia, na medida em que ambas devem estar, em primeiro lugar, ao serviço da humanidade. Ao centrar a actividade de uma empresa na inovação, o mais provável é originar invenções que, de facto, podem ser muito criativas, mas que não vão ao encontro das necessidades das pessoas. Nos dias que correm, é cada vez mais relevante envolver o utilizador em todo o processo de criação de um produto. É, assim, crucial criarmos valor para o utilizador.

Ouso ir ainda mais longe, acreditando ser urgente retirar o foco do tema da sustentabilidade, bem como o da responsabilidade social.  Não porque não sejam importantes, mas porque, e em muitos casos, continuam a não passar de meras acções de marketing. Ou seja, tanto a sustentabilidade como a responsabilidade social deverão estar totalmente integradas na missão da empresa e, por conseguinte, na sua actividade principal.

Concluindo e de modo a maximizar o valor realmente significativo que uma empresa pode gerar, há que redireccionar, em primeiro lugar, o foco da organização para as pessoas e para as suas necessidades e também para os problemas mais urgentes que assolam a sociedade como um todo.

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