A ideia de evolução gradual, de conversação entre passado, presente e futuro esteve no centro da mensagem do pontificado de Bento XVI
JOÃO CARLOS ESPADA*

A renúncia de Bento XVI surpreendeu o mundo, católico e não católico. Nas últimas semanas, assistimos a uma avassaladora torrente de artigos, análises, opiniões e comentários, dos mais diversos quadrantes. Tudo e o seu contrário terá já sido dito sobre o tema. Ainda assim, talvez valha a pena revisitá-lo.

Uma primeira observação empírica remete-nos para o súbito contraste entre o impacto mundial da renúncia de Bento XVI e o repetido anúncio do declínio da Igreja de Roma. Não deixa de ser curioso que uma instituição em alegado declínio possa ter merecido as atenções de, literalmente, todo o planeta.

Alguns comentadores, no entanto, sugeriram uma explicação para o fenómeno: trata-se da mais antiga instituição deste mesmo planeta. Ao longo de dois mil anos, a Igreja Católica sobreviveu a muitos outros anteriores anúncios de declínio e até mesmo extinção. Ainda cá está. E ainda conta com mais de mil milhões de fiéis, espalhados pelos quatro continentes, nalguns dos quais em franco crescimento.

Uma das razões prosaicas da sobrevivência da Igreja de Roma – enquanto instituição – reside provavelmente numa dimensão que muitas vezes lhe é criticada: o escrupuloso respeito por regras gerais de conduta e funcionamento, integradas numa tradição que procura evoluir sem sobressaltos. Contrariamente ao que muitos críticos dizem ser a sua rigidez e o seu absolutismo, a Igreja Católica, na verdade, limita drasticamente o exercício de qualquer poder arbitrário ou absoluto. Esta limitação exerce-se precisamente através das regras gerais e da tradição que tantos críticos interpretam como nefastas.

Em linguagem política, diríamos que a Igreja de Roma é o mais antigo exemplo de governo limitado pela lei, ou de governo constitucional. E é um exemplo de sucesso.

Essa é, aliás, a razão da surpresa e incerteza que rodeou a renúncia de Bento XVI. Quando o porta-voz do Vaticano respondeu várias vezes “não sei” a perguntas dos jornalistas sobre o futuro, ele simplesmente exprimiu com honestidade o princípio do governo das leis por contraste com o governo dos homens. Há 600 anos que um Papa não renunciava. Isso significa que a Igreja terá de revisitar as suas leis e as suas tradições para poder lidar apropriadamente com uma situação relativamente nova.

Ao renunciar, Bento XVI não decretou arbitrariamente o caminho que a Igreja devia seguir depois da sua renúncia. Humildemente, constitucionalmente, entregou as decisões subsequentes, inclusive sobre o seu próprio estatuto, às leis, tradições e instituições da Igreja.

Esta ideia de evolução gradual, de conversação entre passado, presente e futuro esteve, aliás, no centro da mensagem do pontificado de Bento XVI. A mensagem cristã foi sempre apresentada em conversação com outras tradições e não em negação face a elas. Entre essas outras tradições, o Papa sublinhou sempre a tradição de Atenas, fundadora do inquérito filosófico e da ideia de Universidade, há mais de 2500 anos. O cristianismo não se apresentou em ruptura com essa tradição. Pelo contrário, foi o cristianismo que preservou e reanimou, na Europa medieval, a ideia de Universidade e a ideia de busca da verdade através do inquérito racional.

Coube aliás a Bento XVI o irónico papel de recordar a importância da razão aos críticos da fé. Recordando o elo subtil entre racionalismo dogmático e irracionalismo pós-moderno – um elo já sublinhado por João Paulo II -, Bento XVI alertou para um paradoxo crucial da cultura contemporânea: os defensores do racionalismo dogmático ou abrangente, para usar a expressão de Karl Popper, começaram por atacar a fé como inimiga da razão; em seguida, a sua legítima ambição racionalista levou-os a detectar as limitações da razão e a impossibilidade de esta fornecer fundações últimas para os seus próprios pressupostos; o passo seguinte poderia ter sido o reconhecimento da falibilidade da razão e o reconhecimento do diálogo entre razão e fé; mas, como partiam de uma posição dogmática de partida sobre a auto-suficiência da razão, acabaram, paradoxalmente, negando o conhecimento racional e abraçando o relativismo.

Face a este desapontamento com a razão, Bento XVI recordou o princípio cristão do diálogo entre razão e fé, ou entre Atenas e Jerusalém. Esse diálogo e essa tensão estão no centro da civilização europeia e ocidental. É uma conversação milenar que não pode ser bruscamente resolvida ou subitamente concluída. Não é, por isso, surpreendente que seja com este espírito de conversação milenar, de prudência tranquila, que a Igreja de Roma esteja a lidar com a renúncia de Bento XVI – ela própria anunciada em latim, numa clara alusão àquele espírito de conversação milenar.

Artigo originalmente publicado no jornal Público. Republicado com a permissão do autor.