Se para Manuel Braga da Cruz é impossível entender a cultura europeia sem a influência cristã, uma opinião similar tem João Pereira Coutinho quando afirma que a Europa está a precisar, mais do que nunca, de Deus, porque só com os homens não vai lá. Já Joana Amaral Dias defende que o Velho Continente precisa é de comida e de dinheiro e que o catolicismo europeu é muito mais um desejo do que uma realidade. Um debate animado e, por vezes, extremado, que não deixou ninguém indiferente
POR HELENA OLIVEIRA

© Fundação Francisco Manuel dos Santos

A questão “A Europa precisa de Deus?” – que deu mote a um debate entre Manuel Braga da Cruz, João Pereira Coutinho e Joana Amaral Dias não é fácil de responder e, muito menos, de gerar consensos. A sessão em causa foi, aliás, uma das mais extremadas da conferência “Portugal Europeu. E Agora?”, com o ex-reitor da Universidade Católica a manter a sua admirável calma e fortes convicções, mas com picardias, bem humoradas até, entre João Pereira Coutinho e a confessa ateia Joana Amaral dias. Complementar à ideia de Deus como intrínseca à identidade e cultura do Velho Continente, leia também, em Caixa neste artigo, o debate sobre “Que Europeu sou eu”, moderado por Carlos Vaz Marques e tendo como oradores convidados D. Manuel Clemente, Gonçalo M. Tavares e João Proença.

Manuel Braga da Cruz: “Não há dimensão política sem substrato cultural”
“Parece que não sabemos quem somos”, citou Braga da Cruz. Para enfrentar o seu futuro, esta Europa a viver tempos de crise, de dúvidas e de incerteza, “precisa de readquirir a consciência da sua génese histórica e cultural”, afirma, realçando que, neste contexto em particular, falar da Europa é falar sobretudo de culturas, na medida em que esta não tem contornos geográficos precisos. “O que configura a Europa é a cultura e é impensável entendê-la sem o espiritualismo”, afirma o ex-reitor da Universidade Católica. “Somos filhos da influência cristã no que respeita à formação da Europa e, sem dúvida, se a nossa identidade é indissociável do cristianismo e se não queremos que a Europa tenha apenas uma dimensão económica, há que pensar que não há dimensão política sem substrato cultural”, acrescentou.

“Parece que não sabemos quem somos”

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Para Manuel Braga da Cruz, existe, indesmentivelmente, um conjunto de valores de inspiração cristã que são pressupostos da identidade europeia. E como não é possível “entrar pela África e Ásia adentro, é fundamental termos esta identidade própria, abrigando todos os que para cá vierem”.

Salientando que a cultura portuguesa é tão indissociável como a cultura europeia face ao cristianismo, recordando que quando a Europa se abriu ao mundo a forma como os europeus eram olhados pelos outros era como cristãos – sendo-o ou não -, Braga da Cruz deu também a conhecer um elemento simbólico que muitos desconhecem: as 12 estrelas que compõem a bandeira da União nada têm a ver com o número de Estados-membros, mas com o “resplendor Mariano” (ou, mais precisamente com as 12 estrelas da coroa de Maria, que representam a plenitude), símbolo escolhido pelos “pais fundadores” para representar a solidariedade, a unidade e a harmonia entre os povos da Europa.

Todavia, e na cunhagem da moeda, afirma o Professor, a Europa abdicou de encontrar um símbolo identificador cultural, apesar de tal não constituir “ a negação do pluralismo do projecto europeu”, afiança.

Assim e respondendo à pergunta que deu origem ao debate, Braga da Cruz afirma que “a Europa precisa de ter consciência de si própria, das suas origens e também precisa de Deus, mesmo que sejam muitos os europeus que não queiram ouvir falar disso”.

João Pereira Coutinho: “Não é possível entender a Europa sem entender a identidade cristã”
Antes de responder à complexa questão formulada, o jornalista e académico João Pereira Coutinho começou por gerar uma gargalhada geral na audiência quando afirmou que mais do que Deus, a Europa precisa é de um milagre”. Mas passada a tirada humorista, Pereira Coutinho fez depender a sua resposta do significado de Deus existente na pergunta. “Se a pergunta questiona se todos os europeus precisam de ser crentes, então a resposta é ‘claro que não’”, na medida em que a separação entre Estado e Igreja é fundamental para a democracia, no que à aceitação da liberdade religiosa diz respeito e porque “a Europa enquanto espaço pluralista é essencial”. Todavia e se a questão implica que a Europa deve reformular a sua identidade cultural, então e para o académico e jornalista, a resposta é “sem dúvida”, e acrescenta: “sem um conhecimento básico da religiosidade que deu origem à Europa, não é possível perceber a sua identidade”.

“Sem um conhecimento básico da religiosidade que deu origem à Europa, não é possível perceber a sua identidade”

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Joana Amaral Dias: “A Europa precisa de arroz, não de Deus”
Foi a resposta imediata da ex-deputada do Bloco de Esquerda, a qual considera igualmente a questão enganadora. “A pergunta deveria antes ser se a Europa precisa da matriz cristã e se a precisa de resgatar”, diz, apontando o dedo aos seus colegas de mesa por estes terem estado a falar não do cristianismo, mas sim do catolicismo. Adicionalmente, Joana Amaral Dias citou de imediato as sondagens que demonstram que os europeus, na sua esmagadora maioria – mais de 90% – não precisam do cristianismo, realçando “um desinteresse na religião no geral e no catolicismo em particular”. Indo ainda mais longe, Joana Amaral Dias afirma que todos sabem que o continente europeu é o menos religioso de todos e que são outros os valores que se erguem, nomeadamente os dos direitos humanos. “O catolicismo europeu é mais um mito do que uma realidade”, apesar de esta, a Europa, estar efectivamente assente numa matriz judaico-cristã”, mas ter também fortes influências islâmicas. Posto isto, para a também psicóloga clínica, “a Europa não precisa de Deus”.

Descrença, laicização e espiritualidade light?
Braga de Cruz concorda que, especialmente nos países mais desenvolvidos, o crescendo da secularização é evidente, mas não a nível mundial, sendo que esta pode ter dois significados: “se estivermos a falar da autonomia do profano sobre o sagrado, da separação entre Igreja e Estado, então é verdade que o fenómeno é fundamental para o desenvolvimento; mas se o laicismo for no sentido do banimento da religião do espaço público, então a liberdade religiosa fica posta em causa”, diz. Citando o sociólogo francês Durkheim, “não há religião sem expressão pública”, o ex-reitor da católica defende igualmente que o espaço público tem de ser plural (para os crentes e não-crentes), revelando alguma preocupação no facto de alguns países europeus estarem a começar a proibir a manifestação pública da religiosidade, seja esta cristã ou islâmica, considerando “imprescindível não se perder o respeito pela liberdade religiosa”.

Reagindo à interpretação de Braga da Cruz no que respeita à secularização do espaço público, a ex-deputada do BE acredita que só com esta [secularização] se poderá evitar os fundamentalismos, sendo que o critério terá de ser rigorosamente igual para todos, não concordando, de todo, “que se deixem ir crianças de burca para escola ou que estas ostentem crucifixos”.

Ao defender uma “limpeza” de expressões de religiosidade no espaço público, Joana Amaral Dias deu oportunidade a João Pereira de considerar a proposta não só descabida, como completamente impossível, parecendo-lhe evidente que as religiões devam ter e manter a sua própria expressão pública. Adicionalmente e no que respeita ao distanciamento das pessoas face a Deus, ou levando em conta as sondagens citadas por Joana Amaral Dias, Pereira Coutinho diz acreditar quando se afirma que os europeus não precisam de religião, mas que desconfia profundamente de que os mesmos não precisem de espiritualidade. Para o comentador, e em conjunto com o crescimento da laicização, a verdade é “que também estamos a assistir à proliferação de uma espécie de espiritualidade ‘light’, na qual se mistura uns elementos do vegetarianismo com o hinduísmo, mais a meditação própria do budismo, entre outros, como se estivéssemos num supermercado”.

“Se for necessário acreditar em alguma coisa, não tem de ser, forçosamente, neste binómio ideologia-religião”

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O jornalista questiona-se igualmente se é possível que uma sociedade simplesmente não acredite em nada, algo que para Joana Amaral Dias pode significar também uma “religião”. Recordando que não foi imposto que apenas 3% dos europeus – de acordo com os dados em que se apoiou – se importem com questões religiosas, e que esta descrença foi gradual e evolutiva, a psicóloga defende que se realmente for necessário acreditar em alguma coisa, não tem de ser, forçosamente, neste binómio ideologia-religião. Caindo no erro de falar de ideologias e de criticar, por exemplo, as páginas negras da Inquisição, Joana Amaral Dias não perdeu tempo a esperar pelo contra-ataque do seu colega de debate. João Pereira Coutinho recorda que, em conjunto com as páginas negras da Inquisição, podemos colocar o ateu Estaline ao lado e recordarmo-nos que, “nos seus melhores dias, matava que se fartava”.

Contrapondo e afirmando que “compreende a angústia de não se acreditar em nada”, Joana Amaral Dias afirma que os tais valores ideológicos e religiosos têm como substitutos os valores da democracia defendidos pela Europa. Ao que Pereira Coutinho responde que, historicamente, sempre que houve um recuo do cristianismo, o substituto foi sempre pior, dando como exemplo a prática bolchevique de retirar a imagem de Cristo e a substituir pela de Karl Marx.

Em suma, Manuel Braga da Cruz, a propósito do divórcio entre europeus e Deus, reafirma que “no futuro, para a Europa ser fiel a si própria, precisa de Deus”, João Pereira Coutinho assegura que o continente “está a precisar de Deus mais do que nunca porque só com homens não vai lá” e que é fundamental que “o Velho Continente revalorize a sua identidade”, na génese da qual reside o cristianismo e Joana Amaral Dias termina afirmando que “se identidade significasse apenas memória, só nos lembraríamos de todo o mal católico”.

“Devemos saber que europeus vamos sendo e não os que somos”
A frase foi proferida por Dom Manuel Clemente a propósito da questão “Que Europeu sou eu?”, tema do debate que contou também com a presença do escritor e professor Gonçalo M. Tavares e com João Proença, sindicalista e ex-líder da UGT.

© Fundação Francisco Manuel dos Santos

O novo Patriarca de Lisboa afirma sentir-se simultaneamente torriense, português e europeu, na medida em que “quando se fala de pertença, fala-se daquilo que se é e como se reage” e, acrescenta “reajo sempre que sou tocado, seja positiva ou negativamente, em qualquer uma destas três dimensões”.

Sobre este sentimento de pertença, Gonçalo M. Tavares fá-lo equivaler mais à família, que o transmite, do que ao local onde se nasce. “A nossa primeira identidade é mais absorvida do que emitida e é a família, e o núcleo que a rodeia, que a marca”, defende.

Já João Proença, beirão de coração e “europeísta convicto”, afirma que existe uma complementaridade entre a identidade nacional e a europeia. Fazendo eco de opiniões similares que, ao longo dos vários debates da conferência, se foram ouvindo, o ex-líder da UGT reforçou também a ideia de que a Europa não pode apenas assentar numa ideia económica, devendo, ao invés, ir mais longe na sua identidade europeia. E, mesmo face “ao desencanto europeu, há que construir uma Europa cada vez mais social e cultural”, em que “integração” poderá ser a palavra-chave.

No seguimento da questão colocada pelo moderador Carlos Vaz Marques – se existem europeus de primeira e de segunda [e divisão entre norte e sul da Europa]– Dom Manuel Clemente afirma que apesar da diversidade cultural ser respeitada, “existe um sentimento de superioridade, por exemplo, entre o protestantismo versus o catolicismo”, que acaba por estar latente e patente em várias manifestações de expressão. O Cardeal Patriarca de Lisboa relembrou também e a este propósito, o famoso, por más razões, discurso de Angela Merkel, no qual a chanceler alemã afirmou que os portugueses deviam trabalhar mais. Enumerando os vários credos que existem em simultâneo – catolicismo, protestantismo, islamismo ou budismo -, Dom Manuel Clemente afirma que sendo a Europa uma realidade extremamente dinâmica, “é quando vimos de fora que nos sentimos mais europeus”. Uma opinião secundada pelo escritor Gonçalo M. Tavares quando faz uma comparação entre o espaço público existente, por exemplo, em Marraquexe, e os que existem na Europa. Se na Europa “existem passeios onde podemos descansar”, em Marraquexe não existe esta divisão: “e quem nasce num espaço público onde o perigo pode sempre estar à espreita tem, forçosamente, de pensar de forma diferente”, assegura. Ainda no que respeita a esta “lógica de separação própria da Europa”, o escritor dá o exemplo do México, “onde é possível comprar um gelado no mesmo espaço em que as pessoas estão a rezar”. Esta marca de separação, com qualidades e defeitos a ela inerentes, acaba por conferir uma previsibilidade ao espaço europeu, sendo que “um metro quadrado mexicano é muito mais ‘interessante’ do que um metro quadrado europeu”, acrescenta.

Falando ainda da sobreposição de culturas que marcam, cada vez mais, os espaços europeus, Dom Manuel Clemente chama a atenção para a cidade de Bruxelas a qual, enquanto “capital da Europa, é crescentemente islâmica”. O também historiador acredita que “a Europa será cada vez mais colorida, não só em termos de cor da pele, mas também no que respeita à cor da religião e da crença”, algo que considera positivo, “com uma globalização que serve para todos e que não se assemelha, de todo, ao melting pot americano”. Mas, alerta, esta diversidade cultural e religiosa não é uma garantia.

Os direitos humanos, a pobreza e o desemprego foram também temáticas em debate. Gonçalo M. Tavares afirma que estas “condicionam o sentimento de pertença à Europa, “na medida em que excluem essas pessoas da mesma no que respeita às suas necessidades, pois alguém que está doente ou que tem fome não pode participar livremente no espaço público”. O professor e escritor alertou ainda para um dos preços altos a pagar proveniente do desemprego: “uma taxa elevada de desemprego pode constituir o prefácio de uma ditadura, de climas violentos”.

E se João Proença concorda com Gonçalo Tavares no que a este perigo diz respeito, valorizou, por outro lado, o sentimento de pertença à Europa. O sindicalista referiu um inquérito realizado em Maio deste ano, no qual se perguntava às pessoas se sentiam europeias: face à média da União Europeia – 72% – Portugal fica um pouco aquém, com 63%, mas visivelmente acima de países como a Grécia, por exemplo, onde a média se ficou apenas pelos 42%.

Apesar de os três oradores terem focado o norte da Europa como um espaço cada vez mais fechado à multiculturalidade e multietnicidade – porque temem que os imigrantes ponham em causa os seus sistemas e direitos sociais – , Dom Manuel Clemente recorda os valores comuns, provenientes do cristianismo, que ainda subsistem na Europa, e que têm como base “ a disponibilidade para o acolhimento do que é diferente”, acrescentando que apesar de este tipo de problema existir desde sempre, mantém-se a disponibilidade para “um futuro onde caibamos todos, algo que está no ADN cristão”.

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