Alargado, recentemente à cidade da Guarda, o programa “Somos Por Si, Somos Por Portugal”, iniciativa da Fundação São João de Deus, intervém junto de pessoas idosas e em situação de isolamento social, cujos familiares são emigrantes. Trata-se de um acompanhamento temporário que visa a reintegração da população sénior na sociedade. A comunicação por vídeo entre esta e os familiares emigrados é o pedido de apoio “mais emblemático e procurado”, como comenta Rui Amaral, presidente da Fundação
POR MÁRIA POMBO

Portugal está a perder pessoas para outros países. Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), publicados pela Pordata, desde 2009 o fluxo migratório tem sido crescente, de ano para ano. Em 2012, foram mais de 121 mil os portugueses que, de forma temporária ou permanente, viram um destino além-fronteiras. Em Portugal ficam os restantes – aqueles que ainda acreditam, aqueles que conseguiram alcançar o seu “lugar ao sol” e todos os que não têm outra alternativa senão esperar que passem os dias. Muitos destes são idosos e vivem isolados do mundo.

O INE prevê inclusivamente que, até 2060, assistamos em Portugal a um declínio populacional acompanhado por um forte envelhecimento demográfico. Este cenário é motivado quer pela diminuição de nados vivos, quer pelo aumento substancial da emigração. Desta forma, prevê-se que a população diminua de 10,5 milhões, em 2012, para 8,6 milhões, em 2060, e que o envelhecimento aumente de 131 para 307 idosos, por cada 100 jovens.

Tendo em conta que somos já uma nação bastante envelhecida, e que à velhice se junta muitas vezes o isolamento social, a Fundação São João de Deus criou, no início deste ano, o programa “Somos por Si, Somos por Portugal”, a pensar nos idosos, familiares de emigrantes, que deixaram de ter quem lhes faça companhia e quem os apoie nas tarefas diárias.

O programa resulta da consolidação de um outro já existente (Somos por Si) que intervém, através de visitas feitas por pessoas com doença mental, que são acompanhadas por colaboradores, parceiros e voluntários, junto de pessoas idosas, sem rede familiar de apoio e que se encontram em situação de isolamento social. A perspectiva é a de que “cidadãos apoiam cidadãos” e, neste caso, o foco está nos idosos que têm familiares a viver fora do País. Em cada uma destas visitas, existe sempre um técnico da área social de referência, formado pela Fundação, com base nos princípios e valores da Ordem Hospitaleira, à qual pertence.

Várias foram as sessões em que os técnicos e voluntários da Fundação perceberam que a solidão era, muitas vezes, motivada pelo facto de os idosos terem familiares próximos (quase sempre filhos ou cônjuge) a viver fora do País. Rui Amaral explica ao VER que a equipa percebeu que esta poderia ser “uma grave consequência colateral deste novo ‘surto’ de emigração, diluída na realidade do isolamento social entre os idosos”. Segundo o presidente da Fundação, “apesar de não existirem dados que o confirmassem, era urgente agir”.

© DR

As causas do isolamento têm consequências
Após a percepção desta realidade, a preocupação dos profissionais da Fundação foi procurar dados concretos deste isolamento e outros casos de pessoas em situações semelhantes, junto de parceiros locais e entidades oficiais. Posteriormente “fomos encontrando e construindo soluções que mitigam a separação das famílias e a angústia e preocupação que esta separação origina”, esclarece.

Promover a autonomia e a independência da população idosa na realização de tarefas diárias, incentivar a reintegração social através da promoção de actividades em grupo e potenciar o restabelecimento e fortalecimento das redes de suporte formal e familiar são os principais objectivos do programa.

A ideia é simples: garantir o apoio necessário a familiares de emigrantes – nomeadamente idosos – em pequenas tarefas, como ler o correio, estender a roupa, acompanhar ao supermercado ou até mesmo potenciar o contacto, através da internet, com os familiares emigrados. Este apoio é, normalmente, requerido pelo familiar emigrante, mas poderá ser feito também pelos parceiros locais da Fundação, pelo próprio idoso ou por familiares que, apesar de não estarem emigrados, não têm condições para assegurar o seu acompanhamento.

O apoio só é dado após a vontade expressa de todos os envolvidos (idoso e familiar). Este é, aliás, um dos pontos em que a Fundação é mais exigente. Rui Amaral sublinha, inclusivamente, que “qualquer acção ou acompanhamento, por mais simples que possa parecer, requer comunicação permanente entre todos”.

O Plano de Intervenção depende, depois, de caso para caso, conforme as necessidades dos beneficiários e as condições em que poderão ser feitas as visitas. O acompanhamento a serviços de saúde (com feedback aos familiares emigrantes), ou o incentivo à participação em actividades que possibilitem a saída de casa e a relação com outras pessoas têm sido alguns dos apoios mais requisitados, desde o arranque oficial do programa.

A comunicação por vídeo é, no entanto, a actividade mais “emblemática” deste programa e a “mais procurada pelos emigrantes”. A autonomia do idoso é sempre uma prioridade em qualquer que seja a tarefa executada. Neste caso em particular, o idoso é ensinado e incentivado a “ligar-se” sozinho e a ficar online para que, após algum tempo, seja independente e desempenhe essa tarefa sem necessitar do apoio da equipa.

Rui Amaral esclarece, aliás, que “é fundamental que tanto o emigrante como o seu familiar reconheçam que este acompanhamento não substitui o próprio em nenhuma das actividades propostas”, reforçando que “o apoio será sempre temporário, atendendo ao princípio do incentivo da preservação da independência nas actividades de vida diária”.

© DR

Idosos activos e independentes
A este programa estão associados outros, promovidos igualmente pela Fundação, como as “Caminhadas na (c)Idade” (passeios temáticos a pé, pela cidade de Lisboa), workshops de fotografia urbana e sacra e a “Academia da Memória” (com foco na estimulação cognitiva e dedicada ao público mais sénior), no âmbito da qual é dinamizado o workshop “Dê Corda à sua Memória”, que pretende reduzir os efeitos da idade na memória e “dar mecanismos de treino para manter o cérebro activo e em forma, de um modo saudável e divertido”. Todos estes programas pretendem prolongar a autonomia e erradicar o isolamento social dos seus beneficiários.

O programa “Somos Por Si, Somos Por Portugal” teve início a 1 de Janeiro deste ano, em Lisboa, e a 1 de Abril, na Guarda, mas foram já promovidos esforços para levar a iniciativa a outras cidades, como Ponta Delgada, Angra do Heroísmo, Porto, Braga e Barcelos. No total, a equipa da Fundação acompanha cerca de 70 pessoas em Lisboa, e 100 na Guarda, mas Rui Amaral refere que durante este ano a perspectiva é chegar aos cerca de 1800 beneficiários, ao longo de todo o País.

O presidente desta IPSS adianta que o alargamento deste programa “será sempre possível, se se chegar à conclusão que responde à missão da Fundação, se houver meios para tal e desde que outras instituições não estejam a realizar acções semelhantes”, sublinhando que “o mais importante é não deixar as pessoas sem resposta”.

Promover, coordenar e patrocinar a investigação, a formação, a assistência e a cooperação nas áreas da saúde, da integração social e comunitária, do desenvolvimento humano, da melhoria da prevenção, assistência e reabilitação dos doentes, abrangendo desde a infância à idade sénior, são os objectivos da Fundação S. João de Deus.

Outros projectos Hospitaleiros
Os objectivos da Fundação são cumpridos através dos diversos programas que a mesma cria e promove. Actualmente são sete os programas e projectos que estão activos em território nacional, e três os que funcionam internacionalmente, para além daqueles que já foram referidos acima.

A “GOOD4ALL” é um desses projectos. Trata-se de uma APP que foi criada para dar uma resposta mais rápida às necessidades que decorrem da acção dos projectos de intervenção social da Fundação. Os inscritos na aplicação recebem uma notificação relativa às necessidades de cada projecto e podem escolher quem querem ajudar.

© DR

Outro projecto é o “Ferro de Soldar”, que está disponível apenas em Lisboa e presta apoio nas áreas de serralharia, electricidade, pintura e reparação de estores, promovendo a requalificação de habitações de idosos e de pessoas com deficiência, através de pequenas reparações domésticas. Com o mesmo objectivo, foi criado o “Pano de Limpar”, que conta com o contributo de voluntários específicos que se ocupam da limpeza e higiene dos espaços habitacionais.

O “SPACE4U” é outro dos projectos da Fundação. Através do aluguer de uma secretária “por um preço justo”, todos os lucros deste cowork solidário são direccionados para outros projectos sociais da Fundação.

Funcionando como uma residência que promove o aluguer social de espaços habitacionais, a Fundação disponibiliza dois andares do edifício com o seu nome a jovens investigadores e professores em situação de debilidade económica. São, no total, cinco quartos (nove camas) que compõem o “Atrium Hospitalidade”.

Apoiado pelo programa Escolhas 5ª Geração, o projecto “Sementes a Crescer – E5G” actua na freguesia do Beato, em Lisboa, e promove a inclusão social e a cidadania através de actividades educativas, lúdicas e culturais.

“Fazer o Caminho de S. João de Deus” é um programa criado no âmbito do turismo religioso que promove, de forma profissional mas com o cunho dos irmãos de S. João de Deus, uma das mais antigas tradições desta Ordem: a peregrinação rumo a Granada.

Já a nível internacional, os programas criados e promovidos pela Fundação pretendem dar apoio à permanência temporária de animadores sociais que, por sua vez, apoiam as equipas que prestam cuidados aos doentes mentais, nos Centros de Apoio Mental de Nampula (Moçambique) e Dili (Timor-Leste), e na Casa da Hospitalidade de S. Paulo (Brasil).