Olhando com atenção os problemas e constrangimentos deste século, Bento XVI alertou para como o Amor é o critério de discernimento económico mais inteligente para a Humanidade
ANTÓNIO PINTO LEITE*

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*António Pinto Leite é presidente
da ACEGE
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A renúncia de Bento XVI foi um acto de liberdade, legítimo, humanamente solitário e, certamente, muito rezado e conversado com Deus. Enriquece a história da Igreja Católica. Num tempo em que o Vaticano deixou de ser o território de um Papa, para ser o mundo inteiro, fica o precedente de uma decisão de um Papa que resigna por não se sentir mais capacitado para ser um Papa peregrino

Esta decisão, também impressionante e bela como a decisão, em sentido contrário, de João Paulo II, peregrino mártir até ao fim do seu papado, deixa os futuros papas mais livres e os próprios católicos mais em paz com qualquer que possa vir a ser a decisão de cada um.

Bento XVI foi dos Papas mais cultos, inteligentes e densos na sua formação teológica e doutrinal. Cada intervenção sua devia ser seguida com atenção e sempre com imenso benefício para qualquer Homem de boa vontade, crente ou não.

De todas as suas mensagens, a que mais me marcou foi o apelo à gratuidade na economia. A noção de “gratuidade na economia”, expressa na encíclica “Caridade na Verdade”, marcou os líderes empresariais cristãos e todos os Homens de boa vontade. A par de um desafio frontal aos crentes, foi uma profecia lúcida sobre a economia do século XXI: ” A vitória sobre o subdesenvolvimento exige que se actue não só na melhoria das transacções fundadas sobre o intercâmbio, nem apenas nas transferências das estruturas assistenciais de natureza pública, mas sobretudo na progressiva abertura, em contexto mundial, para formas de actividade económica caracterizadas por quotas de gratuidade e comunhão”.

Olhando com atenção os problemas e constrangimentos deste século, Bento XVI alertou, também com a sua racionalidade germânica, para como o Amor é o critério de discernimento económico mais inteligente para a Humanidade. Com este desígnio, o Papa não se limitou a orientar os crentes para a eternidade, também orientou os agentes económicos para a sustentabilidade e para a paz.