Tem como base as tecnologias mais avançadas, mas terá o ser humano no seu centro. Promete a criação de novo valor através da inovação e a promoção, em paralelo, do desenvolvimento económico e de soluções eficazes para os desafios sociais. Libertará os indivíduos dos inúmeros constrangimentos a que hoje estão sujeitos e apostará na imaginação e na criatividade. Será uma sociedade super-inteligente e capaz de atingir os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável. Faz parte do “plano de crescimento para o futuro” do Japão, mas a ideia é que se transforme numa co-criação conjunta de uma sociedade ideal
POR HELENA OLIVEIRA

“Uma sociedade centrada nos humanos que equilibra o progresso económico com a resolução de problemas sociais através de um sistema que integra de forma eficaz o ciberespaço e o espaço físico”, Gabinete do Governo do Japão

Chama-se Sociedade 5.0 ou Sociedade da Imaginação ou ainda Sociedade super-inteligente e o conceito nasceu no Japão, em particular como resposta aos desafios da sua população extremamente envelhecida, à força laboral em declínio e aos novos desafios ambientais e energéticos. Mas não só. Tal como o Japão, o resto do mundo apresenta-se com economias em crescimento que se tornaram progressivamente globalizadas e caracterizadas por uma feroz competitividade, ao mesmo tempo que assistimos a uma riqueza progressivamente concentrada, com desigualdades regionais substanciais.

Assim, aquilo que começou por ser um “plano de crescimento para o futuro” apresentado pelo governo japonês e já em gestação desde 2013, está já a ser discutido também como um modelo – utópico e ainda não suficientemente explicado – pela OCDE, tendo sido também objecto de discussão em Davos em 2018.

“A reforma social (inovação) na Sociedade 5.0 pretende atingir uma sociedade progressista que elimine o sentimento existente de estagnação, uma sociedade na qual os membros demonstrem respeito mútuo entre si, transcendendo as gerações e na qual cada pessoa poderá ter uma vida activa e agradável”, pode ler-se no 5º Plano Básico de Ciência e Tecnologia,apresentado pelo governo japonês em 2016 e com referência às iniciativas nacionais de IoT nos Estados Unidos, Alemanha e China.

Tendo em conta que a transformação digital não pode ser travada, mas que existem múltiplas direcções que a sociedade pode seguir – e não esquecendo que a par dos inúmeros benefícios trazidos pelas novas tecnologias, são também vários os impactos negativos das mesmas no emprego, na distribuição desigual da riqueza e da própria informação, entre outros -, o que o governo japonês pretende com este “plano” é “considerar que tipo de sociedade é que desejamos criar e não prever o tipo de sociedade que efectivamente teremos”. Quem o afirma é Hiroaki Nakanishi, presidente do conselho de administração da Keidanren, a principal associação empresarial do Japão (que denomina a sociedade 5.0 como a sociedade da imaginação”), num artigo publicado já este ano no Fórum Económico Mundial.

Adicionalmente, e porque este novo modelo de crescimento pretende “solucionar temáticas sociais” bem como “criar um futuro melhor”, a ideia é que consiga contribuir eficazmente também para ir ao encontro dos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável.

De uma forma muito geral – e porque também não é propriamente fácil explicar de que forma é que se chega a esta sociedade ideal – na Sociedade 5.0, uma quantidade astronómica de informação proveniente de sensores existentes no espaço físico será acumulada no ciberespaço e, neste mesmo espaço virtual, o big data será analisado pela inteligência artificial (IA), sendo que os resultados da análise serão fielmente comunicados aos humanos no espaço físico mediante formas variadas.

Como explica o próprio documento governamental japonês, na “passada” sociedade da informação, a prática comum era a recolha de informação via rede e a mesma ser analisada por humanos. Na Sociedade 5.0, todavia, as pessoas, as coisas e os sistemas estarão todos ligados no ciberespaço e os resultados optimizados pela IA – e que excedem as capacidades dos humanos – são devidamente comunicados para o espaço físico. Este processo traz novo valor para a indústria e para a sociedade mediante formas nunca antes possíveis.

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Da digitalização da economia para a digitalização das problemáticas sociais

Quando o actual primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, anunciou oficialmente a estratégia para se atingir esta sociedade ideal, em Março de 2017 e na CeBIT, a maior feira de tecnologia do mundo, começou por enunciar as demais “sociedades” existentes desde o início da Humanidade: a sociedade dos caçadores-recolectores (1.0), onde os humanos coexistiam em “pleno” com a natureza; a sociedade agrária (2.0), com a fixação dos grupos humanos num determinado local e o desenvolvimento da agricultura e das suas técnicas de irrigação, por exemplo; a sociedade industrial (3.0), com a invenção do vapor, das locomotivas e o início da produção em massa e a sociedade da informação (4.0), com a invenção do computador e o início da distribuição da informação.

Como escreve, num artigo de opinião, Zakri Abdul Hamid, senior fellow da Academia de Ciências da Malásia e membro do conselho do STS Forum (The Science and Technology in Society) sedeado no Japão, e apesar dos desafios e pontos negativos do mundo em que vivemos, em muitas áreas da nossa existência e em muitos locais, a vida tornou-se mais próspera, conveniente e longa. “Em 30 anos, estima-se que mais do que um quinto da população tenha 60 ou mais anos. Esta população envelhecida, em conjunto com padrões de vida mais elevados, sofrerá um aumento da exigência de energia, alimentação e outros recursos”.

Assim, o objectivo da sociedade 5.0 “é abordar estes e muitos outros desafios indo mais além da mera digitalização da economia para a digitalização de todos os níveis da sociedade utilizando a Internet das Coisas (IoT, na sigla em inglês), a robótica, a Inteligência Artificial, a análise de big data, entre outras”, escreve.

Num documento dedicado a esta nova sociedade e publicado pela Keindaren, é dado um exemplo que ajuda a contextualizar melhor as ambições desta “digitalização de temáticas da sociedade”, nesta caso na área da saúde.

De um modo sintético, a ideia é fornecer cuidados personalizados e preventivos através da recolha e análise de informação individual e dados médicos ao longo da vida para que as pessoas vivam mais tempo e com boa saúde. Ou seja, e como afirma a própria Associação Empresarial do Japão, é urgente que o(s) governo(s) estabeleçam a infra-estrutura necessária para conectar os dados de saúde e médicos da população e disponibilizá-los a vários actores preparados para oferecer melhores cuidados nesta área.

E, ao mesmo tempo – e dado que a colaboração estreita entre a academia, a indústria e o governo será crucial para o sucesso desta ambiciosa iniciativa – é também objectivo da Keindaren continuar a dialogar com os sectores académico e médico para acabar com a fragmentação de informação e edificar parcerias para um sistema de saúde significativamente abrangente.

Como afirma também Hiroaki Nakanishi, a associação a que preside está a trabalhar em conjunto com o governo e outros stakeholders no que respeita a reformas de políticas laborais e corporativas, no desenvolvimento de recursos humanos, na melhoria da investigação e do desenvolvimento, na reforma governamental, entre outras, para a realização da Sociedade 5.0 na medida em que “deseja partilhar este objectivo com os seus parceiros em todo o mundo e co-criar o futuro”.

De uma maneira geral, a visão do Japão para a “próxima sociedade” confere prioridade a soluções relacionadas com desafios societais prementes. Por exemplo, acelerar a implementação de veículos autónomos e de drones no sector dos transportes públicos, na logística, na agricultura e na construção poderá resolver – ou pelo menos mitigar – problemas como a escassez de mão-de-obra, reduzir os acidentes na estrada, optimizar as cadeias de abastecimento e ajudar a levar serviços a pessoas com mobilidade reduzida em áreas remotas. A utilização eficaz de informação médica ajudará a ir ao encontro de uma vida mais longa, enquanto a adopção de inovações na área da fintech contribuirá para aumentar a eficácia e melhorar os serviços das novas tecnologias financeiras.

Tecnologias avançadas darão resposta aos Objectivos do Desenvolvimento Sustentável

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No Japão, a colaboração estreita entre governo, academia e indústria será coordenada por uma plataforma comum – uma plataforma de serviços da sociedade 5.0 – que está prestes a ser lançada. E se no 5º Plano Básico de Ciência e Tecnologia foi já listado um conjunto substancial de domínios tecnológicos considerados fundamentais para a promoção desta sociedade ideal – e que foram já “divididos” por onze sistemas, com três deles a assumirem-se como cruciais para abordar necessidades sociais e económicas importantes e que requerem acção urgente a nível nacional – a verdade é que esta sociedade utópica está a ser levada verdadeiramente a sério pelo Japão, que pretende ser a primeira nação do mundo a ter soluções para os desafios globais.

Como explica um relatório publicado pela fundação alemã Konrad-Adenauer-Stiftung (KAS), na estratégia de crescimento revista e actualizada para 2017 e aprovada pelo Gabinete do Governo Japonês e sob o título “Estratégia de Investimento Futuro – A Caminho da Realização da Sociedade 5.0”, a mesma considera os esforços acima mencionados como “a chave para romper com a estagnação secular e atingir o crescimento a médio e longo prazo”.

Por outro lado, o mesmo relatório defende que o Japão se encontra numa posição privilegiada para tomar a liderança desta nova sociedade na medida em que enfrenta desafios severos: o rápido envelhecimento populacional, com 27% da população a ter mais de 65 anos e metade da mesma com mais de 50 e o facto de ser um país onde o número de mortes excede o número de nascimentos há mais de uma década; o aumento da esperança de vida, estimando-se que 50% das crianças japonesas nascidas em 2007 terão uma esperança média de vida de 107 anos; a desertificação das suas áreas rurais e uma enorme desigualdade regional; questões sérias já enunciadas e relacionadas com a energia e o ambiente e, por último, o facto de o medo sentido por outros países relativamente a um possível desemprego massificado provocado pela 4ª revolução industrial não se reflectir na sociedade japonesa exactamente porque a sua força laboral está a encolher rapidamente. Adicionalmente, diz ainda o relatório, o país possui uma vantagem competitiva no que respeita à integração de dados virtuais da Internet com dados reais fornecidos pela indústria dos serviços, e pelos sistemas de transportes e produção.

O documento explica também de que forma é que, e em resposta ao crescimento económico, os problemas sociais podem ser resolvidos por esta miríade de tecnologias que estarão eficazmente operacionais na Sociedade 5.0 e que poderão ir ao encontro também de vários Objectivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS). Os exemplos incluem a redução dos gases com efeito de estufa, o aumento da produção e a redução da perda de bens alimentares, a mitigação de custos associados ao envelhecimento da sociedade, o apoio a uma industrialização sustentável, a redistribuição da riqueza, a correcção das desigualdades regionais, entre outros. Ou seja, o que o Japão almeja é fazer da Sociedade 5.0 uma realidade, uma nova sociedade que incorpore as novas tecnologias como a IoT, a robótica, a IA e o big data em todas as indústrias e actividades sociais e que consiga atingir, em paralelo, tanto o desenvolvimento económico como as soluções para os problemas sociais.

Na verdade, e no documento publicado pela Keidanren, todos os 17 ODS apresentam-se como “solucionáveis” através deste novo modelo. Por exemplo, utilizar sensores remotos e dados oceanográficos para monitorizar e gerir a qualidade da água, as florestas, a degradação dos solos, a biodiversidade (Objectivo 15); solucionar alguns problemas das alterações climáticas através de simulações baseadas na análise de dados meteorológicos através da computação de elevada performance (Objectivo 13); gerir o fornecimento e a procura de energia de uma forma sustentável através da construção de sistemas de rede inteligentes (objectivo 7); aumentar a produção alimentar através da agricultura inteligente utilizando a IoT, a IA e o big data melhorando o estado nutricional com “alimentos inteligentes” produzidos por biotecnologia de ponta (Objectivo 2); tornar a educação de qualidade acessível para todos através de sistemas de e-learning e utilizando tecnologias “state-of-the art” (Objectivo 4), entre muitos outros.

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© Governo do Japão

A sociedade da libertação

Quando comparada à sua antecessora, a Sociedade 5.0 é caracterizada pela resolução de problemas e pela criação de valor, e ainda pela descentralização, diversidade, resiliência e harmonia sustentável e ambiental. E, com ambições e ideias, as pessoas poderão conduzir actividades e negócios que poderão mudar significativamente, e para o bem, o meio que as rodeia. Este é mais um desígnio da sociedade super-inteligente.

Enquanto a transformação digital anuncia um novo estádio para a sociedade, é importante utilizar as tecnologias digitais e os dados para criar uma sociedade na qual as pessoas possam perseguir diferentes estilos de vida e formas distintas de felicidade. E é também por isso que a Sociedade 5.0 é, de acordo com os seus proponentes, centrada no indivíduo. Quando a convergência entre os espaços virtuais e físicos for uma realidade, permitindo que sistemas de IA baseados em big data façam ou dêem apoio às tarefas executadas pelos humanos, estes serão “libertados” dos constrangimentos das anteriores sociedades, sendo de sublinhar que tal não significa que o futuro será controlado e monitorizado pela IA ou pelos robots.

Assim, as “liberdades da Sociedade 5.0” são igualmente objecto de análise no extenso estudo da Keidanren e sublinhadas pelo seu presidente no artigo já acima mencionado.

Entre as diversas liberdades, a primeira está relacionada com o enfoque na eficiência, o qual vai ser transferido para a satisfação das necessidades individuais (a partir das tecnologias digitais) e mais uma vez através da resolução de problemas e criação de valor.

Como explica também o documento, nas sociedades 3.0 e 4.0, as pessoas eram obrigadas a aceitar bens e serviços uniformizados, bem como vidas em conformidade com processos padronizados. Por seu turno, a Sociedade 5.0 irá exigir que as pessoas tenham imaginação para identificar diferentes necessidades e desafios e transformá-los em verdadeiros negócios. Pessoas diferentes irão exercer capacidades diversificadas para atingir valores distintos na sociedade. Ou e em suma, as pessoas serão livres de viver, aprender e trabalhar sem as “influências opressivas da individualidade”, de que são exemplo a discriminação devido ao género, raça, nacionalidade, etc., e ver-se-ão livres da alienação proveniente dos seus valores e formas de pensar.

O fim das disparidades causadas pela concentração da riqueza e da informação permitirá também que as pessoas se sintam livres para agarrar oportunidades de ordem variada e em qualquer lugar, na medida e que ambas serão distribuídas e descentralizadas por toda a sociedade, com os agentes socioeconómicos a partilhar funções de forma horizontal. Os dados e benefícios derivados desta realidade serão partilhados por playersdiversificados e não concentrados em empresas específicas. As oportunidades para estudar e trabalhar serão igualmente garantidas a pessoas nascidas na pobreza ou em áreas remotas.

Tendo em conta as vulnerabilidades da Sociedade 4.0 de que são exemplo a deterioração das infra-estruturas, os danos gravosos causados por terramotos e cheias, a deterioração da segurança pública associada à desigualdade crescente, o aumento da ansiedade social por causa do terrorismo e outras crises, sem esquecer os ciberataques, o relatório elaborado pela Keidanren assegura ainda que com a Sociedade 5.0 chegará também a paz de espírito. As pessoas serão libertadas da ansiedade causada pelo terrorismo, desastres ou ciberataques, vivendo em segurança e com redes de apoio em caso de desemprego ou pobreza. As novas, diversificadas e descentralizadas infra-estruturas sociais irão aumentar a resiliência e permitir o desenvolvimento sustentável, sendo que os cuidados médicos necessários serão igualmente prestados independentemente do status ou localização dos indivíduos.

Se regressarmos às sociedades 3.0 e 4.0., assistimos a uma enorme dependência de modelos com um elevado impacto ambiental e a um consumo massificado de recursos. Na Sociedade 5.0, e como a adequada utilização de dados aumentará a eficiência energética e a descentralização, existirá a opção de as pessoas não dependerem das redes de energia tradicional. Por outro lado, o fornecimentos de água e a gestão de resíduos irão sofrer progressos tanto a nível tecnológico como sistémico, o que criará alternativas para as pessoas não viverem só nas grandes cidades, mas também noutras regiões e em harmonia com a natureza. À medida que a economia da partilha crescer, bem como o interesse na rastreabilidade, a alimentação que for melhor para o ambiente e para a saúde atingirá preços mais elevados, o que contribuirá significativamente para o declínio do desperdício.

Assim, existirá uma libertação dos constrangimentos de recursos e ambientais que permitirá viver vidas sustentáveis em qualquer que seja a região.

No papel e na teoria, esta sociedade da imaginação, super-inteligente, criativa, sustentável, libertadora, segura, igualitária e repleta de tantos outros predicados parece, sem dúvida, tudo o que a humanidade poderia almejar. E não são de descurar as iniciativas e esforços já em curso para a atingir. Todavia, e perante ainda uma grande descoordenação entre as várias ideias, propostas, iniciativas e, sobretudo, sem um extenso e profundo debate sobre as suas ambições, para já, a Sociedade 5.0 manter-se-á como uma utopia.