Em Metropolis os arranha-céus formam uma paisagem compacta. Estão em cima uns dos outros e a cidade parece uma parede fortificada. E não aparenta ser um cenário de felicidade. Vemos os ricos enfastiados em vidas sem grande interesse e os pobres condenados a um modelos de trabalho duríssimo e por turnos eternos. Há elementos no filme que remetem directamente para outras distopias da época, como Admirável Mundo Novo, ou para Tempos Modernos, a espantosa paródia de Chaplin.
POR PEDRO COTRIM

Neste ano da graça de 2022, Metropolis faz 96 anos e Blade Runner 40. Em ambos se celebra a torre em simulacros de cidades que se erguem na vertical e que fizeram da altura um símbolo de poder e progresso. No filme de Fritz Lang, a ordenação social obedece à verticalidade da cidade, vivendo em cima os que tudo têm e em baixo os pobres descartáveis que fazem as maquinarias funcionarem. No de Ridley Scott, os arranha-céus são ainda hoje futuristas, e quem visita as mais coruscantes metrópoles asiáticas fica um vislumbre da parte de dentro da cabeça do realizador e do próprio Philip. K. Dick, mas a visão pecará ainda por defeito.

O filme de Lang era demasiado longo. Duas horas e meia mudas dentro de uma sala de cinema era um cenário impensável nos anos vinte que antecederam estes nossos anos vinte. Tudo era grandioso, mecânico, esmagador e brutal, com grande visibilidade dos efeitos do mundo tecnológico. O modernismo patente logo nas imagens de abertura, com arranha-céus que se transformam em pistões, nunca se liberta de uma espécie de consciência do passado.

Lang afirmou posteriormente que engendrou o filme quando se preparava para partir de Nova Iorque e olhou para a cidade demoradamente a partir do navio de regresso à Europa. Há cem anos já cidade ostentava arranha-céus e em breve se veria uma louca corrida para cima. O banqueiro George Ohrstrom erguia em Wall Street «o edifício mais alto do mundo». H. Craig Severance, o arquitecto responsável, era arqui-rival do ex-colega, William Van Alen, que por sua vez supervisionava, cinco quilómetros a norte, a construção do Chrysler Building.

Ambos adicionaram mais andares ao plano inicial, tendo Severance concluído a sua torre com um espigão. O edifício seria decididamente mais alto que o da Chrysler. Contudo, a lindíssima cúpula deste último foi construída longe dos olhares, e apenas quem ali trabalhava sabia da sua existência e do golpe que se preparava. Claro que não há registos fímicos da espantosa ocorrência, mas quem viu a cúpula surgir lentamente de uma gigantesca torre, e de forma inesperada, relata o mais espantoso espectáculo que jamais havia testemunhado.

Depois veio o Empire State Building ultrapassar o Chrysler como mais alto do mundo e a contenda deixou de ser comentada. Mas a corrida não se limitou à altura, uma vez que a construção destes titãs foi concluída já dentro da Depressão: em 1935, 70% do escritórios do Chrysler Buiding estavam em funcionamento, contra 24% dos do Empire State Building, rapidamente cognominado «Empty State Building». Apenas foi ultrapassado em altura aos sessenta e oito anos de idade pelas torres Petronas, em Kuala Lumpur.

Os arranha-céus dominaram o Novo Mundo, depois a Ásia e de seguida a Europa. Hoje em dia a meca das torres será evidentemente o Dubai, mas muitos cenários decretam o fim destes gigaprojectos. A covid mudou o mundo, mudou a noção de trabalho e há muitas ideias em compita sobre o que se seguirá, sendo quase certo que com a globalização e com a deslocação da força de trabalho, será improvável que uma empresa apenas, como a Chrysler, a Pan Am, a BMW ou a Petronas, ergam um edifício de dezenas de andares para lhes servir de sede. Aqui em Lisboa temos o caso da sede da CGD, actualmente nas notícias pelos ministérios que virá albergar.

Trabalha-se em casa, com benefícios para o planeta, para os horários flexíveis dos trabalhadores mais responsáveis e para as suas famílias. Trabalha-se no escritório, com benefícios de convívio para os trabalhadores, com interacções directas com a liderança e com benefício da economia. Há indicadores de produtividade que dão a casa como cenário mais motriz e outros que asseveram que se trabalha melhor no escritório. O que se passa é multifactorial e noutros artigos desta semana discute-se esta matriz. Interessa evidentemente a todos, pois neste momento, queiramos ou não, cada um de nós tenta engendrar a sua própria história de ficção científica (ou de «romance de antecipação», como chegou a ser designada). Certo é que, qualquer que seja, não verá novas skylines. Pelo menos para já.

O desenho de capa do artigo é do Raúl. Quando lhe falei deste texto lembrou-se do Godzilla a destruir as cidades. Por ser quem é e por ser o que representa, aqui fica o obrigatório:

© Raúl Cotrim, 2022


Metropolis e depois

Em Metropolis os arranha-céus formam uma paisagem compacta. Estão em cima uns dos outros e a cidade parece uma parede fortificada. E não aparenta ser um cenário de felicidade. Vemos os ricos enfastiados em vidas sem grande interesse e os pobres condenados ao modelo do trabalho duríssimo e por turnos. Há elementos no filme que remetem directamente para outras distopias da época, como Admirável Mundo Novo ou Tempos Modernos, a espantosa paródia de Chaplin.

O grande estádio da cidade, onde a juventude privilegiada se digladia no atletismo, evoca o ideal olímpico da Grécia clássica; a visão que o jovem Freder tem da máquina como Moloch, alimentada por sacrifícios humanos, evoca o mundo semita; a história da torre de Babel contada por Maria relaciona o reino futurista com a queda de Babilónia; a catedral gótica, com as suas estátuas dos sete pecados capitais, e a cabana primitiva de Rotwang, estranhamente situada no meio das vigas dos arranha-céus, evocam imagens medievais.

Metropolis estabelece continuamente o contexto histórico que enquadra o filme e nos ajuda a avaliar as conquistas deste mundo futuro, constantemente visto neste continnum e enquadrado por esforços históricos de superação das nossas limitações e que nos levaram a sacrificar um pouco da nossa humanidade. Este mundo «moderno» sugere uma reconsideração da distância, dos nossos esforços culturais de engendrar o ambiente humano e os seus habitantes.

Não é um filme optimista. Na ficção científica, a tónica passou da fantasia para a distopia, e a arquitetura da cidade alta, com as suas curvas desesperadamente perfeitas e sua lógica fria, e em que é do quotidiano enviar um funcionário infeliz para a morte, torna-se absolutamente mecânico. O Jardim das Delícias não é convidativo e por isso um jovem rico se apaixona por uma trabalhadora pobre.

Tudo o que se viu em Metropolis era colossal e foi posteriormente quase replicado nos EUA da depressão, passando para um imaginário mais colectivo em Just Imagine transformado seguidamente em Flash Gordon e Buck Rogers. Temos outras viagens do passado ao futuro que fica agora no passado.

Just Imagine (1930) afirma-se como igual, mas é extremamente diferente de Metropolis. A ideia que subjaz ao título: imagine a diferença que 50 anos podem ocasionar. Reclama-se que em 1880, cinquenta anos antes, não havia luzes eléctricas, telefones, rádio, automóveis ou aeroplanos. Se nada disso havia há meio século, o que poderá aparecer noutro meio século?


Pedro Cotrim

Editor