A sustentabilidade é vista como uma oportunidade de entrar em novos mercados ou desenvolver novos produtos e serviços. Acredito que esta abordagem é a que melhor permite dar resposta aos desafios que hoje são lançados ao mercado, tornando por isso a sustentabilidade negócio
POR CONSTANÇA SANTOS

Os dois maiores desafios que o mundo enfrenta (para além do atual desafio imposto pela Covid 19) são as alterações climáticas e a desigualdade. Quem o disse foi Paul Polman no deu discurso no SDG Business Forum em 2019. Aliás, não há falta de informação que o comprove, como seja a própria criação dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentáveis ou mesmo o relatório do IPCC, lançado em outubro de 2018, sobre o impacto do aumento da temperatura média do planeta em 1.5C.

O setor empresarial é cada vez mais puxado para fazer parte da solução dos desafios identificados. Mas, por vezes, os argumentos apresentados por estas instituições, bem como a visão de que os negócios têm um papel na solução deste problema, são vistos como românticos, idealistas ou mesmo irrealistas.

Vamos ser claros: a sustentabilidade não é romântica. A sustentabilidade é negócio.

Antes de explorarmos por que é que sustentabilidade é negócio, vale a pena debruçarmo-nos um pouco sobre as diferentes formas de olhar para a sustentabilidade. De acordo com o que Rodrigo Tavares partilhou na conferência Paradigm Shift: Sustainable Transformation, a sustentabilidade pode tomar várias formas e não há uma mais correta do que outra. A filantropia pode tecnicamente ser uma forma de sustentabilidade, em que as empresas usam parte dos seus lucros para projetos filantrópicos. Este caso, em que a sustentabilidade é externa à essência do negócio, é uma prática antiga e pouco eficaz quando consideramos os desafios ambientais e sociais do século XXI. Uma segunda forma de olhar para a sustentabilidade é como Responsabilidade Social Corporativa. Sob esta perspetiva a sustentabilidade é vista como uma licença para operar, mais focada nos custos do que nas oportunidades. Finalmente, podemos olhar para esta temática como sustentabilidade corporativa. Aqui, os princípios da sustentabilidade são incorporados no DNA da empresa, desde estratégia e operações a processos e cultura. Neste caso, a sustentabilidade é vista como uma oportunidade de entrar em novos mercados ou desenvolver novos produtos e serviços. Acredito que esta última abordagem é a que melhor permite dar resposta aos desafios que hoje são lançados ao mercado, tornando por isso a sustentabilidade negócio.

A generalidade dos millennials, que rapidamente se aproximam da maioria da força de trabalho, procura uma carreira intelectualmente desafiante aliada a um propósito. Na verdade, 76% deles estariam dispostos a uma redução salarial para trabalharem numa empresa socialmente responsável. Uma empresa irá atrair tanto mais talento quanto mais tiver a sustentabilidade enraizada na essência do seu negócio. E não estamos a falar apenas de empresas no setor FMCG [Fast Moving Consumer Goods], onde o impacto negativo da ausência de uma estratégia sustentável tende a ser mais visível. Como mencionou António Miguel na referida conferência, o produto das empresas de serviços é, na grande maioria, o seu talento e o aconselhamento que oferecem. Daí que o sucesso destas empresas (leia-se sucesso financeiro) passe muitas vezes pela qualidade do seu talento e, logo, pela sua capacidade de atrair os melhores.

Os consumidores de hoje, que da mesma forma estão prestes a ser maioritariamente millennials, têm cada vez mais hábitos de consumo sustentáveis, preocupando-se com a sustentabilidade ambiental e social dos produtos e serviços que consomem. Aliás, nos Estados Unidos, os produtos sustentáveis tiveram um crescimento 5,6 vezes superior ao dos produtos convencionais. Não é por acaso que há cada vez mais empresas a incorporar os princípios da sustentabilidade no seu DNA. Veja-se os conhecidos casos da Unilever, Natura e IKEA. Este último já vem a incorporar a sustentabilidade na sua estratégia há muitos anos, como partilhou Helen Duphorn, o que implica que, por exemplo, os processos de desenho de novos produtos e a gestão da cadeia de fornecedores tenham em consideração os princípios da sustentabilidade. Ainda que estas empresas estejam longe de serem totalmente sustentáveis, já incorporam a sustentabilidade de forma holística na sua estratégia. Há outras empresas que também começam a lançar produtos que têm em conta estes princípios. A Colgate lançou recentemente uma escova de dentes de bambu e a Garnier lançou o seu primeiro champô sólido. Já há empresas que entendem a sustentabilidade não só como oportunidade de negócio, mas também como a única forma de sobreviver num mercado que irá privilegiar o consumo sustentável.

Tendo em conta o perfil descrito dos consumidores e trabalhadores de hoje, é fácil perceber que a má gestão da sustentabilidade, ou seja, de aspetos sociais e ambientais, constitui um risco para os negócios. É por isso que os mercados financeiros também já têm em consideração os princípios da sustentabilidade através da incorporação de critérios ESG (sigla inglesa para critérios ambientais, sociais e de governança) nos seus produtos financeiros, permitindo assim avaliar o risco desses fatores. O valor de investimentos sustentáveis, ou seja, que têm em consideração os critérios referidos, é neste momento de 30 biliões; um crescimento de 68% face a 2014, representando hoje um terço de todo valor disponível nos mercados.

A adoção de uma abordagem sustentável à forma de fazer negócio deveria ser uma escolha com base em princípios como a responsabilidade, empatia e respeito pelos diferentes stakeholders da sociedade. Mas se esses forem argumentos demasiados românticos, que seja pela sobrevivência dos negócios.

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