Qualquer pessoa pode contribuir para ajudar a resolver dois problemas crónicos da nossa sociedade: o desnecessário desperdício de comida e a desnecessária fome urbana. É com esta premissa que o projecto Re-food recolhe, a pé ou de bicicleta, os alimentos que sobram diariamente em estabelecimentos de sete quarteirões de Lisboa, para os distribuir a famílias carenciadas
POR GABRIELA COSTA

Em tempos de crise, “as pessoas são movidas a fazer o que puderem” para ajudar, acredita Christopher Halder, um dos fundadores da Associação Refood4good, que lançou o projecto Re-food, recentemente distinguido com o prémio Montepio Voluntariado Jovem. A operacionalização da iniciativa, que alcançou com este prémio o seu financiamento inicial, depende do trabalho voluntário de cinquenta pessoas – na fase piloto – que, todos os dias, recolhem, transportam e fornecem as sobras alimentares de restaurantes, hotéis e supermercados a quem mais precisa.

© Associação Re-food4good

A implementação do projecto-piloto, na freguesia de Nossa Senhora de Fátima, em Lisboa, vai agora dar lugar à próxima fase desta missão, durante a qual “temos de conquistar dois desafios fundamentais: expandir a nossa operação por toda a freguesia, e assegurar as parcerias necessárias com governo, empresas e associações sem fins lucrativos para uma expansão global bem sucedida” diz, em entrevista ao VER, Christopher Halder.

Como e quando surgiu a ideia de lançar a iniciativa Re-food?
O grande impulsionador do projecto Re-food foi Hunter Halder, norte-americano a viver há cerca de vinte anos em Lisboa, na freguesia de Nossa Senhora de Fátima. Em 2010, como as ofertas na sua área de trabalho (teambuilding) diminuíram, devido às condições económicas desfavoráveis, e, consciente de que não estava a ficar mais jovem, Hunter decidiu deixar de trabalhar e começar a lançar as ideias humanitárias que tinha desenvolvido ao longo dos anos.

A ideia de implementar o projecto Re-food deu-se devido a uma confluência de factores: depois de, num jantar em família, se ter apercebido com horror que as sobras de comida do buffet de saladas iriam parar ao lixo, e de uma das suas filhas, a trabalhar num hotel, ter testemunhado a tremenda quantidade de alimentos perfeitamente bons que tinham sido deitados fora, Hunter, que nessa altura teve de cumprir um período de jejum (e, assim, ganhou uma nova perspectiva sobre a fome), tentou explicar às filhas que os hotéis e restaurantes não tinham alternativas reais para deitar a comida fora: não só não sabiam quem precisava dos alimentos como, mesmo que soubessem, não tinham condições para entregá-los.

Hunter questionou-se então se seria possível criar uma alternativa viável para que estas entidades – hotéis, restaurantes, cafés, cantinas, etc. – pudessem passar a redireccionar as suas sobras para quem precisa de um reforço na sua alimentação. E, muito em breve, o Re-food começou a tomar forma.

Foi só após do desenvolvimento inicial do projecto, que o seu mentor tomou consciência do trabalho já desenvolvido por António Costa Pereira – trabalho esse que mudou o paradigma sobre esta questão junto de entidades como a ASAE, a AHRESPA e o governo. Ou seja, não existiam impeditivos para o lançamento desta iniciativa – e assim aconteceu.

Começou por ser pensada uma área para a implementação do projecto-piloto (sete quarteirões dentro da freguesia de Nossa Senhora de Fátima, uma área passível de ser trabalhada por uma só pessoa) e, dentro desta área, deu-se início ao levantamento de restaurantes e afins disponíveis para doar as suas sobras de comida. Por outro lado, começou também a ser feito o levantamento dos potenciais destinatários – não só junto de instituições como a Igreja, como através de uma campanha porta-a-porta, cujo principal objectivo era chegar à chamada “fome envergonhada”.

O plano de participação de voluntários no projecto Re-food foi desenhado de forma a que cada voluntário não tenha de despender mais do que entre uma e uma hora e meia, por semana, do seu tempo. Isto significa que qualquer pessoa, não importa quão ocupada seja, possa contribuir com um pouco do seu tempo e energia para ajudar a resolver dois problemas crónicos da nossa sociedade: o desnecessário desperdício de comida e a desnecessária fome urbana.

Todos nós, em algum ponto das nossas vidas, já pensámos nesta questão. Agora temos um modelo exequível que aborda este assunto ao combinar duas “negativas” para produzir três “positivas”: menos desperdício, menos fome, mais solidariedade social.

Como funciona o projecto e com que objectivos?
O objectivo central é acabar com o desperdício alimentar entre as pessoas que precisam, na maior escala possível. O Re-food recolhe, transporta e fornece comida a quem dela precisa. As fontes de alimento são muitas: incluem restaurantes (que doam o seu excesso de comida); hotéis e supermercados, entre outros estabelecimentos.

O projecto reduz a fome em todo o espectro de necessidade. Voluntários identificam os beneficiários indo de porta em porta (sobretudo para encontrar a chamada “pobreza envergonhada”, caso em que a entrega de comida é feita com discrição), através de parcerias com instituições de solidariedade locais (Igrejas, freguesias e outros), que têm informações sobre a população mais carenciada e, finalmente, convidando os sem-abrigo a receber alimentos.

Só na fase piloto reuniram mais de 50 voluntários. Como comenta a solidariedade que vêm encontrando desde que lançaram “mãos-à-obra”, na actual conjuntura e neste que é o Ano Europeu do Voluntariado?
As pessoas estão prontas e dispostas a ajudar – só precisam de ser convidadas a fazê-lo. E toda a gente precisa de algo em que possa acreditar, algo que mereça o seu tempo e esforço. O projeto Re-food preenche essa necessidade e assim atrai um grande número de voluntários.

Acima de tudo, sempre que a situação é difícil as pessoas mostram a sua verdadeira essência: quando o ambiente é próspero o desafio da entreajuda não é tão óbvio, mas num momento difícil, a necessidade é mais evidente e as pessoas são movidas a fazer o que puderem.

O “Ano Europeu do Voluntariado” é um instrumento eficaz para elevar a consciência das pessoas e alertá-las para a oportunidade que existe em relação ao voluntariado – a oportunidade de dar sem pedir ou esperar nada em troca (uma situação paradoxal, especialmente quando os que se voluntariam relatam ter recompensas significativas dos seus serviços).

“Vamos utilizar os fundos do Prémio Montepio para produzir muitos milhões de refeições, investindo em parcerias mutuamente benéficas e orientando o projecto para a sua maior expressão possível” – Christopher Halder, coordenador do Re-food .
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Que balanço faz do projecto-piloto? (incluindo nº de bairros/quarteirões, nº de voluntários e de restaurantes/estabelecimentos envolvidos, bem como nº de beneficiários)?
Ainda somos pequenos e, por enquanto, esta dimensão é intencional: operamos em sete quarteirões, temos cerca de 60 voluntários, 31 restaurantes e 60 a 70 beneficiários. Antes de crescer queremos ter os nossos sistemas perfeitamente operacionalizados. Temos estado a atingir esse objectivo e, paralelamente, já conseguimos outro: o de alcançar o nosso financiamento inicial ao ganhar o prémio Montepio Voluntariado Jovem.

Ao ganharmos este prémio conseguimos também alguma notoriedade, necessária para chegarmos à nossa próxima fase, onde temos de conquistar dois desafios fundamentais: expandir a nossa operação por toda Freguesia de Nossa Senhora de Fátima (durante os próximos seis meses) e assegurar as parcerias necessárias entre os três sectores da comunidade (governo, empresas e associações sem fins lucrativos), parcerias essas fundamentais para uma expansão global bem sucedida.

Como avalia a importância de reduzir o desperdício alimentar, numa altura em que a crise e o desemprego tornam cada vez mais difícil a vida de muitas famílias portuguesas?
É um imperativo moral, aqui e agora. Como disse António Costa Pereira, é uma “situação indigna” que tanta comida seja deitada fora quando tantas pessoas estão com fome.

O Re-food apresenta uma opção para toda a comunidade se envolver e tomar medidas concretas para acabar com o desperdício de comida e alimentar as pessoas que precisam dela. Acreditamos que este modelo (empregando os recursos locais existentes para mitigar os problemas, através da motivação efectiva e organização eficaz de voluntários), pode ser efectivamente aplicado a outras áreas na comunidade.

Mas esta é também uma abordagem fundamental para o futuro do planeta – é preciso parar de desperdiçar os nossos recursos – e a boa comida é um exemplo muito óbvio, especialmente quando há pessoas que precisam.

Como avaliam as situações mais carenciadas de modo a auxiliar primeiro quem mais precisa? Como beneficiam também a população sem-abrigo?
Todas as pessoas que dizem que precisam da nossa comida, recebem-na. A nossa política é confiar e também, claro, verificar. Damos especial a atenção às famílias com filhos e tentamos aprender as necessidades de cada pessoa/família e entregar o alimento certo para elas.

Os sem-abrigo são um caso especial – eles não têm a capacidade de aquecer ou refrigerar os “pacotes de família” que os outros recebem, por isso, somos nós a reaquecer-lhes a sopa e a tentar dar-lhes uma refeição quente sempre que possível. Esta parte do nosso trabalho tem lugar na Igreja de Nossa Senhora de Fátima, que provou ser um parceiro de valor inestimável.

Como surgiu a ideia de fazerem a redistribuição dos alimentos de bicicleta e a pé? Quais são as vantagens desta opção, para além das ambientais?
O projecto começou como uma acção do um só homem e a bicicleta tornou possível cobrir toda a área piloto dentro das restrições impostas pelo tempo e programação da recolha (indo a cada restaurante no seu tempo de preferência); nesse sentido, foi uma solução prática. Ao mesmo tempo, percebemos que um veículo tão incomum geraria curiosidade dentro da comunidade e iria servir como um ponto focal e uma ferramenta de “marketing / publicidade”, que pode atrair as pessoas para pedir mais informações. Funcionou.

A recolha a pé tem algumas das vantagens operacionais de andar de bicicleta: é fácil o voluntário mover-se entre os pontos de recolha e não há problemas com o trânsito, não há geração de emissões de carbono e consegue-se ter contacto com a comunidade.

Pela vossa experiência no serviço que prestam porta-a-porta, como comenta a existência de uma “pobreza envergonhada” entre pessoas e famílias de classe média baixa que, muitas vezes, perderam os seus empregos?
A nossa experiência diz-nos que há pessoas com tipos de problemas muito diferentes que precisam receber um reforço na sua alimentação – o desemprego é apenas uma dessas razões.

Há definitivamente algumas pessoas que têm vergonha da sua situação e preferem morrer a serem vistas a receber ajuda – mas também aprendemos que é possível entregar comida a essas pessoas de forma muito discreta.

Que parcerias estabeleceram já com empresas, instituições de solidariedade locais e entidades estatais e que parcerias esperam criar no final da fase de arranque?
Durante o primeiro mês do projecto, estabelecemos parcerias importantes em três dos quatro sectores encontrados dentro da comunidade:
Parcerias com o muitas vezes negligenciado “quarto sector” (os cidadãos individuais), que nos forneceram o nosso primeiro e mais importante apoio: voluntários, o sangue da vida do projecto.

Parcerias com o “Terceiro Sector” (da Solidariedade Social e instituições sem fins lucrativos), como com a Igreja de Nossa Senhora de Fátima que se mostrou disponível, através da partilha de informações sobre famílias potencialmente em necessidade, aceitando a nossa ajuda na alimentação dos seus beneficiários, ajudando-nos a comunicar a nossa mensagem para a comunidade, e permitindo-nos utilizar algum espaço na sua cozinha como o nosso centro operacional.

Parcerias com o “Segundo Sector” (a comunidade empresarial), onde os nossos contactos iniciais – e verdadeiramente essenciais – estão relacionados com os muitos restaurantes que doam as suas sobras para o projecto. Estabelecemos ainda parcerias com outras empresas, o que nos permitiu adquirir algum equipamento e material para fazer as modificações que precisávamos para a bicicleta (Biclas Bicicletas), e produzir os folhetos e materiais de apresentação que precisávamos para começar, através de uma empresa de impressão local (Duplix). Os nossos advogados (LSC) fizeram ainda um trabalho essencial, em regime “pro bono”, e ajudaram-nos a formalizar o projecto.

Precisamos ainda de celebrar parcerias com o “Primeiro Sector” (o governo), mas os nossos contactos iniciais com o ministério da Solidariedade e Segurança Social dão-nos algumas esperanças. Em breve, contamos ainda estabelecer contactos com todas as “freguesias” de Lisboa.

Acreditamos que todos os sectores da comunidade devem participar no trabalho que estamos a desenvolver e convidamos todos a contribuírem, na medida do possível. Somos muito flexíveis (pessoas e instituições só podem assumir o que lhes é possível) mas muito determinados (vamos ser persistentes em oferecer a oportunidade de participação responsável no projecto para todos os sectores da comunidade, inclusive, e principalmente, no quarto sector.

O que significa para o Re-food ter sido distinguido com o Prémio Montepio Voluntariado Jovem? Que expectativas se alargam, em termos de abrangência do projecto?
Todos os projectos finalistas são dignos e esperamos trabalhar com eles no futuro próximo. O Re-food está feliz por ter conquistado este prémio que vai, certamente, facilitar o nosso crescimento.

A nossa intenção é transformar Lisboa na primeira cidade no mundo a acabar com o desperdício alimentar e alimentar a sua população carenciada – ganhar o prémio aumenta a nossa capacidade de atingir este objectivo.

Em relação ao aspecto monetário do prémio, no valor de 25 mil euros, se aplicado directamente na recolha e distribuição de refeições, produziria 250 mil refeições (temos vindo a produzir refeições a cerca de dez cêntimos cada). Contudo, logo na entrega do prémio decidimos doar mil euros a cada um dos outros quatro projectos finalistas, pelo que o Re-food receberá 21 mil euros.

Temos a intenção de utilizar estes fundos para produzir muitos, muitos milhões de refeições, investindo em parcerias mutuamente benéficas e orientando o projecto para a sua maior expressão possível. A comida que recolhemos e distribuímos é sagrada e o dinheiro que nos foi confiado será usado para maximizar os benefícios produzidos pelo projecto.

Contudo, acreditamos que o “capital” mais importante que o projeto Re-food recebeu ao ganhar o prémio foi, de longe, a honra de ver o potencial desta ideia ser reconhecido.

A que se deveu o gesto de oferecerem parte do valor recebido pelo Prémio Montepio aos restantes finalistas?
A ideia foi sugerida durante a cerimónia de apresentação dos projectos e entrega dos prémios, enquanto o júri deliberava e, portanto, antes de ser anunciado o vencedor. Tratou-se de uma decisão aceite de forma unânime por toda a equipa, que constitui a direcção da associação Refood4good.

Sentimos que estamos todos no mesmo barco e não quisemos deixar ninguém sem uma parte dos fundos, uma vez que apreciamos o seu trabalho e queremos trabalhar com eles no futuro. Pode dizer-se que, naquele momento, começámos a investir em novas parcerias! Durante a cerimónia, o Re-food também pediu, e recebeu, as “sobras” do lanche, que foram distribuídas nessa mesma noite às nossas famílias beneficiárias.

Como e quando pretendem passar de associação a IPSS?
Os nossos advogados já estão a trabalhar para assegurar a transição da nossa “Associação de Solidariedade Social” para IPSS, e esperamos que a mudança no status seja alcançada em breve, embora não saibamos ao certo quando será.

 

Gabriela Costa

Jornalista