É curioso que foram precisos vários milénios para passarmos de usar bonequinhos e risquinhos para comunicar para usarmos risquinhos e bonequinhos para comunicar, o que é de ficar sem palavras! Outra coisa que nos deixa ficar sem palavras é a dificuldade enorme que temos precisamente em comunicar, ou pelo menos em nos fazer entender, em assuntos como as alterações climáticas ou a degradação ecológica do planeta, temas que passaram dos relatórios dos especialistas para o nosso dia-a-dia, seja pela seca e ondas de calor prolongadas ou pelos inenarráveis incêndios
POR NUNO GASPAR DE OLIVEIRA

O que é que Hammurabi, Guttenberg e Shigetaka Kurita têm em comum? Talvez os primeiros dois nomes lhe soem familiares, mas aposto que o terceiro lhe parece mais exótico do que as trancinhas da Rita Pereira. Então, como diria Hannibal Lecter, vamos por partes.

Corria o ano de 1792 antes de Cristo (´de quem?’, perguntavam eles na altura, sem fazer ideia porque lhes aparecia assim no calendário), quando o jovem Hammurabi, Hammy para os amigos, teve que se chegar à frente e assumir o trono da vibrante Babilónia. Tudo parecia correr bem mas, em boa verdade, Hammy estava um pouco preocupado com a balbúrdia que por ali ia: eram camelos de um lado, sacas de cevada no outro, gente a reclamar com impostos e outros a clamarem por justiça porque, ao que diziam, parece que lhes tinha acontecido não-sei-o-quê.

O nosso Hammy era um miúdo expedito e, além de uma pancada forte por jardinagem, também tinha a obsessão por ter as coisas organizadas. Vai daí que não foi de meias medidas e criou um código de leis, coisa nova para a altura e que mesmo aos dias de hoje há quem ache isso uma coisa deveras bizarra que não lembra ao diabo. Mas o problema dos códigos de leis é que é coisa complicada e extensa, não fica tão facilmente na cabeça das pessoas como a nova da Maria Shakira Leal (chupamos um gelado, de corpo colado, não sei que lado a lado, etc…), dai que Hammy não foi de modas e tratou de deixar a coisa escrita em pedra, ou melhor, argila. Deve-se a ele o grande impulso do desenvolvimento e disseminação da escrita cuneiforme, a primeira grande revolução na comunicação não pictográfica (talvez porque não tivessem tanto jeito para desenhar como a malta do delta do Nilo) e que quebrou barreiras intemporais. E assim a história segue…

Até chegar o ano de 1400 depois de Cristo (que, entretanto, se tinha tornado bastante famoso), o qual assistiu ao nascimento de Johannes Gensfleisch zur Laden zum Gutenberg, Gutenberg para vocês, Johnny G para os amigos que o acompanhavam nas loucas noites de sexta e sábado em Mainz, coração do Sacro Império Romano-Germânico. Diziam-se que as estórias dessas festas eram épicas, e que mereciam ser contadas às gerações vindouras – alguns dos seus amigos até as rabiscavam nos molesquines da altura, mas frequentemente os deixavam perdidos em bares e casas de má vida. Já a entrar pelos trintas adentro, Johnny G, aliás Gutenberg (esse outro nome era para esquecer…) resolveu que essa coisa de escrevinhar estava gasta e inspirou-se num inventor chinês do século X e criou uma prensa mecânica que iria permitir que um mesmo texto pudesse ser replicado uma e outra e outra vez com um milésimo do esforço de estar armado em monge copista.

Gutenberg pensou numas quantas estórias das noites loucas de Mainz, mas achou que era tempo de se redimir e escolheu, para obra de referência da sua nova invenção, a Bíblia, que se iria tornar um sucesso de massas. Apesar das greves e manifestações da MCGTP (Monges Copistas contra Gutenberg e Toda a Papelada), a prensa mecânica deu origem à imprensa e a todo um mega mercado de livros que, curiosamente, veio contribuir para grande debate em torno da obra que tornou esta mesma invenção tão conhecida. Já a minha avó dizia, dá Deus letras miudinhas a quem não tem lentes…

E, perguntam vocês, o terceiro tipo, vamos finalmente saber quem é esse? E a pasta de dentes, onde é que entra? E que raio de texto vem a ser este? Calma, tantas perguntas, está demasiado calor para tamanha impaciência, vamos lá juntar os pontos.

Foi precisamente por pensar em como juntar pontos, ou melhor, pixéis, nomeadamente num painel de 12×12 pixéis de 3 kilobytes, que o jovem designer Shigetaka Kurita, ainda a festejar o seu 25º aniversário no ano louco de 1999, inventou uma linguagem de escrita que seria a inveja de Hammurabi e Gutenberg. Inspirado por egípcios e pela iconografia sino-japonesa. Kurita demorou pouco mais de cinco semanas a traduzir 176 ideias de representação de pessoas, animais, emoções, sítios e conceitos em ícones de 12-bit a que deu o nome de emojis, uma nova palavra composta por 3 ‘kanji’ e que representa 絵 (“e,” imagem), 文 (“mo,” escrita) e 字 (“ji,” carater), largamente inspirados na cultura pop japonesa e nos manga. Durante uma década, os emojis foram usados quase exclusivamente pelas grandes empresas de Telecom do Japão, por problemas de configuração, até passarem a Unicode e serem adotados para iPhone e android. O que é curioso é que foram precisos vários milénios para passarmos de usar bonequinhos e risquinhos para comunicar para usarmos risquinhos e bonequinhos para comunicar, o que é de ficar sem palavras!

Então e a cena do tubo de pasta de dentes? Já vai, entra agora, ora vejam lá este segway…

Outra coisa que nos deixa ficar sem palavras, pelo menos a mim, é a dificuldade enorme que temos precisamente em comunicar, ou pelo menos em nos fazer entender, em assuntos como as alterações climáticas ou a degradação ecológica do planeta, temas que passaram dos relatórios dos especialistas para o nosso dia-a-dia, seja pela seca e ondas de calor prolongadas ou pelos inenarráveis incêndios. Às vezes sinto que estamos quase lá, falamos imenso do problema quando a frigideira está quente, mas assim que a coisa amaina, ficamos lost in translation, a aguardar nova ligação à realidade, mas com grandes problemas de rede.

Talvez o problema seja nosso, vivemos num mundo de emojis e ainda andamos a imprimir informação valiosa em escrita cuneiforme. É como se a coisa não se percebesse bem, ficamos com a ilusão que podemos esperar mais um tempo, que ainda não é desta que vem aí ‘o fim do mundo’, que afinal está tudo normal, que ainda dá para nos aguentarmos.

Ao fim ao cabo, é como se no meio desta nova Babilónia, os recursos e as soluções nos parecessem infindáveis, que podemos sempre safar-nos da ameaça de escassez ao imprimir infinitamente as mesmas soluções. Esta atitude de ‘vai dando’ só me lembra quando abrimos um tubo de pasta de dentes (a-ha, finalmente!) e este parece ser infinito, dá para doses generosas que nos enchem a boca de espuma mentolada e suavemente picante na língua. Esprememos, uma e outra vez, com grande gratificação, até que … ups, o tubo começa a dar sinais de estar a ficar meio vazio (sim, já sei, sou um pessimista). Mas ainda dura, se usarmos bem a pasta que ainda lá está. E, subitamente, entra a física quântica em campo, 8 mililitros de pasta às riscas coloridas dá para 13 lavagens e, com jeitinho, mais umas 4 ou 5!

Tudo é possível desde que acreditemos que o tubo é maior do que nos prometeram na embalagem e que somos os tipos mais poupadinhos deste mundo, nem que para isso seja preciso cortar o raio do tubo e raspar os últimos resíduos de pasta, já meio secos, que se foram acumulando mesmo à saída da dita. Até que um dia a coisa acaba mesmo.

Enquanto ainda tenho o hálito fresco, vou pensando em como Hammurabi haveria de saber como criar e registar leis intemporais para garantir um suprimento de pasta de dentes bem regulamentado, ou como faria Gutenberg para garantir que todos teríamos acesso a um guia em papel de alta gramagem de boas práticas para a gestão cuidada da pasta. Num mundo sob altíssima pressão, precisamos mesmo de perceber que a escassez – e a mudança – existem e são reais, sob o risco de termos uma realidade cariada que pode infetar. Ou seja, como diria o Kurita, não nos basta 🙏, não adianta 😭, desatar a 🤬, dizer que 🤷‍♂️ ou fingir que estamos a 😴. É altura de 💪 e chegarmos a 🤝 e percebermos que se agirmos todos 👫👭👭👬 ainda temos uma hipótese de reaprender a viver no 🌍🪥

Nuno Gaspar Oliveira

Biólogo e CEO da NBI – Natural Business Intelligence

1 COMENTÁRIO

  1. 👍😂 Eu tenho há uns anos na gaveta da secretária do escritório um estojo com produtos de higiene pessoal que inclui um tubo de pasta de dentes, flúor e menta, que utilizo quase diariamente. Prometi a mim mesmo que este tubo teria de durar até eu, ou me pré-reformar 🙌 (já vão 33 anos de banca mais uns 5 variados), ou me reformar 😤 (por aqui faltam 10 anos … 😩). Diariamente ao ver o tubo a emagrecer, peço em murmúrio ao Senhor que Johny G Guttemberg “postou” na prensa mecânica, para que interceda para vir a notícia que permita mudar para um novo tubo de pasta de dentes (este iria escolher proteção gengivas) e poder dedicar-me de corpo e alma com o meu expertise e conhecimentos adquiridos ao tema da Sustentabilidade ESG 🌍🔝🙏🏻

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here