Luis Cabral, economista e professor na NYU Stern School of Business, em Nova Iorque, esteve em Lisboa, na AESE Business School, onde também é docente, para apresentar o seu novo livro “Introdução à Microeconomia”. Criticando a “estagnação” que percepciona nos ensinamentos da disciplina, recorda que “a Revolução Digital é o mais importante acontecimento na História Económica desde a Revolução Industrial” e que o ensino da Economia se devia centrar mais na justiça social e não ter a eficiência e o crescimento económico como os seus principais objectivos. Em entrevista ao VER, Luis Cabral defende também que o sistema capitalista devia ser “remontado” – em particular devido às suas falhas relativamente ao ambiente e à desigualdade – e que não percebe que exista tanta gente convencida de que não existe discriminação racial e de género
POR HELENA OLIVEIRA

A apresentação que fez do seu novo livro “Introdução à Microeconomia”, no passado dia 8, na AESE Busines School, teve como “título-chapéu” a seguinte questão: “É preciso repensar o ensino da Economia ou remontar o sistema capitalista?”. Em vez de um “OU” não deveria estar antes um “e”?

A conjugação “ou” foi escolhida para efeito dramático. Na realidade, a resposta certa é que tanto a reforma do sistema como a reforma do ensino são condições necessárias para a nossa sobrevivência. Aliás, os dois estão muito relacionados. Mesmo que não o reconheçam, a forma como os agentes económicos actuam (empresários, consumidores, políticos) depende muito da forma como foram educados.

Na Introdução do seu livro escreve que o motto do mesmo poderá ser “A tecnologia e a economia meteram-nos num grande buraco, mas somente a tecnologia e a economia nos podem tirar dele”. De que forma poderia sintetizar o “como” é possível sairmos desta situação que afirma ser insustentável”?

As pessoas querem um planeta sustentável mas não querem prescindir do estilo de vida que atingiram após décadas de desenvolvimento económico. Esta “quadratura do círculo” exige que se desenvolvam novas tecnologias que permitam, por exemplo, manter os mesmos níveis de consumo energético sem gerar os mesmos níveis de dióxido de carbono. E para que as novas tecnologias sejam desenvolvidas e aplicadas é preciso que os agentes económicos tenham os incentivos certos. É aqui que entra a economia (no sentido de política económica), criando mecanismos de mercado que incentivem o desenvolvimento das tecnologias necessárias para salvar o planeta.

Dedica igualmente um capítulo à “revolução do capitalismo”, afirmando que “entre as muitas limitações do sistema capitalista, a desigualdade e o ambiente destacam-se como as mais significativas”. Pode desenvolver um pouco mais esta afirmação, acrescentando também os motivos que o levam a dizer que também a discriminação – em particular a de género e a racial – é igualmente um problema premente do sistema capitalista?

Primeiro, o ambiente: Uma das condições para o bom funcionamento do capitalismo é que os direitos de propriedade sejam bem definidos. Ora o planeta é propriedade de todos e ao mesmo tempo é propriedade de ninguém. E como a história económica mostra, a propriedade comum é um sistema que tende a dar maus resultados. O problema das alterações climáticas é essencialmente um problema de propriedade comum à escala mundial. O problema da desigualdade, por sua vez, tornou-se particularmente agudo na era da Revolução Digital. Em muitos sectores da economia e da sociedade, a Revolução Digital leva aos chamados efeitos “super-estrela”: indivíduos, empresas, países, etc., que comandam uma proporção desproporcionada do valor criado. Finalmente, a discriminação (e a exclusão social), embora não sejam problemas novos, estão cada vez mais no centro das atenções. Um problema particularmente grave, parece-me, é que haja tanta gente que esteja convencida de que não existe discriminação racial e de género, que é tudo uma invenção da esquerda.

Apesar de não apadrinhar o tão falado rendimento básico universal ou incondicional e tendo em conta a evolução das empresas e da economia e das estruturas de desigualdade que se estão a criar através da revolução digital, defende, contudo, uma reforma profunda do Estado Social e a criação de um novo modelo de solidariedade. Quais os principais argumentos para este novo modelo e qual a sua exequibilidade, nomeadamente em Portugal?

Critico o modelo de rendimento básico universal porque substituir o rendimento do trabalho com rendimento do governo é uma má ideia. O valor do trabalho vai muito para além do valor do rendimento do emprego. O valor subjectivo do trabalho é tão ou mais importante, é uma fonte de realização pessoal e de estatuto social.

Muito melhor será que a despesa em rendimento básico universal seja utilizada para algo como uma contribuição básica universal para a segurança social. Desta forma, ficaremos mais próximos do objectivo de separar a segurança social do emprego, o objectivo de que, para pagar x a um trabalhador, o empregador tenha de gastar apenas x.

Defende também no seu livro que a pesquisa científica e inovação constituem um bom exemplo de uma “mixed economy”, que combina os mercados livres e a intervenção estatal, a par das empresas privadas e públicas. A seu ver, deve ser este o caminho a seguir?

Sim. Há aspectos da investigação, nomeadamente a investigação básica, que têm um valor enorme para a economia mas um valor de mercado pequeno, nomeadamente porque é difícil vender a propriedade intelectual destas inovações. Por exemplo, há resultados matemáticos com múltiplas aplicações económicas e tecnológicas. No entanto, é pouco provável que a economia de mercado incentive as pessoas a trabalhar em novos resultados dessa natureza.

Com a entrega, (a 10 de Outubro) do guião orçamental do Estado para 2022 – e entretanto com o seu chumbo e com a dissolução da Assembleia – que medidas consideraria cruciais para um crescimento económico mais sustentado no período pós-pandemia?

1 – Deixar cair várias empresas estatais que sugam recursos (nomeadamente crédito) que poderiam ser melhor utilizados para outros efeitos. 2 – Investir menos em infra-estruturas físicas (estradas e auto-estradas) e mais em infra-estruturas de conhecimento (professores e investigadores).

No que respeita ao ensino da Economia, faz também uma crítica relativamente à “estagnação” que percepciona nos ensinamentos da disciplina, afirmando igualmente que, desde a publicação do livro de Paul Samuelson e William D. Nordhaus – Economics – em 1948, pouco ou nada mudou. Na verdade, o livro vai já na sua 19ª edição (com “actualizações” pelo meio) e parece continuar a ser a “bíblia” escolhida para os cursos de Economia. Dado que o mundo mudou radicalmente nos últimos 70 anos, quais os principais “temas económicos”que deveriam obrigatoriamente ter mudado também e qual a sua proposta para a renovação ou reinvenção da forma como se ensina Economia no século XXI?

1 – A Revolução Digital é o mais importante acontecimento na História Económica desde a Revolução Industrial. Isto tem e terá múltiplas implicações para a organização da actividade económica. É importante que o ensino da Economia reflicta esta tendência. 2 – O ensino da Economia no Século XX baseou-se desproporcionalmente no objectivo da eficiência e crescimento económicos, em detrimento de objectivo da justiça social.

Este seu livro agora publicado pode ser considerado como uma nova “proposta” de manual para os jovens que iniciam agora os seus estudos em Economia?

Absolutamente. O meu objectivo é que o livro seja adoptado pelo maior número de professores no maior número de universidades possível. O preço é muito acessível.

E que mensagem gostaria de partilhar com estes mesmos jovens (e, eventualmente, com todos os que estão a iniciar o seu percurso académico ou profissional) numa era em deixou de existir “o emprego para a vida”, em que a “gig economy” se apresenta como uma tendência cada vez mais forte e na qual estamos a testemunhar, cada vez mais fortemente, que as novas tecnologias beneficiam os trabalhadores com grandes aptidões e prejudicam os que não as têm?

O optimismo é uma boa atitude: tem um fundamento conceptual correcto e um efeito emocional positivo. Os desafios são enormes, mas as possibilidades também.

Helena Oliveira

Editora Executiva