É um facto que as empresas caminham a velocidades distintas e que nem todas se encontram no mesmo estado quando se aborda a responsabilidade corporativa, a sustentabilidade ou o negócio responsável. Existe, no entanto, um consenso alargado sobre a importância, independentemente da sua dimensão ou sector, de demonstrarem cada vez mais que são responsáveis nesta nova conjuntura
POR LUÍS ROBERTO

Longe vão os tempos em que as empresas tinham como único objetivo gerar lucros e pagar os dividendos aos seus accionistas. A sua ligação com a comunidade era inexistente e o conceito de stakeholder ou parte interessada, praticamente nula.

Segundo alguns investigadores, o conceito de responsabilidade social surge na primeira metade do século XX, apoiando-se nos princípios básicos da filantropia. As empresas eram estimuladas a ser generosas para com os mais desfavorecidos e a ter em conta, na sua atividade comercial, os interesses de outros públicos sociais.

Nos anos 90, a responsabilidade social, mais do que fashion ou causar a simpatia por uma determinada marca ou produto, passou a ser um fator de diferenciação e, sobre ela, recaiu a decisão de aderir ou não aos serviços de uma organização, de atrair e reter talentos, de dar o benefício da dúvida em situações de crise.

Ao longo dos últimos 10 anos, a responsabilidade social passou a fazer parte da cultura organizativa de várias empresas, traduzindo-se no desenvolvimento de programas de grande significado para a comunidade, e a serem vividos internamente como elemento motivador e mobilizador dos seus colaboradores.

A prática da responsabilidade social evoluíu, deixando cada vez mais o aspeto filantrópico, abraçando na sua missão o investimento com impacto, o qual visa gerar efeitos sociais ou ambientais visíveis.

A agenda global para a sustentabilidade, acordada em 2015 pelos 193 Estados membros das Nações Unidas, traduzida nos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, veio impulsionar a vida nas empresas tendo-se assistido à integração voluntária das preocupações sociais, ambientais e económicas, nos planos do negócio e nas relações com os seus stakeholders, levando a que muitos líderes acreditem que a sustentabilidade estará totalmente interligada não só com o core business da empresa, mas também com toda a cadeia de valor, conduzida sobre uma estratégia empresarial.

A sustentabilidade passa assim a fazer parte do vocabulário e da agenda das empresas, acompanhado pela nova denominação das siglas CSR – Reponsabilidade Corporativa e Sustentabilidade (em português), aprovado pelo CSR Europe com a definição da sua estratégia 2030.

A preocupação com um futuro mais sustentável, consolidado com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, ganhou metas quantitativas possíveis de serem medidas e atingidas.

Segundo o último Sustainable Development Report produzido pela Universidade de Cambridge, Portugal tem uma performance de 77% na implementação dos Objetivos. A promoção de práticas e ações com o objetivo de proporcionar a sustentabilidade nas suas 5 dimensões – Planeta, Pessoas, Prosperidade, Paz e Parcerias (conhecido pelos 5 P’s) -, passou a integrar as estratégias do negócio, traduzindo-se paralelamente na transmissão de confiança e de segurança aos investidores, e numa cooperação ativa com os organismos governamentais.

O público financeiro passou a preocupar-se com os critérios de sustentabilidade ESG – Environmental, Social and Governance (em português, Ambiental, Social e de Governança) e com as Metas de Desenvolvimento Sustentável, tornando-se estes em indicadores vitais para a solidez da reputação das empresas e para o sucesso do negócio a longo prazo.

Em complemento, a União Europeia tem vindo a lançar várias iniciativas, tendo como objetivo a sustentabilidade da Europa, com a participação ativa dos 27 países que a integram.

Estamos a falar por exemplo do European Green Deal que visa contruir uma Europa climate neutral até 2050, da Economia Circular que é um conceito económico que propõe que os resíduos de uma indústria sirvam para matéria-prima reciclada de outra indústria ou para a própria, ou a mais recente New European Bauhaus que pretende transfomar as cidades em lugares sustentáveis, trazendo as ideias para junto das pessoas, envolvendo o poder local e o sector privado.

De um modo geral, o sector privado, apoiado pelo Estado enquanto legislador, é um player importante nesta grande caminhada rumo à sustentabilidade.

Os negócios têm um propósito além do lucro, e devem desempenhar um papel essencial na melhoria da sociedade, incluindo o avanço das oportunidades económicas e a promoção de práticas comerciais justas.

O negócio responsável vai muito para além do ambiente e do social. A segurança, a diversidade, os direitos humanos, a transparência, a independência dos órgãos sociais, o combate à corrupção, a ética, a interação com os media e, mais genericamente o modelo de governação, as finanças e os investimentos sustentáveis, são factores que ao serem introduzidos na gestão das empresas, contribuem para a diminuição dos riscos financeiros e para a preservação dos mercados.

O négocio responsável tem a responsabilidade de agir com integridade e transparência para gerar uma relação de confiança com todos os seus stakeholders. É este o princípio de negócio responsável.

É um facto que as empresas caminham a velocidades distintas, e nem todas se encontram no mesmo estado, quando se aborda a responsabilidade corporativa, a sustentabilidade ou o negócio responsável. Existe no entanto um consenso alargado sobre a importância das empresas, independentemente da sua dimensão ou sector, demonstrarem cada vez mais que são responsáveis nesta nova conjuntura.

A contribuição empresarial é fundamental para o futuro sustentável, e a sustentabilidade não é mais uma questão de gestão individual da empresa, mas sim de todo o ecossistema.