Os avanços na ciência e tecnologia “continuam a ser a nossa melhor esperança para vivermos mais e melhor no futuro”. Mas este progresso “coloca desafios éticos à sociedade”, os quais “são questões individuais e sociais”, porquanto constituem preocupações não só dos cientistas, mas que “devem ser do conjunto da sociedade”. Em entrevista ao VER, o físico e comunicador de ciência Carlos Fiolhais defende que se o conhecimento científico e técnico ajuda a tomar decisões, estas decisões “irão sempre ultrapassar a ciência”, porque “a ética está para além” dela
POR GABRIELA COSTA

Nos dias de hoje “vivemos mais e melhor graças à ciência e à tecnologia”. E os avanços a este nível “continuam a ser a nossa melhor esperança para vivermos mais e melhor no futuro”. Mas hoje, como dantes, este progresso “coloca desafios éticos e legais à sociedade em geral”. Foi com estas palavras que Carlos Fiolhais, um dos cientistas portugueses mais reconhecido dentro e fora do País, abriu a sua intervenção no Simpósio internacional que decorreu em Lisboa, a 10 e 11 de Dezembro, no âmbito do projecto Ethics, Science, and Society, programa de investigação e divulgação científica e responsabilização (sócio)política que visa aprofundar a influência da intervenção da sociedade e o impacto da reflexão ética na elaboração de políticas públicas de investigação, face ao processo de convergência das ciências e da inovação tecnológica de ponta.

Como contextualiza o físico e docente na Universidade de Coimbra, o emergir das novas questões éticas e de justiça (ou legitimidade) já não é actual e traduz-se ainda, nesta era digital, em dificuldades como, por exemplo, as que se verificam face à gestão dos direitos de copyright, perante a facilidade com que se copiam e partilham ficheiros de música, vídeos ou software.

As novas tecnologias colocam desafios que não são apenas técnicos e científicos, mas são éticos, legais, económicos e políticos

Defendendo que actualmente se vive “um momento extraordinário” no qual, todavia, os avanços que podem transformar as nossas vidas se inscrevem em áreas, também elas, “extraordinariamente complexas”, Carlos Fiolhais sistematiza este pensamento com “exemplos óbvios”, em campos como a genética, a inteligência artificial, as nanotecnologias ou a robótica. E, com este exercício, trata de fazer aquilo que é o maior desígnio do projecto Ethics, Science and Society, e uma necessidade premente para envolver a sociedade na resolução dos grandes desafios globais que o mundo enfrenta: comunicar a ciência, apresentando como simples o que é cientificamente complexo, como havia já sublinhado ao VER, em entrevista, a coordenadora deste programa de investigação académica, Maria do Céu Patrão Neves.

Atentemos, pois, nesta compreensão: já há muito que a expressão ‘alterações climáticas’ não escapa ao conhecimento da opinião pública. É um chavão nos mediae um termo em voga entre os responsáveis empresariais, ávidos por demonstrarem as suas estratégias de sustentabilidade, e entre os decisores políticos, aparentemente preocupados com o consenso sobre a necessidade de ‘salvar o planeta’ enquanto é tempo. Não obstante, e como nota Carlos Fiolhais, até este desafio “bem conhecido” e amplamente divulgado, sobre o qual “os problemas em causa são hoje evidentes”, se reveste de “uma enorme complexidade”, exigindo “um grande esforço de comunicação pública”. E este é só um exemplo.

Os enormes progressos no campo da genética, ocorridos nas últimas décadas, e concretamente a sequenciação do genoma humano, constituem outro caso paradigmático: por um lado “permitem o tratamento de doenças genéticas”, mas por outro colocam em causa “questões de segurança e privacidade de dados” que passam despercebidas na sociedade.

Uma coisa é o que se pode fazer, e sobre isso a ciência e a tecnologia podem informar, e outra, bem diferente, é o que se deve fazer

Também os algoritmos da inteligência artificial, que “todos os dias fazem parte da nossa vida”, quando “nos sugerem um livro na Amazon ou um filme na Netflix”, por exemplo, já têm inúmeras aplicações na medicina e, num futuro próximo, permitirão opções decisivas na área da saúde. Não obstante, é difícil explicar as implicações destes algoritmos em “linguagem comum” e, portanto, é essencial disseminar este tópico através da comunicação da ciência. “As decisões éticas sobre todas estas questões não podem ser deixadas apenas aos cientistas, porquanto pertencem a todos”, conclui.

Como explica o autor de “Física Divertida” e “Nova Física Divertida” e co-autor de “A ciência e os seus inimigos” e “Darwin aos Tiros e Outras Histórias de Ciência”, entre outras obras, para motivar os cidadãos a participarem nesta discussão “é necessário gerar uma compreensão pública” dos temas em questão a um nível relevante, ainda que de algum modo superficial. Conhecendo, senão os detalhes técnicos, “os princípios, o potencial e as limitações” da ciência e da tecnologia. Porque só assim se poderá “formar uma opinião esclarecida”.

Mas, e na prática, para lá da generalização de términos como genética ou inteligência artificial, a verdade é que se verifica um débito de informação – também ele generalizado – sobre estes avanços, e o que realmente significam, nota Carlos Fiolhais: a maioria das pessoas “não aprende sobre estes temas na escola e nem sempre é fácil aprendê-los através dos media”. Ora, “sem este conhecimento básico, como podem ter uma opinião” [esclarecida]? As opções que restam são o medo irracional e o entusiasmo acrítico”. E ambos proliferam hoje – e perigosamente – numa sociedade onde “os inimigos da ciência são abundantes”, lamenta.

Os desafios globais são crescentes. E perante os mesmos, “as decisões que temos de tomar estão ao virar da esquina, e não a décadas de distância”. Neste contexto, “a comunicação da ciência assume um papel estratégico e insubstituível”, conclui. Mas esta comunicação tem “reagido com lentidão”. E este atraso é, nas palavras do cientista, “imperdoável”.

Pouca gente percebe a moderna genética e a moderna inteligência artificial. No entanto todos nós estamos já a ser afectados por elas

Como defende, em entrevista ao VER, Carlos Fiolhais, “asolução, que não é fácil, reside em maior e melhor difusão da cultura científica”, isto é, numa “mais nítida percepção pública da ciência”. Porque “o genoma não se vê e a inteligência artificial pode estar na ‘nuvem’”. E perante esta obscuridade, “o segredo da boa comunicação de ciência está em usar duas das suas principais virtudes: o respeito pela verdade e a transparência”.

Defende que vivemos mais e melhor graças à ciência e à tecnologia, mas que estes avanços colocam novos desafios éticos à sociedade. Que desafios são esses?

A ciência e a tecnologia têm, de facto, proporcionado novas condições de vida. Por exemplo, vivemos mais e com mais saúde usando as modernas tecnologias médicas e comunicamos mais facilmente usando as modernas tecnologias da informação e comunicação.

No entanto, são cada vez mais prementes questões sobre a utilização dos meios que a ciência nos proporciona. A genómica possibilita informação sobre a nossa identidade biológica, mas quem e em que condições poderá ter acesso a essa informação? Parece possível a edição do genoma, mas quais são os limites da utilização desse tipo de técnicas? Será legítimo melhorar geneticamente os seres humanos?

Por outro lado, a informática coloca problemas à nossa privacidade. Quem pode ter acesso aos nossos dados pessoais e em que circunstâncias? Não poderá a utilização de algoritmos de inteligência artificial servir para usar os nossos dados para nos manipular, para fazer escolhas em vez de nós, isto é, para ameaçar a nossa liberdade?

Não há um governo do mundo, mas um conjunto de governos de países, que estão em concorrência

As novas tecnologias colocam novos desafios, que não são apenas técnicos e científicos, mas são  éticos, legais, económicos e políticos. Sublinho a palavra “éticos”. Uma coisa é o que se pode fazer, e sobre isso a ciência e a tecnologia podem informar, e outra coisa, bem diferente, é o que se deve fazer. Um meio pode ser bem ou mal utilizado, pode ser utilizado para o bem ou para o mal, sendo o juízo sobre o que é o bem e o que é o mal um juízo necessariamente humano.

As questões éticas são questões individuais e sociais. Cada um de nós e todos nós somos, nas sociedades democráticas, chamados a decidir, quer directamente, quer nas escolhas que fazemos de quem nos representa. O conhecimento científico e técnico ajuda a tomar decisões éticas e legais ao fornecer informação relevante, mas as decisões irão sempre ultrapassar a ciência. A ética está num plano diferente da ciência, está para além da ciência. E, embora os cientistas devam ter preocupações éticas, as preocupações éticas devem ser do conjunto da sociedade.

No passado tivemos de estabelecer novos limites sempre que novas possibilidades surgiram. E agora estamos novamente confrontados com a necessidade de estabelecer limites, surgindo a questão de muito pouca gente perceber a nova ciência e tecnologia. Pouca gente percebe a moderna genética e a moderna inteligência artificial. No entanto todos nós iremos ser, estamos já a ser, afectados por elas. A solução, que não é fácil, reside em maior e melhor difusão da cultura científica, isto é, numa mais nítida percepção pública da ciência.  Entre nós, o “Ciência Viva” pode fazer bem mais neste campo que é o seu. É preciso uma reflexão e são precisas novas iniciativas.

Como perspectiva a abordagem, por parte dos principais decisores políticos e empresariais, às novas questões éticas e legais que estão a emergir com vista a solucionar os grandes desafios globais, como os modelos de negócio digitais e as alterações climáticas?

Os negócios globais, possibilitados pela quase instantaneidade da transferência da informação, vieram trazer rupturas à economia tradicional: é a chamada moderna globalização, que trouxe oportunidades e perigos.

Os decisores políticos e empresariais deviam procurar ver qual é a sua responsabilidade para além da sua circunscrição geográfica e do curto prazo

É também claro que a expansão descontrolada da industrialização e dos transportes trouxe problemas para o clima do planeta, designadamente a intensificação do efeito estufa, com o resultante aumento da temperatura média do planeta. Os políticos têm dificuldade em lidar com estas questões por os seus raios de acção serem regionais, para além de os seus mandatos serem temporários. Não há um governo do mundo, mas um conjunto de governos de países, que estão em concorrência e que têm por isso interesses diferentes. E as decisões que tomam, em geral têm apenas em consideração o curto prazo, não se preocupando com as gerações seguintes.

Por outro lado, o poder económico, em muitos casos globalizado em grandes corporações, não está sujeito a restrições políticas. Os decisores políticos e empresariais deviam procurar ver qual é a sua responsabilidade para além da sua circunscrição geográfica e para além do curto prazo. A Terra é a nossa casa comum e todos sofreremos  se a casa for maltratada.

É possível tomar boas decisões, decisões salvadoras, à escala global. Por exemplo, a questão da camada de ozono está a ser solucionada após a aprovação unânime do Tratado de Montreal. Infelizmente, neste momento não se pode ser muito optimista no que respeita ao cumprimento do Tratado de Paris sobre o aquecimento global, por a maior potência mundial, os Estados Unidos, se ter retirado do acordo. Não é demais insistir: a recusa por Donald Trump da existência de alterações climáticas é um problema para a América e para o mundo. Revela não só uma ignorância a respeito da ciência como também uma falta de solidariedade no teatro das nações. O David Marçal e eu incluímo-lo, no nosso livro “A ciência e os seus inimigos”, nos “inimigos da ciência”. Talvez se possa acrescentar que é também um inimigo da sociedade.  E deve acrescentar-se que não é o único político ignorante: há mais, alguns bem perto de nós, como todos aqueles que acham que a política é que deve informar a ciência, em vez de ser a ciência a informar a política.

A criatividade humana é enorme e espero bem que onde haja o perigo, se consiga encontrar a salvação

No caso do aquecimento global, existem soluções de mitigação que, se forem rápidas, ainda irão a tempo: muitas emissões de gases de efeito estufa poderão ser evitadas mediante a transição para tecnologias limpas, como as fontes renováveis de energia e os veículos eléctricos. A criatividade humana é enorme e espero bem que, onde haja o perigo, se consiga encontrar a salvação.

Face à complexidade dos avanços a que assistimos, por exemplo no que respeita a inteligência artificial, robótica ou nanotecnologias, que esforços são exigidos a nível de comunicação pública, com vista a uma compreensão abrangente, capaz de gerar consciência crítica na sociedade? Em que medida as decisões éticas são essenciais e têm de ser endereçadas por todas as partes na sociedade, e não apenas pelos cientistas – governos, Academia, organizações da sociedade civil, empresas e cidadãos?

Já referi a genómica e a inteligência artificial, a primeira permitindo alterações do património biológico, e a segunda permitindo a substituição dos humanos por sistemas automáticos em muitas tarefas. As duas caracterizam-se, de facto, por um alto grau de complexidade. E também pela invisibilidade: o genoma não se vê, uma vez que reside na molécula de ADN, e a inteligência artificial pode estar na ‘nuvem’, isto é em sistemas distribuídos.

A robótica, que consiste na simulação de algumas formas de comportamento humano, assenta no uso da inteligência artificial, de sistemas que podem, como nós, aprender com a experiência. Mas podemos, decerto, acrescentar nos progressos científicos com que estamos confrontados a nanotecnologia ou tecnologia à escala atómica, que permite novos materiais e novos processos, como novos meios de computação. E podemos também acrescentar a computação quântica, que promete novos computadores muito mais rápidos do que os actuais, ao mudar dos bits para os qubits  (sobreposições de bits). O público, em geral, não compreende a ciência que está por trás destas tecnologias.

Os esforços dos cientistas  na comunicação de ciência são urgentes nesta sociedade mediatizada em que as notícias falsas circulam mais rapidamente que as verdadeiras

O progresso da ciência e da tecnologia foi extraordinariamente rápido, não tendo a escola tido tempo de se adaptar aos novos tempos. Os media trazem alguma informação, mas o cidadão comum nem sempre tem tempo nem capacidade de a assimilar convenientemente. Estou em crer que são necessários esforços adicionais dos cientistas  na comunicação de ciência.

Esses esforços são urgentes nesta sociedade mediatizada em que as notícias falsas circulam mais rapidamente que as verdadeiras. E, para que sejam bem-sucedidos, é preciso um trabalho conjunto com os jornalistas, que são intermediários imprescindíveis na relação com o público. Embora haja hoje meios que permitam a comunicação directa com o público, os processos de comunicação serão muito mais eficazes se houver mediadores, que interroguem os cientistas em nome do público.

Tem de haver um esforço imaginativo no sentido da simplificação das mensagens, sem a perda do necessário rigor. A ciência é de todos e não apenas dos cientistas, já que estes são apenas depositários da confiança da sociedade na obtenção do conhecimento. Perderão a confiança social se não conseguirem difundir o conhecimento.

O cientista procura o saber em nome da sociedade.  Um melhor conhecimento dos problemas permitirá que as escolhas éticas tomadas pela colectividade sejam mais conscientes. A ciência é essencial. Mas não basta a ciência, é preciso consciência e consciência colectiva.

Como é que se combate “o medo irracional e o entusiasmo acrítico” que a má compreensão dos avanços científicos gera, tanto entre os agentes governamentais como na sociedade em geral? Como pode a ética intervir para provocar uma comunicação da ciência transparente e esclarecida?

O medo é sempre mau conselheiro. O medo impede o claro entendimento e dificulta a tomada de decisões racionais. Não há que ter medo, embora essa atitude nem sempre seja fácil. É natural o medo perante o desconhecido. A atitude contrária, de entusiasmo desregrado, também é contraproducente: há que avançar com a prudência necessária, pensando em todas as consequências dos nossos actos. É também natural que novas descobertas, por exemplo na medicina, nos impulsionem para a frente sem pensar o suficiente. Ora, no meio está a virtude.

A ciência é essencial, mas não basta. É preciso consciência colectiva

O segredo da boa comunicação de ciência está em usar duas das suas principais virtudes, que são o respeito pela verdade e a transparência. Podemos dizer que estes são princípios éticos da ciência e que estes devem ser também princípios éticos da comunicação da ciência. Quando se mente, ou quando se esconde uma parte, o resultado é sempre uma perda de confiança. E uma sociedade sem confiança é uma sociedade que não funciona.

O princípio da integridade deve presidir tanto à ciência como à comunicação da ciência.  Mas é sabido que vemos aqui e ali quebras desse princípio, vemos alguns, felizmente poucos, charlatães na ciência e vemos, infelizmente muitos, charlatães na comunicação de ciência… Por vezes não se comunica ciência, faz-se marketing para promover um produto ou uma ideia. Temos de aprender todos com os erros que estão à vista.

Leia também: “O diálogo entre a ciência e a sociedade é mediado pela ética”