São várias as vozes clínicas que asseguram que estamos perante uma epidemia da solidão, com riscos tremendos para a saúde física e emocional. Estudos diversos alertam para os males de nos sentirmos sós e, ao contrário do que se pensa comummente, são as gerações mais novas que batem recordes de isolamento social e de sentimentos de não pertença. Admitir que estamos perante um problema de saúde pública é da competência dos governos, tal como fez o Reino Unido que, desde 2018, tem um “ministério para a solidão” responsável por pensar em abordagens que a possam mitigar
POR HELENA OLIVEIRA

“Quando nos sentimos sós, é porque estamos sós”

Os cientistas sociais definem “solidão” como um estado emocional criado quando as pessoas têm menos contactos sociais e relações com significado do que o que desejariam, apesar do conceito não gerar consenso entre todos os que o investigam. Por exemplo, os termos “isolamento social” e “solidão” são utilizados muitas vezes como sinónimos, mas tecnicamente referem-se a estados de espírito diferentes, sendo definidos, e no primeiro caso, também como um contacto escasso com os outros e no segundo com a percepção de nos sentirmos desligados e sem um sentimento de pertença.

E, nos últimos anos e em alguns países, em particular naqueles em que o fenómeno da solidão é mais estudado, como os Estados Unidos, o Reino Unido ou o Japão, fala-se já de uma epidemia – na medida em que afecta seriamente a saúde de inúmeros visados – a qual merece uma “intervenção” dos programas de saúde pública, sendo esta defendida por médicos, mas e até então, não tendo sido suficientemente levada a sério por parte dos governos.

A excepção vai para o Reino Unido, que no início do ano de 2018 passou a ter um “ministério para a solidão”, responsável por abordar as questões sociais e de saúde causadas pelo isolamento social. A ideia de epidemia foi inicialmente “decretada” por um reconhecido cirurgião clínico, Vivek Murthy, num artigo que correu mundo publicado na Harvard Business Review  – Work and the Loneliness Epidemic e tendo como base um estudo publicado pela Brigham Young University.

No artigo, o cirurgião escreveu que ao longo de toda a sua carreira, a patologia mais comum com que lidou não foram doenças coronárias ou diabetes, mas sim a solidão. “A solidão e as ligações sociais débeis estão associadas a uma esperança de vida menor, similar à de quem fuma 15 cigarros por dia e ainda mais acentuada quando comparada com aqueles que sofrem de diabetes”, escreve. “A solidão está igualmente associada a um maior risco de doenças cardiovasculares, demência, depressão e ansiedade. No trabalho, a solidão reduz a performance nas tarefas, limita a criatividade e afecta outros aspectos das funções executivas como o raciocínio e a tomada de decisão”, acrescenta. Outros estudos associam também a solidão a uma maior propensão para o cancro e a respostas mais pobres aos tratamentos e a um declínio cognitivo muito mais acentuado à medida que se vai envelhecendo, funcionando como um sinal pré-clínico da doença de Alzheimer. Ou e em suma, a solidão pode ser mortal.

“A solidão e as ligações sociais débeis estão associadas a uma esperança de vida menor, similar à de quem fuma 15 cigarros por dia, sendo ainda mais mortal do que a diabetes”

De acordo com um estudo realizado nos Estados Unidos o ano passado pela companhia de seguros Cigna, num universo de 20 mil pessoas estudado, 47% dos respondentes admitiram sentir-se muitas vezes sós ou abandonados, com 13% a afirmarem não ter uma única pessoa na vida que os conheça bem. A verdade é que a solidão está a atingir níveis epidémicos em todo o mundo desenvolvido, com 41% dos britânicos a confessarem que a sua única companhia é a televisão ou um animal de estimação e o Japão a reportar que mais de meio milhão dos seus cidadãos passou pelo menos seis meses em casa sem qualquer contacto com o mundo exterior, a par do fenómeno kodokushi ou “morte solitária”, que se refere a pessoas que morrem nos seus apartamentos sem que ninguém dê conta e que ascende a uma média de 30 mil casos por ano.

Mas qual a relação entre a solidão e a saúde?

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A resposta à pergunta parece ser simples: stress. De acordo com os cientistas que estudam esta condição, o sentimento de solidão é um fenómeno evolucionário. Tal como a fome encoraja os animais a encontrarem alimento, a solidão força os humanos a procurarem a protecção do grupo, aumentando as suas hipóteses de sobrevivência. Para que este comportamento aconteça, a solidão despoleta a libertação das hormonas do stress, em particular do cortisol. Em doses pequenas, estas hormonas ajudam os humanos solitários a estarem mais alerta face a possíveis perigos. Mas acabam por afectar a saúde nos casos em que o corpo é exposto às mesmas durante períodos longos de tempo. O stress é assim responsável pelo aumento da tensão arterial, por um declínio na resistência a infecções, ao mesmo tempo que debilita o sistema imunitário. Sem uma rede de suporte emocional, as pessoas sós são também mais propensas a cair em hábitos prejudiciais, como o abuso de substâncias, o comer em excesso e a falta de exercício.

Há muito que é reconhecido que o apoio social – que neste caso se traduz em alimentação nutritiva, alojamento seguro e oportunidades de emprego – influencia positivamente a saúde física e mental e são muitos os estudos que, repetidamente, mostram que aqueles que têm menos ligações sociais têm taxas de mortalidade mais elevadas, o que acentua também a ideia de que o isolamento social pode ameaçar a saúde através da ausência de cuidados clínicos, serviços sociais ou outro tipo de apoios necessários.

As estatísticas alarmantes que têm vindo a público nos últimos anos sublinham a necessidade urgente de se abordar esta “epidemia” de alienação e desespero, aumentando os apoios sociais

Todavia, a forma como o sentimento subjectivo de solidão (que muitos sentem, mesmo quando estão rodeados por outros) é prejudicial para a saúde nem sempre é entendida intuitivamente. É, por isso, importante reconhecer que os sentimentos de coesão social, respeito e confiança mútua, existentes no interior das comunidades e em vários sectores da sociedade, são extremamente importantes para o bem-estar.

As estatísticas alarmantes que têm vindo a público nos últimos anos sublinham a necessidade urgente de se abordar esta “epidemia” de alienação e desespero, aumentando os apoios sociais. Surpreendente e pouco conhecido é o facto de, nos Estados Unidos, e pela primeira vez na História, a esperança de vida estar a decrescer, ao mesmo tempo que as “mortes por desespero” (derivadas do suicídio e do abuso de álcool e drogas), em particular para os homens brancos, estarem em ascensão. As hipóteses de se morrer de uma overdose de opiáceos ou de suicídio são agora mais elevadas do que a probabilidade de se morrer num acidente de automóvel. Mas, e ao contrário do que se possa pensar, a juventude não funciona como um seguro contra a solidão: para além dos dados apurados pelo estudo já anteriormente citado do Cigna, do qual falaremos adiante, investigadores da UC Berkeley Social Networks concluíram que os jovens americanos reportaram o dobro de dias solitários comparativamente a pessoas de meia-idade.

Jovens dos 18 aos 22 anos são os mais solitários

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Em parceria com a IPSOS, a seguradora Cigna conduziu um estudo online a mais de 20 mil adultos nos Estados Unidos para estudar o fenómeno da solidão. Entre os principais resultados, e para além de cerca de 50% dos entrevistados terem admitido “sofrer de solidão”, a geração Z – jovens entre os 18 e 22 anos – e os millennials – entre os 23 e os 37 – são os mais solitários e assumem-se em pior estado de saúde comparativamente às gerações mais velhas; os media sociais, por si só – e ao contrário do que afirma a esmagadora maioria dos estudos sobre o fenómeno – não são os responsáveis por este estado de espírito; os estudantes sentem-se mais sozinhos do que os reformados e não existem diferenças significativas em termos de género ou raça quando se avaliam os índices de solidão.

Os estudantes sentem-se mais sozinhos do que os reformados

O estudo identifica 11 sentimentos associados à solidão. Quando questionados com que frequência sentem que ninguém os conhece verdadeiramente bem, mais de metade dos respondentes (54%) afirma ter esse sentimento sempre ou algumas vezes, com 46% a afirmarem sentirem-se sozinhos sempre e também excluídos (47%). Pelo menos dois em cada cinco entrevistados sentem não ter companhia sempre ou às vezes, que os seus relacionamentos não têm significado (43%), que se sentem isolados dos outros (43%), com 39% a confessar que não se sentem próximos de ninguém.

Adicionalmente, seis em cada dez (59%) sentem que os seus interesses e ideias não são partilhados por aqueles que os rodeiam, com uma percentagem similar a afirmar que por vezes ou sempre sentem que os que estão à sua volta não estão necessariamente “com eles”. Quase um em cada quatro respondentes assegura também que raramente ou nunca as pessoas os compreendem (27%), com a mesma percentagem a assumir que não pertence a nenhum grupo de amigos, não consegue arranjar companhia quando assim o desejam (24%) ou que não têm nada em comum com os outros (21%). Um em cada cinco declara nunca ou raramente sentir-se íntimo de alguém (20%) ou “sintonizado” com alguma pessoa (21%), enquanto percentagens similares do universo de entrevistados admitem não ter ninguém a quem possam recorrer (19%) ou com quem falar (18%).

A geração Z, a mais solitária de todas, identifica-se com 10 dos 11 traços associados à solidão

Quando analisados em termos geracionais, os membros da geração Z (com idades entre os 18 e 22 anos) sentem uma média de solidão na ordem dos 48.3 – o que os qualifica como a geração mais solitária de todas -, com os índices de solidão a declinarem gradualmente à medida que aumenta a idade dos entrevistados, culminando num total médio de 38.6 para a geração menos solitário ou para aqueles com mais de 72 anos de idade. Voltando à geração Z, mais de metade dos que a ela pertencem identificam-se com 10 dos 11 traços associados à solidão, com 69% a afirmar que aqueles que os rodeiam “não são como eles” e que se sentem “tímidos” e 68% a considerar que ninguém os conhece verdadeiramente.

Já os millennials (23-37 anos) e os pertencentes à geração x (38-51 anos) seguem padrões similares, apesar de não tão acentuados – com um valor de 45.3 para os primeiros e de 45.1 para os segundos em termos de avaliação da média da solidão. A geração com idades acima dos 72 anos é a que sobressai como menos solitária.

Outros dados do estudo revelam que as pessoas com filhos, mas sem companheiro/a são também mais solitárias do que as que vivem completamente sozinhas

Entre vários tópicos analisados, o estudo da Cigna inclui também factores relacionados com o estilo de vida, como padrões de sono, “quantidade de tempo” passado a trabalhar e com a família, factores estes igualmente associados à solidão. E, neste caso, encontrar o equilíbrio é crucial para afastar os mais normais sentimentos de solidão, tendo em conta o quanto se dorme, trabalha, socializa e se exercita. A título de exemplo, e tendo em conta especificamente o impacto que o sono tem na solidão, os entrevistados que afirmam dormir “a quantidade certa de tempo” são os menos solitários comparativamente aos que afirmam dormir demais, que são os que maiores graus de solidão expressam.

O mesmo acontece com os que declaram não passar tempo suficiente com a família e que não dedicam tempo ao exercício físico, sendo estes os que se sentem mais sozinhos.

Outros dados do estudo revelam que as pessoas com filhos, mas sem companheiro/a são também mais solitárias (48.2) do que os que vivem completamente sozinhos (46.4) e entre os reformados, os adultos com emprego, os domésticos, os estudantes e os desempregados, são os primeiros os menos solitários e os últimos os que maiores sentimentos de solidão expressam.

Um outro factor de avaliação incluído no estudo é o local de trabalho. Também aqui a questão do equilíbrio sobressai como particularmente positiva em termos de graus de solidão. O índice de solidão aumenta apenas três pontos para os que trabalham “mais do que o desejável”, enquanto os que trabalham “menos do que o desejável”aumentam em seis pontos os níveis de solidão.

A qualidade de relacionamento com os colegas tem também um impacto na saúde e no bem-estar: os que afirmam ter relações boas, muito boas ou excelentes com os seus pares no trabalho são significativamente mais propensos a expressar um bom ou excelente nível de saúde no geral – 89% – versus 65% dos que confessam ter relacionamentos pobres com os seus colegas.


Como combater a solidão?

“Não temos de aprender nada de novo para lutar contra a solidão. Temos é de nos lembrar de algo que está esquecido”

Quem o afirma é a psicóloga clínica Alexandra Solomon que, num artigo publicado pela revista Vogue, oferece um conjunto de sugestões para evitar a epidemia do século XXI.

Encontre a sua tribo

Antes da migração urbana se tornar rotineira e as viagens de avião baratas terem transformado as nossas vidas, os humanos não se aventuravam para muito longe do local onde tinham nascido e crescido. Viver no interior de uma comunidade significava ter apoio das instituições sociais onde as pessoas se reuniam: a igreja, os centros comunitários, os clubes desportivos, etc.. Na actualidade, e nas cidades onde vivem milhões de pessoas, encontrar o “nosso lugar” é uma tarefa cada vez mais complicada, em conjunto com o facto das exigências da vida urbana serem responsáveis por drenar muito tempo e energia necessários para que as pessoas se envolvam com o meio onde vivem. Como observa Alexandra Solomon, que vive no centro de Londres, “consequentemente, os indivíduos acabam, em muitos casos, por lidar com este ambiente salvaguardando o seu espaço, privacidade e tempo, o que transforma também o seu comportamento, contribuindo para que as pessoas fiquem menos sociáveis ou ‘amigáveis’”. Assim, e para evitar cair no isolamento, a psicóloga clínica sugere a existência de compromissos que “forcem” os indivíduos a sair do seu canto e a envolverem-se em qualquer que seja a comunidade, como por exemplo frequentar um simples ginásio. “Todos precisamos de um sentimento de propósito e de pertença”, assegura.

Procure “pequenos momentos de humanidade”

Quando nos sentamos num transporte público, por exemplo, o mais comum é enfiarmos a cabeça num telemóvel ou colocarmos fones nos ouvidos, sendo nós mesmos a procurar o nosso próprio isolamento. O que acontece, de acordo com Solomon, é que os ecrãs e outros dispositivos da vida moderna, acabam por colocar barreiras à comunicação, o que se traduz em custos elevados para a nossa própria humanidade. De acordo com a psicóloga, uma pesquisa recente demonstrou que as pessoas que encetam conversas num comboio gozam de um sentimento maior de bem-estar, o mesmo acontecendo com os seus interlocutores. Na sua visão, estas interacções simples e face a face podem ser extremamente benéficas. “Uma pequena conversa de um minuto numa fila do Starbucks, um olhar para alguém que viaja no mesmo meio de transporte e que dá origem a um contacto visual e a um sorriso – estes momentos de contacto funcionam como micro-remédios”, afirma, acrescentando que “nos recorda que fazemos parte de algo maior, que nos conseguimos relacionar, que pertencemos”.

Lembre-se que a comparação é o ladrão da alegria

Apesar de sempre nos termos comparado com os outros, a tecnologia tem sido responsável pela proliferação de meios para nos atormentarmos a nós mesmos. Hoje em dia, precisamos apenas dos nossos telefones para “contactarmos” com as pessoas mais bonitas e mais bem-sucedidas do planeta. Assim e à medida que os sentimentos de inadequação são ampliados, muitas vezes a tendência é a de nos retrairmos e abrirmos caminho à alienação.

“A pessoa solitária pode cultivar a crença de que a sua vida é ‘menos do que a dos outros’ e que as vidas dos demais são mais felizes, mais completas, positivas, sociáveis, etc..”, afirma. Assim, a psicóloga diz ouvir frequentemente pessoas que se questionam “por que motivo é que toda a gente parece adorar as suas vidas?”, ou “mas por que é que a minha vida não é melhor?” ou ainda “o que há de errado comigo?”, entre outras afirmações do género. Estas auto-percepções negativas podem dar origem a um ciclo vicioso de padrões de pensamento negativos que, e consequentemente, podem servir para exacerbar os sentimentos de solidão. O conselho da psicóloga é recordar regularmente que a solidão é uma condição comum à maioria dos humanos em algum ponto das suas vidas – mesmo nas dos que parecem estar sempre a respirar felicidade nos media sociais. Lembrarmo-nos de que não estamos sozinhos no nosso sofrimento poderá ajudar a aliviar os sentimentos de inadequação.

Permitir que sejamos vulneráveis

Para além da sua prática terapêutica, Alexandra Solomon é professora numa aula bastante popular na Northwestern University na qual grande parte da conversa que tem com os seus alunos se centra em torno dos medos inerentes à vulnerabilidade. “Nesta era digital, somos impacientes crónicos”, lamenta. Ou seja, em vez de ansiarmos por uma intimidade com um potencial relacionamento amoroso ou com uma potencial amizade, o seu conselho vai no sentido de optarmos por uma abordagem mais “orgânica”. Em primeiro lugar há que sentir que a outra pessoa é de confiança e empática, e só depois começa o trabalho de “exposição” de partes de nós mesmos a essa mesma pessoa. Apesar de particularmente difícil para muitos, há sempre que pensar na alternativa de no mantermos “totalmente anónimos, nunca deixando ninguém entrar verdadeiramente nas nossas vidas”. Como diz também, a intimidade pode parecer um risco, mas as recompensas para a nossa saúde emocional são enormes.

Por fim, e se sente sozinho/a, nada melhor do que pegar num telefone e ligar de imediato para um amigo ou familiar. E não tem mal nenhum confessar que nos sentimos sozinhos.


1 COMENTÁRIO

  1. É um artigo verdadeiramente fantástico que descreve o momento atual da nossa sociedade, no entanto, um dos pontos que não foi falado, foi as pessoas que tem alguma patologia clínica que , devido ao seu declínio, caminham a passos largos para a solidão, tendo nas redes sociais o seu refugio de inter-agir com o mundo, minimizando o seu abandono social e a solidão que se abate a cada dia que passa deixando-os mais vulneráveis, a depressões, e tudo que as mesmas acarretam. Não existe qualquer tipo de ajuda para estas pessoas que acabam de fechar-se no seu casulo. Nos seres humanos, somos como as “brasas” precisam do fogo para continuarem vivas, sem o fogo vão esmorecendo, vão se extinguindo, acabando por desaparecer … O mesmo acontece com a sociedade afasta-se de tudo e todos, achando que não tem necessidade de interagir com ninguém, somos egoístas, vitimas do nosso próprio ego.

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