Perante um país que tem as duas condições mais essenciais para reformar o seu sistema económico – capital natural e capital humano -, mesmo sabendo que há muito que o algoz decidiu o nosso destino, inspirado pelos ares de Edimburgo e pela figura mítica de William Wallace, grito ‘Liberdade’
POR NUNO GASPAR OLIVEIRA

Edimburgo, 20 de Novembro de 2013. Em vésperas de participar no World Forum on Natural Capital (www.naturalcapitalforum.com/) dou por mim a pensar: será que venho de um país rico ou pobre? Será que por ‘lá’ a economia poderá algum dia ser sinónimo de esperança e de desenvolvimento humano sustentável? Será que o meu país ainda é um país a sério? E foi ai que me pus a cogitar na ‘hipótese Braveheart’…

Afinal o que é isso do ‘capital natural’? É dinheiro verde? É novo negócio? É coisa para ser levada a sério? Pois, a julgar pela presença de líderes de grandes corporações, NGO e até representantes de governos pós-ultra-liberais-ou-coisa-parecida, o melhor é levar a sério, ou pelo menos começar a perceber do assunto. Até porque, se há país que pode beneficiar deste movimento é o país de onde venho. O vosso. O nosso.

Então vamos lá tentar perceber como funciona a coisa. No princípio a Terra era um objecto sem forma e vazio, até que de uma bola de fogo começou a emergir uma rocha que, à medida que arrefecia, começava a formar oceanos e uma atmosfera. Como resultado natural / divino (riscar o que não lhe interessa), a vida surgiu e com ela, surgiram alterações biofísicas dos mares e da atmosfera, ou seja, a vida estava a criar condições para a vida.

Das amebas aos dinossauros foi sempr’abrir até que, mais uma vez, o cosmos decidiu fazer uma espécie de reboot do sistema e os dragões deram lugar a uma nova proliferação de vida, que, em consonância com as alterações ambientais decorrentes dos sucessivos abanões no eixo de rotação da Terra e da distância ao seu reactor nuclear, ia tendo eras com diversos elencos de seres vivos a dominar.

Da última vez que a coisa mudou significativamente criaram-se as condições para que um macaco peculiarmente curioso começasse a explorar o seu novo ecossistema e, em resultado da evolução natural / intervenção divina (riscar novamente o que não interessa), e tendo em conta um peculiar envelope de condições bioclimáticas e ecossistémicas, surgem as primeiras comunidades (proto)humanas. Daqui à invenção do alfabeto foi outro saltinho mas há uma parte que não convém desdenhar: foram as condições bioclimáticas e ecossistémicas que permitiram a ascensão humana. E aqui não pode riscar nada, pois não se trata do seu ou do meu interesse, mas sim de factos inegáveis.

E o facto é que sem um sistema natural ou ecológico que continue a suportar estas comunidades (pós)humanas, não há sociedades, estados, sistemas económicos, bailouts, subsídios energéticos, agências de rating ou mundial de futebol.  Sem um clima menos vulnerável e brutalmente incerto, sem espécies animais e vegetais das quais nos possamos alimentar, sem recursos naturais que possamos ‘comoditizar’ não há matérias-primas para as indústrias e sem ecossistemas resilientes não há lugares seguros para viver. Ou seja, sem a combinação mágica de um sistema terrestre bioclimático, sem resiliência dos ecossistemas que nos providenciam os serviços de suporte, regulação, produção e até culturais, sem capital natural, não há sistema económico.

“O conceito de um sistema económico independente de um sistema ecológico é porventura a mais terrível falácia que já alguma vez quisemos tornar em dogma”

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E sem sistema económico não há valor accionista, investimento externo ou pagamento da dívida (bem, pelo menos já temos aqui uma vantagem). Mas, sem sistema económico, também não há sociedades complexas, não há mercados, voltamos ao sistema de caçadores-recolectores e do salve-se quem puder. O problema não está no conceito de sistema económico, está, sim, no conceito de um sistema económico INDEPENDENTE de um sistema ecológico, que é porventura a mais terrível falácia e erro de percepção que já alguma vez quisemos tornar em dogma.

Em resumo, sem capital natural, amplamente desconsiderado, não contabilizado, ignorado em termos da sua importância para o cálculo mais realista de riscos, ameaças e fragilidades sociais e económicas, não é possível sustentar a formação de capital humano, cultural, tecnológico ou económico. E à vossa/nossa pequena escala, enquanto país, para mim é claro: sem uma economia alicerçada na gestão sustentável do capital natural não é possível apostar numa especialização e diferenciação competitiva, na inovação tecnológica que poderá gerar novos processos industriais nem tampouco criar condições para um sistema de partilha justa e equitativa de valor de bem-estar e oportunidades de desenvolvimento entre nós e as gerações futuras.

E é aqui que entra a ‘hipótese Braveheart’. Eu não aceito curvar-me perante a alegada inevitabilidade da entrega do poder de (nos) governar a agentes externos pouco sensíveis para as questões realmente essenciais para o nosso bem-estar, não aceito submeter-me a uma ditadura da dívida que nos quer obrigar a beijar a capa dos nossos (legítimos?) credores em troca de uma misericórdia miserabilista, não acredito que a única forma de crescermos enquanto sociedade é sermos ‘competitivos’ por sermos tão pobres que aceitaremos condições precárias e indignas para garantir a nossa existência e a dos nossos entes queridos, actuais e futuros, não me curvo perante a tortura experimentalista que nos tenta fazer confessar mea culpa, que foi mesmo da nossa febre (?) de consumo que nasceu esta crise vergonhosa sem culpados sujeitos às mais elementares regras de justiça.

E não, não ficarei calado a ver tudo isto num país que tem as duas condições mais essenciais para reformar o seu sistema económico: capital natural e capital humano. E então, mesmo sabendo que há muito que o algoz decidiu o nosso destino, inspirado pelos ares de Edimburgo e pela figura mítica de William Wallace, me encho de atrevimento e fé para gritar ‘LIBEEERDAAAADEEEEE!’