Se a própria Internet das Coisas já parece coisa de um futuro utópico, o que dizer da sua aplicação às iniciativas de responsabilidade social? Na verdade, muito já está a acontecer, como se pode ler neste artigo publicado originalmente na Stanford Social innovation Review. Revolucionário, com toda a certeza
© Stanford Social innovation Review
Adaptado por 
HELENA OLIVEIRA

Ocasionalmente, surge uma invenção que inspira uma única reacção possível: “isto vai mudar tudo”. Para a área da responsabilidade social corporativa [e não só], a Internet das Coisas (IoT na sigla em inglês) representa esta substancial mudança.

A IoT pode ser definida, em termos muito simples, como a “ligação inteligente de pessoas, processos, dados e coisas” e são já vários os dispositivos que a utilizam: desde o FitBit que se usa no pulso, à cafeteira que começa a funcionar depois de uma ordem dada via telemóvel, chegando aos drones que – como assegura a Amazon – brevemente nos entregarão as nossas encomendas.

Combinados, estes elementos formam algo mais do que meramente a soma das suas partes. As redes de energia inteligentes, por exemplo, disponibilizam os consumos elétricos dos dispositivos instalados em nossas casas ou escritórios aos fornecedores de energia, permitindo uma gestão eficiente da sua utilização, reduzindo custos que se reflectem na procura e nos custos energéticos finais. E, seja qual for a área, a verdade é que a IoT representa um progresso absolutamente revolucionário. A Cisco estima que a IoT será responsável por 14,2 triliões em redução de custos e em aumento de receitas entre 2013 e 2022.

E aplicar as ferramentas da IoT à responsabilidade social corporativa e aos desafios do desenvolvimento económico poderá multiplicar, exponencialmente, o seu impacto. E porquê? Porque, actualmente, as iniciativas de responsabilidade corporativa são dificultadas por quatro desafios por excelência: fraca rastreabilidade, ineficiências na cadeia de fornecimento, sustentabilidade ambiental e avaliação do impacto.

De acordo com Alexa Roscoe, estudante de MBA na Universidade de Oxford e vencedora do 2015 Davies Award on the Internet of Things, que assina este artigo, a IoT pode conferir um contributo substancial a estes quatro desafios.

  1. Fraca rastreabilidade
  2. Na melhor das hipóteses, as empresas possuem uma vaga ideia sobre as condições, sociais e ambientais, que definem as suas cadeias de fornecimento, em parte porque é verdadeiramente difícil rastrear as origens de múltiplas “entradas” ao longo de cadeias de valor extensas e globais. Esta opacidade no que respeita às fontes de abastecimento ao longo da cadeia de valor resulta em numa reduzida responsabilização e em elevados riscos reputacionais: basta perguntar, por exemplo, a empresas como a Primark, onde práticas de subcontratação não autorizadas a expuseram a críticas avassaladoras depois da tragédia ocorrida na fábrica Rana Plaza, no Bangladesh, em 2013, que causou a morte de mais de mil pessoas e chamou, finalmente, a atenção das pessoas para os inestimáveis custos humanos do vestuário barato. A IoT pode abordar questões similares, através da colocação de sensores nos produtos ou nas embalagens, desde o seu local de origem, permitindo informar os compradores sobre qual o seu ponto de origem exacto e que caminhos entretanto estes seguiram. Este procedimento tornará muito mais difícil que fornecedores de segundo e terceiro grau se “escondam”, ajudará as empresas a gerir os seus riscos e, dada a transparência que oferece, permitirá tanto aos clientes como aos reguladores responsabilizar as empresas subcontratadas.

  1. Ineficiências da cadeia de fornecimento
  2. As ineficiências principais das cadeias de fornecimento incluem baixa produtividade, fraca qualidade e desperdício. E a IoT já produziu um conjunto substancial de tecnologias que contribuem para a mitigação e/ou resolução destes problemas. Por exemplo, os agricultores já podem implantar sensores no solo que fornecem informação contínua no que respeita à sua qualidade e teor de nutrientes. Estes sensores, quando ligados à análise de big data, permitem informá-los sobre que tipo de produtos devem ser plantados e quando. Combinados com a armazenagem inteligente, a qual monitoriza a temperatura e a humidade nos solos para reduzir o desperdício, os agricultores podem produzir e vender mais. A aplicação destas tecnologias ajudará também as empresas a assegurarem-se de que os fornecedores a quem compram os seus produtos vivem de acordo com condições justas e dignas.

  1. Sustentabilidade ambiental
  2. A escassez de recursos e as alterações climáticas têm vindo, de forma crescente, a aumentar os desafios para as empresas socialmente responsáveis e também neste campo a IoT tem já cartas dadas. Por exemplo, os sensores do solo anteriormente referidos podem reduzir a utilização de água nos Estados Unidos em 20%, ao mesmo tempo que tractores inteligentes circulam automaticamente em trilhos delineados de acordo com a dimensão e forma exacta dos terrenos agrícolas, permitindo reduzir a utilização de combustível em cerca de 60 milhões de litros. Também em combinação com a análise de big data, os dispositivos IoT ajudarão as empresas a identificar , com exactidão, onde residem os seus maiores riscos ambientais e abordá-los antes que os recursos escassos se transformem em recursos extintos.

  1. Avaliação do impacto
  2. Por último, mesmo as empresas que trabalham na vanguarda dos negócios inclusivos estão a ser constantemente pressionadas para identificar, o mais rigorosamente possível, os retornos sociais, ambientais e financeiros dos seus esforços. A IoT pode ser uma preciosa ajuda também nesta área. Por exemplo e na actualidade, a maioria dos resultados só pode ser avaliado de forma individual. Todavia, as empresas de IoT podem recolher todos os dados avaliados numa base contínua e em tempo real, oferecendo uma ideia muito mais precisa do que é que funciona realmente e porquê.

Mas será que tudo isto funciona na realidade? Apesar de serem muitas as críticas relativamente a este futuro “idealizado ”, compará-lo ao status quo decididamente imperfeito e recusá-lo por parecer demasiado utópico não é, decerto, a melhor das opções. Na verdade, a tecnologia que possibilitará a mudança e o progresso em larga escala está muito mais perto do que muitos desejariam. E, apesar de parecer estranho, a maioria das ligações máquina-a-máquina existem já no exterior do mundo “desenvolvido”. De forma crescente, é cada vez mais provável que o mundo em desenvolvimento possa saltar um degrau na evolução incremental da Internet e “mergulhar” directamente no mundo da Internet das Coisas. A autora dá um exemplo expresso num artigo da revista Fast Company, o qual recorda que “os telefones móveis também permitiram que os países em desenvolvimento ‘saltassem’ o degrau dos telefones fixos”.

Alexa Roscoe está assim convencida que as iniciativas de responsabilidade corporativa alimentadas pela Internet das Coisas podem conduzir à adopção destas novas tecnologias e ir ao encontro dos desafios persistentes e contínuos que se lhes apresentam. Num futuro que está já a acontecer.

Adaptado, com permissão, de“The Digital Future of Corporate Responsibility”. © Stanford Social Innovation Review 2015.

Helena Oliveira

Editora Executiva