A história de Fwazia Koofi é, em simultâneo, de terror e de coragem. A primeira mulher a ser eleita deputada no Afeganistão prepara-se agora para concorrer à presidência do país que, à data do seu nascimento, deixava as meninas recém-nascidas morrer. Koofi sobreviveu. E, desde então, lutar continuamente tem sido a sua principal missão
POR HELENA OLIVEIRA

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“No dia em que nasci, era suposto morrer”. A frase foi proferida por Fwazia Koofi, mas poderá aguçar a memória de muitas mulheres que tiveram igual sorte e que não foram mortas, simplesmente, por serem mulheres. É que no Afeganistão, como em outros países como, por exemplo, Índia, a China ou a Arábia Saudita, continuam a praticar-se, entre outras atrocidades, o infanticídio. De meninas, é claro. E é para lutar contra esta e muitas outras práticas de selvajaria que Koofi, a 19ª filha de 23 que o pai teve com sete mulheres, irá candidatar-se a sucessora de Hamid Karzai, o actual presidente do Afeganistão.

Koofi, antiga empregada das Nações Unidas e que estudou, lutou e abriu caminho sozinha para ser a primeira mulher eleita, em 2005, para o Parlamento afegão, está habituada a fazer o impensável. E, 10 anos depois de os Estados Unidos terem liderado a invasão do Afeganistão, alguns progressos relativos à condição feminina podem agora ser observadas na terra presidida por Karzai. Progressos estes relativos, na medida em que Koofi ainda não conseguiu fazer aprovar uma lei que criminalize a violência contra as mulheres – desde o espancamento às mortes de “honra” -, algo por que luta há vários anos e que considera ser, até então, o seu maior desafio político.

E fazer o impensável é concorrer à presidência de um país que, há bem pouco tempo e sob o domínio dos Talibãs, ordenava aos proprietários das casas que tapassem as suas janelas com tecidos pretos para que as mulheres que lá viviam não fossem vistas; ou que proibia qualquer rapariga de ir à escola; ou ainda que consagrava o direito de se assassinar mulheres caso estas tivessem, de alguma forma, manchado a honra dos seus familiares masculinos. Não tão impensável assim é o regresso possível dos Talibãs ao poder, dado que antes das próximas eleições, em 2014, as tropas norte-americanas já deverão ter deixado a região. E para a mulher que passou parte da sua adolescência coberta por uma burca, a sua principal preocupação neste momento é que a comunidade internacional deixe o seu povo entregue às mãos do destino, destino este que poderá trazer de volta a repressão dos fundamentalistas islâmicos.

Fwazia Koofi lançou, muito recentemente, o livro “The Favored Daughter: One Woman’s Fight to Lead Afghanistan into the Future”,no qualcomeça por contarpor que motivo esteve para morrer no dia do seu nascimento. Deixar uma recém-nascida ao sol impiedoso para que morresse rapidamente era uma prática comum em 1975 e o mesmo lhe aconteceu imediatamente a seguir à mãe saber que tinha tido uma menina. Lutou pela vida durante 24 horas, no final das quais ainda chorava, motivo que levou alguém a levá-la para dentro de casa e que despertou na mãe o instinto de a proteger. E Koofi é, desde então, uma verdadeira sobrevivente. Apesar dos abusos que sofreu na família, dos regimes que exploraram o povo afegão, russo e talibã, do assassinato do pai, do irmão e do marido, sem esquecer as várias tentativas de homicídio que já sofreu, Koofi é uma orgulhosa mãe de duas filhas e a primeira mulher deputada no seu país. O livro, autobiográfico, conta ainda com várias cartas que Koofi foi escrevendo, ao longo da vida, às filhas – sempre que tinha um compromisso político do qual podia não voltar viva – e nas quais descreve o futuro e as liberdades que tem sonhado conquistar, não só para a sua descendência, mas para todas as mulheres no Afeganistão.

Passo a passo, sem nunca rastejar

Quando foi eleita deputada, em 2005, a notícia correu mundo. Feliz mas ciente das enormes expectativas que nela recaíam, Koofi não sabia exactamente o que responder aos jornalistas que sobre ela “caiam” e lhe perguntavam como iria “consertar” o Afeganistão. Começando por pequenas grandes vitórias – angariando fundos para a construção de uma auto-estrada ou ganhando reconhecimento pelo trabalho feito em prol da educação para as raparigas – Koofi conheceu também pesos pesados da política internacional, como a antiga Secretária de Estado norte-americana Condoleeza Rice e, já no seu segundo mandato, Hillary Clinton. Foi também reconhecida internacionalmente pela luta pelos direitos das mulheres e oradora no Fórum Económico Mundial.

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Mas e mesmo com uma manifesta resiliência, a intenção desta mulher para se candidatar à presidência do Afeganistão é considerada por muitos como uma perfeita loucura. Na verdade, e por muitos progressos que tenham existido nos últimos anos, a maioria dos afegãos que vive no ultraconservador e profundamente islâmico pais nem sequer coloca a remota hipótese de vir a ser liderada por uma mulher. Mais a mais, e como noticiou a Reuters na altura do seu anúncio, “é muito fácil aterrorizar uma mulher no Afeganistão. É ainda mais fácil forjar acusações contra as mulheres e acabar com as suas vidas, nomeadamente, políticas”.

Se Koofi já surpreendeu os seus pares masculinos incontáveis vezes ao longo da sua vida – por ter tido educação superior, por ser membro do parlamento e, mais tarde, deputada –, as suas vitórias têm igualmente sido acompanhadas por diversas tentativas de assassinato não só pelos talibãs, como por parte da sua rede aliada, os Haqqani.

E obviamente que não cai também nas boas graças do actual presidente. Karzai e a sua administração têm sido alvo de fortes críticas por parte de Koofi, que os culpa por um conjunto enorme de problemas, desde a corrupção endémica, à violência ou ainda devido à quase inexistente aplicação de leis.

Koofi pretende que o Afeganistão deixe de depender da ajuda estrangeira, que representa mais do que 80% do seu orçamento, e que se torne financeiramente independente, com regras e leis apertadas para controlar os seus recursos, em particular da riqueza mineral do país.

Todavia, a hipótese de Karzai poder adiar as eleições, apontando causas como a escassa segurança, de forma a continuar agarrado ao poder e tentar ganhar mais apoio entre o povo, constitui uma forte possibilidade.

“Karzai perdeu a confiança de uma parte importante da sociedade – das mulheres, dos movimentos cívicos, dos activistas, da juventude afegã e dos intelectuais. E esse é o motivo devido ao qual ele está a tentar agora apoiar-se nas forças mais conservadoras”, afirmou Koofie numa entrevista à CNN.

As preocupações estão a avolumar-se entre alguns agentes governamentais ocidentais, activistas e mulheres como Koofi, no que respeita aos direitos das mulheres. É que a probabilidade de estes serem comprometidos caso seja feito algum acordo de partilha de poder entre o governo e os Talibãs, é forte. Há cerca de pouco mais de um mês, os activistas tiveram motivos óbvios para esta desconfiança: Karzai apoiou, ainda que sem grande alarido, as recomendações  dos clérigos islamitas pertencentes ao Ulema Council, para uma segregação dos sexos, permitindo que os maridos possam exercer violência física nas suas mulheres, sob determinadas circunstâncias, uma verdadeira reminiscência da regra dos Talibãs.

Adicionalmente, correm rumores cada vez mais fortes que Karzai, em conjunto com o seu governo, possa estender um “ramo de oliveira” aos fundamentalistas islâmicos, para limitar os direitos políticos. Especula-se, inclusivamente, que Karzai possa estabelecer aquilo que Koofi denomina como “o modelo Putin”, ou seja, repetir o que Vladimir Putin fez quando deixou a presidência da Rússia em 2008 depois de servir durante dois mandatos consecutivos, tornando-se primeiro-ministro e oferecendo às rédeas aos seu “parceiro” mais novo, Dmitry Medvedev. Putin foi reeleito presidente em Março de 2012.

“Ao ser número dois, terá a autoridade para manter a mesma equipa”, acrescenta Koofi.

Nada que assuste ou detenha Koofi. Afinal, toda a sua vida foi de luta. E é uma sobrevivente.

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Helena Oliveira

Editora Executiva