Numa crise, a primeira coisa que se perde é a cabeça – antes até do dinheiro. A ânsia de manter quota de mercado ou de conter perdas provoca ânsias, decisões de curto prazo. Achamos que a escolha é entre a ética e o almoço. Não é.
POR  JOÃO PAULO BATALHA*

«Quem não tem colher sua», dizia o meu avô Batalha, «nunca come quando quer». A frase vem-me frequentemente à cabeça, nestes tempos em que as famílias, as empresas e o Estado dependem de colher alheia, cedida sob condicionalidade pelos agentes estrangeiros da temível troika, para poderem financiar-se, trabalhar, seguir em frente.

A história da nossa crise é ela própria uma história de corrupção, de ligações perigosas, de relações de poder opacas e insalubres. Por falta de recursos, por falta de vontade, por falta de visão, Portugal tornou-se um país que desvaloriza os portugueses – pior, que os malbarata. Em estado permanente de urgência, pensamos pouco nas estruturas e desprezamos as instituições. Em vez de criarmos mecanismos de controlo, fiscalização e responsabilização, em vez de montarmos um sistema de integridade pública e privada, corremos, como se costuma dizer, atrás do prejuízo, à procura de um grão aqui, outro ali, que nos alivie o aperto.

Os tempos são incertos e sombrios, propícios a atalhos. Micro-empresário eu próprio, confronto-me frequentemente com as limitações do mercado interno, a quebra nas encomendas, os clientes que demoram a pagar (felizmente nunca tive calotes, sorte que poucos partilham). Penso nas oportunidades que espreitam noutros mercados de língua portuguesa e dou por mim a contemplar que negócios estou disposto a aceitar, que perguntas faço ou deixo por fazer se um cliente puser dinheiro na mesa. Que preço estou disposto a pagar pela integridade.

Numa crise, a primeira coisa que se perde é a cabeça – antes até do dinheiro. A ânsia de manter quota de mercado ou de conter perdas provoca ânsias, decisões de curto prazo. Achamos que a escolha é entre a ética e o almoço. Não é.

Começo por alguns números frescos, do Barómetro Global da Corrupção que a Transparency International acaba de lançar. Trata-se da maior sondagem mundial sobre as atitudes das pessoas em relação à corrupção, realizada este ano em 107 países. No nosso, os resultados são pouco animadores: 78% dos portugueses acham que a corrupção piorou nos últimos dois anos e mais de metade (53%) entende que o Governo está capturado por grandes grupos económicos e decide em função dos interesses desses grupos, não do interesse coletivo. E têm razões para pensar isso: basta ver a lógica que tem presidido à realização de parcerias público-privadas ruinosas, às privatizações de favor, aos negócios de renda fixa, retirada do Orçamento do Estado em benefício de umas poucas elites com acesso desproporcionado aos detentores do poder.

Esta opacidade, este favoritismo, é o estrangulamento da economia. Quando as empresas são pressionadas a entrar na rede clientelar do presidente da Câmara para poderem fazer negócio; quando o Estado assina negócios multibilionários com os parceiros do costume; quando os concursos públicos são feitos à medida do amigo – ou ficam por fazer, pura e simplesmente – centenas de PME são deixadas à margem do mercado público, perdem a oportunidade de competir. Em vez disso, ficamos com as «empresas do regime» amarradas aos nossos pés como cimento, anafadas e complacentes, e pouco eficientes porque o seu factor competitivo é ter o telemóvel do ministro.

E aqui entra um dos números mais surpreendentes do Barómetro Global da Corrupção: 61% dos portugueses está disposto a pagar mais por um produto ou serviço, se tiver a certeza que vem de uma empresa limpa. Esta percentagem, numa conjuntura de crise em que os portugueses guardam ciosamente cada cêntimo, espantou muitas pessoas. Eu fui um delas. Mas é um bom sinal. Numa altura em que a crise económica se transforma em crise social, e sentimos os laços de solidariedade e de vizinhança que nos unem uns aos outros romperem-se, uma maioria clara dos cidadãos diz-nos que reconhece o valor de quem trabalha para nós, de quem está connosco, de quem quer ser um parceiro fiável, livre e limpo num tempo em que todos procuramos uns nos outros (tantas vezes sem encontrarmos) essa integridade e essa limpidez.

Uma marca faz-se de confiança e a confiança conquista-se com transparência, abertura e humildade. Mas uma marca faz-se também com dinheiro, claro. Sucede que as empresas portuguesas estão descapitalizadas e sem acesso ao crédito. Numa altura em que todos os gurus nos apontam os mercados da exportação como saída para a crise, como se espera que as empresas portuguesas dêem o salto, se lhes faltam os recursos para isso?

A resposta é: chegamos mais longe se formos acompanhados. Hoje, cada vez mais empresas internacionais, de todos os quadrantes, procuram colocar um pé em mercados de elevado potencial, como Angola, Moçambique ou Brasil, para os quais as empresas portuguesas são parceiros de eleição. Porque falam o português e têm afinidades históricas e culturais com estes mercados e, ao mesmo tempo, porque estão habituados a padrões de gestão europeus e ocidentais, mais exigentes.

Poucos empresários portugueses conhecem a Convenção da OCDE contra o suborno de oficiais estrangeiros. A Convenção, de que Portugal é signatário, torna um crime para uma empresa de um dado país subornar políticos ou funcionários noutro país. À luz da lei, se uma empresa portuguesa pagar um suborno a um ministro algures em África ou na Ásia, pode ser responsabilizada por isso em Portugal. É claro que no caso português, a Convenção fica largamente por aplicar. Mas nos EUA e na Europa, legislação semelhante provocou já condenações duríssimas a várias empresas, obrigadas a pagar milhares de milhões de euros em multas por causa de negócios escuros no estrangeiro.

Hoje, na maior parte dos países onde estão os investidores mais maduros e capazes, o crime não compensa. Ao abordarem mercados de elevado potencial, estes investidores querem ir com parceiros que conheçam o local. E querem parceiros limpos, porque a opacidade e a corrupção acabam por custar caro. Qual deve ser o nosso papel? Saber fornecer às grandes multinacionais estes parceiros íntegros, com uma ficha limpa e capazes de fazer pontes com o mundo. Empresas com sistemas de controlo interno, abertura e transparência, que mostrem as contas e sejam exemplos éticos.

«Quem não tem colher sua nunca come quando quer», dizia o meu avô Batalha. Hoje, recuperarmos a nossa colher é recuperarmos o nosso sentido ético, a nossa dimensão cívica. É criar organizações transparentes, capazes de estabelecer laços de confiança com os cidadãos e conquistar, com confiança e segurança, posição noutros mercados. Podemos tentar exportar uma cultura de jeitinho, de conivência e de traficância, deixando um rasto de fogo atrás de nós que, cedo ou tarde, nos apanhará. Ou podemos aplicar aqui, e exportar para o mundo, uma cultura de confiança, de abertura e de sentido ético, que estabelece laços sólidos, que partilha ganhos e multiplica oportunidades.

Temos de ser melhores. Só assim estaremos em posição de fazer negócio com os melhores, criar riqueza sustentada, no longo prazo. E vivermos seguros de que, se um bom negócio é valioso, um bom cidadão não tem preço.