Descobertas recentes na área das neurociências comprovaram que as pressões inerentes a quem é pobre afectam negativamente o pensamento estratégico e as competências de auto-regulação que estas pessoas precisam de ter para quebrar o ciclo da pobreza. Com base em pesquisas variadas e através de ferramentas específicas, uma organização sem fins lucrativos em Boston desenvolveu um novo enquadramento que permite às pessoas reforçarem as suas competências nestas áreas e perseguirem os seus objectivos no seguimento de desafios quotidianos que, normalmente, se assumiriam como enormes obstáculos
Traduzido e adaptado por HELENA OLIVEIRA
© Stanford Social Innovation Review

A erosão das redes de segurança social e a prevalência crescente do emprego a baixos salários consiste na combinação perfeita para colocar as famílias de rendimentos reduzidos sob pressão constante à medida que batalham para trabalhar, para cuidar das suas famílias e para manter o acesso a benefícios públicos. E, complementarmente a estes fardos, é o facto de a maioria de empregos capazes de melhorar estas circunstâncias exigir educação pós-secundária e, para a maioria das famílias com baixos rendimentos, o esforço para obter uma educação superior complicar ainda mais as suas já significativamente complexas vidas.

Assim, e para que haja sucesso na libertação das famílias das malhas da pobreza, estas têm de tomar decisões inteligentes, todos os dias, sobre a forma como gastam o seu tempo e rendimentos, ambos limitados. E quanto mais escassos forem esses recursos, mais crucial será cada decisão tomada. Mas, e como demonstram vários estudos, as circunstâncias de se viver em condição de pobreza reduzem, muitas vezes, as competências para a tomada de decisões.

De acordo com estudos na área emergente das ciências do cérebro, as pressões inerentes a quem é pobre afectam negativamente o pensamento estratégico e as competências de auto-regulação que estas pessoas precisam de ter para quebrar o ciclo da pobreza. Estas competências, conhecidas como funções executivas (EF, na sigla em inglês), são fundamentais para a nossa capacidade de resolver problemas, para o multitasking, para gerir prioridades, controlar impulsos, adiar a gratificação e para persistir no atingir de objectivos.

Investigadores do Center on Developing Child da Universidade de Harvard , entre outros, comprovaram que viver em condição de pobreza compromete as competências EF pelo menos a partir de duas formas críticas. Em primeiro lugar, a pobreza cria pressões intensas que sobrecarregam o nosso pensamento e criam um “imposto de banda larga” que diminui a qualidade das decisões que tomamos. E, em segundo, as tensões associadas à pobreza podem alterar a forma como o cérebro se desenvolve nas crianças que a ela estão sujeitas.

Outras descobertas recentes na área das neurociências demonstram também que o stress compromete a memória, tornando mais difícil que as pessoas se recordem de várias coisas ao mesmo tempo. O stress contribui igualmente para que seja mais difícil manter a flexibilidade mental, que se consiga alternar potenciais abordagens para resolver problemas e que se consiga pesar as implicações futuras de decisões correntes. Como resultado, muitos dos que crescem em condições de stress significativo – ou que vivam nessas mesmas condições – lutam para conseguirem controlar os múltiplos problemas das suas vidas, para os analisar, para explorar opções para lidar com os mesmos e para estabelecer prioridades relativamente à melhor forma de seguirem em frente.

As neurociências também demonstraram que o stress “sequestra” as nossas boas intenções e aumenta a probabilidade de eliminarmos os nossos impulsos. Mesmo que sejamos capazes de desenvolver um bom plano, será muito mais complicado mantermo-nos fiel ao mesmo se estivermos sob pressão ou se tivermos experimentado momentos significativos de stress durante a nossa infância.

Em suma, quebrar o ciclo da pobreza exige às famílias de baixo rendimento uma gestão muito complexa das suas vidas, uma optimização do processo de tomada de decisão e a perseverança face a probabilidades complexas. Todavia, outros avanços recentes nas neurociências comprovam que a pobreza também cria tensões paralisantes que impedem a capacidade das pessoas desenvolverem e manterem as competências EF. Assim, de que forma é que as organizações que trabalham com famílias de baixos rendimentos podem contribuir para quebrar este ciclo vicioso?

Uma única folha de papel

Há cerca de uma década, a Crittenton Women’s Union (CWU), entretanto denominada como EMpath, uma organização sem fins lucrativos cuja missão é a de ajudar mulheres de baixo rendimento, bem como as suas famílias, a tornarem-se economicamente auto-suficientes, desenvolveu um novo enquadramento que permite às pessoas reforçarem as suas competências de pensamento estratégico e perseguirem os seus objectivos no seguimento de desafios quotidianos que, normalmente, se assumiriam como enormes obstáculos. Denominada como a Ponte para a Auto-suficiência, ou só a “Ponte”, esta ferramenta é uma espécie de estrutura de “andaime” das competências EF que ajuda os participantes a obter progressos em cinco áreas que a pesquisa da EMpath considerou como cruciais para estimular a mobilidade económica: estabilidade familiar, bem-estar, educação, gestão financeira e gestão de carreiras.

A Ponte serve como uma ferramenta de tomada de decisão e de construção de competências que permite aos participantes analisarem e identificarem os seus pontos fortes e fraquezas, estabelecendo de seguida objectivos intermédios e de longo alcance nas respectivas cinco áreas. E elas fazem-no utilizando apenas uma folha de papel que ajuda os participantes e os membros do staff a verem – de uma vez só – um resumo dos desafios enfrentados pelos primeiros, as interligações entre esses desafios e os remédios potenciais.

Esta “Ponte” serve também como uma ferramenta organizacional, de resolução de problemas e como auxiliar de memória da mesma forma que outros podem utilizar listas escritas ou aplicações de software para os ajudar a monitorizar as suas tarefas. A diferença principal é que a Ponte foi concebida para organizar as tarefas que se assumem como mais importantes para se quebrar o ciclo de pobreza e para as exibir visualmente numa única página.

Na EMPath, o processo de utilização da Ponte – em conjunto com outras ferramentas – é referido como Mentoria para a Mobilidade. Esta abordagem foi desenvolvida para diminuir os desafios específicos relativos às competências EF que a pobreza tende a exacerbar. O objectivo é aprimorar a clareza das intenções dos participantes e reforçar as suas resoluções pessoais. Em paralelo, membros do staff especificamente treinados, e denominados como Mentores da Mobilidade, actuam como coaches que, em conjunto com os participantes, os ajudam a identificar objectivos e planos realistas. Adicionalmente, estes mentores “ligam” os participantes aos recursos que estes precisam para atingir os seus objectivos.

Através do processo de Mentoria para a Mobilidade, os participantes usam contratos, ferramentas de avaliação e sistemas de incentivos para reforçarem os objectivos que querem ver desenvolvidos utilizando a Ponte.

Os mentores da mobilidade avaliam a concretização desses mesmos objectivos em reuniões presenciais que têm lugar em intervalos não superiores a períodos de seis meses e, em particular durante as etapas iniciais do programa, de forma mais frequente. Desta forma, os membros do staff criam um processo de rotinas através do qual os participantes se tornam mais eficazes a analisar problemas, a desenvolver opções, a pesar alternativas, a seleccionar um plano e a aderirem a uma linha de acção. O trabalho de coaching assegura que, com o tempo, a Ponte evolua de um processo externamente prescrito para um conjunto interno de competências EF que libertará os participantes, quando estes estiverem prontos, da necessidade de mais coaching.

De acordo com Elisabeth D. Babcock, presidente e CEO da EMpath e que assina este artigo, a utilização de ferramentas como a Ponte e a Mentoria para a Mobilidade tem benefícios muito reais. Nos anos seguintes à incorporação destas abordagens, a organização testemunhou um número duas vezes superior de licenciaturas por parte de jovens residentes nos bairros sociais de Boston face aos jovens que não fizeram parte do programa em causa. Adicionalmente, um número significativo de pessoas dos mesmos bairros triplicou o seu nível de poupança face à média dos agregados de baixo rendimento dos Estados Unidos. Cerca de um terço dos participantes no programa encontram-se agora em empregos capazes de prover o sustento das suas famílias e um ano depois da introdução da Mentoria para a Mobilidade no alojamentos para os sem-abrigo, a proporção de residentes que têm um trabalho regular ou que frequentam o ensino aumentou de 45% para 80%, com aqueles que conseguiram poupar pelo menos 150 dólares (ou mais) a passaram de zero por cento para 43%.

Como já anteriormente citado, as pesquisas realizadas na área das neurociências demonstraram que as pressões inerentes à pobreza podem comprometer as competências de tomada de decisão mediante formas que se opõem aos esforços para ganhar mobilidade social. Mas os mesmos estudos sugerem que, mesmo em idade adulta, as pessoas conseguem beneficiar do coaching e de outros serviços para melhorarem as suas competências EF. É bom poder confiar na ciência e, pela experiência da EMPath, funciona.

Traduzido com permissão de “Rethinking Poverty”. © Stanford Social Innovation Review