A ideia da maximização do lucro para o accionista que continua a permear todo o pensamento e educação na gestão está fundamentalmente errada, argumenta um académico de Oxford, num livro aclamado pela crítica e que responde ao que é, ou devia ser, o verdadeiro propósito das empresas. Mas não é mais um tratado oco sobre a buzzword da moda. Argumentando que a doutrina de Milton Friedman tem tido consequências desastrosas para a economia, o ambiente, a política e a sociedade, Colin Mayer propõe um manifesto para a mudança que assenta num ciclo de compromisso com o propósito, a raison d’être da empresa, o qual permitirá diminuir as desigualdades sociais, evitar a degradação ambiental e contribuir para a prosperidade das gerações actuais e futuras. Ou seja, um sistema económico e social para todos e não só para alguns
POR HELENA OLIVEIRA

A economia de mercado e a livre iniciativa estão entre as mais extraordinárias inovações da humanidade e o desenvolvimento económico sem precedentes que ocorreu desde meados do século XIX não teria sido possível sem a sua existência. Contudo, são cada vez mais as vozes que se unem em coro ao concordarem que o sistema capitalista de livre mercado que sustenta a forma como fazemos negócios tem muitas falhas. Basta fazer uma simples pesquisa no Google e os artigos e livros que apontam para os males, mitos ou fim do capitalismo multiplicam-se em resultados.

No centro de todo este mal-estar encontram-se as empresas, que sofrem de uma crise de confiança há muito instalada e que são vistas por muitos – pese embora os inúmeros esforços para que se assumam como social e ambientalmente responsáveis – como sociopatas e, consequentemente, indiferentes a tudo com excepção dos lucros que perseguem, em conjunto com os seus líderes igualmente indiferentes e apenas preocupados com os seus próprios interesses.

A falta de ética das empresas fez accionar um sentimento comum de enorme desconfiança face ao seu papel na sociedade

Em particular desde a recessão de 2008, que assinala uma enorme falha do capitalismo, a desigualdade extrema, tanto em termos de rendimento como de riqueza, em conjunto com objectivos que, se não regulados, podem ir contra os maiores interesses da sociedade, parecem fazer das empresas e do capitalismo personagens vilãs de uma história que, caso os contornos não mudem, poderá ter um final muito infeliz. As falhas do capitalismo exacerbaram-se também com a globalização e com os avanços tecnológicos, ao mesmo tempo que contribuíram para o aumento em número, dimensão e poder das multinacionais, bem como para a crescente influência que estas têm nas nossas vidas. Histórias sobre executivos ambiciosos e práticas fraudulentas passaram a ser comuns e ajudaram ao instalar do sentimento de que o sistema gera grandes desvantagens para o indivíduo comum ou, mais precisamente, que o mesmo está ao serviço de apenas alguns e não de todos. Por tudo isto, a falta de ética das empresas fez accionar um sentimento comum de enorme desconfiança face aos seus feitos e são já vários os políticos, como o presidente Macron em França e Elizabeth Warren, a senadora agora candidata às presidenciais nos Estados Unidos, a clamarem abertamente pelo fim do capitalismo. Ou, pelo menos, pelo fim deste tipo de capitalismo.

Por outro lado, também não se vislumbra um sistema melhor e a verdade é que os defensores do capitalismo têm falhado em oferecer formas significativas que melhorem a visão e a percepção que se tem das empresas, sendo que é urgente que os líderes de negócios encontrem uma resposta credível face ao nível crescente de criticismo a que têm estado sujeitos. Entre a prolífera produção de livros que dão conta da queda do capitalismo e da necessidade de se reinventar – ou ajustar – o verdadeiro propósito das empresas, está o de Colin Mayer, um reconhecido académico de Oxford que, em 2013, escreveria o bem aclamado livro “Firm Commitment: Why the corporation is failing us and how to restore trust in it”, agora culminando numa espécie de sequela extremamente bem recebida nos circuitos académicos e empresariais intitulada “Prosperity: Better Business Makes the Greater Good” e onde deita completamente por terra a doutrina de Milton Friedman e o seu argumento de que o propósito da empresa é apenas gerar lucro, e estar sujeita somente à lei a uma regulação minimalista.

O propósito público das empresas tem sido progressivamente delapidado pelo primado do accionista, o qual levou à perseguição do lucro como o seu principal objectivo

“Para que serve a empresa” é, aliás, o epicentro de todo o livro, em torno do qual Mayer propõe um poderoso manifesto para a mudança. Como argumento central está a ideia de que o propósito público das empresas tem sido progressivamente delapidado pelo primado do accionista, o qual levou à perseguição do lucro como o seu principal objectivo. Para o autor, tal deixou de ser sustentável e defensável, sendo que tanto o pensamento e a educação em gestão têm de seguir em frente para definir um novo propósito que esteja adequadamente alinhado com a actividade e papel das empresas na sociedade. Ao mesmo tempo que enfatiza as empresas como instrumentos poderosos para o avanço do bem-estar humano, Mayer apela à sua reinvenção, sendo esta centrada nos valores e no propósito que englobem o bem social.

Apesar de o “propósito” se ter tornado, de tão abusivamente apregoado, em mais uma buzzword da gestão com contornos indefinidos e muitas vezes oca de significado, no caso do manifesto de Mayer apresenta-se pleno de respostas. O professor de Oxford apela a que a empresa esteja nas mãos de investidores com um verdadeiro interesse na sustentabilidade de longo prazo e a uma governança corporativa que responsabilize os líderes tanto pela definição desse tal propósito, como pela sua efectiva realização. Mayer idealiza um mundo “onde o propósito persegue as pessoas e as empresas, viabilizado pela lei, comprometido com a regulação e em parceria com os governos”, o qual possa tornar real o verdadeiro potencial corporativo para contribuir para o bem-estar económico e social para todos. A sua proposta, mais do que centrada nos players, é antes nas “regras do jogo do compromisso” – políticas públicas, quadro jurídico, impostos e regulação ‘movidos’ a propósito – e por uma chamada de verdadeira acção por parte dos líderes empresariais. (v. artigo nesta newsletter)

Cum panis e a origem da empresa

Argumentando que a desconfiança nos negócios é profunda, disseminada e persistente e dando como principal razão a doutrina de Milton Friedman que defendia que existia um, e apenas um propósito social das empresas, que é o de maximizar os lucros para o accionista e manter-se dentro das regras do jogo, Colin Mayer afirma também que esta continua a ser a base da esmagadora maioria das práticas de negócio e da educação em gestão em todo o mundo. Todavia – e porque o seu livro combina história, psicologia e economia – Mayer conta no seu livro que nem sempre foi assim.

Situando as origens da empresa na lei romana, há dois mil anos – o nome “companhia” deriva do latim cum panis que significa “partir o pão em conjunto” -, Mayer conta que a mesma servia para a provisão dos serviços públicos, para a recolha de impostos, para a cunhagem das moedas e para zelar pelos edifícios públicos e pelos projectos de infra-estruturas, e relembra que ao longo dos seus quase dois milénios de história, a empresa (companhia, corporação) sempre combinou a noção de propósito público com as suas actividades comerciais normais, constituindo um “brilhante veículo para a prosperidade”. E que foi apenas nos últimos 50, 60 anos que a noção de Friedman – de que o único propósito da empresa é produzir lucros – tomou forma e se instalou.

Mayer situa a razão para este facto no século XX, altura em que as empresas começaram a ser cotadas nas bolsas de valores, sendo que neste processo começaram a emitir acções. Com isto, a sua propriedade foi sendo gradual e crescentemente dispersa (primeiro nas mãos de investidores privados, depois nas de investidores institucionais) até que chegou a um ponto onde passou a existir uma separação entre a propriedade e o controlo, o que, por sua vez e a seu ver, deu origem a uma ausência de responsabilização da gestão, seguida de um mercado que luta pelo controlo corporativo, por aquisições hostis e, mais recentemente, pelo aparecimento do hedge fund activism. A principal consequência de tudo isto foi a intensificação do enfoque das empresas no lucro, o que resultou no aumento da desigualdade, na degradação ambiental e na desconfiança relativa aos negócios.

Mayer apela a um mundo “onde o propósito persegue as pessoas e as empresas, viabilizado pela lei, comprometido com a regulação e em parceria com os governos”, o qual possa tornar real o verdadeiro potencial corporativo para contribuir para o bem-estar económico e social para todos

Mayer explica também que o propósito único da empresa tem vindo a ser repetidamente questionado, pois existe uma preocupação crescente no que respeita às consequências distributivas da sua actividade, em particular a elevada disparidade de rendimentos entre os que se encontram no topo face aos que se posicionam nas bases. Mais séria ainda, para o autor, é a desigualdade de riqueza, ou seja, a concentração da mesma nas mãos dos que a têm em “excesso” face aos que não a têm, em conjunto com o poder desmesurado associado à propriedade das empresas. Adicional ao problema da distribuição, está o problema da ineficiência, pois a confiança é a base do funcionamento do negócio e a erradicação da sua credibilidade dá origem a uma deficiente performance, não só em termos do seu contributo para nós, membros da sociedade, mas também em termos de lucros e da sua performance económica.

No livro Prosperity, Colin Mayer assegura que é urgente reinventar a empresa em torno de três noções: a primeira é o propósito, a segunda é a credibilidade e a terceira é a cultura. Mas para que esta transformação seja possível, há que tocar nas suas várias “essências”, como poderá ler no segundo artigo dedicado a este manifesto de mudança.

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