Há quem diga que é a última a morrer, mas também que quem dela vive, morre de fome. Mas o que é a esperança? Uma emoção, uma virtude ou um traço de personalidade? Por que motivo não é tão estudada como a felicidade ou o optimismo, por exemplo, quando para mais se constitui como um dos principais alicerces que alimentam a nossa fé no futuro? Numa semana em que renovação e renascimento se afiguram como palavras-chave, fomos à procura do pouco que ainda se sabe sobre “a confiança em conseguir o que se deseja”
POR HELENA OLIVEIRA

Apesar de existirem inúmeros estudos e investigações sobre o que é a felicidade – ao ponto de termos já rankings “cientificamente” reconhecidos sobre os países mais felizes do mundo – a esperança – condição sine qua non para não desistirmos dos nossos sonhos e continuarmos a caminhar mesmo que o coração nos doa – não é objecto fácil de investigar, apesar de ocupar algum espaço na filosofia, na psicologia e na teologia.

Mas, e num mundo tão cheio de incertezas e de ameaças, as quais nem sempre conseguimos compreender e muito menos controlar, a esperança deve ocupar um papel privilegiado.

Geralmente, a esperança está associada exactamente à felicidade e ao optimismo. Todos estes conceitos se assumem como condições positivas, todos se apresentam como grandes motivadores e todos parecem interligados entre si. Mas, e para os que estudam as origens e os mecanismos da esperança, esta difere tanto da felicidade como do optimismo. E também difere de acordo com a forma como é investigada, conduzindo a diferentes questões e interpelações.

O projecto Hope & Optimism, liderado por três académicos ligados exactamente à filosofia e à religião e com funções nas universidades da Pensilvânia e de Notre Dame, tem como objectivo responder a um certo vazio contemporâneo no que à temática da esperança diz respeito.

Considerando que tanto a esperança como o optimismo constituem atitudes com uma posição de relevo em toda a sociedade, na medida em que os políticos as invocam, os líderes empresariais as promovem, os psicólogos as encorajam, os autores de livros de auto-estima as recomendam e artistas de várias áreas fazem delas objecto da sua exploração e expressão, os três académicos acreditam que são muitas as questões que continuam inexploradas.

Declarando que as discussões populares sobre esperança e optimismo recaem, e bem, no trabalho empírico realizado por cientistas como Michael Scheier, Tali Sharot, Martin Seligman, and C.R. Snyder, este último o mais citado enquanto autor do livro que se tornou uma referência na psicologia positiva e intitulado Psychology of Hope: You Can Get Here from There, os responsáveis pelo projecto em causa afirmam que muito há ainda para explorar, nomeadamente a correlação existente entre o próprio optimismo e a esperança, afirmando igualmente que muita investigação é ainda necessária no que respeita às bases genéticas, neuro-psicológicas e ambientais do optimismo e da esperança. E acusam também o facto de que, com algumas honrosas excepções, os filósofos contemporâneos terem vindo a negligenciar a esperança e o optimismo, ao contrário do que tem acontecido com a vasta pesquisa existente sobre os estados com ambos relacionados como o desespero, a ansiedade e o pessimismo. Por outro lado, e apesar de as esperança ter tido um papel significativo nas tradições teológicas judaico-cristãs – no catolicismo, é a segunda virtude teologal, a par da fé e da caridade – os argumentos sobre o tipo de esperança religiosa continuam também e escassamente estudado pelos filósofos da religião e teólogos analíticos da actualidade. Daí a importância deste projecto.

A esperança na filosofia, nas ciências sociais e na teologia

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Para a filosofia, e interpretada como uma atitude individual ou como um traço enraizado, a esperança tem um peso substancial na personalidade dos indivíduos, no seu comportamento, bem-estar e atitudes relativas ao futuro. Todavia, existe pouco consenso entre os filósofos sobre o que é realmente a esperança. Os filósofos históricos e contemporâneos não chegam a um entendimento sobre se a mesma é uma atitude proposicional, uma emoção, uma virtude ou algum tipo de estado híbrido. E mesmo aqueles que concordam sobre “que tipo de coisa” é a esperança, as análises oferecidas sobre a mesma são significativamente distintas. Já o optimismo é também uma característica importantíssima da vida humana, em particular porque integra relações muito interessantes no que respeita à racionalidade e à irracionalidade. Por exemplo, a pesquisa empírica indica que muitas pessoas exibem uma forte “tendência” para o optimismo – ou seja, a tendência para sobrestimar a probabilidade de que coisas boas irão acontecer e, pelo contrário, subestimando o que de mau pode surgir. E apesar de não ser um consenso entre os seus estudiosos, essa tendência é significativamente correlacionada com várias avaliações da saúde mental.

Já os cientistas sociais têm vindo a definir os termos “esperança” e “optimismo” mediante formas muito distintas. Os investigadores começam geralmente por tomar em consideração a noção de senso comum do optimismo disposicional (um traço de personalidade), o qual se traduz na expectativa relativamente estável de que coisas positivas irão acontecer em detrimento das negativas. Como já anteriormente citado, o optimismo tem despertado um interesse muito mais significativo nos estudos científicos do que a esperança, o que se traduz num conjunto substancialmente mais alargado de avaliações e caracterizações propostas sobre o mesmo. Como resultado deste desequilíbrio, diferentes procedimentos avaliativos têm vindo a ser utilizados para propostas que abordam o optimismo em detrimento daqueles que abordam a esperança.

Por seu turno, a esperança constitui-se como um conceito familiar no discurso teológico enquanto uma das três virtudes que acompanham a fé e a caridade. Contudo, como afirmam os académicos responsáveis pelo projecto Hope&Optimism, a sua natureza e normas, bem como o seu papel nos variados argumentos práticos da percepção supra-sensível, não têm sido devidamente explorados pelos filósofos, com alguma questões importantes a precisarem de resposta: o que é a esperança e quais são as suas normas? Quais as relações que existem entre esperança e optimismo e qual o seu papel nos debates clássicos da filosofia da religião? Pode a esperança ser considerada uma virtude e se assim for, estamos a falar de uma virtude epistemológica, de uma virtude moral ou de um híbrido? São vários os dados resultantes das ciências sociais que sugerem que, no geral, as pessoas que acreditam em certas doutrinas religiosas são mais “esperançosas” e optimistas do que aquelas que não crêem em nada.

Felicidade, optimismo e esperança

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Apesar de os conceitos de felicidade, optimismo e esperança aparecerem muitas vezes como quase sinónimos, a verdade é que são bastante diferentes entre si.

De acordo com muitos teóricos das emoções, de que é exemplo Paul Ekman, a felicidade pertence às “Seis Grandes Emoções”, as quis incluem também a surpresa, o medo, a repugnância, o medo e a tristeza. O mesmo não acontece com o optimismo, o qual é preferencialmente considerado como um “estilo explanatório” e não como uma emoção, sendo comummente definido como “uma expectativa generalizada de que bons resultados, e em oposição a “maus”, irão ocorrer quando nos confrontamos com os problemas que ocorrem nos mais importantes domínios da vida”.

Já a esperança, e como também já citado, é definida de variadas formas de acordo com as diferentes escolas de investigação, apesar de existirem traços comuns nas suas diversas interpretações. A esperança envolve geralmente alguma incerteza face a um resultado, e geralmente no que diz respeito a temáticas importantes e reflecte, na maioria dos casos, os valores morais das pessoas. A esperança também é frequentemente considerada como uma condição temporária específica e relativa a uma situação em concreto. Em particular ao longo da época medieval, e até sensivelmente à Revolução Industrial, a esperança era considerada como uma das mais fundamentais de todas as emoções. Este facto pode igualmente ser explicado pelo “poder religioso” da fé – que para vários estudiosos funciona como sinónimo da esperança – e por outros estudos que a comparam com o amor e com o ódio, elencando que os três “conceitos” possuem cinco traços comuns entre si: todos são difíceis de controlar; todos afectam a forma como se pensa sobre ou se percepciona determinados acontecimentos; todos afectam a forma como nos comportamos; todos motivam comportamentos, aumentam a persistência, ou seja, “alimentam” a vontade de seguir em frente (mesmo em situações de adversidade) e todos constituem experiências universais.

Ao contrário da felicidade, que comprovadamente integra componentes biológicos a ela associados, e do optimismo, igualmente considerado como um estado que é induzido biologicamente, a esperança parece não estar associada com qualquer resposta fisiológica específica ou com “acções reflexivas”.

Muitos investigadores acreditam que, e ao invés, a esperança integra um componente “aprendido”, ou seja, comportamentos apreendidos e processos de pensamento que são adquiridos através do processo de socialização. Num conjunto de estudos realizados na década de 1990 pelo psicólogo social James Averill, esta ideia foi demonstrada num em particular, dedicado às teorias implícitas sobre a esperança e reflectida em 108 metáforas, máximas e provérbios relacionados com a mesma e comuns em muitas culturas. O estudo serviu para dar corpo à teoria de que a esperança é um conceito culturalmente determinado sendo implicitamente adquirido pelas crianças através do processo de aquisição da linguagem. Adicionalmente e como também já mencionado, existe um forte componente religioso na esperança, sendo esta implicitamente “ensinada” nos estudos religiosos. O mesmo acontece com o optimismo, com vários investigadores a afirmar que o mesmo consiste num “estilo de pensamento” que pode ser aprendido. Esta teoria foi amplamente estudada pelo psicólogo Martin Seligman, considerado o fundador da psicologia positiva, e explanada no bestseller publicado em 1979 Learned Optimism. Mais recentemente, o reconhecido Daniel Goleman assegura igualmente a veracidade desta teoria, acreditando que o optimismo – tal como a esperança – podem ser aprendidos. Em particular, o famoso “pai” da inteligência emocional afirma que a auto-eficiência – a crença de que temos domínio sobre os eventos que ocorrem na nossa vida e que podemos sempre superar os desafios à medida que estes forem ocorrendo, conduzem à esperança e ao optimismo. Mas e por outro lado, são também muitos os investigadores que não concordam, de todo, com esta teoria.

E no que respeita à componente cognitiva? Na felicidade, vários estudos comprovam que quando alguém experimenta sentimentos de orgulho e auto-eficácia, o corpo liberta um conjunto de químicos. Entre estes, está o neuro-transmissor norepinefrina, responsável pelo humor e por estados de euforia (considerada como “felicidade extrema”).  Quanto ao optimismo, investigadores como o já citado psicólogo C.R. Snyder, consideravam que este diferia da esperança na medida em que o primeiro possui um elemento “pró-activo” chamado “planeamento”, para além de as declarações optimistas serem geralmente baseadas em factos concretos e lógicos, ou seja, têm como suporte uma evidência que pode ser julgada ou avaliada em termos de critérios racionais.

Todavia, a componente cognitiva no que respeita à esperança tem algumas particularidades. Ou seja a esperança tem, sim, uma componente cognitiva mas apenas no que respeita à sua restauração e manutenção, e não na sua “genuína aquisição”. São também vários os estudos que demonstraram que as estratégias cognitivas como um diálogo interno positivo, o imaginar imagens de esperança, ler livros que nos põem “para cima” bem como escutar música com o mesmo efeito, em conjunto com o humor e o riso, são particularmente utilizados por pessoas “esperançosas” em alturas de crise ou de eventos adversos. Mas e mais uma vez, não existe consenso académico no que diz respeito a esta consideração. Mas e por outro lado, a esperança parece ser, e de forma unânime, um motivador poderoso, o mesmo acontecendo com o optimismo.

Assim, e apesar de diferentes, a felicidade, o optimismo e a esperança são similares no que respeita à sua natureza enquanto condições positivas e todos eles contribuem fortemente para aumentar os níveis de motivação. Mas diferem de acordo com o mecanismo mediante o qual são adquiridos. É também comummente aceite que a felicidade é uma emoção, ao passo que o optimismo e a esperança não o são (não pertencendo, pelo menos, à lista das emoções fundamentais).

Em suma, e apesar das muitas divergências e das lacunas apontadas no que respeita a estudos mais coesos sobre a esperança e o optimismo – e mesmo sobre a felicidade -, em termos muitos gerais estes “estados” podem ser definidos de formas distintas.

A felicidade é um estado biológico “estimulado” pela libertação de certos neuro-transmissores (em particular da norepinefrina, dopamina e seritonina) desencadeados por actividades físicas e cognitivas, sendo que as disparidades individuais, basicamente adquiridas através da aprendizagem, podem ser devidas às diferenças nos níveis distintos reportados por pessoas diferentes e depois de viverem certas actividades;

A esperança parece ser, mais do que qualquer outra coisa, uma condição primordialmente aprendida e em tenra idade através do processo de socialização, parecendo não exigir muito pensamento cognitivo e, na verdade, sendo que pensar sobre os prós e os contras de algumas situações poderá resultar em que um indivíduo perca ou ganhe esperança.

E o optimismo, e comparativamente, apresenta-se como uma actividade principalmente cognitiva, existindo muitas pessoas com tendência para terem uma atitude optimista relativamente à vida e às situações no geral, sendo que esse optimismo e ao contrário da esperança, tem como base factos racionais e lógicos que são processados cognitivamente.

Ou seja, apesar de diferentes, estas três condições apresentam-se como complementares. Para os investigadores, a felicidade é biológica na sua natureza e parece ser a mais básica e fundamental condição entre as três. A esperança, sendo principalmente aprendida, pode conduzir à felicidade, e o optimismo, sendo fundamentalmente cognitivo, pode “gerar” esperança. E, por sua vez, a felicidade parece reforçar o optimismo, dando origem a pessoas felizes, optimistas e esperançosas.


ISCSP lança Barómetro da Esperança

Realizado no âmbito da Cátedra UNESCO em Educação para a Paz Global Sustentável, o Instituto Superior Ciências Políticas e Sociais da Universidade de Lisboa (ISCSP) lançou, há poucos dias, o estudo “Barómetro da Esperança”, um projecto de investigação colaborativa, que tem como principais objectivos “encorajar e apoiar um discurso público sobre a esperança nos países participantes; explorar empiricamente a esperança como percebida por indivíduos e grupos em diversos contextos e culturas e contribuir para a compreensão do conceito teórico da esperança”.

No estudo a esperança é definida como “como um desejo comprometido por um objectivo alcançável, mas sempre incerto. Trata-se de uma crença generalizada, suportada na confiança, de que coisas, objectivos e circunstâncias específicas desejadas — importantes e que queremos atingir — acontecerão no futuro, da forma esperada para nós e para o nosso contexto social, independentemente dos obstáculos e adversidades”.

O estudo em causa sintetiza de forma clara as questões conceptuais que subjazem à investigação, pelo que aconselhamos a sua leitura.