Estão abertas, até 15 de Novembro, as inscrições para a 3ª edição do Design for Change (DFC), que distingue projectos de escolas desenvolvidos no âmbito do movimento global dedicado às ideias das crianças para a criação de um mundo melhor. Em entrevista, o presidente da Associação High Play, que dinamiza o DFC em Portugal, explica que a iniciativa “incute nos jovens, de forma divertida (mas séria), uma consciencialização cívica global e uma co-responsabilização que lhes permite trabalhar “competências de vida”
POR GABRIELA COSTA

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A High Play abriu candidaturas para nova edição do Design for Change Portugal (DFC), e anunciou a 5 de Outubro as escolas vencedoras da segunda edição do projecto, relativa ao ano lectivo 2012/2013. Dirigida a alunos com idades entre os 8 e os 13 anos, a iniciativa é dinamizada a nível nacional pela associação dedicada a projectos educativos e sustentáveis, no âmbito do movimento global nascido na Índia em 2009, com o objectivo de dar às crianças e jovens a oportunidade de expressarem as suas ideias para “a criação de um mundo melhor”.

Em entrevista ao VER,Mário Henriques, presidente da Associação High Play, sublinha que, por cá o projecto chegou já a 36 escolas e 2 mil crianças, numa “demonstração clara” do seu potencial no nosso país. A nível global, o DFC envolve hoje 300 mil escolas e 25 milhões de crianças em 35 países.

O movimento procura a mudança positiva dos jovens e das comunidades que impactam, através de um processo que compreende quatro fases – Sente, Imagina, Faz e Partilha –, promovendo entre os seus destinatários “uma visão mais abrangente dos problemas” e capacidade para “estabelecer objectivos, trabalhar em equipa, ultrapassar obstáculos e atingir resultados”, explica Mário Henriques.

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Mário Henriques, presidente da
Associação High Play
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A High Play lançou a 3ª edição do Projecto Design for Change Portugal (DFC). O que visa esta iniciativa dirigida a alunos com idades entre os 8 e os 13 anos, e que a Associação dinamiza em Portugal desde 2011?
O Design for Change é um projecto que permite às escolas, através dos seus professores, estimular algo que naturalmente existe dentro de cada criança – vontade e desejo de contribuir para um mundo melhor. Um dos pontos fortes do DFC passa por promover uma visão mais abrangente dos problemas da comunidade onde a escola está envolvida. Sugere que as crianças saiam da sala de aula e façam aquilo que vão ter de fazer no resto das suas vidas: estabelecer objectivos, pensar como vão lá chegar, trabalhar em equipa, ultrapassar obstáculos e procurar atingir resultados que as satisfaçam. Em poucas palavras, é mudar fazendo parte da mudança. Este é o outro mérito do projecto, pois não basta pensar nem dizer ou escrever palavras bonitas. Tal como na vida, o DFC faz-se através de acções e iniciativas.

Como é que este projecto nascido na Índia em 2009 se tornou no “maior movimento global” de ideias dadas por crianças e jovens, com vista à criação de um mundo melhor, envolvendo hoje 300 mil escolas e 25 milhões de crianças em 35 países?
Ao longo dos anos estas crianças têm demonstrado que “criar um mundo melhor” depende em grande parte da vontade, da dedicação, do empenho, do trabalho em equipa e de uma visão criativa e positiva face aos obstáculos. Os contributos e os exemplos de boas práticas que nos chegam de todo o mundo são a prova viva disso e constituem a base para este movimento global. Todos queremos um mundo melhor. As crianças acreditam mais que os adultos e têm uma vontade genuína para mudar as coisas.

Tendo por objectivo a mudança positiva quer dos jovens quer da comunidade escolar e envolvente, como dinamizam o processo de implementação do DFC, que compreende quatro fases?
Embora dividido por quatro fases, o processo de implementação do DFC foi concebido de forma a que cada grupo desenvolva o projecto de acordo com os seus próprios objectivos e tempo disponível. Esta flexibilidade que caracteriza o projecto está directamente ligada à liberdade de actuação e ao respeito pelo processo criativo que é próprio e único em cada grupo.

Assim, a primeira fase (Sente) pretende destacar o lado emocional que está ligado a determinado problema. A partilha entre alunos no que respeita as suas preocupações, etc., traduz-se numa componente relacional importante. É, pois, nesta fase que são identificados problemas reais que os afectam, assim como à comunidade onde estão inseridos.

“As crianças acreditam mais que os adultos e têm uma vontade genuína para mudar as coisas”

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A segunda fase (Imagina) permite aos alunos aprender a prioritizar, seleccionando um dos problemas sobre o qual pretendem trabalhar. Nesta fase são exploradas as competências de planificação (com o desenvolvimento de um plano de ação) e de aprendizagem e partilha de conhecimento, através do contacto com pessoas-chave com know-how na área do problema seleccionado.

A terceira fase (Faz) corresponde à implementação do projecto de mudança que se concretiza pelas próprias mãos dos alunos. Esta etapa traduz uma aprendizagem pessoal muito importante: o autoconhecimento, a autoconfiança, a auto-realização, a aprendizagem positiva sobre os pontos fortes e sobre as áreas de potencial melhoria em cada um, assim como os benefícios do trabalho em equipa e das valências que se conseguem adquirir através desta partilha.

Por último, a quarta fase (Partilha) pretende reforçar a importância da disseminação das boas práticas numa ótica de “contágio” positivo.

Quais são os critérios que presidem à selecção das cinco categorias a concurso – Projecto com Maior Impacto na Comunidade; Projecto Mais Inovador; Projecto Mais Fácil de Replicar; Projecto Mais Amigo do Ambiente; e Prémio Global – a que os grupos podem concorrer?
As cinco categorias pretendem apoiar o júri que avalia os projectos apresentados a concurso a distinguir o tipo de trabalhos realizados. Assim, na categoria Maior Impacto na Comunidade inserem-se todos os projectos que visem a resolução de um problema que seja comum e que afecte um número mais alargado de pessoas na comunidade.

Por outro lado, tal como o nome indica, o Projecto Mais Inovador é aquele que apresenta uma abordagem e um resultado diferenciador, com soluções inovadoras face ao problema trabalhado. Na categoria Projecto Mais Fácil de Replicar inserem-se os projectos com características, metodologias e abordagens simples e transversais que sejam fáceis de “copiar”, podendo ser implementados por outras escolas a partir do mesmo exemplo.

Os projectos que visem uma solução e uma preocupação em termos de impacto ambiental estão inseridos na categoria Mais Amigo do Ambiente. Por fim, no Prémio Global cabem os projectos que reúnam características de várias das restantes categorias.

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A nível nacional, que balanço faz dos concursos já realizados nas edições anteriores do DFC? O que destaca sobre os projectos vencedores da 2ª edição, que foram conhecidos recentemente?
As duas primeiras edições do Design for Change Portugal, que envolveram no total cerca de 36 escolas e 2 mil crianças, foram uma demonstração clara do potencial do projecto no nosso país. O feedback muito positivo que temos por parte dos alunos e professores traz à Associação High Play o sentimento de que estamos a cumprir os objectivos que traçámos quando trouxemos o DFC para Portugal.

As escolas vencedoras da segunda edição (que respeita ao ano lectivo 2012/2013) foram conhecidas no passado dia 5 de Outubro no evento de entrega de prémios do DFC Portugal, o qual teve lugar na Escola Básica e Secundária do Cerco. Uma vez mais o entusiasmo e a dedicação de alunos e professores foram visíveis e a força de mudança que este projecto traz para as pessoas e para as comunidades é inegável.

Nesta edição fomos surpreendidos com projectos muito interessantes, que abordam problemáticas relevantes e que tiveram um impacto surpreendente. O projecto “Inclusão Social” do Centro Escolar da Gandra foi o vencedor na categoria Maior Impacto na Comunidade, patrocinada pela FAMO. A ligação e o envolvimento entre os alunos que desenvolveram este projecto e as crianças com deficiência foi muito interessante.

Já na categoria Projecto Mais Inovador, patrocinada pela FUNDAÇÃO PT, a Escola Básica Eugénio de Andrade foi a vencedora com “Um conto para todos”, um projecto dedicado a alunos surdos-mudos que passaram a ter acesso à leitura de livros através da sua tradução para a Língua Gestual Portuguesa. À Escola Básica das Flores a High Play entregou o prémio da categoria Mais Fácil de Replicar ao projecto “Estudar com os Pais”. Com este projecto de mudança os pais puderam participar em aulas preparadas especificamente para eles, tendo aprendido como ajudar os filhos a estudar, esclarecer-lhes dúvidas, etc. O impacto desta iniciativa traduziu-se numa melhoria muito positiva quer ao nível do comportamento quer ao nível dos resultados escolares por parte das crianças.

A LIPOR veio premiar as Escolas Básicas de Santa Cristina e de Arcos pelo projecto “Aproveitamento de Recursos”, na categoria Mais Amigo do Ambiente. Este projecto tem a dupla função de, por um lado, angariar alimentos para que o próximo Natal das famílias mais carenciadas das escolas seja mais recheado, e, por outro, ensinar aos alunos e às comunidades que o óleo alimentar pode ser transformado em coisas muito úteis, como é o caso do sabão criado pelos alunos e que a escola passou a usar.

Por fim, o Prémio Global foi atribuído pelo High Play Institute à Escola Básica de Noêda, pelo projecto “Eu Posso Melhorar”. A mudança foi mais uma vez visível no comportamento e nas relações entre pais e filhos. As complicações existentes e que afectavam negativamente as relações entre pais, professores e alunos dissiparam-se através de reuniões de diálogo aberto, de partilha, e de actividades conjuntas sempre apoiadas por professores, psicólogos e assistentes sociais.

Estes, assim como todos os outros projectos que concorreram, são a prova de que as boas práticas existem e a mudança é possível!

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Que previsão faz sobre o alargamento deste “movimento de mudança” a todas as escolas do país, como ambicionam?
A nova edição do Design for Change Portugal foi lançada a todas as escolas de Portugal Continental, públicas e privadas, a 18 de Setembro último, com o início do ano lectivo 2013/2014. As inscrições estarão abertas até 15 de Novembro e, nesta nova edição, o objectivo será chegar a um grande número de escolas, potenciando o impacto do projecto quer junto das crianças, reforçando a sua natureza empreendedora e contribuindo para o desenvolvimento de competências individuais e cívicas, quer junto das comunidades em geral.

Que importância têm, no actual contexto socioeconómico, e face à formação ética e capacitação das gerações futuras para a cidadania e sustentabilidade, as competências adquiridas através do DFC, como o serviço comunitário que desenvolvem, o crescimento pessoal ao nível de auto-estima, conhecimento, comunicação e brainstorming, ou o trabalho de equipa?
O trabalho de desenvolvimento de competências conseguido através do DFC representa uma aposta na formação e na capacitação dos jovens enquanto pessoas individuais, enquanto cidadãos e futuros profissionais. O processo de desenvolvimento de um projecto como o DFC incute nos jovens, de forma divertida (mas séria) e experiencial, uma preocupação cívica, global, uma consciencialização e uma co-responsabilização que lhes permite ver o mundo com outros olhos, alargando horizontes, conhecendo outras realidades, outras vivências e actuando de forma positiva e proactiva.

A junção destas novas perspectivas e aprendizagens com o crescimento pessoal (ouvimos muitas vezes os alunos dizer “fiz coisas que nunca imaginei que fosse capaz de fazer”) traduz-se numa nova forma de estar. O facto de verem as suas ideias, os seus projectos concretizados pelas suas próprias mãos, traz-lhes um sentimento de que são capazes, de que as suas ideias são válidas e que podem, de facto, promover mudanças para si e para os outros. A experiência e o reconhecimento que daí advêm fazem com que estes jovens cresçam com um olhar mais positivo sobre si próprios, com que abracem novos desafios sem medos e com uma maior convicção em relação ao sucesso que poderão alcançar.

Em que medida se enquadra o DFC na actuação da High Play, centrada em projectos educativos que desenvolvem competências transversais, suportando a escola e a família, e que contribuem para estimular atitudes sustentáveis, através de um método experiencial assente em jogos e dinâmicas práticas que abrange áreas como as Artes, o Desporto ou a Sustentabilidade?
No trabalho que desenvolvemos na Associação High Play, seja com o DFC ou com outros projectos, o objectivo é contribuirmos para a educação de crianças e jovens trabalhando com eles e com quem tem um papel activo na sua educação e no seu desenvolvimento – professores, pais, encarregados de educação, treinadores desportivos, etc.

Na Associação, a nossa missão passa por desenvolver projectos educativos que contribuem para a aprendizagem e para a interiorização de competências e valores que apoiam a formação e o crescimento daqueles que vão herdar o mundo que estamos a construir. É nossa convicção que este trabalho complementa o trabalho realizado nas escolas, ou em casa, com as famílias.

O método experiencial que utilizamos permite um maior envolvimento emocional e motivacional, que promove a aprendizagem de forma mais imediata. As actividades, jogos e projectos que desenvolvemos através desta metodologia vêm trabalhar aquilo que chamamos competências de vida, facilitando às crianças e jovens a transferência desses valores e dessas competências para os seus próprios contextos (familiares, escolares, etc.).

Gabriela Costa

Jornalista