O Estado deverá financiar um programa de criação, seleção e aceleração de ideias para a economia social, apostando em empreendedores sociais para conseguirem responder aos novos desafios que a sociedade portuguesa vai necessitar no novo “normal” pós-pandemi
POR MIGUEL RIBEIRINHO

Existem muitas pessoas que conhecemos e que contribuem para um desenvolvimento mais solidário e coeso da nossa sociedade. São mais de 250.000 pessoas, que diariamente trabalham nas mais de 55.000 entidades que compõem a nossa economia social.

É através da inovação social que encontramos a “tecnologia” para responder aos novos desafios de uma sociedade em profunda transformação, em particular em áreas em que o combate às desigualdades e à exclusão e pobreza exigem soluções solidárias e de mobilização das comunidades.

É a solução para quando todas as outras respostas falham…

Em termos quantitativos, estas entidades contribuem em 2,8% para o valor acrescentado bruto de toda a economia portuguesa. No caso particular das IPSS, um estudo realizado pela Universidade Católica (Centro Regional do Porto), em 2017, permite concluir que existe um efeito multiplicador na economia. Por cada euro captado, conseguem, em média, gerar 4,218 euros na economia local.

Miguel Ribeirinho

Mas esta é apenas uma pequena parte do valor total que conseguem criar, pois o impacto transformacional da sociedade, gerado pelas suas respostas sociais, não tem ainda uma medida quantitativa normalizada e por isso torna-se difícil de medir e quantificar.

No entanto, se estas entidades pararem de funcionar, facilmente conseguiremos “sentir” o seu valor. Por isso, o mais importante, neste momento, é estarmos de acordo que este setor “chave” deverá manter ativa a sua capacidade de oferecer respostas sociais na situação atual de pandemia.

Neste novo contexto, a sustentabilidade financeira irá tornar-se um grande desafio para todo o setor, implicando um forte sentido empreendedor, uma gestão focada em resultados, uma forte resiliência e uma grande agilidade.

Mas uma parte destas entidades não conseguirá, no curto prazo, internalizar estas competências, por diversos motivos, entre outros, pela falta de recursos, pelos sistemas de gestão implementados e pelos contratos assinados com o Estado.

As novas exigências, as incertezas atuais e o caminho de aprendizagem implicam recursos de que a maioria das entidades não dispõe. Os recursos, na sua grande maioria, são sempre escassos, pois estão a atuar em domínios esquecidos pela maioria da sociedade e a responder a desafios que não atraem o setor privado.

Os principais beneficiários da tecnologia social são os mais vulneráveis e que vivem em risco de pobreza, que representam atualmente 19% dos portugueses (ou 46%, se analisarmos os seus rendimentos antes de qualquer transferência social por parte do Estado).

Neste momento, este sector necessita de fortes apoios para conseguir suprir as dificuldades atuais e os desafios provocados pelo contexto atual.

É por isso urgente existir um plano de apoio financeiro do Estado, com medidas concretas no curto prazo, para que estas entidades garantam a sua sustentabilidade e assegurem uma resposta social para os desafios atuais e futuros.

Portugal tem vindo a ser reconhecido como um caso de sucesso na área da inovação social. Se conseguirmos sustentar a tendência dos últimos anos e atrairmos mais investimento social privado, poderemos intensificar a capacidade de resolução dos problemas atuais e futuros da nossa sociedade.

Por isso, e de forma simultânea, o Estado deverá financiar um programa de criação, seleção e aceleração de ideias para a economia social, apostando em empreendedores sociais para conseguirem responder aos novos desafios que a sociedade portuguesa vai necessitar no novo “normal” pós-pandemia.

A criação de garantias do Estado para o financiamento privado destes projetos poderia ser o início de um processo virtuoso, pois implicaria a necessidade de quantificação dos impactos transformacionais na sociedade e, desta forma, arrastar outras entidades já existentes, para um modelo de gestão mais assente na inovação e nos resultados conseguidos.

Não esqueçamos que é esta mão invisível, que cuida de muitos rostos humanos, alguns dos quais esquecidos por nós e que ajudam a nossa sociedade a ser mais solidária e justa.