Aquilo que outrora era considerado como uma virtude, transformou-se num mero anacronismo. Esperar por alguma coisa na sociedade da gratificação instantânea aumenta os nossos níveis de ansiedade, conduz-nos à frustração e à ira e faz de nós escravos do imediatismo. Foi-nos roubado o tempo para reflectir e para pensar criticamente e, em particular, o sentimento de valorizar experiências que não acontecem já e agora. E é tempo de encontrar tempo para repensar toda esta nossa impaciente existência
POR HELENA OLIVEIRA

Já ouviu falar no Síndrome do Pedestre Agressivo? Provavelmente não, mas talvez já o tenha sentido. Quantas vezes, e no meio das multidões que andam nos passeios e ruas, já se irritou porque as pessoas que estão a andar à sua frente não andam tão depressa quanto você? Já teve um ataque de fúria, sentiu vontade de bater em alguém, ou agiu de forma hostil, fazendo “cara de mau”, dizendo alguma asneira ou apressando o seu próprio passo para que os que “molengam à sua frente” sintam que estão a ser pressionados? Se alguma vez agiu desta forma, saiba que pode sofrer de uma condição psiquiátrica conhecida como “desordem explosiva intermitente”e que existem vários grupos no Facebook chamados “Eu quero, secretamente, esmurrar a cabeça das pessoas que andam devagar à minha frente”. O fenómeno tem sido estudado por vários investigadores, sendo que o mais conhecido é o psicólogo Leon James, que até “inventou” uma escala que avalia o nível de agressividade dos pedestres impacientes.

Se este fenómeno pode parecer estranho, o que dizer de um outro, identificado há menos tempo, mas que tem cada vez mais “adeptos” (incluindo a pessoa que escreve este artigo) e que pode ser identificado como “agressividade ao abrir invólucros”? Desta feita relacionado com produtos, consiste na frustração de pessoas que não conseguem abrir embalagens “demasiado acondicionadas” e que reportam irritabilidade e até fúria quando têm de utilizar os dentes, uma tesoura ou outros instrumentos para os rasgar.

A “fúria da lentidão” não se esgota, como é óbvio, nos passeios cheios de gente. Acontece com os condutores vagarosos, com a Internet lenta ou com as filas de pagamento de qualquer coisa, sendo que, e no que respeita aos produtos, os consumidores também exigem que o acto de os abrir seja o mais rápido possível.

Na sociedade em que vivemos – e muito por culpa da tecnologia, mas não só – tudo o que é lento nos irrita e a paciência deixou de ser uma virtude para se transformar num anacronismo

A verdade é que na sociedade em que vivemos – e muito por culpa da tecnologia, mas não só – tudo o que é lento nos irrita, a paciência deixou de ser uma virtude para se transformar num anacronismo e aquilo que não nos oferece uma gratificação instantânea passa a ser considerado como um enorme aborrecimento ou ainda pior.

E se esta total ausência de paciência tem como protagonista a geração millennial, que cresceu com a internet e que elege a gratificação instantânea com maior sofreguidão do que as gerações que a precedem (pior ainda será a geração Z, que a procede), no geral, nenhum de nós está livre de pertencer ao clube dos impacientes.

Os especialistas afirmam que o desejo – e a sua satisfação – de estarmos permanentemente ligados reflecte a necessidade crescente do mundo da gratificação imediata, com inúmeros estudos e inquéritos a revelarem que são poucos os que, actualmente, dormem longe dos seus smartphones com medo de perderem uma chamada, uma mensagem ou as infindáveis notificações dos media sociais como o Facebook, o Instagram ou o WhatsApp. O medo de se ficar sem ligação à Internet transforma-se em ansiedade, angústia e fúria para muitos, mas esta ânsia pela gratificação instantânea não se limita ao mundo online. Os investigadores de várias áreas comprovam que o mesmo fenómeno pode ser aplicado ao mundo do trabalho, onde os membros da geração Y esperam que as suas carreiras sejam “estratosféricas”, ansiando que a gratificação de um aumento de salário ou de uma promoção não demore mais do que uns poucos de meses, sendo que quando não recebem essas mesmas recompensas de forma célere, sentem-se demasiado frustrados, o que os leva até a abandonarem a empresa e partirem para outra. Este comportamento está a criar alguns problemas de retenção e a fazer destes millennials impacientes um activo pouco apelativo para algumas empresas.

O preço da gratificação instantânea

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Por seu turno, as empresas contam cada vez mais com a impaciência e com a necessidade da gratificação instantânea para aumentar os seus lucros. Já ninguém tem paciência para fazer um download de um filme e muito menos para ver publicidade, o que significa que gigantes como o Netflix têm cada vez mais subscritores, os retalhistas andam em guerra aberta entre si para entregarem encomendas no próprio dia – com a Amazon a prometer para breve a utilização de drones para o fazer – e cada vez se tem menos paciência para esperar para que um vídeo carregue. A este respeito e num estudo realizado por um professor de ciência computacional na University of Massachusetts Amherst, foram analisados os hábitos de visualização de 6,7 milhões de utilizadores de Internet com o objectivo de se averiguar quanto tempo é que os mesmos teriam paciência para “aguentar” esperar por um download de um vídeo. Depois de cinco segundos de espera, a taxa de “abandono” é de 25%, e quando se chega aos 10 segundos, metade dos sujeitos do estudo já desistiram. Ramesh Sitaraman, o responsável pelo estudo, concluiu que o tempo médio de espera dos utilizadores não deve ultrapassar os dois segundos. Para o professor, estes resultados conferem uma boa ideia do que será o futuro (ou o presente) e depois de ter estado anos a desenvolver este mesmo estudo, afirma, em tom meio sério, meio a brincar que “um dia as pessoas ficarão impacientes demais para conduzir estudos sobre a paciência”.

Esta necessidade de gratificação instantânea que, mais uma vez, está muito relacionada com os avanços na tecnologia, está a minar de forma acelerada os níveis de paciência dos indivíduos. A gratificação instantânea é a necessidade de se sentir satisfação sem qualquer tipo de adiamento ou de espera, sendo que esperar, na sociedade do imediatismo, pode ser uma tarefa árdua e quando as pessoas não têm o que querem no momento, a sua reacção psicológica é a ansiedade.

As empresas contam cada vez mais com a impaciência e com a necessidade da gratificação instantânea para aumentar os seus lucros

E esta ausência crescente de paciência está a impregnar de forma crescente vários domínios das nossas vidas, e não necessariamente no nosso mundo online. A utilização de smartphones e as incontáveis apps que para os mesmos são criadas a toda a hora eliminaram a espera por um táxi, por uma mesa num restaurante, pela compra de um bilhete para o cinema e até para encontrar um parceiro. E se é verdade que o ditado “quem espera, desespera” há muito que existe, a tecnologia só veio intensificar o seu significado. Como afirma Harold Schweizer, um defensor apaixonado da “arte de esperar” e autor do livro On Waiting, “a promessa da tecnologia era a de que nos iria fazer senhores do tempo, mas acabámos todos por nos transforma, ao invés, em seus escravos”. Para o também professor, o que as pessoas não percebem é que esperar tem os seus méritos e muitos: “esperar”, diz, “confere às pessoas tempo para pensar, bem como inspiração e regeneração”, acrescentando ainda que “sem investimento de tempo, os objectos e as experiências perdem muito do seu valor”. Por outro lado e ironicamente, este especialista em “paciência” afirma ainda que a nossa cultura actual valoriza cada vez mais actividades recreativas que sejam “rápidas” – como o jogging, os passeios de bicicleta em montanha ou o jet-ski – em detrimento de uma caminhada ou de um simples e calmo passeio de bicicleta. O mesmo afirma o professor de psicologia na Texas A&M University, Darrel Worthy, que estuda a tomada de decisão e a motivação, e que já comprovou igualmente que estamos cada vez mais concentrados no “divertimento rápido” – tal como jogar um jogo no telemóvel – do que em ler um livro ou uma revista.

Outros dos efeitos da gratificação instantânea, e que tem sido objecto de análise por especialistas de várias áreas, é a explosão na vida das pessoas do fenómeno do multistasking (sobre o qual o VER já escreveu). Não só estudantes, como os trabalhadores acreditam que a utilização de múltiplas tecnologias ao mesmo tempo, que lhes permitem trabalhar e socializar ao mesmo tempo, os faz mais felizes e produtivos e, depois de já ter corrido muita tinta sobre o assunto, está comprovado – e pela neurociência – que o multitasking só nos torna menos eficientes, mais desconcentrados e com uma performance cognitiva muito mais reduzida. Adicionalmente, e como explica o neurocientista Daniel J. Levitt, no livro The Organized Mind: Thinking Straight in the Age of Information Overload,  a troca repetitiva de tarefas provoca ansiedade, o que aumenta os níveis do cortisol, a hormona do stress, e que e consequentemente, conduz a comportamentos agressivos e impulsivos, tendo um efeito extremamente negativo na tomada de decisões.

Adicionalmente, o facto de estarmos sempre “ligados” e em “estado de alerta” não só nos torna mais impacientes, como nos rouba o tempo para reflectir e para pensar criticamente. A necessidade de estímulos contínuos traduz-se num menor controlo dos nossos impulsos e numa distracção ou falta de concentração perigosa. São vários os autores que falam igualmente do aumento substancial de desordens do défice de atenção, em particular nas crianças e nos adolescentes, mas também nos adultos e são muitos os professores que já se renderam “às evidências”, optando por pegar em excertos de livros ou em pequenas histórias – e não em obras completas – exactamente porque os alunos não se conseguem concentrar o tempo suficiente – nem terem a paciência necessária – para os ler.

A sociedade do agora e do feedback imediato

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Se por um lado a necessidade da gratificação instantânea não é nova, a nossa própria expectativa relativa ao que é “imediato” tornou-se muito mais “rápida” e a nossa paciência cada vez menor. E à medida que todos nós nos acostumamos mais com o feedback imediato, a erosão da paciência trará consequências cada vez mais sérias. Apesar de sabermos que existem imensas coisas pelas quais vale toda a pena esperar, nesta sociedade do “agora e já” a gratificação imediata passou a ser a resposta por defeito. E é difícil ultrapassar este sentimento de urgência, ser paciente e esperar que a satisfação dos nossos desejos leve algum tempo a acontecer. Um bom exemplo de como nos habituámos a não esperar é a quebra nos índices de poupança, fenómeno que está a ter um impacto cada vez mais visível em muitos países. Os analistas afirmam que já não estamos treinados para pensar a longo prazo e que poupar dinheiro para o futuro vai “contra” a necessidade do imediatismo.

O multitasking só nos torna menos eficientes, mais desconcentrados e com uma performance cognitiva muito mais reduzida

Um outro exemplo desta realidade está relacionado com algo que, a priori, nem sequer pensaríamos e que afecta a sociedade como um todo. Se o futuro passou a ser pouco mais do que o próximo minuto, como convencer as pessoas que, caso nada seja feito, poderá não existir um planeta habitável daqui a 50 anos por causa das alterações climáticas? O mesmo se passa com as empresas e com a pressão para os lucros no curto prazo. Ou seja, os exemplos desta necessidade de que tudo tem de acontecer “agora” entrecruzam-se cada vez mais com todos os domínios da nossa existência. E, por outro lado, a impaciência alimenta a impaciência. Cada vez que terminamos uma tarefa a uma certa velocidade, esperamos que essa mesma velocidade aumente da próxima vez. E quando tal não acontece, sentimo-nos frustrados e ansiosos, e convencemo-nos que a ausência de resultados imediatos significa que estamos a falhar. Tal significa também que as emergências são sempre emergências em vez de eventos que devem ser planeados.

Num artigo recentemente publicado pela revista de ciência Nautilus, o psicólogo Marc Wittman explica que a impaciência consiste numa herança do nosso processo evolutivo, na medida em que assegura(va) que os humanos não morreriam devido a passarem demasiado tempo numa actividade única e que não fosse recompensadora, conferindo à nossa espécie o impulso para agir. Todavia, e na sociedade da pressa e da rapidez, o nosso “temporizador interno” tornou-se tão congestionado, que acabou por nos desequilibrar. Ou seja, o ritmo em que vivemos e a necessidade da satisfação imediata cria expectativas que não podem ser traduzidas em recompensas tão rapidamente quanto gostaríamos. Assim e como acrescenta o neurocientista James More, “a frustração é a consequência de expectativas que foram violadas”. Adicionalmente, “este ritmo acelerado da sociedade reconfigura o nosso temporizador interno, colocando-nos num estado constante de fúria e impulsividade”. Apesar dos ritmos variarem de individuo para individuo, no geral e como defende Marc Wittman, a nossa sociedade está cada vez mais impulsiva.

Origens da impaciência, cérebro e os traços da frustração social

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A impaciência é comummente definida como a indisponibilidade para esperar por algo (ou por alguém). E na medida em que vivemos, realmente, vidas demasiado ocupadas e com demasiados estímulos que exigem uma multiplicidade de atenção, não é totalmente descabido que nos apressemos a nós mesmos para fazer o que temos para fazer e que esperemos o mesmo dos que nos rodeiam. Mas, e como já anteriormente aflorado, a ciência cognitiva diz-nos que a origem da impaciência é completamente diferente agora face ao que era nos primórdios da Humanidade. Muitos cientistas defendem que a impaciência surgiu nas sociedades de caçadores-recolectores, a qual os obrigava a mudar de local quando já não eram satisfeitas as necessidades de alimento. Ou seja, e de acordo com a evolução, a impaciência consistia numa emoção de sobrevivência porque motivava a espécie humana a “andar para a frente”.

Como também afirmava o filósofo alemão Georg Hegel, “a impaciência exige o impossível, e deseja atingir um objectivo sem ter os meios para lá chegar”. E é por isso que leva à frustração ou à fúria quando nos sentimos incapazes de obter algo que muito desejamos. Adicionalmente, quando queremos algo rapidamente mas não temos controlo sobre quando essa mesma coisa nos será “entregue”, é quando a fúria se instala – um sentimento muito comum para os condutores apressados – sendo que as expectativas têm também aqui papel principal. Estejamos a falar de downloads instantâneos, de mensagens em tempo real, de entregas no próprio dia ou até de fast-food, a verdade é que vivemos num ritmo cada vez mais acelerado, o mesmo acontecendo com as nossas expectativas.

E o que acontece no nosso cérebro quando estamos impacientes? Quando a impaciência se transforma em frustração, o nosso córtex pré-frontal – a área do cérebro responsável pelo pensamento de “alto nível” – “desliga”. Ao mesmo tempo, a nossa amígdala é activada – a área do cérebro mais associada à reacção e à resposta “lutar ou fugir – e os nossos pensamentos e comportamentos são negativamente afectados. As hormonas do stress aumentam e a fúria instala-se. E como demonstram várias pesquisas, quando sentimos emoções fortes como a ansiedade, o medo ou a fúria, o nosso corpo envia uma quantidade superior de sinais ao nosso cérebro, o que exacerba a experiência e distorce o nosso sentido temporal. Assim, um minuto de espera numa altura em que nos sentimos frustrados poderá parecer, ao invés, cinco longos minutos, sendo que o controlo também faz parte da forma como sentimos o tempo. Ou seja, quando sentimos que não conseguimos controlar alguma coisa, seja o tempo que leva a abrir uma página de internet ou a velocidade a que vai o condutor à nossa frente, o tempo parece passar de uma forma muito mais lenta.

O ritmo em que vivemos e a necessidade da satisfação imediata cria expectativas que não podem ser traduzidas em recompensas tão rapidamente quanto gostaríamos

Mas e imperativos biológicos à parte, impaciência é também um comportamento que “se aprende”, com a cultura e a educação vigentes a instilarem a incapacidade de esperar ou tolerar algo que acontece lentamente. Como já enunciado, os especialistas associam a impaciência à capacidade para se tolerar a frustração. E, numa primeira análise, não existe razão para que, não se tendo o resultado desejado de imediato, surja a frustração. Mas e como temos vindo a escrever, estamos cada vez mais pressionados pela exigência social de que temos de fazer tudo rapidamente, por um lado e, por outro, a educação vigente tende a dissociar os esforços dos resultados, com a nossa cultura a encorajar esta ideia de que quando mais cedo temos o que queremos, melhor.

Complementarmente, a nossa percepção do tempo sofreu também mudanças substanciais nas últimas décadas. Cada vez damos um valor mais exacerbado ao presente, ao aqui e ao agora e é também por isso que nos angustia não alcançar resultados imediatos. Ao sermos inundados com o presente, que corre muitas vezes mais depressa do que o conseguimos acompanhar, o resultado é sermos assaltados por sentimentos fortes de ansiedade e frustração.

Na medida em que os conceitos de médio e longo prazo se estão a tornar cada vez mais vagos, deixámos de saber valorizar o processo, para vermos apenas os resultados. A ideia de que o tempo é curto e de que não o podemos perder tornou-se tão enraizada na nossa sociedade, que o mesmo se transformou num indicador de competitividade. Até há uns anos a esta parte, a espera ou a demora não tinham uma conotação negativa. As pessoas aceitavam-na como uma parte natural da vida, em especial no que respeita à criatividade associada ao trabalho. Era “normal” assumir que existiam coisas que demoravam mais do que outras. E as pessoas simplesmente deixavam fluir com a paciência necessária. Na actualidade, isso é quase impossível.

“Este ritmo acelerado da sociedade reconfigura o nosso temporizador interno, colocando-nos num estado constante de fúria e impulsividade”

Os psicólogos utilizam a imagem da impaciência como se de uma corda esticada se tratasse, que se torna cada vez mais tensa com o passar do tempo. Num extremo reside o esforço que colocámos em algo, e no outro o resultado esperado. E entre ambos existe um período de tempo que se quer cada vez mais curto. E é por isso que as pessoas estão cada vez mais impacientes e irritáveis, sofrendo de uma espécie de avidez em relação a esse tempo. Desejando que tudo aconteça imediatamente, e nunca tão rápido quanto gostariam, ficam iradas, tensas e com tendência para a impulsividade. A sua obsessão pela rapidez transforma-se numa necessidade de agirem de forma hostil, sendo raro pararem para pensar sobre o que fazer ou o que dizer, pois o seu primeiro instinto é reagir.

Assim, deveríamos repensar toda a nossa pressa, todos os nossos comportamentos impacientes, todo o mal que fazemos a nós e aos outros por desejarmos o “já e o agora”.

Alguém se lembra do quão bom é o sentimento de esperarmos por algo que nos irá fazer felizes? Ou não há tempo nem paciência para pensar nisso?