Num país que conta com quase 500 mil imigrantes, reforçar a sua integração promove a qualificação e o emprego, ao mesmo tempo que coloca a Responsabilidade Social na agenda de cada vez mais empresas. Depois de mais de trinta pilotos de mentoria a imigrantes, o projecto Engage, iniciativa do GRACE e ACM, alarga a sua dinâmica de voluntariado de competências, convocando agora, e com o apoio do Governo, também autarquias e organizações sociais, a dar uma resposta aos desafios que estes cidadãos enfrentam ao iniciar uma nova vida em Portugal
POR GABRIELA COSTADurante dois anos o Engage Projecto Mentores, iniciativa de voluntariado desenvolvida pelo GRACE – Grupo de Reflexão e Apoio à Cidadania Empresarial em parceria com o ACM – Alto Comissariado para as Migrações, realizou 31 processos de mentoria a imigrantes, dois terços dos quais na área da qualificação e procura de emprego (e os restantes, maioritariamente, em empreendedorismo, cidadania e participação, e direitos humanos e interculturalidade).Recentemente, o reconhecimento dos resultados deste modelo de intervenção, colocou o projecto sob a tutela do ACM, com o apoio do Secretário de Estado Adjunto do Ministro Adjunto e do Desenvolvimento Regional. Em entrevista conjunta com a presidente do GRACE, Pedro Lomba explica ao VER como o Programa Mentores para Imigrantes, agora alargado a áreas como saúde, habitação e economia familiar, e envolvendo toda a sociedade, “representa uma resposta social inovadora” no domínio das políticas de integração. Através da qual os mentores do projecto “têm a oportunidade de transmitir a sua experiência e conhecimentos, contribuindo para a coesão social”, como sublinha Paula Guimarães.


PAULA GUIMARÃES, PRESIDENTE DO GRACE

Paula Guimarães, Presidente do GRACE
Paula Guimarães, Presidente do GRACE

Que balanço faz do projecto-piloto “Engage Projecto Mentores”, criado para dar apoio à integração social de imigrantes em Portugal?

O Engage insere-se na actividade já longa e abrangente que o GRACE desenvolve como maior organização de empresas no domínio da Responsabilidade Social. Esta é uma das vertentes na área do envolvimento da comunidade. O balanço que fazemos é bastante positivo: em dois anos de duração, os cidadãos imigrantes que participaram reconheceram que a iniciativa constituiu uma alavanca para melhorar as suas condições, e que as competências adquiridas foram úteis tanto para a sua vida pessoal como profissional. Prova disso mesmo é a continuidade do projecto, agora alargado a mais entidades parceiras e à sociedade civil.

Como surgiu a ideia de lançar uma iniciativa nesta área assente no conceito de mentoria, e de que modo a correspondência de perfis entre os mentores voluntários de empresas e organizações e os mentorados, cidadãos imigrantes, permite dotar estes últimos de competências que contribuem para a sua inclusão socioprofissional e na comunidade?

[pull_quote_left]“A dinâmica de voluntariado de competências assente numa prática de mentoria já faz parte da estratégia da grande maioria das empresas associadas do GRACE”[/pull_quote_left]

Apesar de ser inédito em Portugal, o projecto contou com inspiração internacional. Após uma visita do director geral do Alto Comissariado para as Migrações à Dinamarca, onde um programa similar existia há dez anos e com resultados bastante positivos, a iniciativa foi replicada no nosso país, com as devidas adaptações. A correspondência de perfis entre mentor e mentorado é um processo cuidadosamente analisado e acompanhado, de forma a que as necessidades do mentorado tenham resposta por parte do mentor, minimizando os riscos de um matching mal sucedido.

Que resultados alcançaram com a partilha de ‘soft skills’’ e redes de colaboradores das empresas associadas do GRACE? Como comenta a dinâmica de voluntariado em que assenta o projecto?

Segundo avaliações dos mentores, é possível aferir que as vantagens do projecto são várias, nomeadamente uma maior satisfação e realização pessoais, o que consequentemente trará benefícios a nível profissional. Esta dinâmica de voluntariado de competências, assente numa prática de mentoria, já faz parte da estratégia da grande maioria das empresas associadas do GRACE. Enquanto mentores, os colaboradores das empresas têm a oportunidade de transmitir a sua experiência e conhecimentos, contribuindo para a integração de outros cidadãos e participando na promoção da coesão social.

Nos dois anos do piloto desenvolveram mentoria em inúmeras áreas de intervenção, agora alargadas a outras como saúde, habitação ou economia familiar. Em que medida esta actuação dá resposta às principais necessidades que os cidadãos imigrantes encontram ao iniciar uma nova vida em Portugal?

O objectivo pretendido é precisamente dar resposta a essas necessidades. No decurso do projecto, as necessidades dos imigrantes foram analisadas e concluiu-se que estas são as principais áreas de intervenção, considerando igualmente a situação socioeconómica que Portugal atravessa.

Numa temática eminentemente social como são as migrações, que significado adquire a sinergia estabelecida entre cidadãos imigrantes, portugueses voluntários e organizações e empresas, com vista à integração de quem chega ao País?

Num país que conta com quase 500 mil imigrantes, a integração é fundamental para a economia e para a sociedade. Permite ainda colocar as temáticas da Responsabilidade Social e do voluntariado corporativo na agenda de cada vez mais empresas e também da sociedade civil.

Na prática, como é que a troca de experiências entre cidadãos portugueses e imigrantes promove não só a igualdade de oportunidades e a diversidade cultural, mas também a participação cívica, o voluntariado, o enriquecimento pessoal e profissional dos colaboradores e o reforço da cultura organizacional das empresas envolvidas?

O sucesso desta iniciativa encontra-se precisamente na aproximação entre cidadãos portugueses e imigrantes. Identificam-se as necessidades dos imigrantes (ACM) e as valências dos colaboradores das empresas (GRACE), juntam-se os perfis e estabelece-se uma relação perfeitamente parametrizada, com objectivos muito bem definidos. Seguidamente, passa-se à acção, que culmina num período de tempo previamente definido, com um balanço extremamente positivo na troca de competências mas também de experiências de vida e partilha de culturas profundamente enriquecedoras para ambas as partes.


PEDRO LOMBA, SECRETÁRIO DE ESTADO ADJUNTO DO MINISTRO ADJUNTO E DO DESENVOLVIMENTO REGIONAL

Pedro Lomba, Secretário de Estado Adjunto do Ministro Adjunto e do Desenvolvimento Regional
Pedro Lomba, Secretário de Estado Adjunto do Ministro Adjunto e do Desenvolvimento Regional

O reconhecimento dos resultados deste modelo de intervenção colocou o projecto sob a tutela do ACM, com o seu apoio, tendo em vista a criação de um grande programa nacional. Quais são os objectivos e metas do Programa Mentores para Imigrantes e quantos cidadãos de países terceiros deverá envolver, numa primeira fase?

O Programa Mentores vem alargar o anterior Engage – Projecto Mentores, tanto em termos de território como de parceiros. O novo programa traduz-se num alargamento à sociedade portuguesa, convocando autarquias, empresas, IPSS e outras associações. Deixa de ser um programa de voluntariado empresarial, para se tornar numa resposta social mais abrangente no domínio das políticas de integração. A lógica é promover a integração dos mentorados, o conhecimento e a consideração mútua entre nacionais e imigrantes, a aprendizagem da língua, a absorção das normas da sociedade portuguesa e o apoio à qualificação e ao emprego.

Os números e tipos de interessados, nesta fase, deixam-nos entusiasmados relativamente ao sucesso futuro do programa: teremos uma forte presença de autarquias, por todo o País, mas também de organizações da sociedade civil, mostrando que há uma forte vontade em aderir e participar neste projecto. Por parte dos mentorados temos também muitas manifestações de interesse, o que nos leva a acreditar num forte número de parcerias anuais.

Que relevância tem para as políticas de imigração em Portugal a celebração de um protocolo que permitirá disseminar localmente, entre inúmeras entidades públicas e privadas, um programa de integração que inclui formação, partilha de experiências e uma plataforma de gestão?

O Programa Mentores representa uma resposta social inovadora, que reforça o acolhimento e integração dos imigrantes através do envolvimento directo da própria sociedade. É uma resposta social cooperativa, descentralizada, em alternativa a políticas públicas apenas conduzidas pelo Estado burocrático.

[pull_quote_left]“O Programa Mentores é uma resposta social descentralizada, em alternativa a políticas públicas conduzidas pelo Estado burocrático”[/pull_quote_left]

Confirma o nosso entendimento de que a integração depende da aquisição de práticas de consideração e confiança mútua, o que diz respeito tanto aos imigrantes como aos cidadãos nacionais, e de que a gestão da diversidade deve envolver toda a sociedade. Através deste programa, apelamos às virtudes sociais dos portugueses, seja a título individual ou através das empresas, autarquias e instituições. Não podemos deixar de referir o potencial impacto económico destes programas: o empreendedorismo é das áreas mais trabalhadas, mostrando que há todo um interesse em investir e criar novos negócios no nosso País.

A que se deve o envolvimento do Governo num projecto que apela à participação cívica e à inclusão social, no actual contexto socioeconómico?

Este projecto concentra em si várias potencialidades, que nos chamaram a atenção. Primeiro, porque corresponde a uma integração de facto, feita tanto pelos imigrantes como pela sociedade de acolhimento. Depois, porque confirma a nossa expectativa de que os nossos imigrantes têm potencial que estava a ser desperdiçado, por dificuldades várias na integração.

No actual contexto socioeconómico, não nos podemos dar ao luxo de perder estes indivíduos, as suas ideias e contributos, que tanto nos podem oferecer. Os casos de sucesso que temos mostram que existia desconhecimento sobre como montar um plano de negócios, sobre a cultura nacional, e também falhas linguísticas. Tudo isto pode ser desenvolvido directamente com o envolvimento da sociedade.

Por outro lado – e esta é uma dimensão que muito nos interessa, e que ainda vai ser trabalhada – temos o caso daqueles que gostamos de chamar de novos portugueses. Falamos dos descendentes dos imigrantes, jovens que em muitos casos já têm nacionalidade portuguesa, mas enfrentam dificuldades na sua integração plena na sociedade nacional, ao chegar à vida adulta. É nosso dever garantir uma atenção redobrada a estes jovens, permitindo uma igualdade de oportunidades na concretização das suas capacidades.

Gabriela Costa

Jornalista